Anna Ruysch, Destaque Fevereiro de 2017

Anna Ruysch, Destaque Fevereiro de 2017

Natureza morta com flores – FMA 465

Natureza morta – stilleven (palavra holandesa da qual deriva a palavra inglesa “still life”) – de fundo escuro, representando uma jarra com flores assente sobre uma placa de mármore. O arranjo é composto por sete variedade de flores (cravo, bola de neve – viburnum opulus roseum -, rosa Centifólia e rosa Damascena Alba, corriola – convolvulus spp –, tulipa “Semper Augustus” e papoila “Dutch Flag”), botões e folhagem. A ladear a jarra de cristal, bojuda e de pé alto, com perlado na base, surgem duas peças de fruta (pêssegos?) à esquerda e um cacho de uvas brancas à direita, bem como um pano de veludo com franjas, assente sobre o mármore. Sobre a tulipa e a bola de neve estão pousadas duas borboletas da mesma espécie conhecida como “bela-dama” ou “vanessa dos cardos” – vanessa cardui.

 

Natureza morta com flores – FMA 466


Natureza morta representando uma jarra com flores sobressaindo de fundo escuro, assente sobre um suporte de mármore. A jarra de vidro (cristal) transparente, bojuda, com perlado na base e pé alto, reflete a janela do estúdio da artista, ao lado direito, sobre o mármore, pousam-se duas peças de fruta (romãs?) e um cacho de uvas. Flores de seis espécies diferentes (cravos brancos – dianthus caryophyllus -, “cravo-de-defunto” laranja – Tagete patula -, rosas Centifolia ou “rosa de maio”, tulipas “Semper Augustus”) compõem o arranjo bem como folhagem, botões, cardos e três borboletas de espécies diferentes: borboleta “pavão – Inachis io -, borboleta “pequena-da-couve” – Pieris rapae – e borboleta “vanessa dos cardos”.

 

A natureza morta
A natureza morta é um género de pintura surgida no início do século XVII que representa com rigor e realismo, objetos inanimados, maioritariamente do mundo natural como flores, plantas, animais mortos, insetos e conchas, objetos utilitários como pratos, travessas, talheres, copos e jarras, ou ainda joias, livros, moedas e comida. Este tipo de pintura pormenorizada desenvolveu-se na senda da introdução da pintura a óleo no norte da Europa no século XV, o que permitiu uma versatilidade aos artistas, como uma técnica mais lenta (os óleos secam mais lentamente), potenciando maior atenção ao detalhe.

 

Este género encerra em si duas vertentes simbólicas; de um lado um grande simbolismo de pendor religioso patente na evocação da perecibilidade dos elementos representados que, por sua vez, alude à inevitabilidade da morte, lembrando a pequenez do Homem versus a grandeza de Deus. Este tipo de pintura funcionava, portanto como um “memento mori” (do latim: lembre-se da morte), na tradição da pintura conhecida como Vanitas (do latim: vaidade) na qual se representavam caveiras e objetos do quotidiano evocando o inevitável ciclo da vida, a futilidade das coisas terrenas e a necessidade de estar moralmente preparado para o encontro com Cristo.

 

Por outro lado, a introdução da observação do real, do olhar atento sobre as coisas do quotidiano, ou seja, da vida como temática na pintura, simboliza uma nova mentalidade formada nesta jovem nação Holandesa, que se iria tornar uma potência naval e económica, feita pelas mãos de uma classe de comerciantes que se tornaria numa abastada burguesia, que se enche de orgulho de si e do seu país, libertado do invasor, governado pelo povo e conquistado ao mar. As artes plásticas refletiram essa evolução com a introdução da pintura de paisagem (campo, praia, dunas, cenas de aldeia), natureza morta e de género numa tradução do seu mundo; foi a chamada “época de ouro da pintura holandesa”. De notar que tanto na Flandres católica como no sul da Europa, este género era considerado como de segunda categoria em relação à pintura de história ou religiosa.

 

À falta de encomendantes como a nobreza e a Igreja, todo o sistema de produção artística também mudou; os artistas serviam agora a burguesia endinheirada que decorava as suas casas com este tipo de obras, de uma escala caseira, vendidas na rua e em lojas em grandes quantidades e a preços relativamente altos (a pintura de paisagem valia entre 500 e 1500 Florins, por comparação, Rembrandt vendia os seus quadros por não mais de 500 Florins).

