Objetos funerários na Dinastia Han: Mastim, Destaque Janeiro de 2013

Objetos funerários na Dinastia Han: Mastim, Destaque Janeiro de 2013

Figura representando um cão erguido, em posição vigiante, parecendo pronto a obedecer ao seu dono, exemplificando a habilidade dos ceramistas Han de transmitir vida às suas terracotas.

A Dinastia Han:


A dinastia Han divide-se na dinastia Han do Oeste (206 a.C.- 9 d.C.), com capital em Chan’na, e a dinastia Han Oriental (25 – 220), com capital em Luoyang e ainda num período intermédio correspondente à dinastia Xin, sendo Wang Mang o único soberano durante esta dinastia.

Durante a dinastia Han fixam-se as fronteiras da China e terá lugar o início da Rota da Seda que levará a intercâmbios não só comerciais (a China exportará seda, cerâmicas, jade e especiarias, e importará pedras preciosas, marfim, cristais ou vinho), como também culturais com a Ásia Central, o Irão e até Roma. Será também através destas rotas comerciais que chega o Budismo à China durante a dinastia Han Oriental.

É uma época de progresso nas mais variadas áreas, desde a agricultura até o artesanato, a literatura ou a filosofia, e de grandes invenções como o papel. A criação de inúmeros instrumentos astronómicos, de um sismógrafo ou da clepsidra, dão provas da sofisticação técnica e científica deste período.

Rituais funerários:

O enterramento de objetos junto do morto era prática ancestral na China enterrando-se objetos preciosos e artísticos mas também objetos do quotidiano. Os chineses antigos acreditavam que a morte era um prolongamento da vida, sendo que o túmulo passava a ser a morada nessa segunda fase e, por isso, tinha que ter todos os confortos que o defunto tinha gozado na vida real, incluindo os seus cavalos, cães, esposa, concubinas ou escravos, o que dará origem a numerosos sacrifícios humanos e animais. O enterramento de pessoas e animais vivos – ou mortos propositadamente – vigorou até a época de Confúcio (século V a.C.), embora já nessa altura se usassem figuras representativas.

Na dinastia Han os sacrifícios humanos – que, para além da mudança de mentalidade, supunham uma perda de recursos incomportável – já tinham desaparecido e os objetos funerários (mingqi: objetos de uso diário, instrumentos musicais, armas e, nomeadamente, figuras representando soldados, serventes, músicos, arquiteturas, cavalos, etc.) adquiriram grande popularidade, continuando o seu uso através do turbulento período das Seis Dinastias (221-589) e, depois da reunificação da China, nas dinastias Sui (589-618) e Tang (618-906). Foram realizados objetos funerários em palha, madeira ou pedra, mas serão as terracotas mingqi as que pela sua resistência, número e variedade, nos ajudam a compreender melhor o dia-a-dia e os ritos funerários na dinastia Han. Os mingqi, junto da própria arquitetura do túmulo e de outros objetos contidos nesta – comida, tecidos, pinturas -, tinham como missão assegurar o conforto do defunto que, acreditavam, tinha duas almas: a po, que residia junto do corpo, e a hun, que podia ascender aos céus mas que, através dos rituais, poderia ficar junto da po no túmulo. De forma geral, estes rituais asseguravam também o conforto da família e da sociedade já que, atendendo à doutrina de Confúcio, o bem-estar de cada pessoa e o bom desempenho do papel que socialmente lhe fora destinado asseguram a harmonia cósmica.

Os túmulos começaram a ser desenhados segundo modelos cosmológicos, com tetos abobadados e pinturas e relevos nas paredes. Existirá um código que regula o tamanho, o tipo de decoração e a quantidade e tipo de objetos segundo a hierarquia social e política, porém, durante a dinastia Han Oriental as regras são ignoradas, aparecendo enterramentos excessivos que transgridem este código.
Após a dinastia Tang (618-907) os objetos funerários foram substituídos por figuras em papel para poder ser queimadas; ao mesmo tempo apareceram guardas esculpidos em pedra que não serão enterrados mas colocados nos laterais do túmulo. Estas mudanças acontecem muito lentamente, sendo que ainda no início da dinastia Ming (1368-1644) podemos encontrar figuras de terracota.

