Jarra “Europeus”, Destaque Maio de 2017

Jarra “Europeus”, Destaque Maio de 2017

Dinastia Qing – 1644-1911
Dinastia manchu que conquistou a China e depôs o último imperador Ming em 1644. Respeitando as tradições culturais e civis da China, esta dinastia conheceu no séc. XVIII um período de prosperidade artística sob a égide de três grandes imperadores: Kangxi (1662-1722), Yongzheng (1723-1735) e Qianlong (1736 – 1795).

 

No reinado do imperador Qianlong a China expandiu-se tornando-se a nação mais rica e populosa do mundo. Depois de um período inicial de consolidação, Qianlong iniciou uma política de expansão no exterior e de magnificência no interior sendo uma das vertentes o patrocínio dos estudos e das artes. Ele próprio grande colecionador, o seu gosto por porcelana elevou a quantidade e qualidade da produção. Trazida pelos Jesuítas, surge uma nova cor, e suas tonalidades, que vão integrar a paleta de esmaltes utilizados na decoração da porcelana; o rosa chamado yangcai (cores estrangeiras). Na Europa, esta porcelana ficou conhecida como “família rosa”.

 

 

Descrição
Jarra ovoide com pescoço alto e bocal semifechado de fundo branco, decorada em policromia na paleta da “família rosa”, sustentada nos lados por duas figuras masculinas de corpo inteiro modeladas naturalisticamente. A tipologia da jarra tem como referente, como era usual na porcelana da época Qianlong, a forma de uma peça de bronze arcaico.

 

As figuras representam dois europeus, de cabelos encaracolados compridos, com um joelho no chão e mãos apoiadas na jarra, à frente e atrás, vestidos à ocidental com casacas coloridas (vermelha e verde), decoradas com requintada pintura floral, camisas brancas, lenços de pescoço, calções coloridos (verde e magenta) e meias altas. Na cabeça usam tricórnio preto adornado com botões dourados.

A decoração no corpo da jarra, numa pintura policromada muito cuidada e de qualidade, representa diversa simbologia budista com predominância de desenvolvidas flores de lótus envoltas em elegante folhagem que se espalham por toda a superfície, bem como objetos auspiciosos como morcegos, limões “mão de Buda”, cogumelos mágicos e suásticas.

 

No bojo da peça destaca-se uma representação de uma flor de lótus, envolta em rica folhagem, cujo botão é encimado por um cogumelo mágico. Por cima desta composição, destaca-se um grande morcego, por sua vez encimado por um limão “mão de Buda” envolto em folhagem. Entre a folhagem pequenas flores de lótus apresentam-se secas, com as típicas cabeças de sementes ou em botão sendo que este foi substituído por limões de Buda. No arranque do pescoço surge uma cruz suástica pintada a dourado. A decoração repete-se no lado oposto.

 

O centro do gargalo é interrompido por uma rara faixa relevada, de fundo amarelo – a cor exclusiva da família imperial na cultura tradicional chinesa -, decorada com flores de lótus e enrolamentos vegetalistas, ladeada por frisos de elementos trifólios. A faixa repete-se no bocal, delimitada por friso de grega, estreitando a abertura, numa tipologia fora do comum.

 

A base e bordo da peça são delimitados por friso em rouge de fer, pintado a ouro com enrolamentos vegetalistas.

 

 

A jarra tem um original pé, sem vidrado, mais alto que o limite dos joelhos das figuras pelo que estas têm a particularidade de não assentarem no chão. A peça assenta em base de madeira huali recortada, onde encaixa o referido pé (em vez de assentar como é costume). De lado, a base forma dois morcegos onde assentam os joelhos das figuras.

 

 

Devido a esta estranha construção e ao peso fora do habitual, a peça aparenta ser algum tipo de suporte, possivelmente para pequenos pendões ou bandeiras. Não é certamente de uma tipologia comum.

 

Simbologia budista auspiciosa
Flor de lótus – he / lian – a flor sagrada é um dos oito símbolos auspiciosos do Budismo (ba jxiang) sendo símbolo de pureza e perfeição pois nasce da lama tornando-se numa flor linda tal como Buda nasceu para o mundo mas viveu acima dele. É também o trono de Buda e quando representada como símbolo sagrado é figurada entrelaçada com folhagem que representa o halo sagrado ou os raios que emanam da flor mística. O lótus é também sagrado para os taoistas já que é o emblema de um dos oito imortais, a deusa Xi Wang Mu.

 

 

Cogumelo mágico – linghzi – é o fungo sagrado, símbolo da imortalidade pois, quando seco, dura muito tempo. É considerado pelos Taoistas como a comida dos imortais.

