“Criança perseguindo uma borboleta em Water Lane, Dedham, Suffolk”, Destaque Novembro de 2013

“Criança perseguindo uma borboleta em Water Lane, Dedham, Suffolk”, Destaque Novembro de 2013

Paisagem de floresta, casas e campos cercados. No primeiro plano uma criança que persegue uma borboleta serve de mote para o título do quadro e um grupo formado por uma senhora com duas crianças. Ao fundo, sobressaindo entre o frondoso arvoredo, a torre de uma igreja.

 

O paisagismo inglês:


“As nações parecem ter estações. Durante séculos permanecem em repouso, na melhor das hipóteses produzindo obras menores, e de repente, por uma variedade de motivos, florescem para uma nova vida”. SHIPP (p.41)

 

O paisagismo não era uma temática importante em si própria em Inglaterra, mas durante o século XVIII convergem uma série de fatores e influências que darão lugar a que este tenha um grande desenvolvimento e, já na primeira metade do século seguinte, se imponha definitivamente como um género em si próprio.

 

Por um lado o paisagismo inglês bebe da tradição flamenga. No norte de Europa, já desde o século XV existia um interesse pela paisagem, que cada vez se tornará mais acentuado, como podemos observar nas obras de Joachin Patinier ou Pieter Brueghel. Na Holanda protestante os artistas, procurando um género para substituir os objetos de devoção, deram atenção à paisagem, que ganhou um novo protagonismo e espiritualidade.

 

 

Outra influência fundamental será a vinda de Itália, nomeadamente das paisagens idealizadas da escola Veneziana do século XVI, mas também da escola romana com nomes como Nicolas Poussin e Claude Lorrain no século XVII. O ‘Grand Tour’, com paragem obrigatória em Itália, teve uma importância vital na formação de muitos jovens ingleses, tanto artistas como nobres que, de regresso a Inglaterra, encomendavam obras ao gosto italiano.

 

Importante também para o paisagismo inglês será o desenho topográfico que viveu na altura uma época de grande evolução. Estas aguarelas estavam no início repletas de clichés e careciam de rigor, mas pouco a pouco estes artistas aprenderam a observar a natureza e a plasmá-la com todas as suas variantes. É de destacar que muitos destes artistas trabalhando em Inglaterra no fim do século XVII eram estrangeiros e por isso esse será também um campo através do qual se introduziram diversas influências.

 

Finalmente não há que deixar de lado o facto de que, com o desenvolvimento financeiro e de produção que se deu na Inglaterra do século XVIII, e que abriria o caminho para a industrialização, os grandes senhores do campo queriam aparecer associados às suas terras, o que levou a que quisessem ser retratados no campo, assim como a querer ter a sua própria região incluída nos livros de gravuras por encomenda – o que alargou o mercado para aguarelistas e gravadores -, e que o pedido de pinturas de grande formato para decorar as suas casas de campo aumentasse consideravelmente, abrindo um novo universo de expansão deste novo género.

 

 

John Constable:
“Na segunda metade do século XVIII, Inglaterra alcançou um período no que a arte avançou a grandes passos. Primeiro Reynolds e Gainsborough (…) e Constable e Turner no fim da centúria”
SHIPP (pp.41-42)

 

John Constable nasce em East Bergholt, Suffolk, a 11 de junho de 1776. Será o quarto filho e o segundo filho varão de um abastado comerciante de milho mas, como o seu irmão mais velho era deficiente, cabe-lhe a ele tomar as rédeas da empresa familiar. Porém rapidamente convence ao seu pai que o deixe seguir um percurso em artes e será o seu irmão mais novo que fica a cargo do negócio.

 

Aos 23 anos vai para Londres estudar na Royal Academy e logo se habituará a passar os invernos em Londres regressando no verão à sua terra natal. Em 1816 casa com Maria Bicknell, contra a vontade da família desta, e após o nascimento do último dos filhos Maria morre, ficando John a criar sozinho os sete filhos.
Desde cedo o tema principal do seu trabalho será a paisagem, embora tenha pintado também alguns retratos e algumas obras de temática religiosa. Uma crítica que na altura teve de enfrentar foi a de que simplesmente pintava o que via, mas a verdade é que a suas paisagens estão baseadas não só num constante estudo da natureza, como também dos grandes mestres da pintura, sendo conhecedor das tradições holandesa e italiana de paisagismo e mantendo-se sempre informado das diferentes tendências em relação ao paisagismo da altura, chegando ele próprio a lecionar aulas sobre esta temática no fim da sua vida.

 

Constable realizava esquissos a óleo diretamente da natureza – hoje em dia altamente apreciados e valorizados – muitas vezes com um apurado grau de pormenor, o que era muito complicado numa época na que ainda não existiam os tubos de pintura e esta tinha de ser preparada e carregada em saquinhos de coiro. Nestes esquissos também incluía anotações sobre as condições atmosféricas e sobre a luz, duas das suas grandes preocupações.
A sua forma de pintar influenciará não só aos seus contemporâneos, como Théodore Géricault ou Eugène Delacroix, ou o seu conterrâneo William Turner, como também abrirá caminho para os impressionistas franceses do fim do século.

