“O Policía e a Garçonne”, Destaque Novembro de 2012

“O Policía e a Garçonne”, Destaque Novembro de 2012

O Humor como iniciativa do Modernismo:

A entrada do Modernismo – enquanto movimento estético – em Portugal, deu-se “à boleia” do Humorismo. Desde meados do século XIX que nomes como Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) e Sebastião Sanhudo (1851-1901) tinham vindo a desenvolver o humor português apoiando-se numa mordaz crítica social e política, segundo as pisadas do estrangeiro que tem, no francês Honoré Daumier (1808-1879), um dos grandes precursores do Humor.

 

Nas artes plásticas, o modernismo teimava em tardar a entrada em Portugal, que vivia no panorama de um ensino subordinado à estética oitocentista e do domínio dos valores do realismo e dos naturalistas da segunda geração. No estrangeiro, porém, alguns portugueses destacavam-se já no campo do humor, como em Paris, Stuart de Carvalhais que publica em 1913, em revistas como o “Le Rire”, o “Ruy Blas” e o “Le Sourire” e em Munique, Emmérico Nunes que colabora no jornal “Meggendorfer Blatter”.

 

Legitimado pela liberdade de expressão e vivendo o clima frenético do pós primeira guerra mundial o humor visava os diferentes tipos sociais e as virtudes e defeitos do novo regime republicano, que assim se transformam em matéria-prima para os artistas. Aparecem por todo o país centenas de novos títulos de jornais e revistas que se tornam um veículo de experimentação para uma nova geração de desenhadores e caricaturistas, como Stuart Carvalhais (1887-1961), Emmérico Nunes (1888-1968), Cristiano Cruz (1892-1951), Almada Negreiros (1893-1970), Jorge Barradas (1894-1971), António Soares (1894-1978) e Bernardo Marques (1898-1962). Em 1911 estes artistas formam o “Grupo de Humoristas Portugueses” que expõe os seus trabalhos em Salões na capital e no Porto dando início a um processo irreversível de introdução do modernismo em Portugal.

 

 

A arte de José Herculano Stuart Torrie de Almeida Carvalhais:

Conhecido como Stuart de Carvalhais o autor nasceu em 1887, em Vila Real de Trás os Montes e morreu em Lisboa, em  1961, onde viveu desde os primeiros anos de novecentos. Na capital teve formação como aprendiz de pintura de azulejo no estúdio de Jorge Colaço (1868-1942), por volta de 1905, não se lhe conhecendo outra formação que não a da vida. A sua estreia como caricaturista deu-se em 1906, no Suplemento Humorístico do jornal “O Século”, e em 1907 iniciou o seu importante percurso na banda desenhada, com “As Aventuras de Dois Meninos no Bosque”, seguindo-se em 1915 as famosas “Aventuras de Quim e Manecas” e a sua larga colaboração em várias revistas humorísticas como “A Sátira”, “O Zé”, a “Gargalhada”, a “Ilustração Portugueza” e o “Papagaio Real”. Apesar de algumas estadias em Paris, onde conviveu com Sousa Cardoso, Almada Negreiros e Santa Rita, Stuart viveu sempre em Lisboa entre o sucesso, a instabilidade financeira e o alcoolismo.

 

 

Humorista, caricaturista, pioneiro da banda desenhada, pintor, ilustrador, designer gráfico, cenógrafo, figurinista, fotógrafo, decorador, realizador de cinema e ator, Stuart de Carvalhais, foi um artista multifacetado experimentando materiais inesperados como papel de embrulho, tampas de caixotes, cartão, guardanapos – e até de alguns materiais que usou para desenhar como fósforos queimados, vinho, graxa e carvão, num sinal – ainda que involuntário – de uma certa vanguarda. Através do desenho, gracejou e criticou, sendo, por excelência, o cronista do seu tempo e da sua cidade – Lisboa. O seu reportório de tipos alfacinhas e do bas fond lisboeta é conhecido tendo imortalizado as burguesinhas, as costureiras, as fadistas, os pregoeiros, os bêbados, os polícias, os artistas, os atores, os políticos…

