Caneca “Terramoto 1755” – Destaque em Outubro 2018

 Caneca “Terramoto 1755”

 

Thomas Farren (ativo 1707-1742)

Inglaterra, 1733-1734

Prata

Alt. 21cm. X Larg. (com asa) 19cm. / Ø13cm. / Peso 1130gr.

 

Caneca de cerveja em prata cinzelada e gravada.

Atendendo às várias marcas patentes na peça e à inscrição e gravuras presentes no bojo da mesma, concluímos que a peça é de manufatura inglesa mas terá sido trazida posteriormente para Portugal, encontrando-se em Lisboa na altura do terramoto de 1755, sendo que a inscrição e as gravuras referentes ao triste acontecimento são posteriores.

[“This tankard was taken from amidst the fire and ruins of the city of Lisbon in the year 1755 when that capital was destroyed by a dreadful earthquake and conflagration in which 70.000 people perished” – “Esta caneca foi resgatada do meio do fogo e das ruínas da cidade de Lisboa no ano de 1755 quando a capital foi destruída por um terrível terramoto e incêndio em que 70.000 pessoas morreram”].

 

Canecas inglesas

No campo da ourivesaria, provavelmente só as colheres têm uma história tão antiga e continuada no tempo como os recipientes destinados à bebida, existindo referências a estes já em textos clássicos. Embora não se conservem muitos exemplares ingleses anteriores a 1660 – sendo que, como muitos outros objetos em prata, foram fundidos durante a guerra -, as peças em prata destinadas a conter líquidos eram sem dúvida a tipologia mais numerosa no século XVI e início do século XVII, o que estará relacionado com o elaborado ritual à volta da mesa, mas também com o facto de estas peças, para além de objetos utilitários, serem também símbolos de riqueza através dos quais se mostrava poder e estatuto social. Embora existissem recipientes para beber noutros materiais (como osso, madeira, marfim, pedra ou cerâmica) eram os realizados em prata que alcançaram maior êxito, não só devido às possibilidades decorativas, mas também ao facto de a prata ser considerada um material mais higiénico, o que a tornava uma escolha preferente para utensílios relacionados com a comida ou a bebida.

 

As canecas – recipientes destinados a conter líquidos, com o corpo normalmente cilíndrico, medidas variáveis e que podem ou não ter uma tampa articulada, frequentemente com um apoio para o polegar – surgem em meados do século XVI na Europa Central e, sendo que o seu uso estava maioritariamente relacionado com o consumo de cerveja, é nos países do norte (nomeadamente Alemanha, países escandinavos e Inglaterra, mas também na América colonial), onde esta bebida era mais popular, que encontremos um maior número de exemplares, em contraste com os países do sul (Portugal, Espanha, França), onde o consumo de vinho era mais comum.

Embora no final do século XVII os copos em prata tenham sido substituídos em grande medida por copos de vidro, o hábito de beber cerveja em canecas de prata perdurará nos países nórdicos até bem entrado o século XVIII, momento no qual não só as canecas de vidro ganham protagonismo como também se dá um declino no consumo de cerveja a favor de outras bebidas. No século XIX continuam a fabricar-se canecas em prata, mas estas já não serão objetos de uso quotidiano, sendo maioritariamente peças comemorativas.

 

Em Inglaterra as canecas mais antigas conservadas datam da década de 1570 e, se bem que a evolução das diferentes tipologias de canecas teve lugar de forma relativamente autónoma nos diversos países onde o seu uso era habitual, estes primeiros exemplares apresentam todavia certas influências dos modelos alemães. Até aproximadamente 1620 as canecas inglesas de prata eram frequentemente total ou parcialmente douradas, com decoração repuxada e gravada, com asas em “S” e tampas de cúpula alta coroada por um pequeno pináculo.

Durante o reinado de Carlos I (1625-1649) o tamanho das canecas diminui e tem lugar uma simplificação das formas e da decoração – com canecas praticamente lisas e tampas planas -, que, numa época na que a exuberância do barroco estava em alta, dá lugar a um estilo tipicamente britânico que se manteve até à Restauração, sendo que a partir do segundo quartel do século XVIII o corpo das canecas começa a arredondar-se – adotando a partir de meados do século forma de pera – e a tampa volta a ser abobadada.

 

Embora não possamos estabelecer de forma rigorosa uma correspondência entre os diferentes reinados e a evolução tipológica das canecas em Inglaterra, existem certos aspetos que podem ajudar a estabelecer uma cronologia mais ou menos lata; por exemplo, durante o período Queen Anne (1702-1714), as canecas voltam a ter uma tampa abobadada e a presença duma moldura à volta da parte baixa do corpo, entre o final da asa e a base torna-se consistente, o que facilita a datação de canecas com estas características.