 

“Criança perseguindo uma borboleta em Water Lane, Dedham, Suffolk”:

“Deverei de pintar melhor a minha terra. Pintar não é mais do que uma outra palavra para sentir”
John Constable (citado por PAULSON, p.)

 

Embora tenha pintado paisagens em vários pontos geográficos – como as suas excelentes telas da catedral de Salisbury – Suffolk, e mais concretamente a vila de Dedham será sem dúvida uma constante no seu trajeto, como nesta obra da Casa-Museu ou “Dedham Church and Vale” de 1800, “Dedham Vale” de 1802 e “View of Dedham” de 1814, entre outros.  Em todas as obras mencionadas, a localização é reconhecida de imediato, ao aparecer com maior ou menor destaque a torre de St. Mary the Virgin, que ele pintou em mais de vinte e seis ocasiões, sendo precisamente esta reiteração temática em relação à sua terra natal que levou a que esta parte da região ficasse conhecida como “Constable Country”.

 

Nesta obra, da que não conhecemos a data exata, mas que é sem dúvida atribuível à época inicial do seu percurso, estão já presentes muitas das características que o viriam a distinguir. Em primeiro lugar é óbvio, desde logo pelo título por que é conhecida, que o seu interesse não se centra única e exclusivamente na natureza, senão que existe sempre um elemento humano presente de uma forma mais ou menos óbvia, seja este pessoas, uma cerca, uma povoação ou a torre de uma igreja, rejeitando cenários exclusivamente naturais.

 

 

Por outro lado, Constable junta uma visão quase topográfica, estruturando a tela em base a acidentes geográficos e demarcações territoriais – como o caminho que atua aqui como eixo, ou a vedação e a cancela do lado direito -, à experiência sensível da vivência da paisagem.
Embora nesta obra não seja tão evidente como em outras mais tardias, a preocupação com a captação do ambiente e da passagem do tempo está também já presente no céu, no movimento das roupas e cabelos das personagens do primeiro plano ou no tratamento da luz.

 

Em relação às figuras do primeiro plano, torna-se chocante a rudeza do acabamento e a aparente falta de perícia na pintura destas personagens, nomeadamente a falta de vida do grupo à direita e a expressão quase animalesca da criança que persegue a borboleta. Este desenho grosseiro pode dever-se em parte a ser esta ainda uma obra inicial, mas também muito provavelmente à falta de interesse do artista pela captação fiel das personagens, já que sendo estas meramente elementos compositivos e não um foco principal de atenção, pretendem captar o ambiente geral da paisagem e não criar uma pintura de costumes.

 

 

Em 1978 a autoria desta obra suscitou dúvidas ao Senhor Medeiros e Almeida, já que com a publicação dos estudos de Leslie Parris e Ian Fleming-Williams, muitas obras até então atribuídas a John Constable estavam a ser reatribuídas ao seu filho Lionel. Após uma troca de correspondência com Hugh Leggatt, na altura à frente da firma onde o quadro tinha sido comprado, e do parecer de outros teóricos, a atribuição original foi confirmada.

 

Proveniência:
Adquirido a 26 de junho de 1948 na Leggatt Brothers – 30 St. James’s Street, Londres -, juntamente com outras três pinturas: “Ponte sobre o rio Rossini”, de Richard Wilson, “Paisagem de Floresta”, de Thomas Gainsborough, e “Vista de Escócia”, de Jane Nasmyth, todos eles em exposição permanente na Casa-Museu.

 

 

A Leggatt Brothers foi uma firma de negociantes de arte e editores de estampas criada em 1820 pelos filhos de Henry Leggatt. Manteve-se em activo durante 172 anos, passando por diferentes localizações, até encerrar portas em 1992 quando Sir Hugh Leggatt se viu forçado a cessar a atividade por problemas de saúde.

 

Samantha Coleman-Aller

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Bibliografia:
CLARK, Kenneth; Paisagem na Arte, Lisboa: Editora Ulisseia, 1961

HAWES, L.; Presences of nature. British Landscape 1780-1830, New Haven: Yale Center for British Art, 1982

HERRMANN, L.; British Landscape Painting of the 18th Century, Londres: Faber & Faber, 1973

PAULSON, R.; Literary Landscape: Turner and Constable, Yale University, 1982

SHIPP, Horace; The English Masters, Londres: George Newnes Limited, 1955

VENNING, B.; Constable. The Masterworks, Londres: Studio Editions, 1990

WILLIAMS, I.A.; Early English Watercolours, Londres: The Connoisseur, 1952

Artista

John Constable (1776-1837)

Ano

1800

País


Inglaterra

Materiais


Óleo sobre tela


Dimensões


Alt. 89 cm x Larg. 108 cm

Categoria
Destaque