Cais das Colunas, 1914

Cais das Colunas, 1914

O Naturalismo:
O Naturalismo – enquanto movimento – afirma-se em França entre 1848 e 1870, por oposição ao estilo vigente; o Romantismo. Apresentando como referência a representação fiel da natureza, os artistas distanciam-se das regras do academismo dando também origem ao Realismo. A pintura iniciada pela chamada ‘Escola de Barbizon’, é feita em ‘plein air’, tem a paisagem como temática principal e, entre cenas bucólicas e marinhas, são também representados ambientes populares ou burgueses e mesmo retratos algo sentimentalistas mas despidos de grande profundidade. Os valores atmosféricos e os efeitos de luz são também protagonistas nesta mimetização da natureza algo influenciada pela fotografia. A adesão de um vasto público à nova estética é facilitada pela óbvia identificação das temáticas pelo espectador.

 

Naturalismo – contexto português:
Historicamente, Portugal segue com algum atraso – e também com alguma originalidade -, as tendências europeias. O mesmo se passou com o Naturalismo que apresentou características ‘sui generis’, alheando-se de extremismos, absorvendo ou neutralizando a vontade de intervenção social, resultando num Naturalismo de vertente sentimental.

 

Os introdutores da pintura naturalista em Portugal foram Silva Porto e Marques de Oliveira, que estudam em França enquanto bolseiros da Escola de Belas Artes do Porto. Nesta deslocação contactaram com artistas da ‘Escola de Barbizon’, impressionistas e pintores do sul de Itália, que os marcaram profundamente.

 

O ensino da pintura de paisagem nas academias portuguesa seguia uma formação de tendência romântica, faltando-lhe a liberdade expressa pela ‘Escola de Barbizon’. A entrada de Marques Oliveira e de Silva Porto como professores possibilitou a alteração deste panorama, já há muito ansiada pelos artistas nacionais.

 

O ‘Grupo do Leão’:
O ‘Grupo do Leão’ foi uma tertúlia de artistas portugueses responsável pela introdução do Naturalismo em Portugal. Tendo funcionado entre 1881 e 1889, este grupo de vanguarda reunia-se na Cervejaria ‘Leão de Ouro’ em Lisboa. Os artistas viam-se como realistas mas na realidade produziam obras naturalistas. O eclético grupo era composto por escritores, escultores e pintores como João Vaz, Silva Porto (1850-1893), Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929), Cristino da Silva (1858-1948), José Malhoa (1855-1933) e o caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905). O ‘Grupo do Leão’ organizou várias exposições que foram preponderantes para a difusão e sucesso da pintura naturalista em Portugal.

 

João José Vaz:
João Vaz nasceu em 1859 em Setúbal, em 1872 matriculou-se na Academia Real de Belas-Artes na aula de Rudimentos de Desenho e em 1877 na aula de Pintura de Paisagem lecionada por Tomás da Anunciação e posteriormente por Silva Porto, tendo sido este período final o que mais o marcou a nível artístico. Na primavera de 1882, João Vaz parte para Paris onde conviveu com artistas nacionais e estrangeiros, entre eles, Jules Bastien-Lapage (1848-1884), considerado por Vaz como o artista que melhor traduzia a visão do naturalismo. Antes de voltar a Portugal, já no ano seguinte, passou por Madrid, que recebia à data a Exposição Nacional de Belas Artes.

 

Vaz expôs pela primeira vez em 1880 (aos 20 anos) com dois trabalhos na 12ª Exposição Promotora onde obteve uma menção honrosa tendo continuado a expor ao longo da vida nomeadamente nas exposições do Grupo do Leão cujo fim em 1888, resultou na criação do Grémio Artístico e posteriormente, em 1860, na Sociedade de Belas-Artes. João Vaz morreu em Fevereiro de 1931. Numa carta deixada aos seus filhos expressa o seu último desejo: “…Desejo que, se acordarem expôr os trabalhos que deixar elles sejam seleccionados com critério, só escolhendo aquelles que não desmereçam do meu nome de artista, embora modesto (…).”