 

 

Morcego fu – o morcego é o símbolo da felicidade e alegria.

 

 

Limão “mão de Buda”foshou – uma variante de limão cujo fruto desenvolve uma espécie de dedos cuja posição se assemelha à mão de Buda com o indicador e o mindinho a apontarem um para o outro. Simboliza a felicidade sendo oferta recorrente nos altares do ano novo. O seu maravilhoso cheiro é considerado como espanta espíritos. Combinado com um morcego – fu – símbolo também da felicidade, significada desejos de muita felicidade.

 

 

Suástica wan – conhecida na China desde o Neolítico, representava o trovão e a água. Como símbolo budista, foi importada da Índia e representa o “coração de Buda”, resignação de espírito, toda a felicidade que a Humanidade merece e a longevidade.

 

 

Iconograficamente, a peça é pois decorada com simbologia auspiciosa chinesa, decoração exclusivamente associada à corte imperial chinesa, fervorosos seguidores da religião centrando-se esta simbologia nas ideias de alegria e longevidade.

 

A posição subserviente dos ocidentais, de joelho no chão, parece indicar que estes se encontram numa atitude de prestação de tributo, fazendo uma oferenda. Esta ideia é igualmente transmitida pela diferença de proporções entre o objeto que é oferecido e as figuras, já que a jarra é significativamente maior que os dois homens.

 

Por outro lado, a marca do reinado de Qianlong pintada na base da peça, escrita na forma de selo arcaico – zhuanshu -, vem confirmar a ideia de realização para o mercado interno do entorno imperial, já que somente estas peças eram assim marcadas. Apesar de as marcas serem habitualmente escritas em escrita regular – kasihu – o reinado de Qianlong privilegiou a forma de selo, de linhas direitas, inspirada nos bronzes arcaicos.

 

 

Concluímos pois que esta é uma peça rara, apresentando grande qualidade técnica e decorativa, feita para o entorno imperial com a representação de ocidentais.

 

A representação de europeus
A partir do reinado de Kangxi (1662-1722) dá-se a introdução da temática de cenas europeias pintadas na porcelana da China bem como a produção de figuras representando europeus, moldadas em figuras de vulto. Estas peças, inspiradas em fontes gráficas que começavam a circular pelo país, como gravuras e desenhos dos séculos XVI a XVIII, tinham como destino o mercado de exportação europeu. Eram conhecidas como “Chine de Commande”
Apesar da produção das estatuetas se ter desenvolvido mais em meados do século XVIII, em finais do séc. XVII, inícios do séc. XVIII (c.1690-1730), foram produzidas estatuetas representando pequenos grupos de europeus, normalmente em porcelana branca de Dehua (fornos da província de Fugian), conhecida como “blanc de Chine”. Estes conjuntos são de pequena dimensão, mas os europeus identificam-se perfeitamente pelos seus chapéus tricórnios, casacas, calções, meias e lenço ao pescoço, características que definiram a partir daí a figuração de europeus e não de especificamente holandeses, como aparece na literatura mais recuada.

http://collections.vam.ac.uk/item/O181551/figure-unknown/

 

Na 2ª metade do século XVIII os chineses começam a fazer também cópias de modelos de manufaturas de faiança e de porcelanas europeias, atestando a existência de influências de cerâmica europeia na porcelana da China, a chamada “torna-viagem”. Assim, surgem modelos de vacas de Delft, cestos de Meissen ou terrinas em forma de perdiz ou cabeça de vaca e javali provenientes de manufaturas de faiança alemãs, francesas e inglesas (a Casa-Museu possui um exemplar em forma de cabeça de javali bem como um par de gansos), bem como pequenas estatuetas (c.20/25 cm.) representando homens e mulheres europeus e casais a dançar ou de mãos dadas sobre uma base comum, que eram exportadas para a Europa onde, juntamente com outras representações de animais e objetos, decoravam a mesa aristocrática. http://www.christies.com/lotfinder/Lot/a-rare-famille-rose-european-couple-circa-5969546-details.aspx

 

http://collections.vam.ac.uk/item/O494296/dutch-couple-unknown/

As figurações de europeus mais famosas, são um par de estatuetas de vulto inteiro, conhecido como sendo a representação do Almirante Duff e a sua mulher ou o “casal Frísio” (c. 1750-80). Diederik Durven foi governador geral da Companhia das Índias Holandesas em Batavia, a poderosa VOC, entre 1729 e 1732, no entanto não há qualquer evidência que as referidas estatuetas representem o casal. Recente investigação aponta para a representação de um casal judeu alemão em traje típico.

http://www.vanderven.com/Figure-Mrs-Duff-DesktopDefault.aspx?tabid=6&tabindex=5&objectid=662684&categoryid=0&Price=

Aquando da compra por Medeiros e Almeida, o texto do lote incluía a referência a uma peça muito rara e curiosa, pertencente na altura, à coleção da Sr.ª D. Mary Espírito Santo Silva, que representa três europeus de corpo inteiro a carregar um enorme recipiente cilíndrico, tipo selha (alt. 23 cm.), cujos personagens se assemelham aos da peça da Casa-Museu. Esta peça, publicada em BEURDELEY, 1962, p.125, encontra-se hoje em dia numa coleção particular americana não se conhecendo as circunstâncias da sua compra ou posterior venda.