 

A caneca da Casa-Museu

Caneca de cerveja inglesa em prata cinzelada e gravada de corpo cilíndrico, ligeiramente afunilada no gargalo e arredondada na parte inferior, e pé escalonado. Possui uma tampa abobadada, com apoio para polegar de desenho simples e aberto e asa partida de dupla curvatura. O corpo, originalmente de superficie lisa, remete para o modelo de caneca “Puritana”, de formas simples e sem ornamentos que, seja por influência religiosa ou como resposta à opulência decorativa da altura, teve grande sucesso durante o reinado de Carlos I.

Na sua forma originária a única decoração, a existir alguma, seria provavelmente o brasão presente no corpo da caneca, no lado oposto à asa (constituído por uma cartela de enrolamentos vegetalistas, com um mascarão na parte superior e no interior do campo dois leões rampantes – leões de perfil, sobre as duas pernas traseiras e com as duas pernas dianteiras alçadas – e uma águia com a cabeça de perfil e as asas abertas), e o monograma (TMW?) na parte superior da tampa, assim como na asa. Porem, tanto o brasão como o monograma – ambos por identificar -, poderão ser também fruto de uma intervenção posterior desfasada da cronologia de execução da peça, o que era relativamente frequente.

Assim sendo, a identificação correta corresponderia ou bem ao encomendador ou proprietário original, ou a um outro proprietário subsequente que teria mandado gravar as suas armas sobre a superfície lisa da caneca. Em relação ao resto da decoração – duas gravuras encimadas por grinaldas de folhas e laços e uma inscrição -, esta será certamente mais tardia já que, atendendo às marcas presentes, esta peça estaria datada de 1733-1734, sendo que tanto as gravuras como a inscrição fazem referência ao Terramoto de Lisboa de 1755*, acontecimento não só posterior ao momento de fabrico da caneca, como também à morte de Thomas Farren, autor da mesma.

Na inscrição que rodeia em espiral a parte inferior do corpo da caneca podemos ler: “This tankard was taken from amidst the fire and ruins of the city of Lisbon in the year 1755 when that capital was destroyed by a dreadful earthquake and conflagration in which 70.000 people perished” [“Esta caneca foi resgatada do meio do fogo e das ruínas da cidade de Lisboa no ano de 1755 quando a capital foi destruída por um terrível terramoto e incêndio em que 70.000 pessoas morreram”]. Embora o texto situe a caneca em Lisboa na data do Terramoto, o facto de estar escrita em inglês leva-nos a pensar em que esta possa ter pertencido a um membro da relativamente grande comunidade inglesa a viver em Portugal na altura ou que, em data posterior, tenha sido novamente levada para Inglaterra, pais onde terá sido originalmente fabricada.

As duas cenas alusivas ao Terramoto – representando a Patriarcal (Sé) e a igreja de São Nicolau, em Lisboa – estão baseadas em duas das seis gravuras do francês Jacques-Philippe Le Bas (1707-1783), a partir de desenhos do coronel e escritor português Miguel Tiberio Pedegache Brandão Ivo (c.1730-1794) e de um outro ilustrador – MM Paris -, reunidas no álbum “Recueil des plus belles ruines de Lisboanne causées par le tremblement et par le feu du premier Novembre 1755” publicado em 1757 em Paris. Existe na coleção da Casa Museu uma cópia da edição inglesa deste álbum [FMA 8834], publicada por Robert Sayer (1725-1794) que consistente numa pasta com capa e seis gravuras que representam a Igreja de São Nicolau, a Praça da Patriarcal, a Casa da Ópera, a Basílica de Santa Maria, a Torre de S. Roque chamada vulgarmente Torre do Patriarca e a Igreja de São Paulo.

 

A decoração desta peça insere-se perfeitamente nos três grupos que Charles Oman [1978] identifica como temáticas da gravação dos objetos de prata: simples motivos decorativos; identificação de propriedade ou doação e documentação de acontecimentos históricos ou religiosos.

* O Terramoto de 1755, ocorrido a 1 de Novembro, foi seguido de um maremoto e de múltiplos incêndios, destruindo grande parte da cidade de Lisboa e causando um enorme impacto político, social e económico na capital com repercussões por todo o país.

 

As marcas

 No final do século XVII era habitual marcar este tipo de canecas na parte exterior da tampa, o que dava lugar muitas vezes a marcas incompletas como consequência da curvatura da superfície abobadada, complicando a posterior identificação das mesmas, dificuldade esta que era ainda acrescida pelo facto de se tratarem de peças destinadas ao uso e por isso sujeitas a um contínuo desgaste. No século XVIII as marcas passaram para a parte interior da tampa ou na base, permitindo marcas mais claras e melhor preservadas, facilitando assim a sua leitura.