João Vaz – pintor:
Vaz é considerado um dos melhores marinhistas da sua geração. O Tejo e o Sado foram dos seus temas prediletos mas percorreu grande parte do litoral marítimo e fluvial português, praticando constantemente um paisagismo sossegado. Um mar tranquilo, sem ondas nem drama, um registo de águas, margens, barcos e velas demonstrando um rigor construtivo também observável nas paisagens urbanas e registos arquitectónicos que realizou. A figuração humana surge apenas como meio de definir uma escala, prática comum da sua época. O artista distingue-se pelo suave uso da cor e pela procura da pureza e vibração da luz, revelando a sua obra uma estética poética.

 

A obra:
A pintura representa o conhecido ‘Cais das Colunas’ no Terreiro do Paço em Lisboa que surge em primeiro plano, abordado pela escadaria do lado direito. A cena é povoada por personagens entre um pescador que sobe a escadaria com um par de remos às costas, duas varinas aguardando o resultado da faina e vários espetadores em pequenos grupos que se passeiam observando os barcos atracados e o rio. Os elementos arquitetónicos e as embarcações caraterizam-se por um grande rigor construtivo porém, as figuras humanas estão presentes como simples apontamentos visuais. A grande área aberta em primeiro plano do pavimento de pedra permite ao espectador visualizar claramente os elementos mais recuados nomeadamente os figuras humanas e os barcos atracados com os seus mastros e velas.

A técnica pictórica varia entre a pincelada linear e a mancha, sendo o detalhe desvalorizado em prol de uma harmonia visual e a procura da cor e da luz. Como habitual, o artista faz um registo das águas calmas, neste caso complementado pela presença do bando de gaivotas. A figuração surge nesta composição mais evidente do que o seu costume, talvez por se tratar de uma paisagem urbana, contudo, algumas das figuras, como já referido, colocam-se como meio de definir uma escala. Apesar da quase monocromia, a procura de luminosidade está bem presente, através dos tons claros, das sombras e do degradé do azul do céu. Como em muitas das suas obras, nomeadamente nas praias, o horizonte – neste caso marcado pela linha da margem sul do rio – é muito baixo, sendo quase metade da obra é composta por céu; um céu limpo, de um azul claro mas intenso e sem nuvens.
João Vaz consegue, com esta obra, captar a essência do momento, quase como um registo documental, algo que muitos naturalistas portugueses ansiaram por fazer e não conseguiram.

 

A obra encontra-se assinada mas não datada, no entanto, considerando que a primeira exposição pública que há registo data de 1914, julga-se que tenha sido realizada por volta dessa data.

 

Nota: Conhece-se uma outra obra do artista em que se representa o cais das colunas: ‘Um canto de Lisboa’, não datada (c.1896), pertencente a uma coleção particular e referenciada em PROENÇA (2005 p.104)

Proveniência:
Pertenceu à coleção do Dr. João Silvestre de Almeida (pai de AMA, 1864-1936), Rua Mouzinho da Silveira nº12, Lisboa. Após a morte da sua viúva Maria Amélia de Medeiros e Almeida (1872-1952), a 7 de Junho de 1952, os bens foram postos a leilão.

 

Medeiros e Almeida comprou várias peças da casa de seus pais no referido leilão em Novembro de 1955, a pintura (lote 257) foi adquirida por 7.500$00.

 

Maria de Lima Mayer
Melissa Correia (estagiária)
Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Bibliografia:
MATIAS, Maria Margarida Garrido Marques; Pintura portuguesa da Colecção Anastácio Gonçalves – sobre o naturalismo português, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1979
PAMPLONA, Fernando; Dicionário de Escultores e Pintores Portugueses ou que trabalharam em Portugal, 1959 Vol. IV
PROENÇA, José António (coord.); FALCÃO, Isabel; João Vaz 1859-1931 Um Pintor do Naturalismo, Lisboa: Casa-Museu Anastácio Gonçalves, 2005
RODRIGUES, Dalila (Coord.); Arte Portuguesa Da Pré-História ao Século XX, PORFÍRIO, José Luís; Da Expressão Romântica à Estética Naturalista: Pintura e Escultura, Lisboa: Fubu Editores, 2009

 

Webgrafia:
http://www.snba.pt/1.html

Artista

João Vaz (1859-1931)

Ano

N. datado (c. 1914)

País

Portugal, Lisboa

Materiais

Óleo sobre tela

Dimensões

Alt. 68 cm. x Larg. 106 cm.

Detalhes

Assinado no canto inferior esquerdo ‘Vaz’

Categoria
Pintura Portuguesa