Centro de mesa esmaltado “Fonseca e Évora”, Destaque Julho de 2016

Centro de mesa esmaltado “Fonseca e Évora”, Destaque Julho de 2016

O centro de mesa


A origem da ideia do centro de mesa remonta ao reinado do monarca francês Luís XIV (1638-1715) aquando do desenvolvimento da chamada arte da mesa – art de la table – que contribuiu para o aparecimento de toda uma parafernália de objetos associados à mesa, tanto a nível de serviço como da decoração.

 

Neste âmbito surge o surtout de table (ou milieu de table), um centro de mesa de casa de jantar que evoluiu de um objeto utilitário, uma simples base para galheteiros, saleiros ou castiçais para, na primeira metade do século XVIII se tornar numa desenvolvida galeria com funções utilitárias e decorativas. Este conjunto permanecia na mesa durante toda a refeição, iluminando e disponibilizando aos comensais o acesso direto aos condimentos, tão em voga à época, e a doçarias. O centro de mesa era composto por uma base (muitas vezes espelhada) por vezes com diversas partes (para se adaptar ao comprimento da mesa) sobre a qual se reuniam recipientes para doces e frutas, polvilhadores, saleiros, galheteiros, terrinas de condimentos e molheiras bem como diversos elementos decorativos, fixos ou amovíveis, como estatuetas, jarras com flores, urnas, cestos e castiçais. O conjunto compunha uma espécie de micro arquitetura que, por sua vez, contribuía para a encenação própria do espetáculo barroco também associado à mesa. De início eram utilizados metais preciosos como ouro e prata mas, com o tempo, surgiram centros de mesa em bronze dourado, porcelana e vidro. O século XIX continuou a tradição produzindo peças magníficas.

 

Símbolo de riqueza e de status, era comum a aristocracia encomendar centros de mesa de acordo com a moda sendo desenhados por artistas de renome. O ourives francês Pierre Philippe Thomire (1751-1843) produziu, em 1818, um centro de mesa com cerca de sete metros que o rei Luís XVIII ofereceu ao Príncipe de Nápoles Ruffo della Scaletta (hoje pertence ao espólio de Waddesdon Manor, um palácio da família Rothschild).

 

De produção portuguesa destaca-se a baixela chamada “Baixela da Vitória”, oferecida por Portugal ao Duque de Wellington em 1816, em reconhecimento pelas vitórias alcançadas nas Guerras Peninsulares (1807-1814). O desenho foi encomendado ao pintor régio Domingos António de Sequeira (1768-1837). Elaborado em prata dourada, o conjunto tem mil peças sendo que o centro de mesa, chamado sobretodo na literatura antiga, tem oito metros de comprimento e um metro de largura. A maior parte das peças encontra-se ainda hoje em Aspley House, a residência londrina do Duque de Wellington. http://www.english-heritage.org.uk/visit/places/apsley-house/history/

 

Exemplos de surtouts de table:


Museu de Artes Decorativas, Paris. Plano de uma mesa para jantar de aparato. Desenho, França, c. 1770 – http://collections.lesartsdecoratifs.fr/plan-d-une-table-dressee-pour-un-diner-d-apparat


 

Hôtel de Charost, Paris, França. Sala de jantar de aparato – https://en.wikipedia.org/wiki/Surtout_de_table#/media/File:H%C3%B4tel_de_Charost_JP2010_salle_%C3%A0_manger.jpg

 

Museu de Artes Decorativas, Paris. Anónimo, Espanha, cerca 1800 –  http://collections.lesartsdecoratifs.fr/deux-modeles-de-surtout-de-table

 

O epergne

Epergne é um termo francês utilizado para descrever um centro de mesa de jantar inglês, utilizado desde o primeiro quartel do século XVIII, inspirado nos centros de mesa franceses mas mais simples na sua composição. Tratam-se de peças de aparato, geralmente de prata, mas também existentes em outros metais e cerâmica, compostas por um recipiente central elevado o qual sustém diversos braços destacáveis de onde se suspendem castiçais, taças, tacinhas e cestos, por vezes em vidro, destinando-se a colocar flores, frutas e doces. A peça é normalmente apoiada em três a oito pés.
O termo epergne – sem tradução para português – é uma corruptela da palavra francesa épargne que significa “poupança” mas teve anteriormente a forma mais inglesa de aparn que foi alterada em meados do séc. XVIII. A associação está relacionada com a facilidade de acesso pelos comensais aos produtos dispostos permanentemente na mesa e à poupança no trabalho dos criados.
Exemplos de epergne:

