Joias do séc. XVI ao séc. XVIII – Destaque Setembro 2017

Joias do séc. XVI ao séc. XVIII – Destaque Setembro 2017

Ouro, prata, diamantes, berilos (?), topázios (?), cristal de rocha (?)

De Oriente para Ocidente

 A produção de joalharia na Europa medieval era muito limitada pela escassez no acesso às matérias-primas como ouro, prata e pedras preciosas. Apanágio de apenas algumas elites como altos dignitários do Estado e da Igreja, as jóias constituíam-se como símbolo de status e devoção. Ouro, prata, rubis e diamantes, chegavam à Europa vindos do longínquo e desconhecido Oriente, por via terrestre através da rota da seda, entrando na Europa via Veneza, em pequenas quantidades, apenas acessíveis a muito poucos mas, não menos fascinantes e por isso mesmo, desejadas.

 

Neste contexto, a joalharia na Europa medieval e por consequência em Portugal, pauta-se pela realização de objectos devocionais e de representação, em que o sagrado e o profano embora separados, por vezes se cruzam, num mimetismo de cerimonial, reservado à nobreza, à corte e à Igreja, (por onde muitas vezes a nobreza passa). O escasso número de peças produzidas e existentes é reflexo disso mesmo: cruzes processionais, cálices, custódias, anéis, colares, fazem parte das tipologias ligadas ao cerimonial, que ainda hoje podem ser encontradas em espaços museológicos e que nos revelam o gosto antes da “revolução” proporcionada pela abertura da Rota do Cabo em 1498 e que permitiu o acesso directo aos mercados abastecedores.

 

A Europa vê-se então “inundada”de matérias – primas (muitas delas desconhecidas) a preços mais acessíveis, que transformam o gosto e os hábitos de consumo, ao ponto de ter sido necessário legislar para controlar a ostentação da riqueza, ao longo dos reinados de D. Manuel, D. João III e D. Sebastião. A joia difunde-se, espalha-se, torna-se objecto de desejo e de adorno, enfeita e embeleza quem a usa, “democratizando-se” o seu uso, mas não se perdendo no entanto, a sua aura de devoção que persiste nas peças de culto e representação, privilégio das elites.

Não raras vezes, estas elites constituídas pelas famílias reais e nobres coleccionaram peças de adorno mas também, objectos faustosos e raros muitas vezes ricamente ornamentados com pedras preciosas, ouro e materiais raros e exóticos como o marfim, a casca de tartaruga, o coral… que expunham em gabinetes de curiosidades, (espaços expositivos próprios) onde com espanto eram admirados.

 

A partir da abertura da rota do Cabo em 1498 por Vasco da Gama, que o Oriente (Goa, Pegú, Ceilão, Bornéu, Bahrein) se tinha tornado o mercado abastecedor de Portugal em gemas e metais preciosos, fazendo de Lisboa um importante centro produtor de jóias, atraindo comerciantes, ourives e lapidadores de outras regiões europeias. Durante o século XVII e apesar do domínio espanhol entre 1580 e 1640, da perda do domínio de Ceilão em 1658, da entrada em cena no comércio internacional dos holandeses, o Oriente perdurou como centro abastecedor da Metrópole, onde continuavam a afluir os tão desejados produtos.

 

Esta facilidade de acesso à matéria-prima trouxe a Lisboa artesãos de outras partes da Europa que aqui se instalaram e trabalharam acabando por influenciar o tipo de jóia produzida num cruzamento de gostos. Exemplificativo disto, possui a colecção da Casa – Museu um pendente em forma de sereia FMA 904 executado no século XIX, num revivalismo das joias da Renascença, em que o colorido dos esmaltes associado às pérolas irregulares, ao ouro e às gemas, se tornaram muito populares pela bacia do Mediterrâneo, tendo perdurado a sua produção até ao século XVIII.

A temática marinha não menos popular, em particular em Portugal, Espanha e Veneza dada a sua relação com o mar, aludia ao exotismo e ao fantástico tanto através dos temas sugeridos (sereias, delfins, navetas, temas mitológicos…) como dos materiais empregues. No século XIX, o historicismo revivalista encarregou-se de recuperar a manufactura desta tipologia de jóia, de que o pendente em forma de sereia com duas caudas faz parte, integrando-se tipologicamente nas peças que aparecem no álbum de desenhos de Arnold Lulls, editado entre 1585 e 1640, actualmente nas colecções do Victoria and Albert Museum – http://collections.vam.ac.uk/item/O1051839/designs-for-jewellery-by-arnold-sketchbook-lulls-arnold/

 

Tendo transitado do século XVI, de possível influência oriental e de produção ibérica, uma vez que, modelos desta índole são encontrados tanto em Portugal como em Espanha, os brincos de cadeado FMA 849/850 em ouro, esmalte e pérolas, correspondem a uma tipologia que embora variável nos modelos assume características próprias. Em geral, combinam estas três matérias-primas com uma especial predilecção pelos esmaltes de cor verde e branca (por vezes também o negro) nos elementos esmaltados, associando quase sempre pérolas de forma irregular e ouro. Os modelos podiam ser mais ou menos compridos, adoptando formas estilizadas, onde por vezes, podiam aparecer animais como o golfinho. Progressivamente, o gosto pelos esmaltes irá diminuir no entanto, esta tipologia de brincos persistirá (ainda) no século XVIII, como no caso do par pertencente à Casa – Museu que apresenta a marca do ouro do contraste de Braga, de João Nunes da Cruz, datada de 1753 e que exibem uma particularidade pouco comum ao empregarem esmalte de cor vermelha para definirem os olhos dos “golfinhos”.

