Barómetro de pilar – Destaque em Outubro 2019

Barómetro de pilar

Daniel Quare (1648/9-1724)

Londres, Inglaterra, c.1700

Marfim e bronze, vidro, mercúrio

Alt. 96cm x Larg. máx.(pés) 26.7cm

Instrumento Nº 61

 

A Casa-Museu possui nas suas coleções um barómetro inglês, de inícios do século XVIII de uma tipologia rara; trata-se de um instrumento de precisão, um barómetro chamado de pilar ou “independente” que é portátil, pode-se colocar numa mesa ou ainda pendurar, construído em marfim e bronze dourado, estes mais comuns hoje em dia.

 

O barómetro:

O barómetro é um instrumento utilizado em meteorologia para medir a pressão atmosférica ou seja, a pressão exercida pela atmosfera sobre a superfície. Existem dois tipos de barómetros; os de mercúrio (líquidos) e os aneroides (metálicos, sem líquido).

O barómetro de mercúrio foi inventado em 1643 pelo físico e matemático italiano Evangelista Torricelli (1608-1647) de Florença, aluno de Galileu Galilei (1564-1642) o qual já tinha observado, nas suas experiências sobre a natureza do ar e o vácuo, que o ar tem peso (até então pensava-se que o ar não tinha peso) tendo feito experiências com um enorme tubo de água mergulhado num recipiente com água.

Foi acidentalmente, no âmbito de experiências relacionadas com a elevação de água a mais de 10 metros de altura, que o barómetro foi desenvolvido. Para a experiência que viria a demonstrar a existência da pressão atmosférica, um colega de Torricelli utilizou um tubo de aproximadamente um metro (conhecido como “tubo de Torricelli”),  preenchido, desta feita com mercúrio (Hg) já que este é catorze vezes mais pesado do que a água, que tapou no topo com um dedo e que mergulhou num recipiente com mercúrio (a cisterna). Ao colocar verticalmente na base com mercúrio e retirar o dedo, a quantidade de mercúrio no tubo baixou, reduzindo-se a aproximadamente 76 cm (chamada coluna de mercúrio), deixando um vazio na parte de cima que Torricelli concluiu ser um vácuo – o chamado “vácuo torricelliano” ou coluna de ar.

Foi então verificado que o peso exercido pelo ar sobre o mercúrio na cisterna, que impedia que o mercúrio do tubo se escapasse para a cisterna, era a chamada pressão atmosférica, a qual influenciava diretamente a altura das colunas – de mercúrio e de ar – dentro do tubo; quanto maior a pressão atmosférica mais comprida ficava a coluna de mercúrio e menor a de ar e vice-versa. Ao verificar que as alturas se alteravam ao longo dos dias, Torricelli concluiu que essas flutuações estavam ligadas às variações da pressão atmosférica.

Em 1648, o físico René Descartes (1596-1650) e o  matemático Blaise Pascal acrescentaram uma escala (simplesmente numérica) ao tubo de Torricelli criando o primeiro barómetro “funcional”. Pascal provou também que a pressão atmosférica baixava com a altitude enviando o seu cunhado com um barómetro para o cimo de uma montanha. Foi ainda concluído que o nível em que o mercúrio estabilizou – 760 milímetros (760mmHg) – correspondia à pressão atmosférica no nível do mar, tendo sido este valor achado como o centro da escala.

Foi só em 1660 que dois cientistas ingleses Robert Boyle (1627-1691) e o seu pupilo Robert Hooke (1635-1703), observaram a relação entre a pressão atmosférica e as variações climatéricas, pois as pressões atmosféricas  têm uma origem térmica estando diretamente relacionadas com a radiação solar e os processos de aquecimento das massas de ar. Assim as baixas pressões anunciam tempo de chuva e tempestuoso, as altas pressões tempo seco. Foi então introduzida uma escala e ponteiro com a indicação do tempo: Muito Seco, Ameno, Ameno Variável, Chuva, Muita chuva e Tempestade. O barómetro mede agora a pressão atmosférica e indica o tempo (meteorológico).

Para além destas funções, os barómetros virão ainda a ser utilizados na previsão meteorológica, a qual era feita por observação de padrões criados pelas leituras meteorológicas.

O barómetro de mercúrio conhecido como “wheather glass” ou como “quick-silver weather glass” veio assim definitivamente substituir o muito mais falível barómetro a água.

