“Cristo Coroado de Espinhos”, Destaque Junho de 2013

“Cristo Coroado de Espinhos”, Destaque Junho de 2013

O tema desta pintura; ‘Cristo Coroado de Espinhos’ faz referência a uma passagem bíblica inserida no ciclo da Paixão, relatada pelos evangelistas Mateus (27:27-29) e Marcos (15:16-18). Nesta passagem, Cristo, depois de ser interrogado por Pilatos, é levado pelos soldados para o Pretório onde é coroado com uma coroa de espinhos e aclamado “Rei dos Judeus”. Esta passagem é também conhecida como Cristo no Pretório, Cristo escarnecido pelos Judeus, Senhor da Cana Verde, Bom Jesus da Pedra Fria.

A pintura Flamenga:

O vibrante contexto económico dos séculos XV e do início do século XVI no norte da Europa foi caracterizado pelas intensas relações mercantis que ligaram Bruges  e Antuérpia aos centros comerciais e culturais mais ativos. Nesse sentido, a pintura do Quattrocento italiano e as suas mais recentes novidades impregnadas do espírito humanista foram largamente divulgadas, tendo os pintores flamengos começado a admirar e a integrar as novidades da pintura italiana. A obra  de Quentin Metsys (1466-1530), por exemplo, reflete esse ‘italianismo’ na integração da gramática compositiva da pintura de Leonardo da Vinci, sobretudo no que diz respeito à índole monumental das composições e às qualidades da cor.

No início do século XVI, foram os trabalhos de Jan Gossaert que continuaram esta tendência, coincidindo com um grande período de prosperidade dos Países Baixos e nomeadamente de Antuérpia que se tornou no centro da vida cultural, política, económica e social da época.

Ao adquirir as principais marcas do Renascimento italiano e do espírito humanista, a pintura flamenga definiu o seu rumo ao longo do século XVI, abandonando a linha do gótico tardio.

Jan Gossaert:

Jan Gossaert nasceu em Maubeuge em 1478 e morreu em Antuérpia em 1533. O registo da sua carreira é muito incompleto não se conhecendo ao certo a sua formação. Em 1503 entra para a Guilda de S. Lucas de Antuérpia.

Mabuse esteve grande parte da vida ao serviço da Casa de Borgonha. Em 1508, como pintor de Filipe da Borgonha e fazendo parte da sua formação, viajou até Itália onde conheceu Roma, Florença, Verona e Mântua, contactou com vários mestres como Leonardo da Vinci e Rafael di Sanzio e fez vários estudos e cópias da arte greco-romana, acabando por se tornar num entusiasta da Antiguidade Clássica. Para além da pintura, o autor dedicou-se com grande perícia ao retrato e à gravura.

Após o seu regresso a Antuérpia, trabalhou as novidades da pintura italiana com a tradição local marcando a entrada num novo período da pintura flamenga que se iria prolongar até Rubens.

O seu trabalho foca-se nas temáticas religiosas tendo pintado várias versões de Adão e Eva e de Virgens com o Menino numa variação flamenga da típica ‘Madona’ italiana e nas composições mitológicas tendo sido o introdutor de nus sensuais na arte flamenga e holandesa, como se verifica na ‘Dánae’ da Pinacoteca Antiga de Munique ou no ‘Neptuno e Anfitrite’ do Museu de Berlim.

Giorgio Vasari (1511-1574) – o primeiro ‘historiador da arte’ e autor da primeira coletânea de biografias de artistas (‘Vite, 1550’) -, refere Jan Gossaert como o primeiro artista a levar a arte do nu para o norte da Europa. Karl van Mander (1548-1606), pintor e biógrafo dos pintores flamengos da época, também o refere na sua obra como pintor de grande fama. Podemos, pois, caracterizar a produção artística de Gossaert como intensa, pessoal e inovadora.

Um dos seus grandes êxitos comerciais foram as pequenas tábuas de temáticas religiosas destinadas à devoção privada, conhecidas como ‘andachtbild’ (em alemão: imagem de devoção). A pintura da Casa-Museu será uma obra a ser destinada à devoção na esfera do privado tal como era preconizado pelas ideias do movimento da ‘Devotio Moderna’.

‘Cristo Coroado de Espinhos’:


A pequena tábua em análise representa Jesus Cristo, nu, sentado num plinto de pedra com as mãos e os pés cruzados, encostado a uma coluna com um panejamento branco no colo e coroado de espinhos. Cristo mostra atitude de serenidade e oração dirigindo os olhos ao alto. A figura de Cristo está rodeada por três personagens representando judeus que O escarnecem.