 

A circulação pela Europa de livros de estampas de desenhadores de diferentes países era importante fonte de inspiração para os artífices nacionais, que assim se mantinham actualizados no gosto e tendências da moda, não sendo por isso de estranhar, a popularidade que certos modelos adquiriram, como os adornos de corpete (Veja aqui alguns exemplos dos arquivos do Museu Victoria and Albert, Londres – http://collections.vam.ac.uk/search/?listing_type=imagetext&offset=0&limit=15&narrow=1&extrasearch=&q=cerini&c).

 

Constituíram-se como das joias mais exuberantes da época, de que a colecção da Casa-Museu possui um importante exemplar. De prata, ouro e diamantes apresenta ao centro o monograma AM (Ave Maria) o que remete a sua origem para o adorno de uma imagem da Virgem, numa transmutação do profano para o sagrado. O elaborado trabalho dos metais que se sobrepõe às pedras, assim como, a utilização de diamantes em talhe rosa são reveladores da erudição da peça e da complexidade da sua execução.

 

Do mesmo período e não menos importante, é o pendente coroado FMA 876 em ouro e diamantes, reflexo da qualidade técnica e do gosto português na ourivesaria de transição do século XVII para o XVIII. Este tipo de jóia conheceu grande popularidade em Portugal, assumindo uma forma própria a partir de laços de vestuário e de joalharia como pendentes em forma de laço, em que se desenvolve o gosto pelas montagens em ouro de motivos vegetalistas estilizados, finamente cinzelados realçados pela recente descoberta do diamante facetado em talhe mesa e rosa (24 facetas) cujo brilho era assim acentuado. Ao tardoz estava reservado igualmente um papel de relevo, ao passar a ser também ele, delicadamente gravado com motivos vegetalistas, numa demonstração de boa qualidade da produção da ourivesaria barroca portuguesa.

Luz e cor

A partir de 1699, a descoberta das minas de ouro no Brasil, fruto das viagens organizadas pelos bandeirantes com o intuito de explorar o interior do território, até então desconhecido, levou à transferência do principal mercado fornecedor de ouro a Portugal, de Oriente para Ocidente, passando então, a afluir ao Continente grandes quantidades do precioso metal.

Igualmente importante embora um pouco mais tardia, a descoberta de jazidas de pedras preciosas no interior do Brasil em Minas Gerais em finais da década de 1720, veio alterar o eixo comercial (tal como do ouro localizado a Oriente) do abastecimento destas matérias – primas a Portugal.

As minas brasileiras revelaram a existência de toda uma nova panóplia de gemas como ametistas, topázios, águas marinhas, cristais de rocha, granadas, crisóberilos, para além dos diamantes, cuja exploração começa cerca de 1730.

 

Estas transformações virão a reflectir-se no gosto e na moda da joalharia que assim uma vez mais se metamorfoseia, consequência de um acesso (agora) muito mais facilitado aos materiais preciosos. Da relevante estrutura metálica em voga no séc. XVII realçada pelas gemas, a jóia transmuta-se em pedras de coloridos reflexos cintilantes, ficando ao metal apenas reservado o papel de suporte das mesmas. Lapidadas como o diamante, as outras gemas tentavam imitá-lo no esplendor, fazendo grande sucesso não só pelo efeito estético, mas também porque mais económicas. A este êxito não terão sido alheias as técnicas de lapidação até então aplicadas ao diamante e que são transpostas para estas “novas gemas”.

 

A “proliferação” de diamantes em Portugal a partir do século XVI conduziu ao aperfeiçoamento e aplicação de novas técnicas de lapidação: do simples talhe em ponta de diamante vindo da Idade Média, a técnica apura-se no início do século XVII, para facetar pedras em talhe mesa (com 10 facetas), desenvolvendo-se ao longo deste século, o talhe rosa que em Portugal geralmente apresenta 24 facetas e que persistirá no gosto até meados do século XVIII, convivendo com um novo tipo de lapidação surgido em finais do século XVII: o brilhante. Agora, as 58 facetas deste talhe permitiam às gemas um esplendor, brilho e refracção da luz, até aí desconhecidos.