 

 

A atividade constante deu a Stuart uma grande mestria de traço, que lhe permitiu variar de registo à sua vontade, evidenciando-se na sua obra, um desejo de liberdade, de criação e uma enorme apetência experimental muitas vezes longe das convenções estilísticas. Ao analisarmos o seu trabalho surgem linhas, manchas, texturas e cor que se conjugam para transmitir os conteúdos formais e plásticos, lendo-se, para além de um sentimento profundo, uma pesquisa séria, uma busca dos processos de representação, de algo novo, sem paralelo na altura. As suas marcas mais comuns são o traço a tinta-da-china, despojado, grosso e descontínuo e o uso do preto e branco e a inexistência de pormenores, fundo ou perspetiva criando leituras claras e simplificadas.

 

Análise Iconográfica:

O universo iconográfico do desenho em análise é o dos tipos sociais lisboetas tão caros ao artista; neste caso uma mulher elegante e um polícia bêbado. Sendo o automóvel uma relativa ‘novidade’ nos anos vinte da centúria de novecentos, a sua interferência no quotidiano – provocada pela ‘democratização’ do uso – vai ser grande, como tal, geradora de costumes e comportamentos sociais. A Stuart, agudo observador do quotidiano não lhe passam despercebidas as novas situações.

 

 

Na obra, a elegante senhora que está a observar a parte de baixo do automóvel, compõe um novo tipo; a mulher emancipada, surgida como produto do pós-guerra, dos chamados ‘loucos anos vinte’, que já conduz sozinha o automóvel e apesar de elegante e vestida à moda, não hesita em tentar resolver a avaria, numa situação de apuro. Com este tipo o autor faz uma crítica velada às poses de uma burguesia emergente, muito ‘ruidosa’ na maneira de viver. O curto vestido deixando as elegantes pernas à vista calçadas com meias até ao joelho, mostra o que até então não era hábito nas senhoras da sociedade – o próprio Stuart confessava: “…Mas não tive emenda e, confesso, em desenhar pernas sou um reincidente.” (COTRIM, 2006, p.18, citando o próprio Stuart que em “Stuart conta-nos alguns episódios da sua vida boémia” – Eva, dezembro, 1952), refere um episódio passado em Paris em que andou à zaragata por ter pintado os “membros locomotores” de uma jovem no parque Monceau). O pequeno chapéu pousado no chão – objeto obrigatório da moda feminina dos anos 20, usado como acessório de embelezamento e sedução mas também de autonomia – é do modelo cloche (em forma de sino) e seria certamente complemento do novo penteado à la garçonne, também este símbolo da nova e moderna mulher que aqui é descrita.

 

Por outro lado, o polícia, figura típica do tecido social, que não sofre o mesmo tipo de evolução é conotado com o ‘bronco’ e bêbado como se pode aferir nesta situação em que atónito observa a mulher pois leva ambas as mãos à boca num gesto de incredulidade e mesmo de estupidez. Retratado com o inevitável bigode, nariz batatudo e as bochechas ruborizadas, denuncia a ida à ‘tasca’ e um pouco de álcool a mais, o que não ajuda à compreensão da cena que presencia. A esquadra a que o guarda pertence, identificada pelo nº37 na divisa do colarinho da farda, a Serafina, também ajuda à tipificação pois este era um bairro do bas fond lisboeta, um meio pobre e marginal, a que o próprio artista pertencia.

 

Análise Formal:


‘O Polícia e a Garçonne’ (título possível) desenvolve-se apoiado num traço simples, mas não o desenho integral a preto e branco a que tanto recorreu pois o artista utilizou aguarelas policromas e tinta-da-china, sobre cartão. O desenho não tem título nem texto interpretativo, algo também incomum na obra do artista. A característica formal geral é a inexistência de cenário, sendo a situação retratada o único motivo presente, recurso habitual na obra de Stuart.

 

 

A composição é concebida num só plano e conseguida com poucos traços (estrutura do carro e rodas) cabendo à aguarela delinear, pela cor, a carroceria, o vestido da jovem e a figura do polícia.