A pintura de flores

Um dos subgéneros da natureza morta é a pintura de flores. Nesta classe, em que se representam maioritariamente arranjos de flores em jarra com pouco mais referências para além de frutos e insetos, permite ao artista uma grande liberdade compositiva. Tal como as outras naturezas mortas, a pintura de flores também aliava à simples fruição estética e imortalização da beleza, todo um elaborado código simbólico que evocava a transitoriedade da vida traduzida na representação de flores, ora pujantes de vida e beleza ora a murchar, na perecibilidade dos frutos e no ciclo de vida dos insetos. Estas evocações cruzam-se com o simbolismo do sagrado ao cantar as belezas da Criação, ao aludir à Ressurreição de Cristo e à Salvação do Homem mas também com o terreno, na tradução do orgulho da pátria Holandesa, de um país e uma sociedade prósperos; a Holanda era livre, o povo amava a sua terra profundamente vendo no registo que a pintura de cavalete proporcionava a tradução da sua realidade, de um sentimento agradável: era o triunfo da pintura de flores, de paisagem e de género.

 

Provenientes da dinâmica política comercial holandesa, quase duzentas espécies de flores de diferentes países foram introduzidas na Holanda ao longo do século XVII, despoletando o interesse geral. As flores eram apreciadas pelo seu exotismo, beleza, cores, variedades e cheiro, para além do interesse científico que despertaram em áreas como a botânica, a medicina ou a jardinagem que conheceu grande desenvolvimento nesta época enquanto uma arte; para além dos primeiros tratados de jardinagem, surge a palavra holandesa landschap que deu origem ao termo inglês landscape. Tanto as flores como a pintura de flores que imortaliza estes tesouros, tornaram-se uma verdadeira paixão na Holanda do século XVII.

 

Entre as flores chegadas de longe, destaca-se a tulipa, proveniente do Império Otomano, que chega à Europa, logo desde 1570. O interesse nesta flor proveniente das montanhas que se deu muito bem com as difíceis condições climatéricas e os campos baixos holandeses, atravessou a ciência e a arte bem como o comércio, dando origem a um período que ficou conhecido como “tulipomania”. Nesta época (1630-1637), a transação de tulipas e dos seus bolbos, vistos enquanto elementos de luxo e de status, atingiu valores exorbitantes, provocando, o que se considera ser a primeira bolha especulativa da história.

A tulipa mais cara e ambicionada de todas era a “Semper Augustus” que atingiu, no pico do interesse (1635-37), valores na casa dos 5.000 Florins. Esta tulipa, de folhas brancas raiadas de vermelho sangue (as duas cores eram provocadas por um vírus que enfraquecia a flor), aparece representada nas duas pinturas da Casa-Museu.

 

Poucas são as variedades de tulipas que sobreviveram aos cruzamentos feitos e vírus contraídos no século XVII, chegando até aos nossos tempos (ex: Somerschoon).
Como instrumento de venda, os produtores de tulipas e comerciantes encomendavam a artistas livros de aguarelas que ilustravam com detalhe as diferentes espécies de tulipas e que incluíam o preço e peso de cada espécie. Veja duas tulipas por Simon P. Verelst, c.1770: http://collections.vam.ac.uk/item/O87430/two-tulips-watercolour-unknown/. Obras como o “Brandemandus tulipenboek” (Stedelijk Museum he Prinsenhof, Delft) ou o “Tulipenboek” de Pieter Cos., de 1637 (Wageningen Universiteit en Researchcentrum – http://www.wur.nl/en/Expertise-Services/Facilities/Library/Special-Collections/Books-journals/Tulip-book.htm), serviam também como instrumento de catalogação das diferentes espécies bem como para inspirar os pintores de flores. No livro de Cos, a tulipa mais cara é a Viseroij (Vice rei – raiada a magenta), registada com o preço de 4.000 Florins Holandeses, cerca de 15 a 20 vezes o salário anual de um bom artesão.

A autora


Anna Ruysch foi uma pintora de flores que trabalhou entre o final do século XVII e a primeira metade do século XVIII, sendo o seu trabalho totalmente influenciado pelas caraterísticas estilísticas que marcaram o período áureo da pintura holandesa seiscentista, caraterizado pela vertente do realismo nórdico.

 

Anna Elisabeth Ruysch era filha do botânico e anatomista holandês Frederik Ruysch e da sua mulher Maria Post (1643-1720) e irmã mais nova da pintora Rachel Ruysch (1664-1750). Durante a infância de Anna, a família muda-se de Haia para Amesterdão onde o pai irá lecionar anatomia na escola médica, Frederik também pintor amador, expõe naturezas mortas de cariz anatómico onde se representam com minúcia científica insetos, flores e plantas, motivos que se tornariam presentes na pintura das filhas desde a sua juventude. Entre 1679 e 1683, Rachel é aprendiz do pintor Willem van Aelst (1627-1683), especializado em naturezas mortas com flores, assumindo-se que a irmã mais nova tenha seguido o mesmo caminho já que o seu trabalho – assim como o da irmã – tem afinidades estilísticas com o do mestre.

