Carlos Botelho, Lisboa – Paris – Destaque em Novembro 2017

Carlos Botelho, Lisboa – Paris – Destaque em Novembro 2017

 “Lisboa”                                                                   

Óleo sobre tela                                            

Lisboa, 1966                                                 

Assinado e datado: Botelho, 66                 

 

“A Baixa – Lisboa”             

Óleo sobre tela

Lisboa, 1966

Assinado e datado: Botelho, 66

 

“Lisboa – Restauradores”                         

Óleo sobre tela                                            

Lisboa, 1960                                                

Assinado e datado: Botelho, 60                 

 

“Bercy – Sena”

Óleo sobre contraplacado

Paris, 1931

Assinado e datado: Botelho, XXXI

 

O pintor

 Carlos Botelho (1899 – 1982) pintor de Lisboa onde nasceu, viveu e morreu, foi também desenhador, ilustrador, caricaturista e decorador tendo-se revelado exímio retratista da sua cidade natal. Filho de pais músicos, a sua formação musical (tocava violino) irá acompanhá-lo ao longo de toda a vida e de alguma maneira reflectir-se na poética da sua obra.

A descoberta do desenho e da criatividade dá-se no liceu Pedro Nunes onde estudou, levando-o mais tarde, a frequentar a Escola de Belas Artes, numa breve passagem de dois anos, de onde acabará por sair, por não se identificar com o carácter do ensino convencional e institucional da mesma, o que não lhe permitiu terminar a formação académica, mas não o impediu de ter prosseguido uma carreira reconhecida nacional e internacionalmente, tendo-se tornado um polivalente artista autodidacta.

 

O seu percurso artístico-profissional inicia-se com a produção de cartazes publicitários e com a colaboração em diversas revistas como caricaturista, humorista e ilustrador de banda desenhada, tendo mantido uma relação continua durante mais de vinte anos com o semanário Sempre Fixe, onde sob a forma de desenho, retratava humorística e subtilmente o quotidiano de uma Lisboa tradicional (ainda) fechada sobre si mesma.

Consciente das suas capacidades, parte para Paris na busca de um ensino diferente e mais actualizado do que aquele que conhecia da Academia de Belas Artes de Lisboa, frequentando Academias Livres como “Grande – Chaumiére” e a “Colarossi”, onde se praticava uma aprendizagem artística alternativa aos padrões conservadores da École des Beaux – Arts.

 

A “redescoberta” da pintura dá-se na sequência destas curtas passagens de aprendizagem, datando de 1929 a primeira representação de Lisboa com uma pintura do Zimbório da Basílica da Estrela, tornando-se Lisboa o tema central (mas não único) e constante ao longo de toda a sua carreira e cujas representações o tornaram famoso.

O gosto pela representação da paisagem urbana, revela-se aquando da estadia em Paris com a execução de diversas pinturas, entre as quais Bercy (na colecção FMA), que retratam diferentes locais da capital francesa, vindo esta temática a estender-se e prosseguir em Lisboa mas também, noutras cidades como Nova Iorque, Amesterdão, Veneza.

 

No regresso a Lisboa não só se dedica à pintura, sucedendo-se as exposições individuais e colectivas, tanto em Portugal como no estrangeiro, como passará a integrar a equipa do Secretariado Nacional de Informação, onde se manteve até 1969 (tendo tido um atelier no Palácio Foz nos Restauradores, sede do SNI). A colaboração com esta entidade levá-lo-á a participar na decoração do pavilhão de Portugal na exposição de Vincennes em 1931, Paris em 1937 e Nova Iorque e São Francisco em 1939 e na Exposição do Mundo Português em 1940. Viajou também para Amesterdão e Itália, locais que igualmente aparecem reflectidos no seu trabalho e que lhe permitiram apreender outras realidades artísticas. Realiza cenários para o grupo de bailado “Verde Gaio” que acompanha em tournée a Madrid e Barcelona, enquanto director de cena. Tornou-se assim, um dos mais reconhecidos artistas da 2ª geração do Modernismo português.

 

À predilecção inicial pelo gosto da representação de Lisboa, não terá sido alheia a mudança de casa em 1930, para o Palácio Marquês de Tancos, situado na Costa do Castelo, onde instala o seu primeiro atelier e de onde tinha uma vista privilegiada sobre uma Lisboa tradicional, colorida e luminosa e onde viveu e trabalhou até ao final da década de 40.

Nesta fase inicial do seu trabalho, a sua pintura apresenta-se em tons intensos de laranjas, castanhos, ocres, negros, …em que a técnica de execução passa pelo uso de espessas camadas de tinta opaca.  À representação da paisagem urbana junta-se uma outra linha: a narrativa quotidiana e o retrato de cariz expressionista, sob a influência de Van Gogh (assumida pelo pintor) no ondulado e acentuação dos contornos a escuro. Esta fase que se irá prolongar pelos anos 40, terá tendência a alterar-se com o progressivo desaparecimento destas duas últimas temáticas, em particular a partir do pós-guerra, quando o pintor traça novos caminhos para a sua obra. Neste período, Lisboa é retratada de forma intimista: recantos, escadinhas, gradeamentos, largos, becos, janelas e telhados que se espraiam até ao Tejo, (quase) sempre presente. A família vai ser o principal tema dos retratos executados por Botelho. Os filhos José Rafael e Raquel, a mulher Beatriz e até mesmo a mãe e o pai, perdido aos 10 anos de idade, todos surgem representados em pintura de cores fortes e intensa expressividade.

