“Árvore da Vida”, Destaque Fevereiro de 2015

“Árvore da Vida”, Destaque Fevereiro de 2015

Obra escultórica de origem indo-portuguesa, em madeira entalhada e vazada, representando quatro cenas do ciclo de Adão e Eva – Criação de Adão, Criação de Eva, a Tentação e a Expulsão do Paraíso – com leitura de direita para esquerda. A peça está totalmente dourada salvo os corpos dos diferentes personagens que foram deixados na cor da madeira, o que proporciona um contraste que facilita a leitura do conjunto.

 

A arte indo-portuguesa
O termo indo-português em relação às artes foi provavelmente usado por vez primeira por John Charles Robinson, na altura conselheiro do Kensington Museum Sul (futuro Victoria and Albert), na introdução do catálogo feito por motivo da exposição de arte ornamental espanhola e portuguesa que decorreu em Londres em 1881. Ao longo do tempo, a aceção dada a este termo foi sendo matizada, mas de forma geral refere-se à produção artística realizada no âmbito das relações entre Portugal e a India, nomeadamente entre os séculos XVI e XVIII.

 

Já em inícios do século XVI, os portugueses estabelecem em terras indianas, em Goa, a sua capital para o império do Oriente, império este que se estendia desde a costa oriental de África até a China e ao Japão, transformando-se a cidade num importante centro de comércio e recebendo influências muito diversas. Será neste contexto de miscigenação cultural que se desenvolve a arte indo-portuguesa, caracterizada pela contaminação de formas, motivos e simbologias.

 

Ao falar de arte indo-portuguesa, é de fundamental importância o papel da implantação da Igreja Católica na Índia, sendo que a arte era um veículo privilegiado para a evangelização, servindo de ponte entre culturas muito distantes. A chegada de diversos objetos de culto e outros bens móveis vindos de Europa, a construção de igrejas na região e a encomenda da ornamentação interior e mobiliário para estas igrejas, tornou-se num campo frutífero para o contágio tanto decorativo como formal. Não podemos também esquecer o deslumbramento dos europeus ante a riqueza e esplendor das diversas artes orientais, o que favorecerá sem dúvida a abertura para os produtivos intercâmbios culturais que se darão entre Oriente e Ocidente.

 

A arquitetura, fosse esta religiosa ou civil, seguia modelos importados da Europa – embora não inócuos à influência oriental -, por isso será nos interiores, nomeadamente nos elementos decorativos que a miscigenação é mais evidente. É o caso da ‘Árvore da Vida’ que é uma peça de escultura arquitetónica podendo ter sido o remate ou tímpano de um nicho ou porta.

 

A Árvore da Vida da Casa-Museu (ou Ciclo de Adão e Eva no Paraíso)
Embora nada se saiba da localização original ou do local de fabrico desta peça escultórica, as suas características respondem perfeitamente ao tipo de escultura indo-portuguesa de inícios do século XVII. Tal como era habitual na época, nesta peça a técnica indiana é posta ao serviço da iconografia cristã – o Ciclo de Adão e Eva no Paraíso -, mas sem se despojar completamente da gramática decorativa oriental. A linguagem orientalizante fica patente, desde logo, na leitura da peça da direita para a esquerda – e não da esquerda para a direita como seria próprio no Ocidente -, mas também noutros aspetos como são a tendência para o preenchimento do espaço, criando uma composição carregada na qual podemos distinguir elementos vegetais, animais e a figura humana; o uso de símbolos, de grande importância na arte indiana, como os animais situados junto das figuras e que trazem à peça o carácter exemplar; a representação do movimento, que serve para traduzir o simbolismo associado a este e que nesta obra é fundamental para a sua compreensão; ou a própria temática da Árvore da Vida, que vinda do Médio Oriente se inseriu na cultura Indiana para passar depois para a arte indo-portuguesa.

