Colheres de Natal (Juleskeen) – Destaque em Dezembro 2019

 Conjunto de Colheres de Natal (18)

Ourivesaria: A. Michelsen (1841-1985) / 18 artistas dinamarqueses

1965-66-67 / 1970-72-73-74-75-76-77-78-79 / 1980-81-83-84-85

Vermeil e esmaltes

Comp. c. 16cm x Larg. c. 3cm

 

Conjunto de dezoito colheres em prata dourada, comemorativas da época do Natal – Juleskeen – de produção dinamarquesa, desenhadas a cada ano por um artista convidado.

 

A oferta de colheres:

A tradição de fazer e oferecer colheres terá começado paralelamente em diferentes regiões da Europa como nas ilhas britânicas, nos países escandinavos, nos Alpes Suíços ou nos Balcãs ainda no século XVII. A tradição, provavelmente proveniente do hábito de fazer colheres para a cozinha, derivou para a manufatura de colheres com simbologia associada ao amor.

Estes objetos, as chamadas “colheres do amor” (love spoons), eram esculpidos à mão, a partir de um só pedaço de madeira e decorados de acordo com a imaginação de jovens rapazes que produziam bonitas peças para serem oferecidas às suas amadas; entre a simbologia representada incluem-se corações, ferraduras para boa sorte, chaves que simbolizavam o caminho para o coração, sinos que aludiam ao casamento, pares de pássaros, etc.

As colheres eram feitas nas longas noites de inverno ou pelos marinheiros durante as suas viagens, sendo oferecidas como expressão das intenções amorosas e como símbolo da capacidade de trabalho da madeira, logo de sustento da família. As raparigas, que podiam receber diversas colheres, expunham-nas nas paredes de casa.

A tradição manteve-se até ao início do séc. XX quando a chegada da industrialização e da I Guerra Mundial fizeram desaparecer a manufatura. O País de Gales foi um dos poucos lugares onde a produção de colheres do amor se manteve por mais tempo.

Ao longo dos tempos, este hábito derivou para a oferta de colheres, não necessariamente associadas ao tema do amor, mas enquanto um objeto ornamental, colecionável que conheceu adeptos por toda a parte, existindo ainda hoje exemplos muitas empresas com produção de colheres anuais ou de Natal como o fabricante alemão Robbe & Berking: https://shop.robbeberking.com/jahresloeffel-2019.html?___store=ruben , a Klepa Arts Germany, os americanos Reed & Barton ou Gorham Manufacturing Company, ou ainda a dinamarquesa Georg Jensen, de que a Casa-Museu possuiu o exemplar comemorativo do centenário: 1872-1972.

Na Dinamarca, a firma Anton Michelsen incorporou na estética da sua produção o estilo nórdico antigo (Old Nordic Style) tendo recuperado valores tradicionais populares, entre os quais a ideia da oferta de colheres, que começou a produzir em materiais nobres.

Anton Michelsen:

A ourivesaria A. Michelsen A/S foi fundada em 1841, em Copenhaga por Anton Michelsen (1809-1877), um ourives dinamarquês descendente de uma família de joalheiros. A sua aprendizagem teve lugar em Odense em 1829 tendo-se mudado para a capital onde continuou o seu treino na Academia Real de Artes Decorativas, na firma Dyrkoph e nos joalheiros da corte J.B. Dalhoff.

Em 1836 Michelsen empreende uma longa viagem pela Europa tendo trabalhado com os grandes ourives da Alemanha e França. No seu regresso, em 1941, abre negócio na capital chamando desde logo a atenção da família real que o vem a nomear joalheiro oficial da corte e das Ordens em 1848 e lhe encarrega todas as encomendas oficiais. Para designers da firma, Anton contrata artistas nacionais garantindo propostas sempre atuais e uma estética refrescada.

Em 1855 é o único ourives dinamarquês a ter representação na Exposição Universal de Paris.

Anton é um dos primeiros a trabalhar no estilo conhecido como “Old Nordic style” (estilo nórdico antigo), o primeiro estilo genuinamente dinamarquês que surgiu na sequência da criação do Museu Nórdico Antigo, em 1807, que abrigava obras de etnografia (nomeadamente da época Viking) e de arqueologia e que inspirou a gramática decorativa da época, imbuindo um sentimento nacionalista nos artistas coevos.

