Adoração dos Reis Magos, século XV (final)

Adoração dos Reis Magos, século XV (final)

Placa de alabastro proveniente da zona de Nottingham, em alto-relevo, representando a Adoração dos Reis Magos.
Os três magos transportam os presentes que vão oferecer ao Menino Jesus – ouro, incenso e mirra – dois deles estão em pé num segundo plano enquanto o terceiro, em primeiro plano, com o chapéu aos pés, ajoelha-se frente ao Menino que está sentado no colo da Virgem Maria. Por trás da Virgem, podem-se ver as cabeças da vaca e do burro.
Toda a placa estaria originalmente pintada, porém só se conservam vestígios dessa policromia nas vestes (azul e encarnado), nos cabelos e coroas (dourado), e no cabelo e rosto do Rei Baltasar (preto e castanho).

 

A Adoração dos Magos:


“ (…) E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o Menino, parou. Ao ver a estrela, sentiram grande alegria, e entrando na casa viram o Menino com Maria, Sua mãe. Prostrando-se, adoraram-n’O, e, abrindo os cofres, ofereceram-Lhe presentes: Ouro, incenso e mirra. (…) ”. 
Evangelho segundo São Mateus (2, 9-11)

 

A Adoração dos Magos só é mencionada no Evangelho de Mateus (2,1-12) e em alguns Evangelhos Apócrifos (de Tiago e Mateus e no Evangelho Árabe da Infância de Jesus).

 

Estes magos; Belchior, Gaspar e Baltasar seriam astrólogos vindos de Oriente (em nenhum texto se especifica que fossem reis) que, segundo alguns textos – e comummente aceite pela tradição -, teriam chegado poucos dias após o nascimento do Menino e, segundo outras fontes, após a circuncisão e a apresentação no Templo, o que explicaria a ordem de Herodes de matar todas as crianças até aos dois anos de idade.

 

Os “Sete Prazeres da Virgem Maria”:

Esta placa formava provavelmente parte de um conjunto maior, um retábulo, que seria composto por outras placas de características similares enquadradas por uma moldura de madeira trabalhada, sendo que todo o conjunto seria pintado e dourado.

 

Poderia tratar-se também de um retábulo destinado à devoção particular; numa época onde a difusão pelo Ocidente de Europa da moda dos oratórios particulares – potenciada pelo movimento da Devotio Moderna – estava em crescimento e estas placas, de pequeno tamanho, seriam fáceis de transportar sem grande perigo de fratura.
Sendo que o tema desta peça é a Adoração dos Reis Magos, é possível que o retábulo formasse parte de um Ciclo da Vida de Cristo ou da Vida de Maria, ou então, tal como outras peças de alabastro de Nottingham, dos Sete Prazeres da Virgem Maria. Conhecem-se alguns exemplos de retábulos com a temática das Alegrias da Virgem, mas nenhum em que se conservem todos os painéis.

 

Os Prazeres ou Alegrias de Maria (a Virgem dos Prazeres), enumerados por vez primeira por um noviço franciscano, são:

 

  • a Anunciação do Anjo,
  • a Saudação de Sta. Isabel;
  • o Nascimento de Jesus;
  • a Visita dos Reis Magos;
  • o Encontro com o Menino no Templo;
  • a Primeira aparição do Ressuscitado;
  • a Coroação no Céu.

 

São enumeradas também as Sete Penas da Virgem – Nossa Senhora das Dores – que são: as Profecias de Simeão sobre Jesus, a Fuga da Sagrada Família para Egipto, a Desaparição do Menino Jesus durante três dias, o Encontro de Maria e Jesus a caminho do Calvário, Maria observando o sofrimento e morte de Jesus na Cruz, Maria recebendo o corpo do filho tirado da Cruz e a deposição no Santo Sepulcro.