 

O habitual era que este tipo de obras fossem realizadas por mão-de-obra local que reinterpretaria os modelos ocidentais, neste caso do Antigo Testamento, partindo da sua própria bagagem estilística. Os artífices indianos eram excelentes no trabalho de talha. Obras como as da Casa-Museu seriam o trabalho de várias mãos, sendo que um ou vários artesões realizariam o trabalho de talha e outros, o trabalho de douramento. No caso que nos ocupa, os corpos das figuras não foram dourados para fazer sobressair os personagens no meio da vegetação e proporcionar um ritmo que anima o deslocar do olhar facilitando a leitura do conjunto.

 

Leitura formal e iconográfica:
Partindo de uma forma pseudo triangular, esta obra está organizada em quatro cenas principais, separadas subtilmente por troncos de árvores da abundante vegetação que rodeia a figuração, divisão da composição em diferentes espaços que será também uma característica própria da arte indo-portuguesa. De direita para esquerda as temáticas desenvolvidas são:

 

 

Criação do homem:

Deus, representado por uma figura barbada com manto e túnica, segura com a mão esquerda o braço esquerdo de Adão, que está sentado frente a ele, enquanto com a mão direita acaricia a sua face e, tal como se relata nas escrituras, parece estar a insuflar-lhe “o sopro da vida” (Génesis, 2:7). Na parte inferior desta cena aparece representado um cordeiro, símbolo da inocência, da pureza e da mansidão pois Adão foi criado puro e livre de pecado.

 

Criação da mulher:

Deus – representado seguindo a mesma iconografia que na primeira cena – puxa o corpo de Eva que se desprende assim do corpo de um Adão adormecido.
Acompanhando esta cena, no lado esquerdo, um lobo, sinal de mau presságio.

 

 

A Tentação:

no centro da terceira cena figura uma árvore na qual aparece enrolada uma serpente, curiosamente representada antropomorficamente, com a aparência de Eva, enfatizando o papel da mulher neste episódio. Do lado direito Eva tem uma maçã em cada mão, oferecendo uma delas a Adão, situado do outro lado da árvore. Aos pés um leão que, embora normalmente se identifique com Cristo ou, quando alado com São Marcos, também pode representar a traição e a maldade do diabo – “Sede sóbrios e vigiai! O Diabo, vosso adversário, anda ao redor de vós, como um leão que ruge, buscando a quem devorar” (Pedro -cartas- 5:8).

 

A Expulsão do Paraíso:

na última cena é um anjo alado e com túnica, e não Deus, que expulsa Adão e Eva do Paraíso. Estes, que já conhecem o pecado e, por isso, a vergonha, aparecem, pela primeira vez tapando a sua nudez com folhas e frutos e protegendo-se com os seus próprios braços. Neste caso é um porco que acompanha as figuras, simbolizando as tendências obscuras do ser, a ignorância e a transformação do superior no inferior.

 

Fechando a parte superior da composição, diferentes tipos de aves aparecem pousadas nas copas das árvores, sendo que, à que coroa o conjunto – a única em representação frontal e com as asas abertas – falta a cabeça, o que nos impede saber se seria, como parece possível, uma águia, que no Cristianismo simboliza o poder das palavras de Deus, o que viria a enfatizar o sentido da peça.

 

A Árvore da Vida
A Árvore da Vida é uma das duas árvores que Deus colocou no centro do Éden, sendo a outra a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, porém são escassas as referências a esta árvore na Bíblia (Antigo Testamento):

 

“O Senhor Deus fez desabrochar da terra toda a espécie de árvores agradáveis à vista e de saborosos frutos para comer; a árvore da vida, ao meio do jardim; e a árvore da ciência do bem e do mal” (Genesis, 2:9).

 

“O Senhor Deus disse: «Aqui está o homem que, pelo conhecimento do bem e do mal, se tornou como um de nós. Agora é preciso que ele não estenda a mão para se apoderar também do fruto da árvore da vida, comendo do qual, viva eternamente»” (Genesis, 3:22).

 

“Quem tem ouvidos, oiça o que o Espírito diz às Igrejas: Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da Árvore da Vida que está no Paraíso de Deus” (Apocalipse, 2:7).

