“Biombo Coromandel”, Destaque Setembro de 2013

“Biombo Coromandel”, Destaque Setembro de 2013

Biombo de seis folhas (proveniente de um biombo de doze folhas), lacado a castanho, com decoração incisa e escavada em ambas as faces. Esta peça, de grande qualidade, estava destinada ao mercado interno sendo que, como veremos mais adiante, trata-se de um biombo comemorativo que teria pertencido a um oficial chinês de apelido Zheng.

 

Os biombos:


Os biombos são originários da China, de onde o seu uso se estendeu para  o este asiático e, a partir do século XVI e nomeadamente XVII, para a Europa. As primeiras referências literárias sobre estas peças datam dos tempos da Dinastia Zhou do Leste (770-256a.C.) e estariam formados provavelmente por um só painel fixo, sendo que já durante o reinado da dinastia Han (206-220a.C.) existiam biombos de várias folhas, tal como provam as representações dos mesmos encontradas em vários túmulos da época.

 

Originalmente a função dos biombos, tal como indicado nos carateres do seu nome chinês (‘tela’ e ‘vento’), era a de evitar as correntes de ar nas casas, sendo também usados para separar espaços, para as cerimónias do chá e em rituais budistas ou procissões. Paralelamente o tamanho diversificou-se para dar resposta aos diversos usos, desde enormes biombos que decoravam os salões dos grandes palácios, até minúsculos biombos que adornavam as mesas.

 

Mas não é só o formato dos biombos que vai variar; também os materiais que os constituem são muito diversos. Para além da laca, as folhas dos biombos podiam ser de madeira, papel, jade e marfim e as cavilhas passaram de pano ou couro a metálicas.

 

A laca de Coromandel:


A laca – resina produzida pela Rhus Vernicifera, árvore chamada pelos chineses ch’ishu- é um produto natural que provavelmente foi usado desde tempos pré-históricos no Este Asiático como revestimento protetor sobre madeira, cestaria e têxteis mas, dada a curta durabilidade deste material, não chegaram até os nossos dias evidencias físicas deste uso até o século V a.C.

 

Embora existam menções a este material na literatura desde o século VII a.C., não há um registo preciso de quando ou como teria sido descoberta pela primeira vez, sendo que os textos antigos asseguram que os primeiros artigos lacados teriam sido feitos na época do legendário imperador Shun, mas de dois milénios antes da nossa era. Dadas as imensas possibilidades decorativas que a laca oferece – podendo ser pintada, esculpida, gravada, incisa ou embutida – desde logo se desenvolverá o seu uso ornamental, o que rapidamente faz com que os objetos em laca sejam muito apreciados e procurados.

 

 

A denominação de lacas de “Coromandel” ou “Bantan”, não faz referência ao local de produção dos objetos lacados – a maioria deles realizados na província chinesa de Honan -, mas sim aos portos de embarque desde onde estas peças eram carregadas em navios que transportavam as mercadorias com destino à Europa desde finais do século XVI; a costa Coromandel situada no sudeste da Índia e o porto de Bantan, situado na ilha de Java, usados pela Companhia das Índias Holandesas. Provavelmente a primeira vez que o termo “biombo Coromandel” foi usado foi no catálogo de um leilão em Paris, em 1782, sendo que a expressão “trabalho de Bantan” já apareceria no tratado de John Stalker e George Parker de 1688, A Treatise of Japanning and Varnishing.

 

O trabalho dito de Bantan ou Coromandel consiste na aplicação sobre o suporte de madeira de uma ou várias camadas de gesso ou argila até atingir uma espessura de entre 2 milímetros e um centímetro. Em seguida eram sobrepostas sucessivas camadas de laca, deixando secar cada uma delas antes de se aplicar a seguinte. Estas lacas seriam em tonalidades escuras, o que se conseguia misturando a resina da laca – originalmente transparente – com diversos pigmentos: carbono ou óxido de ferro para o preto, cinábrio para o vermelho e uma combinação de óxido de ferro e cinábrio para o castanho, como no caso do biombo que nos ocupa. Uma vez terminada a superfície de trabalho, procede-se à decoração através de incisões, que podem variar em profundidade e que, posteriormente, são pintadas com pigmentos de diversas cores – azul-turquesa, beringela, verde, amarelo ou branco – ou, nas peças mais sumptuosas, com a aplicação de folha de ouro. Por vezes a superfície da laca era escavada em negativo, resultando nos motivos decorativos em relevo, tal como podemos observar na peça em destaque, na qual a decoração foi feita com recurso às duas técnicas.

 

Os biombos Coromandel:


As peças onde melhor se pode apreciar o trabalho de Coromandel são, sem dúvida, os grandes biombos. Este tipo de biombos são normalmente constituídos por seis ou doze folhas – no primeiro caso muitas vezes fabricados aos pares de modo que o conjunto somava doze folhas -, mas também existem alguns exemplares de oito ou dez.