 

A narrativa de temática social surge ainda na década de 30, prolongando-se até ao início da de 60 mas diminuindo progressivamente, à medida que os anos 50 se desenrolam. Cenas e tipos populares como saltimbancos, lotas de peixe, cegos, ciclone de Lisboa, carnaval, varinas, mercados todos são representados por Botelho.

O facto de ter saído do atelier da Costa do Castelo e de se ter mudado para um novo espaço no Buzano (Parede), reflectiu-se no seu trabalho: agora, este apresenta-se feito de memória e não à vista como até aí, passando a fazer então, uma reinterpretação dos locais, concebendo novas paisagens. Ao mesmo tempo, a técnica altera-se: ao inicial traço largo de pastas de tinta, sucedem-se finas camadas cromáticas quase transparentes que se apresentam de tonalidades claras e luminosas. É neste período, década de 50, que em simultâneo, experimenta o abstracionismo onde a geometrização das linhas e a intensidade das cores exuberantes predominam, não ignorando, no entanto, a temática de Lisboa que agora surge representada simplisticamente num cruzamento de linhas geometrizadas, de forte intensidade cromática, com cores como vermelho, laranja, verde bandeira, roxos, azul tinta e amarelo. Datam igualmente desta época os estudos para tapeçarias e painéis de azulejo caracterizados por este gosto geométrico.

 

Ao percurso abstracionista acabará por se sobrepor a eterna e constante representação de Lisboa progressivamente concretizada em tons pastel, em planos bidimensionais sobrepostos, de linhas simplificadas em que a transparência da luz se torna uma prioridade, pintura tão do agrado do público e que acabará por se tornar a imagem de marca do pintor, que a executará até à morte.

A sua longa carreira permitiu-lhe participar em dezenas de exposições tanto no País como fora dele, tendo sido premiado tanto em Portugal como no estrangeiro.  O seu trabalho nunca deixou de se centrar nas vistas de Lisboa, que Botelho considerava ter-lhe dado o “modelo” para a sua pintura, cuja representação se vai alterando ao longo dos anos, da cor intensa de pincelada pastosa para a cidade luminosa, clara, e geometrizada dos anos 60 e 70.

 

Carlos Botelho virá a morrer na sua cidade em 1982, tendo-se tornado num dos nomes de referência da pintura portuguesa do século XX.

As pinturas da colecção da Casa – Museu

 

Possui a coleção da Casa – Museu Medeiros e Almeida quatro pinturas de Carlos Botelho adquiridas directamente ao autor, em diferentes ocasiões, por António Medeiros e Almeida, que com ele mantinha uma relação de amizade desde os tempos de liceu, quando os dois frequentaram simultaneamente o liceu Pedro Nunes em Lisboa, sendo Botelho visita da casa dos pais de António Medeiros e Almeida.

 

Deste núcleo de pinturas faz parte Bercy – Paris datada de 1931, adquirida por 6.000 escudos (em data não especificada) na época em que Botelho tinha já o seu atelier na Avenida João XXI.

Neste óleo sobre madeira, Botelho representa a ponte de Bercy em Paris, numa reinterpretação. A pintura de pincelada grossa e empastada com maior evidência da mancha do que do contorno, executada em tonalidades escuras e neutras como bege, cinza, verde e castanho, definem as características caras ao pintor nesta fase inicial do seu trabalho.

Construída entre 1861 e 1864, a ponte de Bercy veio substituir uma outra suspensa, datada de 1832. Constituída por cinco tramos com 175 metros de comprimento, os pilares são decorados por medalhões de folha de louro, tendo as chaves dos arcos a jusante o N de Napoleão III. Em 1904, a ponte sofreu obras de alargamento e de construção de um viaduto por cima, de forma a permitir a travessia do metro, transformações essas aqui ignoradas por Botelho e por isso não representadas.

 

Botelho representa em1960 a praça dos Restauradores, em Lisboa, submersa por cheias. Embora à época já não estivesse a trabalhar no atelier que durante anos manteve no Palácio Foz, é natural que esta tenha sido executada a partir de esquissos aí realizados ou da memória de um espaço que lhe era tão familiar.

A representação está confinada apenas a uma parte da praça, onde não aparece o monumento que lhe dá nome, mas onde sobressaem as inundações que submergem o espaço assim como, as obras entaipadas da construção do Metropolitano, que então se fazia (inaugurado em finais de 1959) dando estas últimas um apontamento de modernidade a Lisboa. Desta forma, Botelho afasta-se de uma Lisboa popular e tradicional, tantas vezes representada anos antes, a partir do atelier na Costa do Castelo.

