Mesa-escritório (2) – Destaque Fevereiro 2020

Destaque Fevereiro 2020

Mesa-escritório (2)

 André-Louis Gilbert (1746-1809) – atribuído

Madeira, bronze, couro

Paris, último quartel do séc. XVIII

FMA 187 A: 70,5 x L:39,5: x P:31

FMA 188: A: 71 x L:39,5: x P:31

Par de mesas-escritório em madeira de pau-rosa, sicómoro, amaranto, ameixieira, azevinho, couro e bronze, decoradas com marchetados figurativos de paisagens rurais, troféus (armas, instrumentos de medição, de desenho, pássaros) e urnas.

 

 

Uma autoria: André-Louis Gilbert?

André-Louis Gilbert, (1746-1809) foi um ebanista de renome pela realização de marchetados figurativos com paisagens e arquitecturas dentro do estilo de Transição e de Luís XVI, ao gosto da pintura paisagista (quer ela fosse citadina, rural, de arquitecturas, clássica ou de jardins) de Hubert Robert (1733-1808).

Nascido em Paris em 1746, começa a trabalhar com Noel Malle, com quem deverá ter adquirido o gosto e técnica dos marchetados figurativos que se irão impor ao longo do 3º quartel do século XVIII. Torna-se mestre em 1774 estabelecendo-se na Rue Traversière mudando-se cerca de 10 anos mais tarde, para a rua de Saint Antoine, onde outros ebanistas estavam também estabelecidos. Quando a Revolução Francesa se declara, o seu atelier estava em pleno funcionamento. Participante activo da mesma, irá assumir cargos militares e políticos que ditaram o abandono da marcenaria, que não voltará a exercer, vindo a morrer em 1808 no meio de dificuldades económicas, no hospital de Saint Antoine.

 

Os seus trabalhos (cómodas e secretárias) sobretudo de estilo Transição e Luís XVI pautam-se pela reprodução de paisagens reais ou imaginárias nas quais estão presentes rios e árvores, numa clara evocação do paisagismo de Hubert Robert, denotando ainda um especial gosto pelas arquitecturas clássicas, palácios com perspectivas, vistas de ruas de cidades e aldeias, por onde frequentemente passam cursos de água, nas quais patos e cisnes nadam enquanto que, a figura humana está quase sempre ausente, numa ingenuidade de representação das cenas e simplificação do traço.

Possivelmente influenciados por Jean-Charles Delafosse, que em 1768 publicara uma colectânea de imagens com notas explicativas sobre os atributos alegóricos: Nouvelle Iconologie Historique ou Attributs Hierogliphiques, os seus trabalhos caracterizam-se ainda, pelo uso de troféus, que à época se popularizam como motivo decorativo.

 

Alguns dos trabalhos atribuídos a Gilbert apresentam o mesmo tipo de friso de entrelaçado de folhas de louro, o recurso aos emolduramentos com filetes de amaranto e painéis com ângulos côncavos rodeados por cercaduras idênticas, confundindo-se por vezes com os realizados por ou para Léonard Boudin, ebanista e marchand-mercier para quem Gilbert trabalhou. Para além da utilização de um vasto leque de madeiras em cor natural ou tingida, recorria ainda à madrepérola para representar as janelas dos edifícios.

Sem qualquer tipo de marca, as mesas- escritório da colecção da Casa-Museu, são passíveis de ser aproximadas ao trabalho de Gilbert dadas as semelhanças técnicas e estéticas atrás referidas, com outros trabalhos deste ébanista, não só nos painéis, mas também, nas cercaduras e rosetas que rematam os ângulos das mesmas, como no caso de uma pequena caixa escritório http://www.kollenburgantiquairs.com/fr/collection/detail/1087/) atribuída a Gilbert, também decorada por paisagens rurais que apresenta exactamente o mesmo tipo de emolduramento com filetes de amaranto e cercadura de entrelaçado de folhas de louro rematada nos ângulos por rosetas.

A mesma tipologia de paisagem (rural) com cursos de água está também presente noutros trabalhos de Gilbert como os referidos por Pierre Kjellberg no seu – Le Mobilier Français du XVIIIème siècle, dictionnaire des ébenistes et des menuisiers.