Em termos iconográficos, e conhecendo as passagens bíblicas que deram origem a esta representação, pode-se interpretar a atitude contemplativa de Cristo como um recurso ao Seu Pai, consciente que estava, do destino que O aguardava. A alteração canónica do manto que cobre Cristo de escarlate para branco, lê-se como um prenúncio do sudário que irá envolver Cristo após a morte e a presença da coluna a que se encosta como a coluna de pórfiro à qual será atado para ser flagelado numa passagem seguinte à retratada.

Segundo Ainsworth (2010) que coordenou o último catálogo raisonné do artista, o autor ter-se-á inspirado em gravuras de Dürer e de Marcantonio Raimondi que circulavam na época sobre a mesma temática e que apresentam poses similares: The Man of Sorrows, de 1511 e Marte, Vénus e Eros de 1508, ambas no Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque.

No seguimento do seu método compositivo, a composição tem características do realismo nórdico principalmente na forte carga emocional da figura do Salvador e nas figuras caricatas dos judeus (figuras que também eram replicadas em inúmeras gravuras coevas), fazendo também referências claras ao Renascimento, nomeadamente nos elementos da arquitetura clássica – já portadores de um incipiente maneirismo – que compõem o cenário e no grande efeito plástico da figura de Cristo cuja ligeira inclinação e exagerada modelação da musculatura  remetem para a influência dos grandes mestres italianos e nomeadamente para o famoso ‘Torso do Belvedere’ (Museu Pio Clementino, Vaticano) que conheceu na sua viagem a Roma. A ausência de pormenores encoraja o espectador a fazer uma meditação perante a representação da intensa dor psicológica.

Esta temática foi muito trabalhada por Mabuse, conhecendo-se cerca de vinte obras autógrafas entre pinturas, desenhos e gravuras. A obra em análise remete especificamente para um modelo criado por Gossaert em 1527; Christ on the Cold Stone, existente no Museu de Belas Artes de Budapeste.

Devido à sua prolífera produção e ao sucesso que conheceu em vida, à semelhança de outros tantos autores e dos costumes da época de se encomendarem cópias dos mestres, a obra de Gossaert foi muito copiada, existindo várias cópias deste modelo efetuadas pelos seus seguidores e copiadores. De menor qualidade, será neste tipo de produção que se insere a obra da Casa-Museu: “All of meager quality and execution, the later versions attest to the great popularity of the composition in Gossart’s waning years and thereafter.” (Tradução: De menor qualidade e execução, as  cópias posteriores atestam a grande popularidade da composição  nos últimos anos de Gossart e posteriormente – AINSWORTH, 2010, p.210).
A obra está assinada na base do plinto de pedra com a inscrição em latim: IONNES MALBODIUS INVINIT ou seja: «Jan Mabuse inventou». Gossaert era conhecido como Mabuse devido ao nome da sua cidade natal – Malbodium.

Proveniência:

Segundo a tradição uma pintura semelhante à da Casa-Museu terá sido oferecida à Rainha de Inglaterra Catarina de Bragança pelo Papa Inocêncio XI. A rainha ofereceu a pintura ao 3º conde de Castelo Melhor – primeiro proprietário do Palácio Foz em Lisboa. Em 1901 a obra foi a leilão tendo a pintura sido separada da sua moldura-relicário.
Pintura da Casa-Museu:
Em 1972 a pintura foi adquirida por Medeiros e Almeida na leiloeira ‘Dinastia Antiquários – Leiloeiros e Galeria de Arte, Lda.’,  não se conhecendo a sua proveniência – é das poucas pinturas estrangeiras que o fundador comprou em Portugal.

Maria de Lima Mayer

Raquel Sanchez Garcia (estagiária)

Casa-Museu Medeiros e Almeida

Bibliografia:

AINSWORTH, Maryan (Ed.); Man, Myth, and Sensual Pleasures, Jan Gossaert´s Renaissance, The complete works, Nova Iorque: Yale University Press, 2010

FRIEDLÄNDER, Max; Jan Gossart and Bernart van Orley,  Leyden : A.W. Sijthoff, Brussels : La Connaissance, 1972

SHIPP, Horace; The Flemish Masters, Londres: George Newes, 1953
PIJOAN, J. (Coord.); História da Arte, volume 6, Lisboa: Publicações Alfa, 1972

WEIDEMA, Sytste; KOOPSTRA, Anna; Jan Gossart: the documentary evidence, Turnhout: Harvey Miller, cop. 2012

Artista

Círculo de Jan Gossaert, dito Mabuse (1478-1533)

Ano

1º quartel séc. XVI


País


Bélgica, Antuérpia, Flandres

Materiais

Óleo sobre madeira


Dimensões


Alt. 22 cm x Larg. 19 cm

Categoria
Destaque