Mazarinas Boulle, Destaque Outubro de 2016

Mazarinas Boulle, Destaque Outubro de 2016

Possui a FMA na sua colecção duas secretárias adquiridas em 1971, da tipologia informalmente denominada por “mazarina”, característica da 2ª metade do século XVII francês.

 

As secretárias são formadas por dois corpos de três gavetas unidos por um tampo assentando cada um deles sobre quatro pés ligados por tavejamento cruzado. O corpo central é constituído por uma gaveta e um batente recuado.

 

As secretárias da colecção Medeiros e Almeida, não constituem um par uma vez que, apresentam decoração diferente, inspirando-se ambas no vocabulário decorativo de grotescos de Jean Bérain (1640–1711). Uma delas tem como motivo central uma figura de Baco, deus do vinho, ladeado por figuras dançantes que seguram copos, jarros e cachos de uvas. O tampo da outra secretária apresenta ao centro um carro puxado por dois cavalos sob dossel, inspirado (?) na peça teatral Les Amours de Microton (1676)

 

Seguindo o esquema ornamental proposto por este desenhador, a decoração tanto do tampo, como das gavetas e ilhargas, está organizada simetricamente partindo do centro, encontrando-se dosséis, baldaquinos, panejamentos, grinaldas, mascarões e festões entre figuras que dançam, tocam e brincam. As pernas em estípide seguem também o modelo tradicional esquinado decorado com marchetados. Num dos exemplares, os ângulos das pernas do móvel são decorados por enrolamentos em madeira.

 

A difusão deste modelo deu-se com André-Charles Boulle que o popularizou com o seu gosto decorativo de marchetados em materiais diversos.

André-Charles Boulle
Ébeniste, ciseleur, doreur et sculpteur du roi (ebanista, cinzelador, dourador e escultor do rei) André-Charles era originário de uma família (Bolte) que se terá mudado da cidade de Kirchhoven (na Vestefália) para Paris, ainda na década de 1630 (?).

 

Nascido em 1642, fez a aprendizagem no atelier de seu pai, tendo-se tornado mestre marceneiro em 1666, trabalhando inicialmente no Colégio de Reims e a partir de 1672, nas Galerias do Louvre onde Luís XIV lhe concedeu uma oficina. Do seu casamento com Anne-Marie Thiblemont nasceram oito filhos, dos quais quatro foram ebanistas no entanto, nenhum deles teve descendência o que levou à extinção da família Boulle em 1754, com a morte de André-Charles II, o filho mais novo.

 

Desenhador e gravador expedito, Boulle recorria também a outros artistas como Charles Le Brun (1619–1690), Jean Bérain (1640–1711), Gilles Marie Oppenord (1672–1742) e Robert Cotte (1656-1735) arquitectos, pintores e decoradores que lhe forneceram modelos para móveis, ou diversos escultores que conceberam protótipos para os bronzes decorativos. Trabalhou também com variados relojoeiros, fornecendo-lhes caixas para relógios e colaborou com douradores e com marchands–merciers (intermediários entre o encomendador e o ebanista).

 

Durante mais de 50 anos trabalhou para os Bâtiments du roi (entidade que superintendia na construção e manutenção das residências reais e nas manufacturas suas fornecedoras) sendo possível encontrar trabalhos seus nos palácios de Versailles, Fontainebleau, Marly e Trianon, tendo como clientes o rei e o irmão, o Delfim, a Delfina, a duquesa du Berry ou o príncipe de Condé. Em paralelo, Boulle trabalhava privadamente para a nobreza e alta burguesia (francesa e estrangeira) tendo fornecido mobiliário para clientes como Filipe V de Espanha, o Eleitor de Colónia José Clemente…

 

Técnica: de Gole a Boulle
Designado por “estilo Boulle” a técnica de marchetaria por si popularizada, já era utilizada no 2º quartel do século XVII, tendo sido empregada por um outro ebanista Pierre Gole (c. 1620-1684) de origem holandesa, residente em Paris desde 1643, que trabalhou para Luís XIV nas oficinas Gobelins, de 1661 até à morte. Em 1656 Gole era “maître menuisier en ébène ordinaire du roi” ou seja, mestre marceneiro em ébano comum do rei. Nalguns dos seus trabalhos produzidos na década de 60, verifica-se ainda uma forte influência do marchetado holandês, reproduzindo sobretudo motivos florais, albarradas, pássaros, insectos em diversas madeiras, marfim e até mesmo madrepérola.
(Contador: http://collections.vam.ac.uk/item/O70195/cabinet-on-stand-gole-pierre/, https://www.dma.org/collection/artwork/pierre-gole/cabinet-stand)

 

Com o tempo, Gole passa a utilizar folheados e marchetados de latão, peltre (liga de estanho) tartaruga, marfim e bronze, numa mudança de materiais assim como de estética uma vez que, as flores são substituídas por enrolamentos, folhagem estilizada, molduras e grinaldas podendo enquadrar ainda cenas figurativas, numa típica filiação na gramática decorativa de Jean Bérain.

