Lit “à la Duchesse” – Destaque em Setembro 2019

Leito de aparato à la Duchesse

 

Nicolas Guérard (?) – (1648? – 1719)

França, Paris (?), final do séc. XVII

Damasco lavrado, cetim, gorgorão, cordonet e fita de gorgorão

Dim.: A. 240cm x C. 278cm x L. 240cm

 

 

Armação de leito constituída por céu, sobrecéu, colchas, resguardos laterais e lambrequim em damasco lavrado, decorado por aplicação de cetim e gorgorão contornadas por cordonet e fita de gorgorão.

 Quarto de dormir

Desde a Idade Média que o quarto de dormir, juntamente com a cozinha, é das poucas divisões da casa que tem um espaço fixo, quando nos castelos, a função de defesa e proteção se sobrepunha à de habitação ou residência.

De arquitectura “irregular” os edifícios estavam essencialmente vocacionados para a defesa, reflectindo-se esta caraterística na “desorganização” da distribuição do espaço interior, onde as divisões apresentavam formas irregulares de difícil acesso, com pouca altura ou iluminação, sendo usadas em função da necessidade, ficando o conforto dos habitantes relegado para segundo plano.

Será apenas a partir do século XVI, consequência de contextos históricos mais pacíficos, que a arquitectura se irá preocupar com a harmonia e conforto, regularizando dimensões e estética de pisos, divisões, portas, janelas, etc.

O quarto enquanto divisão fixa, assume as mais diversas funções, não servindo apenas para dormir. Aí se recebiam amigos e convidados, se comia, se fazia a toilette… era o espaço melhor aquecido uma vez que, tinha lareira sendo o conforto, a razão principal para a sua escolha como lugar preferencial para estar, enquanto as outras divisões eram ocupadas e usadas pelos proprietários a seu bel-prazer, em geral, em função das temperaturas / conforto do  espaço.

Será apenas com Catherine de Vivonne, (Roma 1588 – Paris 1665) marquesa de Rambouillet, que reformas arquitectónicas e decorativas serão introduzidas no interior dos palácios com um intuito estético e de conforto: as escadarias serão colocadas num dos extremos do edifício, de forma a permitir uma regular e ininterrupta distribuição dos espaços, possibilitando o alinhamento de portas e janelas. Introduz também a alcova, reentrância dentro do quarto onde a cama era instalada e que se fechava com cortinas, estrutura que trará maior conforto.

Posteriormente, o espaço do quarto passa a ser compartimentado, delimitado por uma balaustrada, apresentando por vezes um degrau e onde era colocada a cama assim como, alguns móveis de assento, para escrita, livros… para receber os mais íntimos ou aqueles que queríamos distinguir, sendo em geral, decorada com grande sumptuosidade.

É esta estrutura que irá dar origem ao boudoir do século XVIII, quarto de toilette / vestir.

A recepção de convidados deitado fazia parte das regras de etiqueta, já no século XVI, havendo todo um cerimonial que se desenrolava aquando dos nascimentos, casamentos e morte que tinha lugar na cama. A dona da casa recebia deitada, os convidados colocavam-se à sua volta, tendo alguns deles o “privilégio” de serem recebidos na “ruelle” espaço entre a cama e a parede (bem maior que na actualidade) e que podia ser coberto pelas cortinas da cama que se espraiavam até às paredes, criando desta forma uma envolvência acolhedora para senhores da casa e convidados.

A armação do leito adaptava-se às diversas situações, havendo armações de cores e decoração diferenciadas em função da ocasião (festiva, luto, etc.) ou da época do ano, como por exemplo, de Verão e Inverno.

Na transição para o século XVIII este costume mantém-se, sofrendo no entanto, algumas alterações: agora, o quarto é usado para receber pessoas ao levantar (durante a toilette) como por exemplo fornecedores, modistas e pessoas íntimas. Mantém a sua aparência luxuosa como no século anterior, ocupando a imaginação e criatividade de arquitectos, ebanistas, marceneiros, desenhadores, tapeceiros e marchands.

A especialização da função dos espaços residenciais só virá a acontecer no início do século XVIII com o aparecimento do salão.

Nas habitações mais modestas, a cozinha persiste como principal divisão da casa, espaço polivalente, onde se comia, estava e dormia, devido ao conforto dado pelo calor da chaminé.

Leito de aparato

O leito à la duchesse é uma tipologia de móvel de repouso típica de finais do século XVII, que se  caracteriza pela presença de um sobrecéu (baldaquino ou dossel) suspenso a partir do tecto ou da parede, sem colunas de sustentação ou cortinas ao fundo da cama, apenas resguardos laterais junto à cabeceira e na qual o sobrecéu acompanha todo o comprimento do leito,  não sendo visível a estrutura de madeira, coberta pelo paramento têxtil.

Estamos perante um leito de aparato, destinado a ser usado em ocasiões formais com o intuito de impressionar os convidados, uma vez que, ao não ser fechado por cortinas  como até aí acontecia, se adequava perfeitamente a esta função, num período em que  o quarto e em particular o móvel, têm um papel de relevo na ostentação deste espaço, onde se desenrolavam cerimónias protocolares, tendência que irá perdurar até finais do século XVIII.

O destaque nesta tipologia de peça é dado ao material têxtil (tanto do exterior como do interior) e não à estrutura de madeira, assumindo assim, desenhadores, tecelões e tapeceiros o principal papel na composição e ornamentação dos leitos.