 

As mesas-escritório da coleção

As mesas, de pequenas dimensões, são constituídas por frente com três gavetas com fechadura única que tranca todas em simultâneo, pormenor técnico também atribuível a este ébanista. A frente apresenta em ambos os casos, composição decorativa com troféus alegóricos (sendo que a FMA 187 apresenta ainda um outro no tardoz) então tão em voga. Em ambas as mesas, o interior da primeira gaveta cobre-se de um tampo em couro e divisórias laterais para aprestos de escrita.

Os tampos também diferentes entre si, representam ingénuas paisagens rurais com cursos de água. Um deles tem em primeiro plano, uma fonte junto à margem de um rio, onde uma figura feminina com um pote à cabeça, se vai abastecer. No outro, numa aldeia atravessada por um rio, assistimos ao movimento quotidiano dos aldeãos nas suas tarefas diárias, como por exemplo serrar madeira.

Os painéis laterais são idênticos apresentando urnas rodeadas, por panejamentos suspensos abertos, sendo possível ainda, observar a passamanaria. As pernas são elegante e levemente galbadas terminando por sapatas em bronze, o que remete a execução destas mesas para o gosto do período Transição. Embora a sua decoração não seja igual, mas semelhante, as mesas constituem um par, visto terem as mesmas dimensões, podendo ser como era hábito à época, dispersas numa sala.

 

 

Marchetados figurativos

É em meados do século XVIII que se produz uma mudança no gosto e estilos decorativos dando o estilo rocaille progressivamente lugar ao gosto à grega. Tal alteração traduz-se estilisticamente pela substituição do estilo Luís XV pelo de Transição e posteriormente pelo Luís XVI, numa sucessão de denominações que acompanham a evolução dinástica e política de França.

Progressivamente, os elementos em curva e contracurva são trocados por uma maior simplificação de linhas assim como, de decoração que passa a inspirar-se na antiguidade clássica. Linhas rectas, formas paralelepipédicas, caneluras, capitéis “vindos” de Herculano e Pompeia e marchetados de motivos florais, substituem a linha curva e abaulada, as folhas de acanto, os concheados, os bronzes do período anterior. O final do reinado de Luís XV pauta-se estilisticamente pela Transição anunciando o seu sucessor, Luís XVI no qual, estes elementos se acentuam e confirmam, com as formas rectilíneas, os pés em canelura, as fitas, os laços, os nós.

É neste contexto que encontramos novos modelos decorativos de marchetados, começando a aparecer as composições figurativas. Estas caracterizavam-se por diferentes tipos de motivos: paisagens rurais, citadinas ou de ruínas clássicas, com ou sem personagens, troféus ou até motivos de influência oriental. Podiam ainda apresentar uma outra tipologia decorativa surgida neste período que é a dos pequenos objectos domésticos, que assim passam a integrar a decoração das peças de mobiliário. Conheça este tipo de decoração aqui: http://collections.madparis.fr/bonheur-du-jour

Em geral, os marceneiros desenhavam eles mesmos a peça pretendida, só raramente recorrendo a pintores miniaturistas especializados, como no caso do ébanista Pierre Pionnez. – Veja aqui um dos seus trabalhos http://www.chayette-cheval.com/html/fiche.jsp?id=4399747)

 

A acompanhar esta recente gramática decorativa surgem cerca de 1760,  novas peças de mobiliário como uma série de pequenas mesas designadas em francês por bonheur du jour, que podiam assumir as mais variadas funções, segundo o espaço onde se encontravam: escrita (a sua função primordial) de toilette, de apoio, de exposição, que passam a decorar espaços de cariz eminentemente feminino. Destinadas à escrita podem ter formas variadas, mas apresentam sempre espaços para guardar os aprestos como gavetas e divisórias próprias e espaços para escrever (em geral) forrados a couro.

