François Linke, Destaque Novembro de 2015

François Linke, Destaque Novembro de 2015

Estas duas peças pertencentes à coleção da Casa-Museu Medeiros e Almeida foram originalmente concebidas para serem expostas no stand do marceneiro François Linke, na Exposição Universal de Paris de 1900. Nesta exposição o autor apresentaria um total de dezasseis peças de mobiliário, de modo a criar ambientes, das quais se destacam – para além das duas aqui referidas – o Grand Bureau (conheça este móvel em: https://www.youtube.com/watch?v=VoWhgGV1wWE) e a Grande Bibliothèque. Para a realização de todo este conjunto Linke contou com a inestimável colaboração do escultor Léon Messagé, sendo que juntos desenvolveram um estilo completamente novo que, com base nas linhas do rococó, transitava já para o decorativismo sensual da arte nova, o que é bem patente nas duas obras aqui tratadas.

 

A realização das peças para a Exposição de Paris, foi não só o investimento de muitas horas de trabalho, como uma grande aposta de Linke no seu futuro, já que toda a produção correu a seu cargo sem ter nenhuma encomenda prévia em previsão de vendas, o que o poderia ter levado à bancarrota. A sua ideia era dar-se a conhecer e atrair a atenção dos novos-ricos com um estilo completamente novo que o diferenciasse dos seus pares, assim como chegar também a uma clientela internacional. A aposta foi claramente ganha com o unânime reconhecimento de crítica e do público.

 

Charles Dambreuse, um dos críticos que assistiu à exposição, diria: “L’Exposition de la maison Linke est le gros événement de l’histoire du meuble d’art en l’an de grâce 1900” (A exposição da casa Linke é o maior acontecimento da história do mobiliário no ano de 1900).

 

François Linke

François Linke nasceu a 17 de junho de 1855 em Pankraz na Boémia. Após um período de formação com um marceneiro local, Linke viajou pela Europa como assalariado entre 1873 e 1878, até se estabelecer finalmente em Paris. Em 1881, após ter trabalhado nos ateliers de mestres alemães, abre a sua própria oficina na Rue du Faubourg-Sainte-Antoine (a artéria dos marceneiros). Nesse mesmo ano casa com Julie Teutsch, com quem terá quatro filhos, dois rapazes e duas raparigas.

 

O início do seu percurso não será fácil já que havia muita concorrência na capital nessa época; durante praticamente as primeiras duas décadas de abertura do seu atelier, Linke sobrevive vendendo a sua mobília a outros marceneiros melhor estabelecidos – como Jansen e Krieger – que atuaram como intermediários. Em 1900 tudo isto mudará radicalmente com a sua participação na Exposição Universal de Paris, na qual ganha a medalha de ouro pelo seu Grand Bureau e consegue um número importante de encomendas que lhe proporcionarão benefícios que lhe vão permitir abrir uma sala de exposições permanente para as suas peças na famosa e seleta praça Vendôme em 1903. A partir desse momento a sua carteira de clientes diversifica-se, atendendo importantes pedidos de industriais e banqueiros e, nomeadamente, surge uma grande encomenda do rei Fuad do Egito para mobilar o palácio de Ras al-Tin em Alexandria. Participará também em outras feiras internacionais como a Exposição de St. Louis de 1904 – onde também ganhará a medalha de ouro – ou a exposição Franco-britânica de Londres, de 1908. Em 1906 é nomeado Chevalier de l’Ordre de la Légion d’Honneur, a mais alta distinção francesa. Até à ocupação alemã de Paris em 1940, Linke continua o seu trabalho atendendo inúmeras encomendas nacionais e internacionais. Morre seis anos depois, a 17 dias de completar os 91 anos.