No período Hanoveriano, Inglaterra vivia um novo interesse pelo mundo natural despoletado pelas grandes viagens e abertura ao Novo Mundo, reunindo a Royal Society (uma instituição destinada à promoção do conhecimento científico fundada por Carlos II em 1660) grande trabalho científico dos maiores naturalistas. Na senda dos estudos de cientistas como Sir Isaac Newton (1642-1727), a ciência floresce enquanto novo método do conhecimento; é neste quadro social e científico que surgem instrumentos de precisão como o barómetro, o qual criou a apetência, que conhecemos em Inglaterra, para a temática da meteorologia sendo que ainda hoje é uma peça muito presente nos lares ingleses.

Não tendo sido inventado em Inglaterra, desde as décadas de 1670-80, os barómetros começam a ser construídos em Londres por afamados relojoeiros e construtores de instrumentos científicos e são desde logo utilizados em experiências científicas, integrando também as bibliotecas e escritórios das grandes casas (o mercúrio era muito caro) juntamente com globos e telescópios, enquanto peças que atestavam a erudição dos seus donos.

Com Jorge II (r.1727-1760) os barómetros já estavam a ser construídos em massa tendo saído do âmbito do puro interesse e utilidade científica para se tornarem objetos decorativos, como tal, os seus suportes – os estojos – seguem os modelos estéticos da moda, tal como acontecia com as caixas dos relógios.

Em finais do séc. XVIII, emigrantes italianos em Londres começam a produzir barómetros a preços acessíveis, popularizando o seu uso, é famosa a família Somalvicos que se estabeleceu em Londres em 1790. Uma das tipologias introduzidas nesta época foi o barómetro “banjo” ou de roda, em que a caixa faz uma barriga inferior onde se situa o mostrador, numa forma que perdurou até à época vitoriana. Ao longo do tempo termómetros e higrómetros foram acoplados aos barómetros.

Existem duas tipologias de barómetros de mercúrio: os de pilar ou de coluna que apresentam o mostrador no topo (entre eles o transportável) e os “banjo”. Os tubos de mercúrio podem ser acoplados ao estojo ou estarem no interior de uma coluna, os estojos são principalmente feitos em madeira (nogueira, pau-santo e mogno) mas uma das novidades do trabalho de Daniel Quare foi a introdução da coluna de suporte inteiramente em marfim.

O barómetro de pilar:

O barómetro é composto por três partes: o mostrador, a coluna em marfim e os pés.

O mostrador, de forma retangular, é encimado por composição decorativa em bronze dourado, com três pináculos e reserva ovalada decorada com enrolamentos vegetalistas incisos.

O mostrador, de duas faces similares protegidas por vidro, é dividido ao centro, por onde passa o tubo do mercúrio, mostrando duas leituras diferentes com os respetivos ponteiros (existem barómetros semelhantes só com um ponteiro) e escalas com 3 grandes divisões entre 28 e 31 polegadas inglesas (unidades de pressão), por sua vez subdivididas em 20 unidades cada. O zero corresponde às 20.7 polegadas (76cm). Os ponteiros ajustam-se rodando os pináculos do topo da composição.

As legendas alternam inglês e francês, curiosamente com algumas palavras escritas à antiga, lendo-se (versão inglesa) à esquerda: “ Riseing FAIR OR FROST / VARI(able) / Falling RAIN SNOW or WINDS e à direita: SEC SEREIN / (Vari)ABLE / PLUVIEUX ORAGOUX”. Na versão francesa lê-se (esq.): “ Montant BEAU-TEMPS ou GELEES / VARI(able) / Descendant PLUIES NEIGES ou VENTS, (dta.) : DRY SERENE / (Vari)ABLE / RAINY STORMY”

Na base do mostrador, uma reserva quadrangular orlada de incisos geométricos, ostenta a assinatura do autor: “Invented & Made by DAN.L QUARE LONDON”, no verso, a assinatura repete-se em francês: “Faits Portatifs par DAN.L QUARE LONDRES”. As duas faces restantes são decoradas com elementos vegetalistas e florais.

 

Por baixo do mostrador, destaca-se um gancho que serve para pendurar o barómetro na parede. O gancho roda permitindo assim que a peça seja pendurada na versão inglesa ou francesa.

No friso inferior de uma das faces da reserva que tem as assinaturas, a peça está marcada com o número 61.

 

A coluna em marfim, oca, é composta por 4 partes que se enroscam sendo as uniões escondidas por dois anéis de bronze dourado e pelo anel que suporta os pés. O diâmetro máximo da peça em marfim é de cerca 5,3cm.