 

Menos fulgurantes mas (quase) igualmente fascinantes pela sua magnificência e (sobretudo) preço mais acessível, topázios, berilos, cristais de rocha, etc. passam a ser lapidados como os diamantes, numa tentativa de aproximação ao tão desejado brilho, proporcionado pelo talhe brilhante. No entanto, dadas as características das pedras, estas não eram tão resplandecentes como aqueles, por isso, o seu fulgor era frequentemente realçado por um “estratagema” oculto: um forro prateado, dourado ou de outras tonalidades designado por folheta, que era usado sob a pedraria de forma a acentuar as suas cores e reflexos. Este subterfúgio foi também aplicado a outras pedras como águas – marinhas, ametistas granadas, com o objectivo de acentuar e / ou uniformizar a sua cor.

Muito popular ao longo do século XVIII (prolongando-se pelo XIX) foi a produção de jóias com emprego de uma grande variedade de pedraria incolor (vinda do Brasil) em montagem de prata, que genérica e vulgarmente, adquiriu a denominação de “Minas Novas”. Do ponto de vista gemológico e mineralógico tal designação não corresponde a nenhuma gema em particular pois, estas jóias foram executadas com pedras como o cristal de rocha, topázio incolor, berilo incolor e água – marinha (quase incolor). No entanto, Minas Novas refere-se também a uma localidade no interior do estado de Minas Gerais, fundada em 1730 aquando da descoberta de jazidas de ouro nesse local. Esta denominação acabou por se popularizar e ser transposta para a joalharia que empregou estas gemas incolores e que chegavam algures deste estado. Actualmente, apenas preserva o valor histórico.

O aparato da jóia assume então, contornos de riqueza, cor e brilho, nunca antes vistos.

 

Seguindo muitas vezes modelos de origem francesa ou neles inspirados, os artífices portugueses continuam a recorrer aos livros de estampas europeus que então circulavam pela Europa, numa permanente actualização do gosto. Surge por essa altura, a moda dos conjuntos de peças (adereço e meio – adereço) em que se associam sob a mesma decoração brincos, colares, pendentes, broches ou pulseiras, que em geral nesta época, eram articulados com vários elementos destacáveis podendo transformar-se em função do momento, da vontade e da moda, sendo mais discretos ou esplendorosos segundo a ocasião, aumentando ou diminuindo de tamanho. Pregadeiras, brincos e colares apresentam pingentes destacáveis de maior ou menor dimensão que modificam a aparência das jóias, que neste período, vivem da exuberância das pedras utilizadas na sua execução, relegando para um papel absolutamente secundário o metal que as suporta.

 

Numa transposição vinda do século XVII, continua a existir uma predilecção pelos motivos em forma de laço, mais ou menos complexo com ou sem fitas, simples ou duplo, os quais ao longo do século, terão tendência para serem complementados com pingentes de maior ou menor complexidade, que ornam igualmente os brincos do conjunto, numa explosão fantasiosa de cor provocada pelas tonalidades da pedraria usada, sobreposta ao metal tornado praticamente invisível. Adornos de corpete, brincos, pendentes, colares, enfeites de cabelo (ou trémulos), alfinetes de peito são as tipologias de peças mais populares na época, podendo associar ou não, diversos tipos de pedras e cores, mas que, à medida que o século avança e se aproxima do fim terão tendência para se tornar simplisticamente monocromáticos, anunciando a linearidade do neoclassicismo.

 

De crisoberilos (de cor amarelo – esverdeada) engastados em prata, é o par de brincos FMA 870/871 constituído por botão, laço e pendente articulados, seguindo um modelo que preconiza já o gosto neoclássico dada a pureza de linhas que manifesta, numa execução técnica de grande qualidade, ao tornar a prata quase invisível. O conjunto apresenta-se dentro de estojo de marroquim forrado a veludo e seda.

De proveniência desconhecida, o meio adereço FMA 857-859 (conjunto que associa menos de três tipologias de peças) de colar e brincos em prata e topázios, berilos, ou cristal de rocha integra-se nas características da produção de finais do século XVIII em que o gosto neoclássico se começa a fazer sentir ao simplificar os elementos decorativos, das peças articuladas (passíveis de serem desmontadas) do colar. Também o uso de folhetas por trás das pedras e o suporte metálico quase invisível como forma de realçarem as gemas usadas, remetem claramente para o gosto vigente neste período. O conjunto mantém o seu estojo em marroquim gravado a ouro com interior forrado a seda e veludo.

Frequentemente, os conjuntos eram apresentados dentro de estojos próprios (que muitas vezes reproduziam as formas do recheio), de couro que podia ser decorado por gravação a ouro e com interior forrado a veludo, em geral de cor escura (azul / castanho) onde assentavam as peças e seda (bege / branca) na tampa. Este complemento confirmava a elegância, bom gosto e qualidade do conteúdo, num período áureo da joalharia portuguesa.

 

Cristina Carvalho

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

 

Bibliografia:

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Sousa, Gonçalo de Vasconcellos e – A joalharia em Portugal 1750 1825, Livraria Civilização Editora, Porto 1999

 

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