 

(Mesa tripé: http://www.getty.edu/art/collection/objects/5740/attributed-to-pierre-golle-tripod-table-french-about-1680/?artview=dor16872)
A sua minuciosa e demorada técnica decorativa, previa a laminagem e recorte dos materiais o que gerava uma quantidade de desperdício (de materiais e tempo) considerável. exigindo também uma mão de obra altamente especializada o que tornava a produção dispendiosa.

 

A Gole se deve também a criação de um dos móveis que se tornaram mais populares na produção de Boulle: a secretária mazarina. Esta designação, surgida no século XIX, embora coincidente, nada tem a ver com o primeiro-ministro Cardeal Mazarin uma vez que o primeiro móvel deste tipo surge em 1669, data posterior à morte do Cardeal que ocorreu em 1661.

 

“Estilo Boulle”
Com o tempo, Boulle implementou um sistema mais produtivo e rápido: sobrepunha várias lâminas de material que eram cortadas em simultâneo a partir de um modelo em papel onde estava desenhada a decoração pretendida, o que lhe permitia obter de uma só vez, para além de matrizes para várias peças, o aproveitamento total do material. Estas lâminas, uma com a decoração recortada em positivo e a outra em negativo, eram utilizadas para cobrir as diferentes superfícies do móvel criando um contraste de cor através dos dois materiais empregues. Quando o fundo é escuro e a decoração é clara (tartaruga/latão) o móvel é designado por partie e quando o fundo é claro e decoração é escura (latão/tartaruga) chama-se contre-partie. O marceneiro recorria ao uso de folha de ouro ou prata ou a papel colorido que eram colados no esqueleto do móvel (em geral de madeira de carvalho) por baixo da tartaruga, de forma a acentuar os contrastes de cor.

As partes não cobertas pelo marchetado eram folheadas a ébano, pau violeta, etc. Podia embutir também, ornamentos em latão como frisos e molduras, com um buril fixando-os com pregos do mesmo metal que depois eram achatados com um martelo, ficando integrados na decoração. Boulle produziu também decorações em bronze não só de feição ornamental mas também, de protecção das zonas mais frágeis e expostas dos móveis como cantos, esquinas e pés, os joelhos eram frequentemente decorados com bustos femininos. Finalmente, os elementos com uma função prática como dobradiças, espelhos de fechadura e puxadores, eram igualmente decorados sendo assimilados no programa ornamental da peça.
A casca de tartaruga marinha era aquecida ao lume ou com água a ferver de modo a perder a forma curvada e a tornar-se lisa, após o arrefecimento, mantinha o novo feitio, sendo então laminada de forma a criar placas de espessura fina.

 

Os motivos ornamentais têm origem na mitologia clássica, na pintura e na escultura da época. As decorações inspiradas em carneiros e leões recebem um tratamento naturalístico e a demais ornamentação frequentemente sugere a tapeçaria da época. As máscaras retiradas da mitologia clássica assim como as cabeças de faunos decoradas por folhas de vinha fazem parte do vocabulário estilístico de Boulle.

 

Esta polivalência artística mostra-nos que Boulle não foi apenas ebanista, foi também desenhador e gravador não só de móveis mas também de bronzes, tendo produzido em 1715 o álbum Nouveaux Deisseins de Meubles et Ouvrages de Bronze et de Marqueterie Inventés et gravés par André-Charles Boulle; Recueil d’Estampes relatives à l’ornementation des Appartements.
Apesar da grande quantidade de móveis por si produzidos e ainda hoje existentes, não se conhecem exemplares estampilhados sendo por isso, apenas possível atribuir a autoria dos seus trabalhos.