Como lhe é habitual, a representação é quase desprovida de figuras humanas aqui apenas aflorada por uma presença no meio das águas.  A profundidade acentuada pelos telhados dos edifícios, é dada pela sucessão de planos bidimensionais que conduzem o olhar desde a praça inundada até à linha demarcada pela colina e muralhas do castelo de São Jorge que assumem um papel cenográfico.

 

Lisboa adquirida ao pintor no seu atelier da avenida João XXI, representa uma vista da cidade tradicional na qual a arquitectura característica dos bairros típicos como Alfama se evidencia. O pintor joga com a verticalidade dos edifícios para criar uma noção de profundidade presente no Tejo (tema recorrente na sua pintura) que se estende até ao infinito, apenas pontuado por algumas embarcações que o atravessam. Como no caso dos Restauradores, também aqui, os planos bidimensionais se sucedem, sendo a perspectiva acentuada pela linha e cor contrastante dos telhados.

O recurso às cores claras como o amarelo, azul, lilás e verde água, integra-se numa fase avançada da obra do pintor. A suavidade cromática apenas pontuada por elementos mais carregados como varandins, portas e persianas reflecte de forma realista a tradição arquitectónica da cidade, mas não necessariamente a reprodução fiel do local.

 

Em 1968, António Medeiros e Almeida adquire A Baixa – Lisboa, na exposição realizada no Liceu Pedro Nunes aquando da comemoração dos 50 anos da actividade artística de Carlos Botelho, que expôs pela primeira vez exactamente na Reitoria deste liceu.

O pintor representa aqui uma das suas vistas predilectas em Lisboa, várias vezes pintada, a partir de um varandim na calçada do Marquês de Tancos de onde se avista todo o casario até ao Tejo, que se impõe como fundo. Pelo meio das casas sobressai o Arco da rua Augusta, a claraboia da Câmara Municipal de Lisboa e ainda as torres sineiras de uma igreja (São Paulo?), para aqui transpostas num exercício interpretativo de criatividade da sua visão de Lisboa.

Como habitualmente, a obra estrutura-se em três planos, em que o primeiro é o varandim, o segundo o casario colorido que se espraia em anfiteatro em direcção ao Tejo sendo o terceiro constituído pelo rio e serra da Arrábida na margem esquerda e que delimita o horizonte.

Botelho manteve-se (in)fiel à paleta cromática suave em que se cruzam azuis, verdes, rosas lilases claros e que o caracterizou numa fase adiantada da sua carreira, não deixando contudo, de trazer de representações passadas os laranjas, ocres e azuis intensos.

 

Cristina Carvalho

Casa – Museu Medeiros e Almeida

 

 

Bibliografia

 

Artistas Modernos Portugueses na 2ª Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo, Lisboa: SNI, 1953-1954

Catálogo exposição A Banda Desenhada Portuguesa 1914 – 1945, Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de arte Moderna, Lisboa, 1997

Catálogo da exposição Carlos Botelho os anos diferentes Palácio Galveias, Lisboa: Livros Horizonte, 1994

Catálogo da exposição Botelho, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Arte Moderna, Lisboa,1989

França, José Augusto – O Modernismo na Arte Portuguesa. Biblioteca Breve vol. 43, 3ªed. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa / Ministério da Educação, 1991

SILVA, Raquel Henriques; BOTELHO, Manuel, Carlos Botelho, Lisboa: Editorial Presença, 1995

 

Outras Fontes

Desdobrável da exposição Botelho, Liceu Normal de Pedro Nunes, Lisboa, 1968

Desdobrável da exposição Óleos de Carlos Botelho, Galeria São Mamede, Lisboa, 1978

 

Trabalho académico

Rodrigues, Eloísa; Os Restauradores de Botelho, Licenciatura História da Arte, 3º Ano, 1º Semestre, História da Arte do Século XIX e XX em Portugal, FCSH – UNL, 2010-2011

Sanchez, Raquel; Obras de Carlos Botelho, Licenciatura História da Arte,

 

Webgrafia

http://mvdp.web.ua.pt/autor.php?autor=43

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/LisboaRevM/N8_9_10/N8_9_10_master/N8_9_10.pdf

https://gulbenkian.pt/cam/artist/carlos-botelho/

http://www.metrolisboa.pt/empresa/um-pouco-de-historia/

http://www.museuartecontemporanea.gov.pt/pt/artistas/ver/33/artists

https://structurae.info/ouvrages/pont-de-bercy

Artista

FMA 7745 - Desconhecido / FMA 7729 - Desconhecido

Ano

FMA 7745 - ca. 1810 / FMA 7729 - ca. 1900

País

FMA 7745 - Suíça / FMA 7729 - Suíça

Materiais

FMA 7745 - Prata, esmalte, metal e vidro / FMA 7729 - Ouro, esmalte, metal e vidro

Dimensões

FMA 7745 - Diam. 5,6 cm. ; Peso 109,5 gr. / FMA 7729 - Diam. 5,3 cm. ; Peso 127,5 gr.

Categoria
Destaque