Leque Imperatriz Eugénia do Montijo, Destaque Março de 2015

Leque Imperatriz Eugénia do Montijo, Destaque Março de 2015

Leque plissado francês que foi pertença da Imperatriz Eugénia do Montijo (1826-1920), esposa de Napoleão III (1808-1873), Imperador de França durante o Segundo Império Francês.

 

Eugénia do Montijo, Imperatriz da França:

María Eugénia Ignacia Augustina de Palafox-Portocarrero de Guzmán y Kirkpatrick, marquesa de Ardales, marquesa de Moya, condessa de Teba, condessa de Montijo e última Imperatriz de França – mais conhecida como Eugénia do Montijo –  nasce em Granada, Espanha, a 5 de Maio de 1826. A segunda e última filha de Don Cipriano de Palafox y Portocarrero (1785-1839) e de María Manuela Enriqueta Kirkpatrick de Closbourn y de Grevigné (1794-1879),  Condes do Montijo, seria possuidora de uma grande beleza, como assim o atestam os seus numerosos retratos.

 

Após o falecimento de seu pai em 1839 e o casamento de sua irmã mais velha Maria Francisca, Duquesa de Peñaranda em 1848, passa a residir com a sua mãe em Paris. Aí frequenta as festas da alta sociedade onde seria cortejada pelo então presidente Carlos Luís Napoleão Bonaparte, futuro Imperador Napoleão III de França. Conta-se que um dia este lhe perguntou: “Senhora qual o caminho para chegar aos seus aposentos?”, ao que ela respondeu: “Pela capela, senhor, pela capela”. Casaram em 15 de janeiro de 1853.

 

Tiveram apenas um filho que morreu tragicamente em África aos vinte e três anos. Após a queda do Segundo Império Francês Eugénia de Montijo vai juntamente com o marido para Inglaterra, em exílio, onde enviúva em 1873. Falece com 94 anos de idade, em 1920 e faz-se sepultar na Cripta Imperial ao lado do filho e do marido.

 

O Leque:

O leque possui uma folha dupla plissada, litografada e pintada a guache e ouro e rematada a papel dourado. Ambos os lados apresentam inscritas a assinatura de Edmond Hédouin e a data de 1854.

 

No anverso figura uma cena de corte num jardim palaciano com elementos arquitetónicos e escultóricos de inspiração clássica, onde vários grupos de figuras femininas, masculinas e infantis surgem representados ocupando-se de atividades diversas – sentados ou estendidos sobre a o relvado, em diálogo, subindo a escadaria, tocando instrumentos musicais, etc. Esta cena inspirar-se-á nas obras de artistas coevos como Lancret, Lajoue, Watteau, e Fragonard. Emoldura a cena um friso pintado a verde de entrelaçados vegetalistas e lateralmente uma cercadura polícroma e dourada representando um encanastrado ornamentado de motivos vegetalistas e florais.

 

 

No reverso figuram, ao centro, as armas de Napoleão III e de D. Eugénia: à esquerda o brasão do Segundo Império Francês e de Napoleão III, que surge representado como um escudo de fundo azul com a águia imperial dourada que segura nas suas garras raios de trovão; à direita o brasão de D. Eugénia exibindo as armas da família Guzmán (apelido paterno), franchado, o primeiro e o quarto de fundo azul com um caldeirão xadrezado de ouro e vermelho com três serpentes douradas de cada lado da asa e o segundo e o terceiro de fundo prata com cinco mosquetas a negro, postas em cruz. As armas dos Imperadores estão envoltas numa capa de arminho, encimadas por uma coroa e rodeadas por grinaldas de flores e por figuras infantis aladas sobre nuvens erguendo as suas iniciais E e N. Esta folha apresenta ainda uma cercadura polícroma e dourada de motivos vegetalistas e florais.

 

 

 

A armação de dezasseis varetas e duas guardas é em madrepérola branca minuciosamente esculpida com aplicações de ouro, prata e bronze dourado formando sobretudo motivos de natureza antropomórfica, zoomórfica, vegetalista e floral. Ao centro do colo do leque surge representada uma carruagem puxada por três parelhas de cavalos acompanhada por diversas figuras de corte, cena esta que é rematada por cercadura de concheados e enrolamentos vegetalistas. No topo de cada uma das guardas figura ainda um medalhão de esmalte polícromo representando uma cena galante onde uma figura masculina toca um instrumento musical para uma figura feminina. O rebite em metal dourado exibe encastradas pequenas pedras púrpura, dispostas em forma de flor, de ambos os lados do leque.