O conjunto decorativo têxtil designa-se por armação ou paramento, podendo também a denominação cama referir-se ao mesmo ou ainda, ao conjunto do móvel, colchoaria e roupa de cama. Citando Maria João Ferreira, as armações incluem cabeceira, costaneiras, corrediças, sanefas e céu, por norma plano, sendo ainda passíveis de articular com dosséis ou pavilhões, de morfologia quadrangular ou circular/cónica.

Os motivos ornamentais dos tecidos usados nos leitos seguiam como noutras artes decorativas, modelos retirados de livros de estampas cujos autores muitas vezes se conhecem, como parece ser este o caso.

 

 

No início da década de 1690, é publicado o Second Livre de Desseins de Lit da autoria de Nicolas Guérard (1648? – 1719), onde surge um desenho que se aproxima muito do motivo central do tecido desta cabeceira, em particular dos enrolamentos que emolduram o cesto de flores. Esta proximidade decorativa, abre plausivelmente, a possibilidade de a sua autoria poder ser atribuída a este artista.

O lit à la duchesse  juntamente com o leito de colunas, integram-se na categoria mais genérica designada por lit à la française (leito francês) o qual só tem cabeceira, que se encosta à parede e baldaquino (plano) com a mesma superfície da cama, por oposição aos designados lits à la polonaise (leito polaco) com cabeceira e pés, colunas com armação em S, para sustentação do baldaquino abobadado (imperial) cerca de 1/3 a 1/2  menor que a superfície da cama.  Distingue-se também dos leitos à italiana e à turca, tal como do polaco, todos eles com cabeceira e pés e colocados atravessados contra a parede.

No primeiro caso, a cama ostentava quatro colunas sobre as quais se apoiava um dossel em cúpula (imperial) correndo entre as mesmas, cortinas que podiam ser totalmente fechadas, preservando desta forma a intimidade, assim como, a manutenção de um ambiente mais acolhedor.

Os exemplares mais antigos do lit à la Duchesse, terão surgido ainda em finais do século XVII mas, será no XVIII (sob a Regência e Luís XV) que este modelo se impõe, tornando-se muito popular durante uma grande parte do século, por ser mais adequado às cerimónias de aparato e oficiais, integrando os quartos designados de aparato (appartments de parade) existentes nos palácios e casas da aristocracia, que tinham como função receber personalidades. Para além de móvel para dormir ou descansar, era sobretudo uma peça de ostentação, pela riqueza decorativa dos têxteis e madeira que a decoravam, tal como pela sua envergadura.

As dimensões da cama à la duchesse são as mesmas das camas de colunas: C. 195cm x L. 130cm ou 146cm ou até mesmo 162cm para duas pessoas, enquanto que a cama individual tem de largura entre 80cm e 135cm. A  superfície da cama da Casa-Museu tem 200cm comprimento por 150cm de largura. Apresentavam-se altas uma vez que, eram colocados vários colchões sobre o seu estrado: um de palha, outro de lã, outro de crina e ainda por vezes um quarto de penas, tornando-as pouco práticas ou acessíveis, sendo inclusivamente necessário o uso de degraus colocados junto às mesmas para entrar e sair.

Os tecidos de eleição para a sua decoração são os adamascados e as sarjas, podendo também surgir tapeçaria de Beauvais. Para os damascos a largura regular para a época era de 58 cm (?). O damasco da armação da cama da Casa-Museu, apresenta 54 cm entre costuras o que nos leva a considerar 2 cm para cada uma das ourelas / costuras.

No século XVII, predominam os motivos decorativos simétricos: enrolamentos, flores e frutos de grandes dimensões: cestos e jarras, sendo substituídos no XVIII por motivos florais mais leves e pequenos e por linhas verticais sinuosas paralelas, compostas por fitas, rendas, flores…

A corte seguia ainda um “código” de utilização de cores: damasco vermelho decorado a dourado, ouro, prateado para o rei, verde para o Delfim, azul para o irmão do rei (designado por Monsieur) aurora ou amarelo pálido era usado pela mulher do irmão do rei (Madame).

A decoração do quarto acompanhava a da cama sendo usados os mesmos tecidos em sofás, cadeiras, cortinados e paredes, de forma a criar um conjunto harmonioso.

Apesar de ter sido uma tipologia de móvel popular durante uma grande parte do século XVIII, subsistem na actualidade poucos exemplares destes leitos, conhecendo-se alguns em instituições museológicas como no caso do Getty Museum de Los Angeles:

http://www.getty.edu/art/collection/objects/5674/unknown-maker-hangings-for-bed-lit-a-la-duchesse-french-about-1690-1715/

ou uma armação de leito com os mesmos motivos decorativos da da Casa-Museu, mas, em sarja de lã encarnada com aplicação de fita de seda amarela, pertencente ao Museu de Artes Decorativas de Paris.

 

Proveniência

Adquirido ao antiquário parisiense Galerie Maurice Chalom (21, Place Vendôme) em 1971, por FFR 2.850.

 

Cristina Carvalho

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

 

Bibliografia

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http://acasasenhorial.org/acs/index.php/pt/glossario/319-armacao-paramento-de-cama

https://francearchives.fr/de/commemo/recueil-2015/39978

Artista

Pierre – Simon Gounouilhou (1779-1847)

Ano

c. 1805-1820

País

Genebra, Suíça

Materiais

Ouro, esmaltes policromados, latão e aço

Dimensões

Diam. 6cm

Categoria
Destaque