 

Rachel é a pintora de naturezas mortas mais admirada, prolífera e bem documentada da Idade de Ouro holandesa tardia. Apesar de mulher num meio profissional maioritariamente masculino e mãe de dez filhos, atingiu grande reconhecimento entre os seus pares, tendo sido aceite como membro em diversas confrarias e guildas de pintores (algo inusitado à época), tendo sido convidada para ser pintora oficial da corte de Johann Wilhelm, Eleitor Palatino de Düsseldorf, onde viveu com o marido, o retratista Jurrian Pool, até à morte do príncipe (1716). A família Ruysch vivia no Bloemgracht (do holandês: canal das flores), nesse mesmo canal vivia também um outro aluno de Willem van Aelst especialista em naturezas mortas: Ernst Stuven (1657-1712).

 

Anna parou de pintar quando casou com o comerciante de pintura Isaak Hellenbroek (1664-1749) porém, após a morte do marido, retomou a pintura e, com o filho Frederik Henry, deu continuidade ao negócio vendendo inclusivamente trabalhos do seu Pai e da irmã. Anna morreu aos 88 anos em Amsterdão.

Apesar do trabalho das duas irmãs ser muito parecido, ao contrário da irmã, Anna que não trabalhava com intuito comercial, raramente assinava os seus trabalhos, pelo que apenas um pequeno número de pinturas, pode, com certeza, ser atribuído a ela (cerca de dez obras assinadas). Ultimamente têm surgido estudos académicos que ajudam a estabelecer as atribuições, clarificando as diferenças entre o trabalho de Rachel e Anna, muitas vezes confundido. O trabalho das irmãs é representativo deste género, no qual encontramos o maior número de mulheres artista cujos nomes chegaram aos nossos dias.

 

Seguidora do movimento rococó, Anna faz composições de arranjos de flores caraterizados pelo uso cuidado da cor (caraterístico do último quartel do século XVII), pela representação de cariz realista e de grande atenção ao detalhe, num gosto pela natureza e pela curiosidade científica que lhe foram transmitidas pelo pai. Sobre fundo escuro que intensifica as cores e acrescenta um cariz dramático ao conjunto, como era hábito nas naturezas mortas deste período, surgem composições que preenchem a tela, assimétricas, com flores caídas para todos os lados, dispostas em equilíbrios por vezes impossíveis, mas que transmitem dinamismo. As diferentes espécies de flores, tanto abertas como em botão ou já mesmo apresentando sinais de degradação convivem na tela, mas dificilmente conviveriam na natureza, já que florescem em alturas diferentes do ano. Diversos frutos e pequenos insetos pintados com grande realismo, povoam as composições de Anna que distribui uvas, pêssegos e ameixas bem como borboletas, minhocas, caracóis, moscas e salamandras pelas suas pinturas, numa nota caraterística dos Ruysch.

 

Anna e Rachel são contemporâneas de outros grandes nomes da natureza morta floral como Jan van Huysum, Abraham Mignon, Jan Davidsz de Heem e Simon Verelst, sendo que estes dois últimos estão representados com naturezas mortas na coleção da Casa-Museu (ambas as pinturas tiveram a atribuição certificada pelo Dr. Fred Meijer). 
Conheça outras obras de Anna Ruysch: https://rkd.nl/nl/explore/images#filters[kunstenaar]=Ruysch%2C+Anna

 

A atribuição


De acordo com a atribuição do antiquário que vendeu as obras a Medeiros e Almeida, as duas pinturas da Casa-Museu estavam atribuídas ao pintor holandês Jan van Huysum (1682-1749) um pintor de flores dos mais importantes deste género, contemporâneo das irmãs Ruysch. 
A atribuição a Anna Ruysch foi recentemente (jun/2016) feita pelo especialista holandês em natureza morta floral, Dr. Fred G. Meijer, investigador do RKD, o Instituto Holandês de História da Arte (Netherlands Institute for Art History) que, estudando uma outra pintura pertencente ao espólio da Casa-Museu, solicitou informação sobre as restantes naturezas mortas com flores da coleção.

 

Em relação a estas duas obras, o referido especialista emitiu a seguinte opinião: “… the pair called Jan van Huysum can in my view be attributed to Anna Ruysch (1666-1741) the younger sister of Rachel Ruysch. I have sent the photos to my friend and colleague Marianne Berardi in Cleveland, who wrote a dissertation on Rachel Ruysch’s early work and we have both done research on Anna. She just wrote back saying that she fully agrees that your pair is in all likelihood by Anna Ruysch. They probably date from c. 1685-1690.