 

Jean Bérain (1637–1711)
Exímio desenhador, decorador e gravador da corte de Luís XIV, nascido em 1637 na região da Lorena, parte com os pais para Paris em criança (?), onde terá tido contacto com estas artes, ainda na infância junto de seu pai que se dedicava ao fabrico e decoração de armas a partir de gravuras. Aprende a técnica de água-forte (comum aos gravadores e aos arcabuzeiros que deviam gravar as decorações nas armas).
Começa a trabalhar para Luís XIV, ao produzir estampas para o Cabinet des planches gravées e em 1675 é nomeado dessinateur de la Chambre et du Cabinet du roi, para o qual devia produzir todo o tipo de desenhos cenográficos e de guarda-roupa para festas e representações teatrais. A partir de 1677 vai acumular também, as funções de desenhador dos jardins e em 1680 assume a decoração da ópera de Paris juntamente com Lully. No final da década de 80, é-lhe atribuído o cargo de desenhador oficial dos navios da frota real substituindo Charles Le Brun.

A produção inicial de Bérain segue o gosto da época dentro de um espírito barroco em que a folhagem de acanto misturada com animais fantásticos e máscaras predomina. O tempo trará uma evolução e o seu trabalho passará a reflectir uma maior leveza em termos decorativos, inspirada nas arcarias/galerias/varandas de Rafael e no vocabulário ornamental italiano e flamengo do século XVI. A folhagem de acanto mantém-se mas “expande-se” abrindo espaço para a decoração no seu interior, onde passam a figurar animais. Associa ainda motivos como cariátides, cestos de flores, pâmpanos, oliveiras e canas da Índia, dosséis e panejamentos nos quais suspende macacos, pássaros, faunos, num vocabulário ornamental que remete para a teatralização decorativa. As suas composições são também caracterizadas por uma organização espacial simétrica, frequentemente a partir dos dosséis e panejamentos estendendo-se pelo fundo, através de entrelaçados até à moldura muitas vezes definida por pilastras. Esta organização espacial é hierarquizada: o motivo principal está ao centro e é a partir dele, que se desenrolam os arabescos.
A difusão e popularização do “estilo Bérain” deve-se em primeiro lugar ao facto de os seus desenhos terem sido gravados, estampados e organizados em álbuns que circulavam na Europa.
A sua influência e importância relaciona-se com uma renovação do gosto em que alguns elementos caros ao barroco como a folha de acanto e os grotescos se transformam, aligeirando-se, abrindo espaço para a fantasia. É essa fantasia que encontramos na marcenaria de Boulle, na tapeçaria de Gobelins e Beauvais (a Casa-Museu possui duas tapeçarias Beauvais de grotescos expostas na Galeria Nova) ou nas faianças de Moustier.

 

Proveniência
Adquiridas (2) à Galerie Maurice Chalom, 21, Place Vendôme, Paris, em Julho de 1971, por 115.000 francos franceses.

 

Cristina Carvalho

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Bibliografia
AA.VV. – The Connoisseur Complete Encyclopedia of Antiques, Londres: The Connoisseur and Rainbird reference books, 1975COUTINHO, Maria Isabel Pereira – Mobiliário Francês do século XVIII, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1999

DEMETRESCU, Calin – André–Charles Boulle, illustre ébéniste de Louis XIV. Dossier de L’art, nº 224, Dijon: Editions Faton
DEMETRESCU, Calin –Les meubles de Boulle, entre innovation et conservatisme. Dossier de L’art, nº 224, Dijon: Editions Faton
REYNIÉS, Nicole de – Le Mobilier Domestique, vocabulaire typologique. Paris: Imprimerie Nationale, 1987
WILSON, Gillian, SASSOON Adrian, BREMER-DAVID Charissa – Acquisitions made by the decorative arts department in 1982. The J. Paul Getty Museum Journal: Volume 11, 1983

 

Webgrafia
The J. Paul Getty Museum – http://www.getty.edu/art/collection/artists/1099/pierre-golle-french-about-1620-1684-master-before-1656/
http://www.meublepeint.com/jean-berain-style-reduit.htm
MIESSEN, Vivian – Le meuble « Boulle » à travers les âges. Des meubles de prestige, de Louis XIV  à Napoléon III –http://www.fondationdemeuresetchateaux.be/index.php/patrimoine-mobilier-3/marqueterie-boulle
Bibliothéque Nationale de France – http://expositions.bnf.fr/paris/grand/028.htm
The Wallace Collection – http://www.wallacecollection.org/blog/2015/09/cabinet-maker-to-the-king-andre-charles-boulle/

Artista

André-Charles Boulle (1642–1732)

Ano

1690

País

França

Materiais

Nogueira (esqueleto) folheado de ébano, folha tartaruga, folha latão, bronze, pau-rosa e pau-santo (trás).

Dimensões

A: 84cm x C: 114cm x P: 64cm. A:79cm x C: 119cm x P: 71,5cm.

Categoria
Destaque