Amédée Berny d’Ouville, 1830

Amédée Berny d’Ouville, 1830

A Pintura Romântica


O movimento romântico do século XIX surgido por oposição ao neoclassicismo, caracteriza-se pela novidade, a individualidade e a valorização da emoção, da paixão e do fantástico. Sinal de novos tempos, opõe-se deliberadamente à postura rigorosa da produção académica na sua atenção ao desenho, aos contornos e às regras técnicas e na sobrevalorização dos géneros chamados ‘maiores’. 
O romantismo é uma atitude de vida baseada na sensibilidade e no questionamento, plasmada em certas características formais como o recurso a temáticas alternativas, o uso da cor apoiado não em critérios de verismo mas na sua estrutura, a exploração das relações cromáticas, a prática divisionista da pincelada que desconstrói o racionalismo da pintura tradicional, bem como uma menor atenção aos pormenores e acabamentos.

 

Delacroix Romântico

Ferdinand-Victor Eugène Delacroix (Charenton-Saint-Maurice, 1798 – Paris, 1863) é tido como um dos primeiros pintores românticos. Apesar de ter tido lições de pintura, Delacroix é um autodidata sendo a sua maior escola o estudo do trabalho dos outros que, por exemplo, visitava no Louvre. Apresentou-se no Salão de 1822 com a ”Barca de Dante”, tendo assim iniciado uma longa e brilhante carreira, pautada pela diversidade de géneros e técnicas. 
Quanto à personalidade pictórica, Delacroix abordou temáticas novas e dedicou-se a uma pesquisa que estava secundarizada; a via da cor, para tal, distanciou-se das investigações do desenho, o que lhe foi possível por um conhecimento profundo da história da pintura, tornando-se um estudioso das cores e das suas relações a partir do estudo rigoroso da literatura coeva como os trabalhos do químico Chevreul (1838) ou o tratado de J.Burnet (“Notes Pratiques sur  l’emploi de la couleur en peinture”, 1827). Nesta vertente, o artista destaca-se dos seus contemporâneos; o epíteto que mais identifica Delacroix é o de um artista moderno.

 

Delacroix Retratista

Sobre Delacroix retratista não se escreveu senão de passagem, apesar de o artista ter produzido cerca de sessenta bons retratos, entre eles alguns autorretratos, e de gostar do género já que escreveu que era ‘estúpida’ a ideia de que o retrato era um género de segunda. 
Conforme registado várias vezes no seu Journal (diário), a viagem que empreendeu a Londres em 1825, influenciou-o pelo uso da cor, pela espontaneidade da aguarela (Constable e Turner) e pelo trabalho dos retratistas ingleses como Reynolds, Hoppner, Raeburn e Lawrence, que viriam a ser decisivos para a sua formação no que diz respeito à sua vertente colorista e à sua faceta (pouco valorizada) de retratista.

 

Todos os seus retratos são de meio corpo e a maioria não apresenta fundo – como o da Casa-Museu – sendo esta tipologia largamente utilizada pelos seus contemporâneos atrás referidos. Como retratista e apesar de estar condicionado pelo carácter de verismo que a encomenda de um retrato supõe, Delacroix preocupou-se em transmitir, através de poucos meios e no seu característico “inacabamento” e ausência de pormenores, o carácter psicológico dos retratados centrando-se nos rostos que detêm grande expressividade.

 

A Encomenda, o retratado

Em 1824, Prosper Goubaux (1795-1859), amigo e antigo colega de liceu de Eugène Delacroix, diretor e cofundador (em 1820) do Instituto Saint-Victor, um colégio de rapazes em Paris, encomenda ao pintor, pela quantia de 100fr. cada, uma série de retratos dos alunos laureados no Concours Général de cada ano da sua instituição.