 

Two tulips in the second one are the same as in another painting we attributed to Anna: https://rkd.nl/explore/images/31002 and which actually derive from an example by Willem van Aelst, who supposedly taught both sisters. Closely related is also https://rkd.nl/explore/images/6167 , as well as this signed example: https://rkd.nl/explore/images/194147.

 

“
Tradução: “…O par atribuído a Jan van Huysum, pode, a meu ver, ser atribuído a Anna Ruysh (1666-1741), a irmã mais nova de Rachel Ruysch. Enviei as imagens à minha amiga e colega Marianne Berardi, em Cleveland, cuja dissertação aborda o trabalho inicial de Rachel Ruysch, tendo feito, e eu também, investigação sobre a Anna. Ela acaba de me responder que concorda plenamente que o vosso par é em tudo semelhante ao trabalho de Anna Ruysch. Datam provavelmente de entre 1685-1690.
Duas tulipas na segunda pintura são as mesmas de outra pintura que atribuímos a Anna (…) e que derivam de um exemplo de Willem van Aelst, que supostamente ensinou as duas irmãs. Também relacionada é esta pintura (…) bem como este exemplo assinado (…).”

 

A datação das obras sugerida pelos especialistas situa as pinturas na juventude de Anna já que as terá pintado ainda no final do século XVII, com cerca de 19-23 anos.

 

Proveniência
As duas pinturas pertenceram à coleção de José Gaspar da Graça (Braga, 1815 – Porto 1887), Porto
O par foi adquirido por Medeiros e Almeida em leilão da casa leiloeira Leiria e Nascimento (292, R. do Ouro, Lisboa), de 16 de Novembro de 1946, lote 231, por 30.000$00.
José Gaspar da Graça foi um abastado comerciante da cidade do Porto, irmão da ordem de S. Francisco testamenteiro e herdeiro do Conde de Ferreira. Homem de avultada fortuna, era considerado por muitos “o senhorio do Porto” pois possuía numerosos prédios de rendimento, bens e quintas na Maia e em Arouca comprados ao Barão de Magalhães. Dedicando-se de início ao comércio de artigos de papelaria, Gaspar da Graça que tinha origens muito humildes, conseguiu reunir uma enorme fortuna, devido ao comércio de madeiras com Inglaterra (por barco). Na narrativa popular, que dificilmente entendia o sucesso e inteligência natural para os negócios de José Gaspar da Graça, atribuía-se a sua fortuna ao contrabando, tendo sido criado o mito que existiam túneis que ligavam as suas propriedades à ribeira do Porto.

 

Em maio de 1947, as obras sofreram intervenções de restauro pela Oficina Nacional de Beneficiação da Pintura Antiga, Escola de Belas Artes, Lisboa, cujo diretor era o Mestre-Restaurador Fernando Mardel Araújo (1884-1960).

 

Nota: A Casa-Museu agradece a colaboração do investigador Dr. Fred G. Meijer do Instituto Holandês de História da Arte, RKD.

 

Maria de Lima Mayer

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Bibliografia

AA.VV.; Painting in the Dutch Golden Age – A Profile of the Seventeenth Century, A Resource for Teachers, National Gallery of Art, Washington, 2007

GROOTENBOER, Hanneke; The rhetoric of perspective: realism and illusionism in seventeenth-century dutch still-life painting, Chicago; London: University of Chicago Press, 2005

SKIRA, Pierre; La nature morte, Genève: Skira, 1989

VILAÇA, Teresa, ALMEIDA, João; Realidade e Capricho A pintura flamenga e holandesa da Fundação Medeiros e Almeida, Lisboa: Fundação Medeiros e Almeida, 2008

WOLDBYE Vibeke [ed.]; Flowers into art: floral motifs in European painting and decorative arts, translation: David Hohnen, The Hague: SDU Publishers, 1991

Revista “artes e leilões” janeiro 2009

 

Webgrafia

HOCHSTRASSER, Julie Berger; Still life and trade: in the dutch golden age, Julie Berger Hochstrasser, 2007 – https://www.brown.edu/academics/renaissance-early-modern-studies/sites/brown.edu.academics.renaissance-early-modern-studies/files/uploads/Hochstrasser,%20Still%20Life%20and%20Trade%20(12-11-13).pdf


Online Dictionary of Dutch Women
Rijksmuseum – https://www.rijksmuseum.nl/en/rijksstudio/works-of-art/still-lifes


RKD – Netherlands Institute for Art History – https://rkd.nl/nl/

Artista

Anna Ruysch  (Haia, 1666 - Amesterdão, 1754)

Ano

1685-1690

País

Holanda, Amesterdão

Materiais


Óleo(s) sobre tela

Dimensões

Alt. 54cm x Larg. 45 cm / Alt. 54cm x Larg. 45 cm

Categoria
Destaque