Patentes na base da caneca da Casa-Museu Medeiros e Almeida encontramos quatro marcas, marcas estas que nos permitem o enquadramento cronológico, geográfico e autoral da mesma: marca do padrão de prata (leão rampante); marca da cidade (cabeça de leopardo coroada – marca da cidade de Londres desde 1478 até 1822); letra indicadora do ano de fabrico (“S”, correspondente aos anos de 1733-34) e marca do autor “TF” – Thomas Farren. Para além destas quatro marcas existem outras três marcas referentes ao autor: duas no interior da tampa (das quais uma incompleta) e uma na asa, garantia da originalidade de todas as partes constitutivas desta peça.

Thomas Farren (Farrar ou Farrer), autor da caneca em estudo, era um ourives sediado em Londres e ativo entre 1707 e 1742, ano em que morre e a sua mulher, Ann Farren, regista a sua marca. Farren entra como membro da Worshipful Company of Goldsmiths de Londres em 1721 e desde 1723 até a sua morte foi ourives dos reis Jorge I e Jorge II.

 

Salva “Terramoto 1755”

Na vitrina onde habitualmente está exposta a caneca anteriormente analisada, na Sala das Pratas da Casa-Museu Medeiros e Almeida, exibe-se igualmente uma salva bilheteira circular, também em prata, com aba recortada e decorada com folhas de acanto e assente sobre três pés em concheado de fatura independente. Ao centro, sobre fundo liso, figura o mesmo monograma patente na tampa da caneca – embora o trabalho de gravação seja ligeiramente mais grosseiro – e, rodeando este monograma, idêntica inscrição, com a única alteração da palavra “tankard” (caneca) por “waiter” (salva, bandeja). Inscritas num dos pés, as iniciais “WRI”, as mesmas que se podem ver na asa da caneca.

A origem, datação e autoria desta peça são mais confusas, já que a única marca é uma marca de ourives, “GM”, presente em triplicado na base. Na altura da venda, realizada em conjunto com a caneca em 1961, esta salva foi identificada por C.C. Oman (1901-1982), na altura conservador do departamento de ourivesaria do Museu Victoria and Albert de Londres, como sendo Portuguesa, embora nem ele nem Manuel Gonçalves Vidal, marcador do laboratório e contrastaria da Casa da Moeda que foi inquerido a esse respeito, conseguiram atribuir uma autoria, já que a marca não estava registada nos catálogos portugueses. Posteriormente, e em data incerta, esta peça foi registada no inventário da coleção da Casa-Museu como sendo de origem inglesa e atribuída a Geo Morris (George Morris), ourives inglês ativo em meados do século XVIII. Em 2003, numa visita da Silver Society – organização internacional sediada em Londres, fundada em 1958 para o estudo da ourivesaria -, surge um novo nome como possível autor da salva, George Mauger, ourives de Jersey – uma das ilhas do Canal da Mancha – que foi ativo entre 1776 e 1823. Qualquer uma destas origens e autorias deixa várias perguntas por responder, o que dá lugar a diversas hipóteses; terá sido de facto esta salva salva de entre as ruínas do Terramoto de Lisboa e posteriormente gravada tal como parece ser o caso da caneca? Se damos por válida a autoria de George Mauger, teremos de avançar uma data de fabrico posterior ao Terramoto de 1755, o que nos leva a pensar se se tratará de uma salva comemorativa do acontecimento e se, o facto de ter sido “resgatada do meio do fogo e das ruínas da cidade” faz alusão ao uso de prata mais antiga resgatada após o terramoto e utilizada para a criação de uma nova peça – o que não é completamente descabido já que a prata era muitas vezes fundida e transformada em novos objetos – ou se a salva terá sido simplesmente criada já no final do século para fazer conjunto com a caneca.

 

Proveniência

Adquirida ao antiquário Walter H. Wilson Ltd., 15 King Street, St. James, Londres, em Setembro de 1961.

 

Samantha Coleman-Aller

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

 

Bibliografia:

 

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WYLER, S.B., The Book of Old Silver: English, American, Foreign, New York: Crown Publishers, 1962

 

Catálogos de Exposições:

 

AA.VV., A Lisboa Subterrânea, Museu Nacional de Arqueologia – Janeiro a Dezembro de 1994, Lisboa Capital da Cultura

AA.VV., O Triunfo do Barroco, Europália 91, Palais des Beaux-Arts, Bruxelas, 19 de Setembro a 29 de Dezembro de 1991

 

 

 

 

 

Artista

Thomas Farren (ativo 1707-1742)

Ano

c. 1733-1734

País

Inglaterra

Materiais

Prata

Dimensões

Dims.: Alt. 21cm. X Larg. (com asa) 19cm. / Ø13cm. / Peso 1130gr.

Categoria
Destaque