No início da 2ª metade do século XVIII, a representação de troféus passa a estar na moda, quer sejam de música, das artes, das ciências, reflexo de uma nova sociedade na qual a cultura desempenha um papel cada vez mais importante. Também não serão esquecidos os troféus de guerra com a figuração de panóplias com escudos, lanças e outras armas. A toda esta representação alegórica, não terá sido alheia a publicação em 1768 da colectânea de imagens com explicações sobre os atributos alegóricos de Jean Charles Delafosse: Nouvelle Iconologie Historique ou Attributs Hierogliphiques, que ao longo de mais de 100 páginas, representa e explica detalhadamente a simbologia dos mesmos.

Inúmeros ebanistas durante as décadas de sessenta, setenta até à de oitenta, usam então esta temática nas suas peças, associando-lhes também por vezes, painéis onde surgem vasos, urnas, perfumadores “à grega” enquadrados por panejamentos em forma de reposteiro aberto e com passamanaria, tal como nas mesas em análise.

 

Apesar da obrigatoriedade da estampilhagem nos móveis (em vigor desde 1751) do nome do atelier ou do fabricante, tal nem sempre acontecia deixando inúmeras peças sem autoria exacta, como no caso das mesas da colecção da Casa-Museu. A inexistência de estampilha, não é sinal de menor qualidade de produção, uma vez que, podia haver diversos motivos que levavam a tal ausência. Os mestres que trabalhavam para a Casa Real estavam isentos da obrigatoriedade do seu emprego. Por outro lado, a sua não colocação evitava o pagamento de uma taxa e finalmente por vezes, os marchands–merciers queriam manter no anonimato a origem dos móveis por si transaccionados. No entanto, também podia acontecer o contrário: uma peça ser estampilhada por dois autores. Embora não se saiba exactamente porquê, presume-se que uma peça pudesse ter sido alterada por um dos dois marceneiros ou que um marceneiro tenha subcontratado um trabalho e depois viesse a colocar também a sua própria marca, apesar de não ter sido ele a executá-la, mas sim a vendê-la.

 

Vários artistas como Gilbert, Roussel, Topino, Foullet, Schlichig, Wolff, Boudin, etc. dedicaram-se a este tipo de produção de marchetados figurativos sendo difícil a atribuição de autorias quando as peças não estão estampilhadas, como neste caso. Não raras vezes, os laços entre marceneiros eram estreitos tanto devido a ligações familiares como consequência do percurso de aprendizagem, feito nas oficinas uns dos outros até à obtenção do grau de mestre. Havia ainda a relação comercial entre os diversos marceneiros e os marchands, eles próprios muitas vezes ebanistas, que encomendavam trabalhos a colegas dando, por isso lugar à subcontratação de serviços.

Assim, apenas nos é possível sugerir uma atribuição de autoria para estas duas mesas, por aproximação estilística à produção de André-Louis Gilbert.

 

Proveniência

As mesas foram adquiridas por Medeiros e Almeida em 1972, em Paris à Galeria J. Kugel.

 

Cristina Carvalho

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Bibliografia

KJELLBERG Pierre – Le Mobilier Français du XVIIIème siècle, dictionnaire des ébenistes et des menuisiers. Les Éditions de l’amateur. Paris 1989

SALVERTE, François – Les Ébénistes du XVIIIème siècle, leurs œuvres et leurs marques. F. de Nobele, Paris, 5ª ed. 1962

 

Webgrafia

https://www.anticstore.com/article/xviiieme-siecle-bonheur-du-jour

http://www.artnet.com/artists/jean-charles-delafosse/past-auction-results/2

http://www.antiquitesbaptiste.com/achat-commodes-commode-aux-ruines-antiques-par-leonard-boudin-paris-epoque-transition,327.html

http://www.kollenburgantiquairs.com/fr/collection/detail/1087/

https://www.restaurationdemeubles.com/ebenistes-g.htm

http://www.sothebys.com/fr/auctions/ecatalogue/2015/mansion-overlooking-royal-park-l15318/lot.113.html

http://www.maison-salamandre.com/index.php/travaux-en-images-meuble/les-questions-techniques-restauration/item/34-estampilles.html

Autor

André-Louis Gilbert (1746-1809) – atribuído

Ano

Último quartel do séc. XVIII

País

Paris, França

Materiais

Madeira, bronze, couro

Dimensões

FMA 187 A: 70,5 x L:39,5: x P:31 FMA 188: A: 71 x L:39,5: x P:31

Categoria
Destaque