 

François Linke trabalhará no início do seu percurso, como a maioria dos marceneiros seus contemporâneos sendo influenciado pelos velhos estilos Luís XV e Luís XVI; porém, pouco a pouco as suas peças – nomeadamente as peças mais extravagantes para exposição – ver-se-ão influenciadas pela Arte Nova. Nas últimas décadas do século XIX, Linke estabelece a sua frutífera colaboração com Léon Messagé, escultor, bronzista e designer, que continuará até a morte do último em 1901. Grande parte do sucesso de Linke, que ficou conhecido como o mais importante fabricante de mobiliário da Belle Époque, reside na originalidade dos desenhos, bem como na grande qualidade do trabalho das suas peças. Para Christopher Payne, curador do Arquivo Link, este será “…possivelmente o marceneiro mais procurado de finais do século XIX e inícios de século XX”.

 

Veja fotografia de Linke no seu atelier; https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/d/d6/Fran%C3%A7ois_Linke%2C_ebeniste%2C_%281855-1946%29_at_his_desk.jpg

 

Léon Messagé
Léon Messagé nasceu a 8 de março de 1842 numa pequena localidade da Borgonha. Pouco se sabe da sua vida antes dos vinte anos, momento em que existem registos da sua presença em Paris, onde trabalharia como escultor e designer de mobiliário, de pratas e outros objetos decorativos. Embora Messagé desenvolva os seus próprios projetos no seu estúdio da rue Sedaine, realizará também colaborações com outros marceneiros, como Roux et Brunet ou Joseph-Emmanuel Zwiener. Nestas colaborações, Messagé ficaria frequentemente com os direitos sobre os seus modelos, permitindo-lhe o seu uso e adaptação posterior, o que explica que bronzes praticamente iguais apareçam em peças de diferentes autores. Será provavelmente através de Zwiener que Messagé entra em contacto com François Linke por volta de 1885, iniciando uma produtiva colaboração.

 

Linke e Messagé trabalharão muito de perto na realização das peças para a Exposição de Paris de 1900. Após a realização dos desenhos prévios, Messagé fazia maquetes em cera que eram passadas para a escala adequada em madeira por parte dos colaboradores de Linke. Posteriormente Messagé realizava os moldes das figuras decorativas em cera, em tamanho real e estes eram acoplados ao móvel para poder ter uma visão do conjunto e realizar as necessárias alterações antes de fazer o investimento final nos bronzes definitivos. Esta colaboração leva Linke a ganhar a medalha de ouro, mas esta não seria a primeira para Messagé que já tinha ganho uma medalha de ouro na Exposição de 1889.

 

Em 1890, Messagé publica um livro, Cahier des Dessins et Croquis Style Louis XV, onde reúne 36 desenhos de móveis, pratas e outros objetos.
Morre a 16 de maio de 1901, com 58 anos de idade.

 

A Exposition Universelle de Paris 1900
A ideia das Exposições Universais surge em meados do século XIX como uma forma de recuperação dos orgulhos nacionais. Estas exposições eram ponto de encontro entre diferentes sectores – a indústria, a ciência, as artes plásticas, a etnologia –, sendo o seu objetivo principal ser montras para o mundo de todos os avanços de uma sociedade que se queria moderna e industrializada. A primeira Exposição Universal foi a inaugurada em Londres a 1 de maio de 1851 pela rainha Vitória sendo a França o país estrangeiro com maior representação.

 

Embora Paris já tivesse experiência na organização de grandes eventos, as feiras industriais eram apenas de âmbito nacional e as exposições de arte eram maioritariamente organizadas pelo estado, com especial destaque para os Salons. Após a exposição de Londres, a capital francesa junta-se rapidamente à corrida na organização destes eventos internacionais e interdisciplinares, acolhendo o primeiro evento em 1855, com o qual Napoleão III pretendia consolidar a sua posição política e afirmar o papel de França no mapa. A esta seguiram-se as exposições de 1867, 1878, 1889 (inauguração da Torre Eiffel) e de 1900.