 

Edmond Hédouin:


Pierre-Edmond-Alexandre Hédouin, nascido em Boulogne-sur-Mer a 16 de Julho de 1820 e falecido em Paris a 12 de Janeiro de 1889, foi pintor, gravador e litógrafo. Filho de Pierre Hédouin (1789-1868), advogado e compositor, ingressa na École des Beaux-Arts de Paris em 1838 onde estuda pintura no atelier de Paul Delaroche e gravura no de Célestin Nanteuil. Exibe pela primeira vez a sua pintura no Salon de Paris em 1844, aí expondo regularmente ao longo da sua vida. Hédouin receberia importantes e prestigiadas encomendas, tendo nomeadamente sido autor de pinturas decorativas para o Théâtre Français e para o Palais Royal, sendo condecorado pelo seu trabalho por diversas ocasiões.

 

Como gravador e litógrafo, Hédouin seria igualmente bem-sucedido tanto pelos seus desenhos originais como pelas reproduções dos grandes mestres; Boucher, Watteau, Delacroix, Goya, entre outros. Os seus temas de eleição eram as cenas de género e as paisagens campestres, mas também a inspiração nas culturas espanhola e oriental.

 

Proveniência:


Apenas uma breve nota manuscrita pela mão de António Medeiros e Almeida atesta a compra deste leque, que terá sido adquirido em Lisboa em cerca de 1975 a Elena Adorno Sarto de Hortega (Bilbau, 1900 – Lisboa, 1994), modista de chapéus de origem espanhola que se fixa em Portugal aquando da guerra civil em Espanha (1936-39) e que ascende como uma das mais conceituadas comerciante de obras de arte e antiguidades do mercado de arte português da segunda metade do século XX.

 

 

Quanto à sua proveniência precedente especula-se que este leque poderá tratar-se de um exemplar que é mencionado por Spire Blondel em 1875. O autor refere um leque que designa como “Les Plaisirs du Chateau”, sendo igualmente da autoria de Hédouin e como sendo pertença da coleção da Condessa de Pourtalès, Louise-Sophie-Mélanie Renouard de Bussière (1836 – 1914), uma das mais notáveis figuras da corte francesa durante o Segundo Império e amiga íntima dos imperadores Napoleão III e Eugénia do Montijo. A imperatriz poderia, portanto, ter-lhe oferecido um dos seus leques, como aliás era prática costumeira entre as da sua estirpe.

 

Joana Ferreira (estagiária)

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Exposições:


“Tesouros da Intimidade Real – Objetos do uso pessoal de Príncipes Europeus”, Casa-Museu Medeiros e Almeida, 20 de Maio de 2005 – 31 de Janeiro de 2006.

“Armas de Sedução: Leques Europeus do Século XVIII ao XX”, Sala dos Leques, Exposição Permanente da Casa-Museu Medeiros e Almeida, 2014.

 

Bibliografia:

BENEZIT, E., Dictionnaire Critique et Documentaire des Peintres, Sculptures, Dessinateurs et Graveurs, Vol. 4, França: Librairie Gründ, 1961, pp. 629-630.

BLONDEL, Spire, Histoire des éventails, Paris : Cercle de l’Éventail, 1992, p. 193 (reedição do original de 1875).

BURTY, Philippe, Les peintures décoratives par Edmond Hédouin, Paris: Gazette des Beaux-Arts, 1861, pp. 58-60.

CHAVIGNERIE, Émile Bellier de La, AUVRAY, Louis, Dictionnaire général des artistes de l’École française depuis l’origine des arts du dessin jusqu’à nos jours : architectes, peintres, sculpteurs, graveurs et lithographes, Tomo 1, Paris: Librairie Renouard, 1882, pp. 749-750.

MÂNTUA, Ana Anjos, “As aquisições do Dr. Anastácio Gonçalves e o mercado de arte em Portugal de 1925 a 1965”, in AA.VV., Museus, Palácios e Mercados de Arte, Lisboa: Scribe, 2014, pp. 73-74.

LOLIÉE, Frédéric, La vie d’une Impératrice: Eugénie de Montijo, D’après des mémoires de cour inédites, Paris: Société d’Édition et de Publication, 1907.

VILAÇA, Teresa, ALMEIDA, João (coord.), Tesouros da Intimidade Real – Objetos do uso pessoal de Príncipes Europeus (Catálogo da exposição patente na Casa-Museu Medeiros e Almeida de 20 de Maio de 2005 a 31 de Janeiro de 2006) Lisboa: Fundação Medeiros e Almeida, 2005, pp. 62-65.

 

Webgrafia:

BRAGA, Henrique Correia, FERREIRA, Sofia de Ruival, “Cassequeitão faz € 150 000 em Londres – Quanto vão fazer as pratas da «colecção Ibérica»…?”, disponível em URL: http://www.ourivesariaportuguesa.info/Austria/Hortega  (acedido em Novembro de 2014).
PETERS, Greg, PETERS, Connie, “Edmond Hedouin”, disponível em URL: http://www.artoftheprint.com/ (acedido em Dezembro de 2014).

Artista

Edmond Hédouin (1820-1889)


Ano

1854

País


França

Materiais


Papel, guache, madrepérola, metal dourado, metal prateado, esmalte e pedraria

Dimensões

Alt. 30 cm x Larg. 57 cm

Categoria
Destaque