 

Os alabastros de Nottingham:


O alabastro é um mineral composto por sulfato de cálcio, normalmente branco e translúcido, podendo ser confundido com o mármore, de pouca dureza – mole na extração – o que o torna fácil de trabalhar, e com uma superfície apta para receber policromia e douradura.
A abundância de minas no centro de Inglaterra (Strafford, Nottingham, Derby e York), fez com que a produção escultórica em alabastro durante os séculos XIV e XV se concentrasse nesta zona, passando estas peças a serem conhecidas como “alabastros de Nottingham”. Os tipos produzidos incluíam esculturas em ‘ronde bosse’, decoração para túmulos, placas individuais e retábulos.
A produção era de tipo oficinal, porém as peças carecem de marcas ou assinaturas. Podiam ser realizadas por encomenda ou, mais comummente, de forma seriada, tal como revela a escolha de temas universais, a iconografia repetitiva e o tratamento simples da maior parte delas. Esta repetibilidade também estará relacionada com o facto de que desde muito cedo houve não só uma produção para o mercado interno, como também para a exportação para o resto da Europa – potenciada pela poderosa frota marítima inglesa – nomeadamente a partir do início do século XV.

 

No final do século XV, o esgotamento de algumas jazidas de alabastro, a saturação dos mercados que estavam agora mais virados para a Flandres e, principalmente, a crise religiosa iniciada por Henrique VIII – que gerou a Igreja Anglicana – que levou ao movimento iconoclasta (em 1550 foi ordenada a destruição de todas as imagens sagradas), levaram ao gradual desaparecimento desta produção.

 

A presença de numerosos alabastros ingleses em Portugal (à volta de 50 peças de alabastro de finais do século XIV e século XV), é explicada pelo facto de os dois países estarem ligados económica e politicamente (tratado de comércio com D. Dinis, tratado de Tagilde, tratado de Windsor) e pela aproximação ainda maior após o casamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre em 1387.

 

Porém, é ainda possível que alguns destes alabastros tenham chegado mais tarde, aquando da destruição das imagens religiosas, período durante o qual, muitas peças conseguiram ser salvas por meio da exportação.

 

Proveniência:

O historial desta peça é desconhecido, sabendo-se unicamente que já formava parte da coleção Medeiros e Almeida em Dezembro de 1945, já que no dia 12 desse mês, tanto esta como a outra peça de alabastro da coleção, foram mandadas restaurar em Lisboa.

 

Samantha Coleman Aller
Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Bibliografia:
ANDRADE, Sérgio Guimarães de, Alabastros Medievais Ingleses – Coleção do MNAA, Lisboa, 1977

FEYO, Salvador Barata, A coleção de esculturas de Nottingham do Museu Nacional de Arte Antiga, in: Boletim MNAA, 1962, Lisboa, vol. I nº2

BODKIN, Thomas, Mediaeval English Alabaster work in Portugal, Separata do Boletim do MNAA, Fascículo II, vol. I, 1947, Lisboa

CHEETHAM, Francis W., Medieval English Alabaster Carvings in the Castle Museum Nottingham, The City of Nottingham, Art Gallery and Museums Committee, 1962

CHEETHAM, Francis W., Portugal e os alabastros medievais ingleses, Conferência proferida no MNAA, Lisboa 1981

COUTO, João, Alabastros de Nottingham, Separata de Arqueologia e História, 8º série, Vol. XII, Ass. Arqueólogos Portugueses, 1966

DIAS, Pedro, Alabastros medievais Ingleses em Portugal – subsídios para a sua inventariação e estudo-região das Beiras, Separata de Biblos, LV, Coimbra

MARKL, Dagoberto, Três Painéis de Alabastro de Nottingham do MNAA – A iconografia das ‘ST. John’s Heads’, Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo, nº46/47, IV série, Lisboa, 1973

RAMSEY, Nigel, Os alabastros ingleses na Europa, História Artística da Europa – A Idade Média, Tomo II, Lisboa, Quetzal Editores, 1998

 

Dissertação de Mestrado:

MESQUITA, Sílvia Monteiro de Sousa; Alabastros Medievais Ingleses nos Museus de Portugal. Universidade Lusíada, Departamento de História da Arte, Lisboa, maio 2000

 

Catálogos de exposições:

Documentação da exposição “Alabastros Medievais Ingleses – Museu do Mosteiro de Santa Maria da Vitória (Batalha)”, Junho de 1981

Catálogo da exposição “Alabastros Medievais Ingleses – coleção do MNAA”, Março 1977

HOPE, W.H.Sr. John, On the early working of alabaster in England, English Medieval Alabaster Work, Londres, Society of Antiques, 1910

Artista

Autor Desconhecido

Ano

Séc. XV (final)

País

Inglaterra, Nothingham

Materiais

Alabastro e policromia

Dimensões

Alt. 40cm. x Larg. 32cm.

Categoria
Escultura Inglesa