A coluna termina num depósito onde se aloja a cisterna para o mercúrio (já rota), de madeira, onde encaixa o tubo de vidro, com cerca de 82cm e ainda intacto, que a atravessa até ao mostrador sendo ligado no topo aos ponteiros.

A peça é suportada por uma armação articulada em bronze dourado, composta por anel – cinzelado com motivos vegetalistas – com 4 pés, decorados com cariátides masculinas, que recolhem (acionando uma mola) permitindo que o barómetro de mesa, seja pendurado na parede.

 

Apesar da natureza frágil e da idade, os metais da peça mantêm ainda o delicado douramento a mercúrio.

O barómetro é de cuidada produção na raridade dos materiais utilizados e na delicada decoração (para um instrumento científico), provando a sua raridade e uma encomenda de proveniência erudita (infelizmente desconhecida).

Daniel Quare:

Daniel Quare nasceu em Somersetshire, em 1647, e morreu em 1724. Foi um reputado relojoeiro e construtor de barómetros. Foi admitido na Clockmaker’s Company em 1671, tornando-se mestre em 1708.

Enquanto construtor de instrumentos, obteve, em 1695, a importante patente para barómetros portáteis “portable wheather glass” (número 342, 2 Agosto 1695) tipologia que muito agradou aos membros da Royal Society que gabaram o facto de a peça poder ser transportada e mesmo invertida sem espalhar o mercúrio a que chamavam “quick silver” (prata rápida): “May be removed and carried to any place though turned upside down without spilling one drop of the quick silver or letting any air into the tube, and that nevertheless the air shall have the same liberty to operate upon it as in those common ones now in use”. Até então, os instrumentos, para serem transportados, tinham que ser cuidadosamente desmontados de modo a garantir que a cisterna do mercúrio não se partisse ou que o líquido não se espalhasse.

Daniel Quare alcançou fama ao realizar três barómetros para o rei Guilherme III, entre os quais um diagonal de parede (a Casa-Museu também possuiu dois exemplares desta tipologia) e outro, de desenho único, em marfim, portátil e de parede (tal como o da coleção), exemplar que pertence ainda hoje às coleções reais (Palácio de Hampton Court) estando datado entre 1698 e 1700.

(Royal Collection Trust – King’s Great Bedchamber, Hampton Court Palace, Londres: https://www.rct.uk/collection/1041/barometer?language=ja)

Quare fez também peças ebanizadas http://www.benwrightclocks.co.uk/clock.php?i=224).

Sendo Quaker (movimento protestante pacifista surgido no século XVII que renegava a Igreja Anglicana), Quare teve alguma hesitação em aceitar o cargo de relojoeiro oficial das cortes de Guilherme III e Jorge I pois não queria fazer o tradicional juramento de fidelidade ao rei (oath of alliegiance) mas as dificuldades foram ultrapassadas sendo que entrava nos palácios reais pelas “escadas das traseiras”.

Em 1696 William Derham (1657-1735), o famoso filósofo natural, de acordo com o artigo publicado na revista Philosophical Transactions of the Royal Society, utilizou dois barómetros Quare nos seus registos: “….experimented with two of Mr Quare’s best portable barometers at the Monument (…) in measuring the relative heights of a column of mercury at the top and bottom of this famous London landmark”. Membro da Royal Society devem-se a Derham os primeiros registos meteorológicos de Inglaterra entre diversas outras publicações científicas no campo da Astronomia e Meteorologia.

O mais célebre construtor de barómetros coevo, John Patrick (1654-1730) produziu exemplares muito semelhantes (em termos de materiais e decoração) levando a crer que ou ambos tinham os mesmos fornecedores ou que trabalharam em conjunto. Mais tarde, outro célebre construtor de barómetros, o relojoeiro Richard Peckover (activo entre 1733-56) ficou com a firma Quare & Horseman após este último ter falido.

A partir de 1709 criou uma firma com o ex-aluno Stephen Horseman – a Quare & Horseman – (St Martin le Grand & The Kings Arms, Exchange Alley) que ficou com o negócio após a sua morte até falir em 1733. Enquanto relojoeiro, Quare fabricou diversos tipos de relógios mas a sua mais célebre invenção foi o relógio de repetição, movimento que patenteou também em 1695 (exemplar hoje no Ashmolean Museum em Oxford) concorrendo contra o Reverendo Edward Barlow que viu recusada a sua versão pelo rei Guilherme III. Este relógio possui a capacidade de, a pedido (ao acionar um botão deslizante) fazer soar uma sequência de dois tons para assinalar sonoramente a hora nesse momento.