 

A Exposição Universal de 1900 – cuja organização já tinha começado em 1892 – terá lugar entre 15 de abril e 12 de novembro e será a maior de todas as exposições parisienses até a altura. O evento concebeu-se como o encerrar de um século e a chegada de um novo e baseava o seu programa na celebração das conquistas alcançadas nas diferentes áreas abrindo o caminho para o futuro. Os visitantes podiam assistir a várias exibições de arte e indústria, mas também participar numa série de atrações e espetáculos. Porém, e apesar de todos os esforços realizados, esta exposição acabou por ser um grande fracasso a nível financeiro, já que os preços dos bilhetes afastaram em grande parte a população e o número de visitantes foi muito inferior ao inicialmente calculado. Teriam de passar 37 anos para que Paris voltasse a acolher uma nova Exposição Universal.

 

O Móvel de Aparato


Armário de conter de um só corpo, com duas portas desiguais que dão acesso a um interior compartimentado em cinco nichos assimétricos e duas gavetas. O móvel, encimado por um tampo em mármore “gris des Ardennes” com veios rosas e acinzentados é construído em madeira de carvalho folheada com ornamentação à base de embutidos de outras madeiras (pau-rosa, pau-violeta) e profusão de bronzes dourados. 
Toda a decoração parece aludir à deusa Vénus – deusa do amor -, que aparece representada no medalhão central junto ao seu amante, Marte – deus da guerra -, no meio de uma paisagem com cascatas.

 

 

Nos cantos superiores do móvel, dois cupidos sustentam um panejamento que se entrelaça entrando e saindo da madeira fendida e cujas pontas caem nos lados criando um efeito teatral e dando uma profundidade acrescentada a este móvel. Ladeando o medalhão central painéis embutidos com ramos vegetalistas em madeiras preciosas e nas ilhargas representações simbólicas como uma alijava de setas, normalmente atributo iconográfico de Cupido. Toda a peça parece estar concebida como uma escultura para ser contemplada de diferentes ângulos. Os bronzes estão assinados pelo próprio Linke num formato pouco habitual (F. LINKE em letras maiúsculas e não manuscritas como era hábito) e não por Messagé como era hábito.

 

No interior da porta maior, a guarda da fechadura apresenta uma inscrição numa cartela onde se lê: “Exposition Universelle 1900 / F. Linke / Paris”, o que corrobora que este seria o móvel original exposto naquela ocasião.

 

O Relógio
Relógio de caixa alta encimado por uma figura idosa alada, de gadanha em punho, que representa Cronos, a personificação do Tempo. Por baixo, o mostrador do relógio apresenta-se em forma de uma esfera azul – o globo celeste – cravejada de estrelas entre nuvens e raios solares em bronze dourado. A caixa do relógio divide-se em dois corpos; a parte superior tem a frente e as laterais em vidro permitindo ver o painel de fundo decorado com pintura com elementos vegetalistas envolvendo uma treliça pintados, simulando embutidos de madeiras tingidas. Na frente da caixa superior destaca-se um galo em bronze dourado, de asas estendidas assente num ramo de uma grande macieira que nasce na base do relógio e cujos ramos se entrelaçam e percorrem todo o conjunto – um dos troncos da macieira está assinado como os bronzes do móvel: F.LINKE. A parte inferior compõe-se de um corpo arredondado no qual, através de uma reserva circular em vidro, se vê o pêndulo, em bronze dourado, representando uma cabeça feminina de cabelos soltos muito ao gosto da Arte Nova, envolta em raios solares e num quarto de lua crescente, representando o sol e a lua. O relógio assenta em quatro pés altos que formam um arco de onde se suspende um sino – com uma função meramente decorativa e não funcional já que não tem badalo, junto ao sino, um putti inclina-se com a intenção de o percutir – o martelo porém, não existe nesta peça (que já foi adquirida assim). Sobre a base em mármore de Brecha Capraia, desenvolve-se uma composição naturalista com um pequeno curso de água que corre entre rochedos e plantas aquáticas.