 

A técnica da laca de Coromandel surge na China em meados do século XVII, no final da dinastia Ming, mas a maior parte dos biombos que chegaram a Europa são da dinastia seguinte, a Qing, nomeadamente dos reinados Kangxi e Qianlong. Há que diferenciar, porém, entre os objetos especificamente realizados para a exportação e os fabricados para o mercado interno que, embora realizados para consumo na China, acabaram por chegar também a Europa – como o biombo em exposição -existindo inclusivamente o caso de algumas peças que foram posteriormente desmontadas e comercializadas como painéis autónomos, ou reutilizadas em embutidos em peças de mobiliário de fabrico europeu, sendo que a sua leitura iconográfica ficou para sempre alterada, já que, para os artesãos da época, os motivos chineses eram puramente decorativos.

 

 

O tema clássico por excelência para a decoração deste tipo de biombos era a dita “cena de palácio” – como a conhecida representação da ‘Manhã de Primavera no Palácio Han’ – composta por dezenas de personagens entre pagodes e arquiteturas palacianas, e as suas múltiplas variantes, assim como cenas de caça, representações das doze paisagens mais belas da China, cenas do paraíso taoista, etc. Habitualmente este motivo central estaria emoldurado por uma cercadura, mais ou menos complexa, a toda a volta. A outra face do biombo podia ter uma grande inscrição, como era comum no caso dos biombos realizados para honrar altos militares chineses, ou um conjunto de cartelas contendo inscrições e motivos decorativos.

 

O biombo da Casa-Museu:


O biombo da Casa-Museu é composto por seis folhas mas, originalmente, seria composto por doze, tal como se pode deduzir pela interrupção da cercadura de um dos lados, a presença de orifícios para a inserção de cavilhas nesse mesmo lado e a lógica decorativa da qual é óbvio que se perdeu metade da informação. A localização do segundo conjunto de seis folhas é desconhecida.
Este biombo afasta-se ligeiramente da configuração típica deste tipo de peças acima mencionadas, já que nenhuma das duas faces apresenta a característica cena figurativa central; um lado está preenchido por uma grande inscrição (ao qual chamaremos face comemorativa) e o outro (face decorativa) por um conjunto de cartelas que, ao contrário do que é hábito, não estão organizadas de forma regular.

 

A face decorativa:


Esta face é decorada por vinte e seis cartelas – originalmente seriam aproximadamente o dobro – de distribuição irregular e de diversos tamanhos e formas: retangulares horizontais, retangulares verticais, circulares e ovais, em forma de leque e formas orgânicas, sendo este campo decorativo emoldurado por cercadura simples, interrompida nas extremidades. As representações incluem paisagens, a representação dos Oito Imortais Taoistas – grupo lendário da mitologia chinesa -, cenas domésticas ou composições de pássaros e flores, e também reservas com inscrições de versos, entre os quais o famoso poema à Ninfa do Rio Luo composto pelo letrado Cao Zhi (192-232), no período dos Três Reinos:

 

Poema à Ninfa do Rio Luo

(inscrito na cartela horizontal das folhas 2 e 3, da esquerda para a direita)

Pairando como um cisne assustado,

Flexível como um dragão errante,

Esplendorosa como um crisântemo de Outono.

Luxuriante como um pinheiro na Primavera.

Parece uma lua meia escondida por entre as nuvens.

Flutua qual brisa suave.

Contemplei-a ao longe,

Brilhante como um sol que se eleva por sobre a névoa;

Ao perto, é um belo lótus erguido de verdes ondas.

É pura e esguia. É perfeita.

Belos ombros, cintura de seda branca.

Pescoço esguio, rosto saliente.

Pele branca de neve a sobressair

Sem cosméticos ou outros pós.

Cabelos ao alto, crescendo para as nuvens.

Belas e curvas sobrancelhas,

Lábios rubros, muito vivos.

Donde espreitam alvos dentes,

Olhos sábios de brilho irradiante.

Maçãs do rosto rosadas e proeminentes.

Beleza misteriosa, distinta

Calma e despreocupada,

Suave e graciosa.

Discurso encantador.

Sobressai neste vasto mundo.

Uma pintura.

As vestes e os brincos que lhe adornam os ouvidos

São de jade esplendoroso.

Na cabeça, ganchos de ouro,

Traz o vestido coberto de pérolas.

Enverga sapatos errantes,

E a saia é seda de neblina.

 

Na parte inferior desta face, grandes painéis retangulares com representações de canas de bambu sobressaem sobre um fundo completamente escavado, formando uma comprida faixa longitudinal. O bambu, também conhecido como “o amigo da China”, é uma planta com uma forte carga simbólica, sendo símbolo de longevidade por ser uma planta de grande durabilidade, de estabilidade por resistir ao frio e ao calor, de benevolência por proporcionar sombra no verão e de lealdade por produzir novos rebentos para a alimentação do tronco principal, significados, todos eles, que se adequam perfeitamente numa peça destinada a um alto cargo militar. Além disso, é uma planta amplamente usada pelos chineses não só na alimentação como também para o fabrico de papel, leques, mobília ou para usos medicinais.