 

Centro de mesa (epergne), James Young, Londres, 1783-84, prata. Palácio Nacional de Queluz –
http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=1000364

 

Epergne, Thomas Pitts, Londres, 1763-64, prata. Museu Victoria & Albert –  http://collections.vam.ac.uk/item/O157883/epergne-pitts-thomas/

 

A peça da Casa-Museu

Recipiente em bronze coberto por esmalte branco e decorado com esmaltes pintados em policromia. O recipiente em forma de naveta, ostenta quatro pontas na sua orla e é suportado por quatro pés. As pontas da naveta, em forma de flor, apresentam um orifício destinado a suportar braços de castiçais ou para suspender cestos (inexistentes). O recipiente é suportado por quatro pernas formadas por espagnolettes – torsos de figuras femininas desnudas – que se adossam ao seu corpo terminando os pés em desenvolvidas volutas.

 

No interior do recipiente, o fundo em bico é tapado por uma placa.

De fundo branco, a decoração da peça faz-se em painéis, emoldurados por frisos, profusamente decorados com enrolamentos vegetalistas e arabescos em policromia, ao estilo Bérain – decoração classicizante em voga no século XVIII – dominando os tons azuis, rosas e amarelos.

 

O bojo ostenta ao centro o brasão da família do Bispo encimado por chapéu cardinalício e ladeado pelas respetivas borlas.

A peça julgava-se incompleta devido à falta dos elementos (castiçais) que se suspendiam dos braços, porém, um estudo recente (agradecemos a informação fornecida por Luísa Vinhais da Jorge Welsh Works of Art) trouxe ao nosso conhecimento, uma peça semelhante, porém completa.

 

Qual não foi a nossa admiração quando verificamos que a peça da Casa-Museu constitui somente o elemento central de um conjunto de doze peças composto por recipiente central com seis braços (lumes) assente numa base onde se dispõem ainda dois polvilhadores, quatro galhetas, quatro taças e duas terrinas de condimentos.

 

A peça em questão, também armoriada, pertence ao acervo do Museu Wadswoth Atheneum situado em Hartford no Connecticut (EUA). (http://argus.wadsworthatheneum.org/Wadsworth_Atheneum_ArgusNet/Portal/public.aspx?lang=en-US Nota – na caixa de procura escrever: centerpiece)

 

Perante as descrições tipológicas atrás feitas, somos levados a concluir que a peça da Casa-Museu é o recipiente central de um centro de mesa – surtout de table – cuja tipologia lembra um epergne.

 

Armas do Bispo Fonseca e Évora

Descrição das armas de família do Bispo Dom Frei José de Fonseca e Évora -
Armas: Ribeiro, Figueiredo, Fonseca. Escudo em cartela, partido: I, cortado: 1ºde vermelho, duas palas de amarelo; 2º de negro, duas faixas veiradas e contraveiradas de branco e vermelho; 2º do cortado, partido: 1º de branco, três faixas de vermelho, sendo a 2ª carregada de E de azul; 2º de vermelho, cinco folhas de verde; II, de amarelo, cinco estrelas de vermelho. Chapéu, cordões e seis borlas por lado, de verde. (vide Nuno de Castro, p.87)

Bispo Dom Frei José de Fonseca e Évora

José Ribeiro da Fonseca Figueiredo e Sousa (Évora, 1690 – Porto, 1752) tomou o nome de D. Fr. José Maria da Fonseca e Évora como Bispo do Porto cargo que ocupou entre 1741 e 1752. (Retrato de Fonseca e Évora por João Glama Ströberlle, c. 1749 – Irmandade dos Clérigos do Porto https://commons.wikimedia.org/wiki/File:D._Frei_Jos%C3%A9_Maria_da_Fonseca_e_%C3%89vora.png )

 