O filho, o neto e o bisneto de Anton continuaram o negócio continuando a estratégia de contratação de artistas de renome como designers,  mantendo a reputação da firma, por exemplo, em 1920 a contratação do arquiteto Ib Lunding veio trazer a introdução de elementos coloridos às peças, tanto no jogo de diferentes metais como na utilização de esmaltes policromados. Este material,  sai do âmbito da produção de insígnias, trazendo nova vivacidade à ourivesaria dinamarquesa.

Em 1941, por ocasião do centésimo aniversário, o Museu de Artes e Ofícios Dinamarquês dedicou uma exposição retrospetiva à empresa.

O trabalho de Anton Michelsen, bem como o dos seus sucessores marcou a ourivesaria dinamarquesa no seu dinamismo, novidade, promoção dos artistas nacionais e de uma estética própria.

Em 1985 a firma foi fundida com a ourivesaria Georg Jensen A/S fundada em 1872.

 

A partir de 1910, a firma inicia a produção de uma colher comemorativa do período do Natal, encomendando todos os anos, a um artista dinamarquês o desenho da peça alusivo à época. Em 1913 o esmalte é introduzido na decoração da colher de Natal pelo neto de Anton, Poul Michelsen que desenha a colher desse ano. Posteriormente, nos anos 30’s é introduzido um garfo criando um conjunto e, a partir de 1980 dois novos elementos são acrescentados: a colher de chá e o garfo de bolo.

No intuito de promover o colecionismo destas peças, a sua produção é limitada, e após um ano, os moldes são destruídos.

Marcas:

As peças estão marcadas no reverso do cabo com a punção da casa: A:MICHELSEN STERLING DANMARK e a letra C para a cidade de Copenhaga. As colheres são feitas em prata banhada a ouro de 24 quilates apresentando a marca .925S.

As peças apresentam ainda as assinaturas de cada artista responsável pelo desenho. Como a produção é específica do período de Natal,  as colheres têm no cabo a inscrição JUL (Natal), acompanhada do respetivo ano.

As peças eram apresentadas numa caixa que continha um folheto com informações sobre o artista e o tema proposto. A Casa-Museu mantém parte desta documentação.

As colheres da Casa-Museu:

A coleção Medeiros e Almeida tem no seu acervo dezoito colheres de Natal correspondentes a várias datas entre os anos sessenta e os anos oitenta. Desconhece-se se existiram mais peças que possam ter-se perdido ou encontrar-se na posse da família.

As colheres em prata dourada apresentam decoração incisa em esmaltes policromados.

JUL 1965 – Theresia Hvorslev (1935-?) “The Christmas Tree” (A árvore de Natal)

T. Hvorslev foi uma talentosa aluna de Sven-Arne Gillgren a directora artística na famosa joalharia sueca G. Dahlgren & Co. tendo sido também aprendiz na Georg Jensen em Copenhaga. É uma das mais influentes ourives suecas contemporâneas com representação em diversos museus como o Cooper-Hewitt de Nova Iorque.

 

JUL 1966 – Jorgen Dahlerup (1930-2015) – “The Flight into Egypt” (A Fuga para o Egipto)

J. Dahlerup foi um ourives que estudou escultura e desenho industrial na Academia Real de Belas Artes Dinamarquesa. O seu trabalho está representado em museus na Alemanha e Dinamarca. Tinha paixão pelo desenho de objetos religiosos.

 

JUL 1967 – Paul-René Gaugin (1911-1976) “Splendor of Yule” (O esplendor de “Yule”)

Paul-René Gaugin foi um pintor, artista gráfico, escultor, ilustrador e cenógrafo dinamarquês. Nasceu em Copenhaga, era filho de Pola Gaugin e neto do pintor Paul Gaugin. É conhecido pelas suas coloridas xilogravuras.

 

JUL 1970 – Mogens Zieler (1905–1983) “Mr. Snowman’s Christmas Tree” (A árvore de Natal do Homem da Neve)

M. Zieler foi um pintor, gráfico e ilustrador dinamarquês.

 

JUL 1972 – Bjorn Wiinblad (1918-2006) “Herold” (Arauto)

Bjørn Wiinblad, foi um pintor dinamarquês, designer e artista de cerâmica, prata, bronze, têxteis e gráficos. O seu trabalho foi exibido na Europa, nos Estados Unidos da América em 1954 e no Japão, Austrália e Canadá em 1968.

 

JUL 1973 – Ib Spang Olsen (1921-2012) “Winter solstice” (solstício de inverno)

Ib Spang Olsen era um escritor e ilustrador dinamarquês, conhecido por gerações de dinamarqueses pelos seus desenhos animados e ilustrações, muitos dos quais para publicações infantis.