Tanto os relógios que fez como a peça em estudo provam que Quare rivalizava em qualidade com os grandes relojoeiros do seu tempo como Thomas Tompion, a família Knibb, Henry Jones ou Charles Orme. A sua fama proporcionou-lhe muitas encomendas – sabe-se também que trabalhou para o mercado francês como o prova a assinatura na peça da Casa-Museu – existindo ainda hoje barómetros até ao nº 148 e uns quantos sem número. Quare assinava as suas peças (relógios e barómetros), tendo livros de registo dos seus cliente. Infelizmente os registos perderam-se pelo que não é possível apurar para quem foi feita uma peça em específico como é o caso do barómetro nº61 da Casa-Museu.

Entre os muitos barómetros produzidos a partir de inícios do século XVIII, o portátil em marfim será um dos mais raros, sendo que algumas coleções possuem exemplares semelhantes ao da Casa-Museu:

British Museum, Londres –

https://www.britishmuseum.org/research/collection_online/collection_object_details.aspx?objectId=54664&partId=1&object=24082&page=1

Victoria & Albert Museum, Londres – http://collections.vam.ac.uk/item/O79054/barometer-quare-daniel/

Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque – https://www.metmuseum.org/art/collection/search/203685

Sir John Soane’s Museum, Londres – http://collections.soane.org/results

Museu da Cidade de Gloucester (sem imagem)

Exemplar vendido na Sotheby’s, Londres em 2012 – http://www.sothebys.com/en/auctions/ecatalogue/2012/arts-of-europe-2/lot.373.html

Proveniência:

A venda da peça foi anunciada na revista “The Connoisseur” de Fevereiro de 1959, num anúncio onde se gabava a sua qualidade e autoria, seguido do comentário: “…It would therefore be fitting that this barometer should be acquired for a Museum or an important private collection”- Seria pois desejável que este barómetro fosse adquirido para um museu ou para uma importante coleção particular. (tradução da autora)

Medeiros e Almeida que assinava a revista (bem como outras da especialidade) para estar a par do mercado, escreveu ao antiquário Ronald A. Lee (The Old Court House, The Green, Hampton Court, Londres), adquirindo o barómetro nesse mês por 1.100£.

Foi a primeira compra realizada a este antiquário pelo que Medeiros e Almeida se fez apresentar na correspondência enviada, dizendo que Lee poderia tirar referências com o editor da revista “The Connoisseur”, L.G.G. Ramsey, seu amigo pessoal.

  1. Lee, por sua vez, convida Medeiros e Almeida para almoçar na sua próxima visita a Londres e sugere uma visita ao Palácio de Hampton Court para ver o barómetro semelhante.

Após a compra, em Abril de 1959, Lee dirige-se a Medeiros e Almeida com outras propostas referindo que a notícia da venda do barómetro suscitou muitas deceções: “…I have had a considerable number of enquiries from all over the world for this Barometer and many expressions of disappointment on being informed that it had been sold”.

 

Maria de Lima Mayer

Casa-Museu Medeiros e Almeida

NOTA: A investigação é um trabalho permanentemente em curso. Caso tenha alguma informação ou queira colocar alguma questão a propósito deste texto, por favor contacte-nos através do correio eletrónico: info@casa-museumedeirosealmeida.pt

 

Bibliografia:

GOODISON, Nicholas. English Barometers 1680-1860, Londres: Antique Collectors Club Ltd; Revised edition 1977.

EDWARDS, Ralph. The Dictionary of English Furniture, Vol. One ACA-CHA., Londres: Country Life Ltd., 1954.

GARNIER, Richard; CARTER, Jonathan. The Golden Age of English Horology. Masterpieces from The Tom Scott Collection, Winchester: The Square Press, 2015.

BELL, G.H. & E. F.. Old English Barometers, Winchester: Warren & Son Ltd. The Wykeham Press, 1952.

BRITTEN, F.J.. Old Clocks and Watches and Their Makers – A History of Styles in Clocks and Watches and their Mechanisms, Londres: Bloomsbury Books, 1986

https://www.sellingantiques.co.uk/antique-barometers/

Artista

Pierre – Simon Gounouilhou (1779-1847)

Ano

c. 1805-1820

País

Genebra, Suíça

Materiais

Ouro, esmaltes policromados, latão e aço

Dimensões

Diam. 6cm

Categoria
Destaque