 

Toda a elaborada decoração deste relógio é uma referência ao passar do tempo, desde a figura de Cronos no topo (que ceifa as vidas com a sua gadanha), até às alusões à noite e ao dia (globo celeste, lua, raios de sol, galo) e ao constante ciclo de renovação da vida transmitido pela macieira carregada de frutos e pela composição vegetalista na base aludindo às águas e à vegetação.

 

 

Embora este relógio tenha sido mostrado ao público pela primeira vez na Exposição de Paris de 1900, parece provado que a colaboração entre Linke e Messagé para esta peça teria começado quase uma década antes, já que existe um desenho publicado por Messagé no seu álbum de 1890 e uma fotografia do relógio no seu estúdio na mesma época.

 

Após o sucesso alcançado na mostra de Paris – Dambreuse dirá deste relógio que é a obra-prima do conjunto em exposição -, Linke realizará várias cópias do mesmo, provavelmente um total de oito (Conheça uma das cópias aqui: https://www.youtube.com/watch?v=1-Rbtr-1yPY). Um destes exemplares foi exposto na Exposition des Industries du Mobiliaire no Grand-Palais de Paris em 1902, na International Exhibition de St. Louis, no Missouri em 1904 e na exposição de Liège no ano seguinte.

 

Alguns destes relógios são assinados com as iniciais de Étienne Maxant, relojoeiro que trabalhou entre 1880 e 1905 na rue Saintonge e que fornecia habitualmente peças para os relógios realizados por Linke porém o da Casa-Museu está assinado pela Casa Dufaud de Paris igualmente a trabalhar na rue Saintonge desde 1870.

 

Embora não existam provas documentais que provem que o móvel e o relógio da Casa-Museu sejam os originalmente expostos na exposição de 1900, algumas características – entre as quais a particular forma como os bronzes estão assinados e a inscrição no móvel – levam-nos a pensar que seja esse o caso.

 

 

Proveniência
Estas duas peças foram feitas originalmente para a Exposição Universal de Paris de 1900. Tanto o móvel como o relógio foram adquiridos por António Medeiros e Almeida, através do antiquário Lopo Steinhardt (Beco da Bicha, nº3, Lisboa), que atuava como seu intermediário, na M. Graus Antiques, 125, New Bond Street em Londres, a 3 de fevereiro de 1971.

 

Nota: Um móvel de aparato da mesma tipologia foi vendido em leilão do Hotel Drouot, em Paris, a 3 de julho de 1996 por 2,1 milhões de francos franceses.

 

Samantha Coleman-Aller


Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Bibliografia:
AA.VV. Meubles anciens : Le goût du clinquant, Paris, Maison Française, 1996

ALAN, A., Olympia International Art & Antiques Fair London, Adrian Alan Fine Art & Antiques, 2009

BOIDI SASSONE, A., Furniture. From Rococo to Art Deco, Evergreen, 2000

LEDOUX-LEBARD, D., Les Ébénistes du XIXe Siècle: 1795-1889: leurs oeuvres et leurs marques, Editions de Lámatur, 1984

LEDOUX-LEBARD, D., Le Mobilier Français du XIXe Siècle 1795-1889. Dictionnaire des Ébénistes et des Menuisiers, Editions de l’amateur, 1989

PAYNE, C., 19th Century European Furniture, The Antiques Collector’s Club, 1981

PAYNE, C., François Linke 1855-1946. The Belle Époque of French Furniture, The Antiques Collector’s Club, 2003

 

Recursos online:


Tholozany, P., The Expositions Universelles in Nineteenth Century Paris – in Brown University Library Center for Digital Scholarship, 2011 – 
http://library.brown.edu/cds/paris/worldfairs.html#de1900

Página electrónica de Chrisopher Payne & Linke Furniture. François Linke (1855-1946) The Belle Epoque of French Furniture  
http://www.linkefurniture.com/

Artista

François Linke (1855-1946)

Ano

ca. 1900

País

Paris, França

Materiais

Carvalho, pau-rosa, pau-violeta, bronze e mármore Gris d'Ardennes (França)

Dimensões

Alt. 133 cm x Larg. 74 cm

Categoria
Destaque