 

 

A face comemorativa:


Esta face compõe-se de uma grande inscrição central emoldurada também por uma cercadura decorativa. Embora esta inscrição se encontre hoje em dia incompleta, o que se pode extrair da parte que se conserva é que este biombo teria pertencido a um oficial de apelido Zheng, e que celebra uma embaixada fujianense (Fujian) enviada a Beijing, onde seguiam os oficiais indicados no texto – os seus nomes aparecem inscritos numa longa lista -, no 28º ano do reinado de Kangxi, que corresponde ao ano de 1689.

 

A cercadura exterior é decorada na parte superior e no lado por composição de objetos e vasos com flores e frutos – também chamados penjing – e representações das ‘Cem Antiguidades Chinesas’; coleção de objetos culturalmente significantes – livros, objetos de escritório, bronzes antigos, … – que surgem num período conturbado; a passagem da dinastia Ming para a Qing, para simbolizar a continuidade da cultura chinesa. Na parte inferior, surgem em cada folha, composições de um tipo diferente de planta que representam seis meses do ano: flores de ameixoeira – inverno, símbolo da longevidade – narcisos – augúrio de boa sorte para o Novo ano -, peónia – rainha das flores, primavera, símbolo de riqueza e distinção – crisântemo – representação do nono mês do ano, o que mais uma vez confirma a falta de seis folhas a este biombo onde apareceriam representados os outros seis meses do ano.

 

 

Há que destacar na decoração deste biombo o recurso a duas diferentes técnicas; a incisão de linhas finas na laca que fazem o desenho, e o escavado em se retira a laca deixando em relevo a que formará o desenho sobre um fundo liso, aproximando-se esta técnica, esteticamente, à da pintura chinesa. Estes dois recursos também são usados nas inscrições dando lugar a fortes contrastes de positivo e negativo.

 

No que se refere à laca e à coloração, embora se conserve parte do cromatismo permitindo formar uma ideia da vivacidade original do biombo, o seu aspeto atual é fruto do desgaste do tempo, nomeadamente da ação da luz muito prejudicial às lacas.

 

Proveniência:
Adquirido a John Sparks Ltd., 128 Mount Street, Londres, a 24 de agosto de 1945.

 

John Sparks Ltd. é, junto com a Bluett’s Oriental Dealers uma das mais antigas e respeitadas firmas londrinas no comércio de arte chinesa. Foi criada por John Sparks (1854-1914), capitão da marinha mercante que passou a maior parte da sua vida no Extremo Oriente. O negócio foi continuado e ampliado pelo seu filho, Peter (1896-1970), que se uniu à firma em 1910 e que mudou a sede, originalmente no nº 37 da Duke Street, para o nº 128 da Mount Street, onde permaneceu até ao seu fecho em 1990.

 

 

Em 1926 a rainha consorte Mary (1867-1953) concede à casa Sparks um alvará real, e será por estes anos que a companhia abre uma sede em Xangai, o que lhes permitiu negociar diretamente na origem.
Medeiros e Almeida utilizou frequentemente esta casa de antiguidades para adquirir peças chinesas para a coleção, tendo-se tornado amigo pessoal de Peter Sparks a quem enviava ameixas de Elvas todos os Natais.

 

Samantha Coleman-Aller


Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Nota: A Casa-Museu agradece de forma muito especial a generosa colaboração da Doutora Ana Cristina Alves na identificação e tradução das inscrições do biombo.

 

Bibliografia:
BEDFORD, J.; Chinese and Japonese Lacquer, London: Cassell, 1969

BEURDELEY, C.; Le Mobilier Chinois, Friboug: Office du Livre, 1979

CARVALHO, Pedro de Moura; O Mundo da Laca, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001

EBERHARD, W.; A Dictionary of Chinese Symbols, London: Routledge, 1986

GARNER, H.S.; Chinese Lacquer, London: Faber and Faber, 1979

LEE, Y. K.; Oriental Lacquer Art, New York: Weatherhill, 1972

VILAÇA, Teresa; Um Tesouro na Cidade. Catálogo da Casa-Museu Medeiros e Almeida, Lisboa: Fundação Medeiros e Almeida, 2006

WILLIAMS, C.A.S.; Chinese Symbolism and Art Motives, Vermont: Tuttle Publishing, 1974

Artista

Ano

dinastia Qing, reinado Kangxi (1662-1722)

País

China

Materiais

Madeira, gesso, laca e metal

Dimensões


Alt. 296cm x Larg. 49,8cm (cada uma das folhas)

Categoria
Destaque