Mestre em Artes pela Universidade de Évora e Doutor em Direito Canónico pela de Coimbra. Fonseca e Évora entrou na Ordem Franciscana tendo vivido no Convento de Aracoeli em Roma, durante vinte e oito anos. Em Roma, enquanto embaixador do rei D. João V, foi agente na compra de obras de arte, nomeadamente na encomenda de peças de ourivesaria barroca e de escultura para a Basílica de Mafra. 
A convite do monarca regressou a Portugal em 1740 para se sagrar como 56º Bispo do Porto em 1741 (nomeado em 1739). Uma das grandes figuras da sociedade e cultura da primeira metade do século XVIII, Fonseca e Évora foi membro da Academia Real de História e deixou uma considerável obra de poesia e prosa.

 

Paralelamente reuniu importante coleção de arte italiana, vendida em hasta pública após a sua morte, para pagar as muitas dívidas. Entre as peças famosas encontram-se um busto seu (Carlo Monaldi, 1740) pertença da Fundação da Casa de Bragança e exposto no Paço Ducal de Vila Viçosa e a famosa crossa de báculo, hoje pertencente ao espólio do Museu Nacional de Soares dos Reis.

 

Serviços de porcelana da China


Fonseca e Évora, já enquanto Bispo do Porto e seguindo a moda que atravessava toda a Europa, terá encomendado três serviços de mesa armoriados (existem três tipos de decoração) em porcelana da China de exportação decorados com as suas armas (como atrás descritas). 
Fundação Dionísio Pinheiro e Alice Cardoso Pinheiro – Covilhete brasonado Fonseca e Évora: http://www.fundacaodionisiopinheiro.pt/pt/o-museu/coleccao/ceramica?start=12


Travessa brasonada Fonseca e Évora (Sotheby’s) – http://www.sothebys.com/en/auctions/ecatalogue/lot.170.html/2009/fine-chinese-ceramics-works-of-art-l09710

 

O esmalte pintado

Esmalte é uma matéria vítrea fundida, composta por uma mistura de pederneira ou areia com chumbo vermelho e soda ou potássio. Estes materiais fundidos produzem uma pasta translúcida à qual se juntam os corantes durante o processo de fusão. Os corantes são óxidos metálicos – cobre para o verde, cobalto para o azul, ferro para o vermelho, zinco para o branco, manganésio para o violeta e antimónio, chumbo ou prata para o amarelo. Após as misturas e a secagem, o esmalte é reduzido a pó. 
Existem diferentes técnicas de trabalho com esmalte sobre metal: o champlevé, o cloisonné e o esmalte pintado que surge enquanto evolução das outras duas técnicas. Tratam-se de objetos em cobre cuja superfície é totalmente esmaltada (principalmente a branco) e posteriormente pintada, também com esmaltes, numa paleta de cores vivas. Esta última técnica surge no século XV em Limoges, França, na tradição do trabalho do famoso trabalho de cloisonné que notabilizou este centro produtor entre os séculos XII e XIV.

 

O trabalho de esmalte cloisonné tinha sido introduzido na China na dinastia Ming pelo que a técnica não era desconhecida. A pintura sobre suportes de metal esmaltados foi introduzida na China em finais da década de 80 do século XVII, no reinado do imperador Kangxi (1654-1722). O registo mais antigo da presença de peças na China data de 1684 quando o imperador recebeu uma caixa de rapé em esmalte pintado, oferecida por emissários europeus. Em 1687 Luís XIV envia uma embaixada de missionários jesuítas à China que levava peças em esmalte pintado para o imperador que muito as aprecia segundo relato de um dos emissários, o padre Jean de Fontenay SJ. Dois anos mais tarde, as Manufaturas Imperiais de vidro em Pequim já estavam a produzir, para além de vidro pintado com esmaltes, peças de cobre esmaltado e pintado, porém a qualidade não era a desejada, tendo os imperadores Kangxi e Yongzheng (1723-1735) solicitado inúmeras vezes que lhe fossem enviados peritos da Europa (à semelhança de outros matemáticos, médicos, astrónomos e relojoeiros).
Os artesãos chineses usaram na produção de esmaltes pintados, técnicas utilizadas na porcelana como a cozedura e o vidrado. Os vidreiros europeus introduziram novas técnicas e paletas de cor como o famoso ruby glaze (tom rosado que contém partículas de ouro) que veio a ser integrado na decoração da porcelana já feita com esmaltes. Os fornos de Jingdezhen começaram a produzir com esta nova paleta nos finais do reinado de Kangxi dando início (c.1720) à porcelana fencai (conhecida como “família rosa”).