A peça foi publicada no livro “Porcelanas da China – Colecção Ricardo do Espírito Santo Silva”, p.38, editado pela FRESS em 2000, já com a indicação da presente localização.

NOTA: A Casa-Museu agradece as informações prestadas pela Dr.ª Cláudia Lino da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva.

A imagem de europeus prestando tributo à corte imperial Qing era um tema auspicioso muito ao gosto do imperador Qianlong. Cenas com prestadores de tributo ao imperador eram pintadas em porcelanas (peças com decoração Imari chinês) e rolos de pintura, mas raramente eram moldadas em porcelana figuras de europeus carregando oferendas, como no caso da peça da Casa-Museu. Certamente estas peças não teriam um referente em gravuras europeias.

 

Proveniência
Adquirido no antiquário Jade Company S.A., a Mark Lewin, sito na Rua Cornavin 3, em Genebra, Suíça, a 26 de Fevereiro de 1971, pelo valor considerável de 18.000 Francos Suíços.

 

Em 20 de Julho de 1970 uma peça muito semelhante (lote 69) foi a mercado na leiloeira Christie’s. Poder-se-á tratar da mesma peça, uma pouco mais tarde adquirida por Medeiros e Almeida.

 

Em setembro de 2015, uma peça de tipologia semelhante à da coleção, porém com a jarra sem decoração, foi levada a leilão na Christie’s de Nova Iorque (lote 2251), tendo tido como valor de venda 155.000 USD

http://www.christies.com/lotfinder/lot/a-rare-famille-rose-and-pale-celadon-glazed-vase-shaped-5927816-details.aspx?from=salesummery&intObjectID=5927816&sid=f2f7b291-030b-4091-b155-181edbfac5e0

 

 

Maria de Lima Mayer
Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Bibliografia
ANTUNES, Mary Espírito Santo Salgado Lobo (coord.); Porcelanas da China: Coleção Ricardo do Espí¬rito Santo Silva, Lisboa: F.R.E.S.S., 2000 (fig. 72)
AYERS, John, HOWARD David; China for the West, vol.I, Reino Unido: 1978 (p. 618)
BEURDELEY, Michel; Porcelaine de la Compagnie des Indes, Fribourg : Office du Livre, 1962
CANEPA, Teresa; Cenas Europeias na Arte Chinesa, Londres: Jorge Welsh Books, 2005
GORDON, Elinor; Chinese Export Porcelain: An Historical Survey, Nova Iorque: Main Street/Universe Books, 1977 (figura 11/12)
JOURDAIN, Margaret; JENYNS, R. Soame, Chinese Export Art in the 18th Century, London: Spring Books, 1967
SARGENT, William R.; The Copeland Collection: Chinese and Japanese ceramic figures., Salem, Mass: Peabody Museum of Salem (p. 220)
Williams, C.A.S.; Chinese Symbolism and Art Motifs. A comprehensive handbook on symbolism in Chinese art through the ages, 4th ed., Rutland, Vermont: Tuttle Publishing, 2006

 

Webgrafia
Bristish Library – History of the China Trade – http://www.bl.uk/reshelp/findhelpregion/asia/china/chinatrade/index.html
Christie’s – http://www.christies.com/features/Chinese-porcelain-Collecting-guide-7781-1.aspx?sc_lang=en
Gotheborg.com Jan-Erik Nilsson – http://gotheborg.com/
MIT Open Course – Rise and fall of the Canton trade system I – https://ocw.mit.edu/ans7870/21f/21f.027/rise_fall_canton_01/pdf/cw_essay.pdf
The Metropolitan Museum of Art – A Handbook of Chinese Ceramics – http://www.metmuseum.org/art/metpublications/A_Handbook_of_Chinese_Ceramics

Artista

Fornos de Jingdezhen

Ano

Dinastia Qing, reinado Qianlong (1736-1795), c. 1740-50

País

China, Província de Jiangxi

Materiais

Porcelana

Dimensões

Alt. 42 cm. x Larg. 29,5 cm. x Diam. boca 12,7 cm. x Diam. base 12,5 cm.

Categoria
Destaque