 

A série viria a ser produzida ao longo de dez anos (1824-1834) e as obras ficaram conhecidas como os retratos da “Pension Goubaux”.  Os retratos destinavam-se a decorar o salão de receção da instituição localizada (ainda hoje) no Boulevard des Batignolles em Paris. Dos dez, só é conhecida presentemente a localização de seis, em instituições museológicas e coleções privadas em todo o mundo (para além de Amédée):

 

 

O retrato da Casa-Museu, datado de 1830, representa Amédée Berny d’Ouville (1816-1854), aluno que ganhou o prémio de Latim desse ano. De Amédée sabe-se que foi o segundo dos seis filhos de Charles Berny d’Ouville, pintor e miniaturista francês com alguma visibilidade. Eugène, o filho mais velho, seguiu a passada artística paterna, mas Amédée tornou-se um homem de negócios. Em 1854 instalou-se com a família em Nova Orleães efetuando diversas viagens profissionais à Europa. Em 1854 o regresso a casa acabou em tragédia quando o seu navio (o ‘Arctic’) foi abalroado e se afundou matando todos os passageiros.

 

Reportando-se à série dos retratos Goubaux, Roubaut, autor do primeiro catálogo raisonné de Delacroix (1885), afirma que a sinceridade de Delacroix tem a candura de um debutante. Conta-se um episódio que se terá passado com o irmão do retratado, Eugène d’Ouville (também ele um dos retratados), que, ao ver o quadro do irmão uns anos após a sua morte, terá exclamado: “É mesmo o meu irmão! Ele tinha mesmo esta cara de fuinha… » o que suscita o comentário de Roubaut: “…Tal é o mérito particular dos retratos pintados por Delacroix. Não se deve procurar a semelhança fotográfica, mas o que estamos sempre certos de encontrar é a exatitude absoluta e caraterística do tipo…” (ROUBAUT: 1885, p.92)

 

A Obra – Análise Formal


Pintura a óleo sobre tela, de formato oval, representando, ao centro da tela, um jovem rapaz (catorze anos), retratado a meio corpo e posando a três quartos. O jovem de olhos acinzentados, cabelo castanho e testa alta, veste sobrecasaca castanha com grande gola e lapela triangular, aberta, camisa branca de golas engomadas e levantadas, colete amarelo, abotoado e gravata-lenço de seda cor-de-rosa, atada com nó.

 

A paleta de cores utilizada é romântica, sendo as cores responsáveis pela modelação do personagem. Trata-se de cores puras e intensas que se complementam como o castanho da casaca com o amarelo do colete, o rosa da gravata a que se apõe uma camada de branco com os tons acastanhados do fundo e que se correspondem e avivam mutuamente, valorizando o conjunto ou ainda nas diferentes tonalidades das madeixas do cabelo, num jogo colorista que Delacroix domina. A pincelada já tem algo de divisionista, notando-se na gravata-lenço e na lapela o sulco do pincel, a fluidez da camada cromática, numa sensação de inacabamento que virá a ser explorada no impressionismo.

 

O fundo revela liberdade compositiva pois é neutro, vivendo de variações da paleta de castanhos – do castanho escuro ao avermelhado e ao dourado –  e da delimitação em torno do personagem em tons mais claros, o que empresta uma evidente luminosidade e destaque à cabeça, trazendo protagonismo ao retratado. O jogo de sombras e luz (não tanto de claro-escuro que Delacroix considera ser um recurso académico) que anima a composição, faz-se tanto pela posição do retratado que, avançando o braço direito, provoca sombra da lapela da casaca no colete, do colete na gravata e da camisa no queixo e escurece a zona do braço esquerdo, como pela posição da cabeça, que virando-se para o espectador a três quartos, deixa parcialmente escondida e na sombra a face esquerda.

 

Veja-se, por comparação, um retrato da mesma época, produzido segundo os cânones académicos, pelo pintor oficial da Academia; Ingres. O retrato de Monsieur Bertin (1832 – M. Louvre) segue a mesma tipologia; um retrato de homem sem fundo mas as comparações esgotam-se aqui; o desenho de extrema qualidade bem como a quase ausência de cor e o dramatismo do claro-escuro, a imensidade de pormenores – quase ausentes em Amédée – elucidam os lugares diferentes (opostos) que os dois artistas ocupam.