 

O patrocínio imperial de Kangxi, Yongzheng e também de Qianlong (1736-1795) gera a demanda destes objetos. O paralelo com a produção de porcelana vai influenciar tanto as tipologias como a gramática decorativa da produção de peças de cobre esmaltado e pintado. Tratam-se de peças decorativas como pratos, covilhetes, bacias, gomis, potes, jarras, bules, caixas, caixas de rapé, castiçais e placas. O exemplar da Casa-Museu tem uma tipologia e decoração fora do comum sendo que existem poucas peças esmaltadas brasonadas. Existindo um embargo na China para a exportação de cobre, já que o próprio dinheiro era feito de cobre, a produção de esmaltes pintados é porém consideravelmente reduzida em relação a outros produtos como a porcelana ou a laca sendo feita a nível particular e não das grandes companhias de comércio e transporte.

 

Proveniência
De acordo com os registos da leiloeira, a peça pertenceu à coleção de Lady Catherine Maitland Henderson (1915-2010) uma colecionadora escocesa tendo sido adquirida em leilão da Sotheby’s de Londres, a 27 de fevereiro de 1973 por £ 4.600.

 

Maria de Lima Mayer

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Bibliografia:

AZEVEDO, Carlos Moreira de – Dicionário de História Religiosa de Portugal, Rio de Mouro: Círculo de Leitores, 2000

BEYSSI-CASSAN, M. – Le métier d’émailleur à Limoges: XVIe – XVIIe siècle, Limoges: Presses Universitaires de Limoges, 2006

CASTRO, Nuno de – A Porcelana Chinesa e os Brasões do Império, Lisboa: Civilização Editora, 1987

SPEEL, E. – Dictionary of Enamelling. History and Techniques, Vermont: Ashgate Publishing Company, 199

8
SPEEL, E. – Painted Enamels. An Illustrated survey 1500-1920, London: Lund Humphries, 2008

TEIXEIRA, José Monterroso (coord. ed.) – O Triunfo do Barroco, Lisboa: Fundação das Descobertas, 1993

VALE, Teresa Leonor M. – As encomendas de arte italiana de D. Frei José Maria da Fonseca Évora (1690-1752). In: FERREIRA-ALVES, Natália Marinho (coord.) – A Encomenda. O Artista. A Obra. Porto: CEPESE, 2010

VINHAIS, Luisa (coord. ed.) – China of all colours, Painted enamels on copper, Londres: Jorge Welsh Research and Publishing, 2015

CALVÃO, João Rodrigues – Caminhos da Porcelana, Dinastias Ming e Qing, Lisboa: Fundação Oriente, 1998

 

Dissertação de mestrado:


CONDE DA SILVA, Maria Manuela Ribeiro – Inventariação de retratos pictóricos dos bispos do Porto, Vol. II Inventário. Dissertação de Mestrado em História da Arte Portuguesa, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto: 2011

 

Consultas online:

CURTIS, Emily Byrne – French Missionary Records for the Kangxi Emperor’s Glass Workshop http://www.npm.gov.tw/exh100/academic/download/1/paper/Paper05.pdf


XIAODONG, Xu – Europe – China – Europe: The transmission of the craft of painted Enamel in the 17th and 18th Centuries, University of Warwick https://www2.warwick.ac.uk/fac/arts/history/ghcc/…/3.5_xu.doc

Página eletrónica Diocese do Porto – http://www.diocese-porto.pt/cronologia/

Artista

Desconhecido

Ano

Dinastia Qing, reinado Qianlong (1736-1795), 1776

País

China

Materiais

Porcelana vidrada e pintada

Dimensões

Terrinas (2): Alt. 22 cm x Comp. 33 cm x Larg. 24 cm; Travessa: Alt. 5,3 cm x Comp. 37,8 cm x Larg. 30,2 cm; Travessa: Alt. 3,5 cm x Comp. 41,5 cm x Larg. 35,7 cm

Categoria
Destaque