 

JUL 1974 – Carl-Henning Pedersen (1913-2007) “The blue bird”  (O pássaro azul)

C-H. Pedersen foi um pintor dinamarquês, membro chave do movimento COBRA, um movimento artístico de vanguarda inspirado pela arte popular nórdica, pelo expressionismo e pelo surrealismo. Conhecido como o Hans Christian Andersen da pintura, Pedersen foi um artista prolífico conhecido por criar trabalhos coloridos invocando a fantasia e os contos de fadas. Autodidata, a sua inspiração vinha de artistas como Picasso, Braque ou Chagall.

 

JUL 1975 – Per Arnoldi (1941 -) “Shooting Star” (Estrela cadente)

P. Arnoldi trabalha com materiais diferentes incluindo pintura, escultura, cerâmica e posters tendo desenhado para diversas instituições. A sua caraterística expressão simplista é por vezes apelidada de arte moderna. Arnoldi trabalhou em diferentes países tendo a sua obra exposta em museus como o MOMA de Nova Iorque.

 

JUL 1976 – Gudmund Olsen (1913 – 1985) “Snow Crystal” (Cristal de neve)

G. Olsen foi um pintor e gráfico que se estabeleceu em Paris durante a II Guerra Mundial onde desenvolveu o estilo construtivista. Em 1954 mudou-se para a Dinamarca e continuou as suas experiências com cores, camadas e volumes resultando em composições muito bem estruturadas.

 

JUL 1977 – Poul Hanmann (1915 – 1981) “Winter Rose” (Rosa de inverno)

P. Hanmann foi vencedor das prestigiosas bolsas da Academia Dinamarquesa em 1953 e da Hesselund em 1976 e de vários prémios ao longo da sua carreira. O pintor modernista estudou com Rostrup Bysese que influenciou o seu trabalho. Foi professor de pintura e desenho em Copenhaga, especializou-se em desenho figurativo, especialmente de mulheres nuas e procurou sempre a simplificação da paleta e das suas composições.

 

JUL 1978 – Vibeke Alfelt (1934-1999) – “Solstice” (Solstício)

V. Alfelt era filha dos artistas Carl-Henning Pedersen e Else Alfelt, com quem estudou pintura e desenho desde cedo. Tal como os pais, esteve muito envolvida no movimento modernista COBRA. Ao longo da sua carreira, a figura do cavalo foi desempenhando um papel cada vez mais importante, tendo-se tornado o seu “leitmotiv”. Trabalhou muito no estrangeiro encontrando-se obra sua em diversos museus.

 

JUL 1979 – Lars Aakirke (1926-2004) “The Sun Kingdom” (O reino do sol)

L. Aarkirke foi um pintor formado pela Royal Danish Academy of Fine Arts de Copenhaga e foi influenciado pelo pintor William Scharff, responsável pela introdução do cubismo na Dinamarca. Era casado com a pintora Vibeke Alfelt.

 

JUL 1980 – Egill Jacobsen (1910-1998) “The Mask” (A máscara)

E. Jacobsen foi um pintor dinamarquês que se tornou professor na Royal Danish Academy of Fine Arts. Foi membro dos movimentos “Groningen”, “COBRA” e “Free Exhibition”. Expôs em todo o mundo tendo ganho diversos prémios. A sua obra está representada em vários museus.

 

JUL 1981 – Falke Bang (1912-1998) “Robin Redbreast” (Pisco-de-peito-ruivo)

F. Bang foi um escultor e ilustrador que ficou conhecido pelos seus desenhos de animais e trabalhos de impressão em papel.

 

JUL 1982 – Kamma Svensson (1908-1988) “The Queen of Sheba” (A rainha de Sabá)

K. Svensson foi uma pintora e ilustradora com um caraterístico estilo muito colorido. Estudou em Copenhaga e Berlim, foi criadora para jornais, revistas e livros de autores dinamarqueses.

 

JUL 1983 – Lars Bo (1924-1999) “The Snow Queen” (A rainha da neve)

L. Bo foi um artista e escritor dinamarquês conhecido por seus trabalhos gráficos com motivos fantásticos de inspiração surrealista que ficou conhecido como o “Mago”. Ilustrou muitos livros nomeadamente para Hans Christian Andersen. Foi ilustrador do “Le Monde” em Paris, cidade onde veio a falecer.