 

A Obra – Análise Iconográfica

Esta obra não apresenta carga iconográfica ou simbólica, senão no sentido em que se apresenta ao espectador um jovem do seu tempo, moderno e pertencente a uma classe alta, imediatamente identificado pelo vestuário de qualidade e corte de cabelo contemporâneos.

 

Este jovem moderno é o que viria ser descrito por Charles Baudelaire no ensaio “O Pintor da vida moderna” (1863); Amédée, um jovem de boas famílias, de bonitas e perfeitas feições, orgulhoso aluno de uma instituição privada e ganhador do “Concours Général”, é facilmente reconhecido como tal, pela altivez do olhar, pose orgulhosa e porte de alguém consciente da sua posição. Para além da expressividade do rosto e linguagem corporal, Amédée transmite os valores da sua época – uma época de mudanças sociais e políticas –  pelo modo impecável como enverga o vestuário “à moda”; o casaco de três quartos (“redingote”) é  usado aberto com a gola levantada atrás, as golas da camisa levantadas que ornamentam o rosto e escondem o pescoço lançando o queixo para cima, o laço alto da gravata de seda e o modo como usa o penteado da moda, com o cabelo penteado para trás e as grandes patilhas penteadas para a frente chegando aos olhos e ornando a fronte, descrevem ao espectador um homem moderno, do seu tempo.

 

O Retrato Romântico

Sendo o romantismo, acima de tudo, um estado de espírito, tipificar um retrato romântico torna-se difícil pois, condicionado pela encomenda, o artista tem menos campo para a expressão dos seus sentimentos, do seu estado de alma. 
Para descrever as grandes obras de Delacroix de temática histórica, mitológica ou contemporânea enquanto obras românticas, fala-se primeiro em atitudes e emoções (em liberdade do artista) e depois em técnicas e meios, no retrato, não havendo abordagem da temática em si, a análise deverá ser conduzida no sentido do tratamento plástico e pictórico do retratado, apoiando-se numa descrição formal em que se apontam as características técnicas a que a vertente romântica recorre e da interpretação, mais subjetiva, da capacidade de captação na tela do carácter dos retratados; dos seus traços psicológicos, pelo que deverão ser analisados pormenores como a pose e o olhar que conduzem o observador a leituras, por exemplo, como a identificação de um orgulhoso jovem como Amédée.  Será porventura a capacidade de transmissão dos traços psicológicos a vertente que melhor poderá caracterizar um retrato romântico? Parece redutor. A questão fica, pois, em aberto – O retrato de Amédée Berny d’Ouville mais que um retrato romântico é um retrato feito por um romântico.

 

Proveniência:

Encomenda ao artista de Prosper Goubaux, diretor da Institution Saint-Victor (Liceu Chaptal), 45, Blv des Batignolles, Paris
Coleção do patrono das artes e colecionador Gustave Arosa (1830-?), Paris
Leilão Arosa, 17-18 de dezembro de 1895, lote 16, adquirido por Durand-Ruel para E. Degas
Coleção do pintor Edgar Degas (a coleção de Degas foi leiloada depois da sua morte)
Leilão Degas, 26 e 27 de março, 15 e 16 novembro, 1918 
(Nota: O pintor Edgar Degas reuniu uma grande coleção de pinturas dos seus contemporâneos, após a sua morte em Dezembro de 1917, a sua coleção foi leiloada em 1918, após inventário feito pelos antiquários franceses Joseph Durand-Ruel e Ambroise Vollard, onde constava este retrato.) 
Colecção Dr. Georges Viau, Paris – Adquirido no 1º leilão Degas, 1918, lote 28, por 5.000 Francos Leilão Viau-Bellier, Ader et Baudoin, Paris, 1942, adquirido por Jacob Goldsmith (1884 Cernovitz-1943 Lublin), Berlim
Colecção de J. Goldschmidt, Matthieukirschestrasse, Berlim
Adquirido por Medeiros e Almeida em leilão da Sotheby´s, Londres, de 28 de novembro de 1956, lote 123, por £ 8.000, através de William Drown, 110 New Bond Street, Londres