 

Existem “árvores da vida” em outras culturas e religiões que não a Cristã. A Árvore da Vida é uma composição habitual em Oriente, cuja iconografia e significação foram alterando-se ao longo do tempo e com os diversos transvases interculturais, mas sempre em relação à fecundidade e à geração de vida. Na arte indo-portuguesa é frequente a representação de árvores da vida, nomeadamente em bordados e marfins.

 

Pelo acima exposto, a denominação desta peça como ‘Árvore da Vida’, é uma designação que pode resultar confusa e equívoca, embora assim seja apresentada na primeira referência a esta talha no Catálogo de Antiguidades e Objetos de Arte, da Dinastia – Antiquários, leiloeiros e galeria de arte, Lda., em 1969. Porém, nos recibos de venda da obra a Medeiros e Almeida por parte da Manuel Henriques de Carvalho Lda., a Árvore da Vida não aparece já mencionada, sendo referida a peça apenas como “Talha Indo-portuguesa representando o Ciclo de Adão e Eva no Paraíso”, o que de facto ilustra melhor a representação em questão.

 

Estado geral da peça e intervenções
A obra encontra-se em bom estado de conservação, salvo a já mencionada falta da cabeça do pássaro que remata o conjunto e pequenas lacunas nos ornatos.

 

Também é de destacar que, em altura e local incertos, os seios das personagens femininas (Eva e a representação da serpente como Eva) foram limados de uma forma um tanto tosca – o que se verifica, por contraste, na última cena na que a Eva conserva parte dos seios por estes estarem cobertos com a mão -, resultando numa alteração muito óbvia. Este tipo de intervenção era frequentemente realizado tanto no Continente como nas Províncias de Ultramar, sendo produto de um excessivo zelo religioso ligado às emanações pós-tridentinas que vêm proibir a representação da nudez humana na arte sacra.

 

Em 2014 esta peça foi submetida a uma intervenção de conservação e restauro na qual foi removida a sujidade existente e que alterava a leitura cromática da peça, foram fixados e consolidados os destacamentos do douramento assim como pequenas fissuras na talha e, finalmente, foi aplicada uma cera protetora ao conjunto.

 

 

Proveniência
A proveniência original desta peça é desconhecida, sendo que a primeira referência é a menção no catálogo de Antiguidades e Objetos de Arte da Dinastia – Antiquários, leiloeiros e galeria de arte, Lda., de 18 a 22 de abril de 1969, lote 172, onde é considerada como sendo uma “peça única”.
A 14 de abril de 1970 a obra foi arrolada pela Direcção-Geral do Ensino Superior e Belas Artes.
Foi adquirida por António Medeiros e Almeida a Manuel Henriques de Carvalho, Lda., Rua da Escola Politécnica, 89 a 99, Lisboa, em 29 de abril de 1971.

 

Samantha Coleman-Aller
Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Referências Bibliográficas:
Bíblia Sagrada, Lisboa-Fátima, Difusora Bíblica, 1966

FRIAS, Hilda Moreira de, Goa A Arte dos Púlpitos, Lisboa, Livros Horizonte, 2006

MENDES PINTO, Maria Helena, L’art indo-portugais, in: Via Orientalis, Europalia 1991, Bruxelles, Fondation Europalia International, 1991
ROBINSON, J.C. (coord.), Catalogue of the Special Loan Exhibition of Spanish and Portuguese Ornamental Art, Londres, R. Clay, Sons and Taylor, 1881
AA.VV., Arte

Expansionista. Objectos Contemporâneos e Posteriores, Londres, Jorge Welsh Books, 2009

AA.VV., De Goa a Lisboa – A Arte Indo Portuguesa dos Séculos XVI a XVIII, Lisboa, Instituto Português de Museus, 1992

FERREIRA, M.J., Arte Indo-Portuguesa in Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa, CHAM-Centro de História de Além-mar, http://www.fcsh.unl.pt/cham/eve/content.php?printconceito=744

Artista

Ano

inícios séc. XVII


País


França

Materiais

Madeira dourada e entalhada


Dimensões


Alt. 76 cm x Larg. 168 cm

Categoria
Destaque