As terracotas mingqi na Dinastia Han:

A manufatura de figuras e de outros objetos funerários transformou-se num comércio especializado durante a dinastia Han, e a sua alta demanda levará a que muitos mingqi sejam produzidos de forma massiva usando moldes, o que dará lugar a características formais mais rígidas mas que não por isso perdem vivacidade. Estas figuras não serão tão grandes como os Guerreiros de Xian (famoso exército em terracota de mais de oito mil figuras a tamanho real enterradas junto do mausoléu do imperador Qin Shihuang em c. 259-210 a.C.), mas sim muito mais variadas em tipologia: músicas, serventes, guerreiros, animais (cavalos, cães, bois, …), arquiteturas (casas, poços, cozinhas, …).

A cerâmica na dinastia Han está marcada pelo progresso técnico, que se deverá principalmente às melhorias nos fornos realizadas durante esta época: fornos maiores e com chaminés mais aperfeiçoadas, e a renovação das formas e decorações. A cerâmica será fundamentalmente funerária (ou, mais corretamente, será a cerâmica funerária a que, por estar mais protegida, chegou até os nossos dias) constando de vasos e recipientes diversos e representações mingqi. Os objetos encontrados nos enterramentos Han são em terracota cuja cor varia entre o encarnado e o cinzento-ardósia, podendo ser vidrados (alguns autores opinam que o vidrado chegara à China por contacto com povos iranianos) ou cobertos de uma argila branca e posteriormente pintados com cores não cozidas. A ornamentação destas peças era feita por meio de moldes ocos que produziam relevos pouco pronunciados, por estampagem ou por punções aplicadas antes do esmalte.

Terracota Han na coleção da Casa-Museu Medeiros e Almeida:

Mastim
Esta figura em terracota vidrada a verde, com vestígios de prata devido a ter estado enterrada durante tantos anos, representa um cão. A posição ereta, com a cabeça levantada, as orelhas arrebitadas, os olhos redondos e abertos, a boca também aberta mostrando os dentes e a cauda encaracolada, são próprias das representações de cães nesta época, em que, apesar de alguma rigidez e esquematismo, não deixam  de ser realistas e animadas.
As cilhas, como a utilizada por este cão, eram uma invenção ocidental usada e adaptada durante a dinastia Han e, nesta figura, será indicadora de que o cão representado era provavelmente um animal de trabalho, e como tal foi enterrado junto do seu dono e demais pertenças  para assegurar que, na passagem para a outra vida, o defunto contasse com as mesmas comodidades e forma de vida terrenas.

Na China os cães têm um simbolismo muito especial. Antigamente figuras de cães em palha eram levadas na cabeceira das procissões funerárias para evitar influências malignas e, posteriormente, eram queimados de modo que o fumo protegesse o defunto. É plausível que os cães em terracota da época Han – além de serem representações de cães de companhia ou trabalho – tenham também a sua origem nestes cães ancestrais e conservem o seu simbolismo, passando a ser não só representações de animais que acompanhariam o morto (mingqi), como também protetores deste.

Proveniência:

Esta terracota Han foi exposta na Antique Dealers Fair, em Grosvenor House, Park Lane, Londres, entre o dia 10 e o dia 25 de Junho de 1948, onde foi adquirida por John Sparks, juntamente com outras peças de cerâmica chinesas atualmente na coleção da Casa-Museu, para Medeiros e Almeida.

Samantha Coleman Aller
Casa-Museu Medeiros e Almeida

Bibliografia:

COX, W.E.; The Book of Pottery and Porcelain (vol.I), New York: Crown Publishers, 1944

DULANY HYMAN, V. (coord.); Han Dynasty Impressions 206 B.C.-221 A.D., Birmingham: Dulany’s Gallery, 1984 (Catálogo de exposição) Colburn GOIDSENHOVEN, J.P., La Ceramique Chinoise. Commentaires sur son evolution, Bruxelas: Editions de la Connaissance, 1954

LAUFER, B.; Chinese Pottery of the Han Dyansty, Leiden: E.J. Brill, 1909

LION-GOLDSCHMIDT, D.; Les Poteries et Porcelaines Chinoises, Paris: Presses Universitaires de France, 1957

CLYDESDALE, H.; The Vibrant Role of Mingqi in Early Chinese Burials, In Heilbrunn Timeline of Art History. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2000. http://www.metmuseum.org/toah/hd/mgqi/hd_mgqi.htm (Consultado em outubro 2012)

Artista

Ano

dinastia Han (206 a.C.-220)


País

China

Materiais

Terracota vidrada


Dimensões


Alt. 24,8 cm / Comp. 28,7cm / Larg. 10cm

Categoria
Destaque