 

Exposições:

  • 
Exposição “Delacroix, Centenário do Romantismo”, Louvre, junho-julho 1930
  • 
Exposição “Masterpieces of Art”, World’s Fair, Nova Iorque, nº 245, 1940
  • Exposição “Eugène Delacroix”, Wildenstein Gallery, Nova Iorque, nº 5, 1944
  • Exposição “Delacroix, An exhibition of paintings, drawings and lithographs”, Arts Council de Edimburgo e Londres, 1964
  • Exposição “The Private Collection of Edgar Degas”, The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque, outubro de 1997 a Janeiro de 1998

 

Maria de Lima Mayer
Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Referências Bibliográficas:


BAUDELAIRE, Charles; posfácio e trad. CRUZ, Teresa; O Pintor da Vida Moderna, Lisboa: Editora Vega,1993
BAUDELAIRE, Charles; GAUTIER, Théophile; L’Art Romantique, Paris: Calmann Lévy Éditeur, 1900
CLARK, Kenneth Mackenzie; The Romantic Rebellion: Romantic versus Classic Art, London: John Murray, 1976
DELACROIX, Eugène; Écrits d’ Eugène Delacroix: Extracts du Journal, des Lettres et des Oeuvres Littéraires, Paris: Plon, 1942
DELACROIX, Eugène; GUERREIRO, Fernando (trad.); Diários (extractos), Lisboa: Editorial Estampa, 1979
DUMUR, Guy; Delacroix, Romantique Français, Paris: Mercure de France, 1973
ESCHOLIER, Raymond; Eug. Delacroix, Paris: Éditions Cercle D’Art, 1963
FRASCINA, Francis, Modernity and Modernism: French Painting in the Nineteenth Century, New Haven London: Yale University Press, 1993
JOHNSON, Lee; The Paintings of Eugène Delacroix: A Critical Catalogue, Oxford: Clarendon Press, 1981-2002
LE BRIS, Michel; Journal du Romantisme, Genève: Skira, 1981
ROUBAUT, Alfred (ed. lit.); CALMETTES; Fernand; CHESNEAU, Ernest; L’Oeuvre Complet d’Eugène Delacroix: Peintures, Dessins, Gravures, Litographies, Paris: Charavay Frères, 1885
SÉRULLAZ, Maurice; Delacroix, Paris: Fayard, 1989

 

Publicações Periódicas:


AAVV; O Retrato, Revista de História da Arte, Instituto de História da Arte, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – UNL, nº5, Lisboa: Instituto de História da Arte, 2008

POLTIMORE, Mark; BOWLES, Angela Linsday; AAVV, Delacroix and the Goubaux Portraits, Christie’s International Magazine, Vol. XIII, Nº 9, London: Christie, Manson and Woods Ltd., novembro 1996

 

Catálogos de Exposições:


AAVV; A Arte do Retrato. Quotidiano e Circunstância, GIL, José; “O Retrato”, SILVA, Raquel Henriques, “O Retrato em meados do século XIX”, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1999
EITNER, Lorenz; Delacroix, An exhibition of paintings, drawings and lithographs, Arts Council of Great Britain and The Edinburgh Festival Society, Londres: The Arts Council, 1964
DUMAS Ann; IVES, Colta; STEIN, Susan Alyson; TINTEROW, Gary; AAVV, The Private Collection of Edgar Degas, New York: The Metropolitan Museum of Art, 1997
NOON, Patrick; Constable to Delacroix, British Art and the French Romantics, London: Tate Publishing, 2003

Artista

Eugène Delacroix (1798-1863)

Ano

1830

País

França, Paris

Materiais

Óleo sobre tela

Dimensões

Alt. 62cm. X Larg. 50cm.

Assinado e datado

Assinada e datada em baixo, à direita: “Eug. Delacroix, 1830”

Categoria
Pintura Francesa