 

A paleta é reduzida, sendo quatro as cores utilizadas; vermelho, azul e castanho da aguarela e o negro da tinta da china. A grande mancha vermelha do carro anima a composição sendo a sua fonte de luz bem como o brilho dos pormenores a tinta da china como o capacete empresta grande força ao desenho e faz oscilar o olhar do espectador entre as rodas do carro, o volante e o chapéu do polícia. O azul horizontal do vestido da jovem senhora, liga-se com o azul vertical da farda do polícia, fazendo o desenho ser percorrido por relações de olhares apressados que captam assim a realidade num instante. O horizonte é apenas sugerido por uma linha horizontal interrompida pelo automóvel, não havendo qualquer fundo ou cenário.

 

situação retratada torna-se humorística, não só pelo exagero da tipificação dos personagens, mas pelo olhar agudo que revela sobre dois ‘tipos’ tão díspares, provenientes de mundos diferentes, mas que coabitavam nesta Lisboa dos anos vinte. A falta de título ou texto elucidativo não se faz sentir pois a situação fala por si, auto esclarece-se, tendo o espectador a imediata perceção do alcance humorístico da composição: “…é de leitura imediata, como só a rua sabe ser.”  (PACHECO, 1987, p.17)

 

Proveniência:

 

Rua da Escola Politécnica, 39

 

O desenho humorístico hoje pertencente ao espólio da Casa-Museu, decorava, juntamente com outros cinco, as paredes da sala principal do stand de automóveis ‘A. M. Almeida’, pertencente a Medeiros e Almeida, situado na Rua da Escola Politécnica, nº 39, em Lisboa.

 

Quanto à proveniência, levantam-se duas hipóteses; a da encomenda ao artista por Medeiros e Almeida (1895-1986) para o stand de automóveis que abriu em 1924 – hipótese plausível tratando-se da temática dos desenhos -, ou a da simples compra oportuna, num salão ou exposição da época.

 

Com o seu desenhar, Stuart estabeleceu uma relação íntima entre a Palavra e a Imagem como a do desenho em análise que encerra e traduz os modos e o mundo do artista, mostrando porque ele é um vanguardista.

 

Maria de Lima Mayer

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Nota: O texto é ilustrado com pormenores do desenho em análise e com imagens dos outros cinco desenhos humorísticos pertencentes à Casa-Museu da mesma autoria e proveniência. Por ocasião da exposição biográfica de António de Medeiros e Almeida, os desenhos foram restaurados (set 2011 – jul 2012).

 

Assinatura de Stuart no desenho

 

Bibliografia:

COTRIM, João Paulo; Stuart A Rua e o Riso, Lisboa: Assírio & Alvim, El Corte Inglés, 2006

FOYOS, Pedro; Stuart Inédito, Lisboa: Diário de Notícias, 1989

FRANÇA, José Augusto; História da Arte em Portugal, o Modernismo (Século XX), Lisboa: Editorial Presença, 2004

PACHECO, José; Stuart Carvalhais e o Modernismo em Portugal, Lisboa: Vega, 1987

PACHECO, José; Stuart Carvalhais – O Desenho Gráfico e a Imprensa, Lisboa: Apigraf, Associação Portuguesa Indústrias Gráficas T. Papel, 2000

PACHECO, José, Stuart 1887-1987 Centenário do Nascimento, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Centro de Arte Moderna, 1987

RODRIGUES, Paulo Madeira, MOITA, Irisalva da Nóbrega (colab.), Vida e Obra de Stuart Carvalhais, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1982

SOUSA, Osvaldo, MARCOS, Luís Humberto, 150 Anos de Caricatura em Portugal, Porto, HUMORGRAFE/AMI – Associação Museu da Imprensa, 1997

Artista

Stuart de Carvalhais 


Ano

anos 20 (1920/1930)

País

Portugal

Materiais

Desenho a tinta-da-china e aguarela sobre cartão


Dimensões

Comp. 47,3 cm. x Alt. 30 cm.

Categoria
Destaque