 

JUL 1984 – H. M. Margrethe II (1940-) “The Christ Child” (Cristo Menino)

Rainha Margarida II da Dinamarca Desde 1970, a rainha tem-se dedicado à pintura, têxteis para igrejas, aguarelas, gravuras, ilustrações de livros, recorte de imagens, cenografia e bordados. A sua obra tem sido exposta na Dinamarca e no estrangeiro.

A propósito da sua inspiração, Margarida II da Dinamarca referiu: “Inspirei-me no altar de Verdun em Klosterneubourg, perto de Viena, uma obra de ouro e esmalte realizada pelo mestre Nicolas de Verdun que data de 1181. As estatuetas em bronze dourado e incrustado de niello estão apostas em cinquenta e nove placas. Os detalhes dos panejamentos são sublinhados com um traço de esmalte azul (…) O rigor da arte romana, o seu caráter ligeiramente estilizado agrada-me. Acho que convém ao desenho desta colher de Natal. O ornamento deve subordinar-se ao objeto e à sua utilização.” (tradução da autora)

 

JUL 1985 – Naja Salto (1945-2016) “The Bird Sheaf” (A casinha do pássaro)

N. Salto era uma pintora e artista têxtil dinamarquesa lembrada pelas tapeçarias de cores vivas, muitas representando cenas do mar e do céu e motivos da mitologia nórdica. Formou-se na Royal Danish Academy of Fine Arts, na Escola Nacional de Teatro e Cenografia e na Academia de Arquitetura.  O seu interesse na cenografia refletiu-se nas tapeçarias modernas com imagens pictóricas e decoração religiosa. Também criou joalharia para a G. Jensen e vitrais e no final da vida deixou a tapeçaria pela pintura.

A propósito da criação desta colher, a artista referiu uma tradição familiar, popular na Dinamarca, em que todos os anos se pendurava uma casinha para pássaros no exterior da sua casa, perto da janela do quarto das crianças, para que estas pudessem testemunhar a vida dos passarinhos.

 

Proveniência:

As dezoito colheres foram oferecidas a Medeiros e Almeida em cada Natal, por Jens Skytte, vice-presidente de uma fábrica de açúcar de beterraba sacarina dinamarquesa, a De Danske Sukkerfabrikker, situada em Copenhaga, com a qual a Sinaga de Medeiros e Almeida tinha negócios.

 

A De Danske Sukkerfabrikker A/S:

A De Danske Sukkerfabrikker A/S (Fábrica Dinamarquesa de Açúcar) foi fundada em 20 de abril de 1872 com o objetivo de produzir açúcar a partir da beterraba sacarina. Na fundação, duas antigas refinarias de Copenhaga foram adquiridas. Logo nesse ano foi construída a primeira fábrica de açúcar de beterraba da empresa em Odense, seguindo-se a fundação de várias outras unidades pelo país.

O Danish Sugar Museum, em Nakskov expõe atualmente diverso material e documentação sobre as fábricas da empresa, atualmente chamada Nordic Sugar pertencendo ao grupo alemão Nordzucker.

A ligação a Medeiros e Almeida dá-se através do negócio do açúcar que este também produzia na Fábrica de Santa Clara (desde 1929) e depois na Sinaga Sarl (a partir de 1967) na Ilha de São Miguel nos Açores. Estas unidades produziam açúcar também a partir do melaço da beterraba sacarina, uma espécie diferente da utilizada na alimentação, que se apresenta em forma de cone e chegando a pesar cerca de 1 kg. A beterraba sacarina constitui uma variante ao açúcar proveniente da cana de açúcar que não é produzida na Europa sendo somente refinada nas unidades fabris do nosso continente.

 

Maria de Lima Mayer

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

NOTA: A investigação é um trabalho permanentemente em curso. Caso tenha alguma informação ou queira colocar alguma questão a propósito deste texto, por favor contacte-nos através do correio eletrónico: info@casa-museumedeirosealmeida.pt

 

Webgrafia:

https://en.wikipedia.org/wiki/De_Danske_Sukkerfabrikker

https://www.nordicsugar.com/about-nordic-sugar/more-than-100-years-of-experience/

http://www.sinaga.pt/index.php?page=historial

https://en.wikipedia.org/wiki/A._Michelsen

http://www.silvercollection.it/WORLDSILMICHELSEN.html

https://www.gravsted.dk/person.php?navn=antonmichelsen

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Artista

A. Michelsen (1809-1977) / 18 artistas dinamarqueses

Ano

País

Copenhaga, Dinamarca

Materiais

Vermeil, esmalte

Dimensões

Comp. c. 16cm x Larg. c. 3cm

Categoria
Destaque