Os Tompion da Casa-Museu Relógios de Bolso de Thomas Tompion (1639-1713), Destaque Maio de 2015

Os Tompion da Casa-Museu
Relógios de Bolso de Thomas Tompion (1639-1713), Destaque Maio de 2015

A idade de ouro da relojoaria inglesa
No século XVI, a relojoaria inglesa estava praticamente confinada ao fabrico de relógios públicos e de igreja – sendo que os relógios de uso pessoal eram maioritariamente importados – situação que virá a mudar drasticamente em poucos anos. Na Inglaterra dos séculos XVI e XVII a rápida evolução em diversas áreas foi crucial para manter a supremacia marítima que o país alcançara, e que levaria à criação de um grande Império. No campo da relojoaria, já desde a segunda metade do século XVII que Inglaterra ocupará um lugar de destaque, posição na qual se manteve até meados do século seguinte, em grande parte graças a nomes como o de Thomas Tompion, considerado o pai da relojoaria inglesa, mas também a outros como Daniel Quare (1648-1724), George Graham (1673-1751), John Harrison (1693-1776), Thomas Mudge (1717-1794), John Arnold (1736-1799) ou Thomas Earnshaw (1749-1829).
A maior concentração destes relojoeiros localiza-se em Londres, onde também tinham chegado estrangeiros muito qualificados nesta área, dando lugar a uma grande concorrência e surgindo muito rapidamente a necessidade de criar um organismo para regular não só a qualidade do produto como também o próprio mercado. Em 1631, e por decreto do rei Carlos I, é criada a Worshipful Company of Clockmakers, a mais antiga instituição relojoeira ainda no ativo. Originalmente ninguém podia vender relógios na área de Londres se não fosse um membro da Clockmakers’ Company.

 

As grandes ânsias pela experimentação técnica durante as últimas décadas do século XVII trarão numerosas novidades – como a espiral de balanço – cuja implementação terá como resultado máquinas muito mais exatas e fiáveis. Os relógios deixarão de ser meros adornos, símbolos de status, para se transformarem em instrumentos científicos com uma utilidade prática, o que levou a que a vertente estética dos relógios fosse relegada para segundo plano. A isto também ajudou o novo uso de bolsos no vestuário masculino, que unido ao peso dos relógios da altura – em parte consequência da frequente utilização de caixas duplas – proporcionou uma nova forma de uso destes, que já não são pendurados por correntes ou fitas de pescoço, ou suspensos nas vestes à vista – salvo os usados pelas senhoras – sendo que, embora continuem a ter uma corrente que os une ao traje, serão guardados dentro dos bolsos. Como consequência do anteriormente dito, é frequente encontrar nesta época relógios com caixas de ouro ou prata com pouca ou nenhuma decoração exterior, embora também se encontrem caixas de couro ou tartaruga com aplicações de ouro e, menos frequentemente, esmaltes. O facto de muitos relógios contarem com uma dupla caixa, aumentava não só o peso, como também a espessura e o preço dos mesmos, já que se gastava mais metal no seu fabrico.

 

Com a maior precisão, surge a possibilidade de poder medir intervalos menores de tempo, e por isso a necessidade de marcar os minutos – e mais tarde os segundos –, o que dará lugar a um novo problema que conhecerá diversas saídas até, por volta de 1680, se chegar ao uso dos dois ponteiros, solução amplamente adotada. Os ponteiros nessa altura em Inglaterra – normalmente pretos, embora posteriormente também azulados – eram maioritariamente de dois tipos, “beetle and poker” – pela semelhança do ponteiro das horas com as asas do besouro (vacaloura) e dos minutos com um ferro atiçador de lareira – e “tulip and pointer” (tulipa e ponteiro). Os mostradores mais comuns eram os gravados com a técnica champlevé, com a numeração das horas e dos minutos, frequentemente em reservas próprias.

 

A partir de 1700, e uma vez que a técnica já estava mais dominada, virá uma época de menor experimentação, na qual os modelos são tecnicamente mais repetitivos e desinteressantes, o que fará com que a atenção se centre outra vez na ornamentação, originando um ressurgir do interesse na decoração.

 

Thomas Tompion: o pai da relojoaria inglesa
Thomas Tompion nasce em Bedfordshire, Inglaterra, por volta de 1639, não se conhece a data exata do nascimento, mas sim a do batizado, 25 de julho de 1639. É o filho mais velho de um ferreiro do mesmo nome e, embora não se saiba muito sobre os seu começo, pensa-se que será com o seu pai que inicia a sua aprendizagem no trabalho do metal, a partir de onde dará o salto para a relojoaria, algo que na atualidade pode parecer estranho mas que não o era, visto que serão principalmente ferreiros a trabalhar nos grandes relógios públicos na altura, e será nessa guilda (associação) que os relojoeiros se enquadravam antes de contar com uma instituição própria.

 

Por volta de 1670 Tompion muda-se para Londres e em 1671 é admitido na Clockmakers’ Company como aprendiz, recebendo três anos mais tarde a categoria de trabalhador independente e em 1703 a de mestre relojoeiro. Fundamental no percurso de Tompion será o seu contacto com Robert Hooke, quem não só lhe abre as portas para os altos patrocínios, como o põe em contacto com os últimos desenvolvimentos tecnológicos da época; Hooke será – juntamente com o holandês Christiaan Huygens – o criador da espiral de balanço, sendo Tompion um dos primeiros a aplicar esta invenção nos seus relógios.

 

É surpreendente a rápida ascensão de Tompion, tanto em termos técnicos como na sua valorização dentro da comunidade relojoeira londrina. Tal facto deve-se à excelência das suas peças e ao uso de bons materiais, mas também ao facto de ele se rodear dos melhores artesãos – muitos deles huguenotes (protestantes franceses refugiados das guerras religiosas em França) – bem como às suas capacidades para gerir o negócio. A Dial and Three Crowns – um local na esquina da Fleet Street com a Water Street – será o local escolhido para sediar a sua atividade, sendo que em 1690 trabalhavam já para ele cerca de 20 pessoas e os seus clientes se encontravam entre as classes mais elevadas dentro e fora do país.

 

A versatilidade de Tompion fica patente ao estudar a diversidade de encomendas por ele empreendidas, nomeadamente nos primeiros anos, desde sinos de igreja e relógios públicos, a encomendas reais, como as duas peças confiadas pelo rei Carlos II para o Observatório Real de Greenwich – dois relógios com autonomia de um ano baseados num pêndulo idealizado por Hooke e que serão fulcrais para a precisão dos cálculos astronómicos -, ou o relógio de espiral de balanço realizado para o próprio monarca. Ao longo do seu percurso Tompion fabricará à volta de 5500 relógios de bolso, 650 relógios de pêndulo – como o relógio de parede por ele assinado que forma parte da coleção da Casa-Museu e pode ser visto em exposição permanente na Sala dos Relógios – e outros instrumentos científicos. O registo das suas peças torna-se mais fácil por ter sido o primeiro a aplicar um sistema de numeração para os seus relógios, que é de facto considerado o primeiro deste tipo aplicado a produtos manufaturados.

 

O trabalho de Tompion foi fundamental para o desenvolvimento da relojoaria inglesa. A qualidade dos seus relógios pode constatar-se no facto de que muitos dos relógios por ele fabricados continuam ainda funcionais na atualidade. O seu trabalho foi de tal forma apreciado na época que já em vida dele existiam cópias e falsificações dos seus relógios (a Casa-Museu possui um relógio assinado como Thomas Tompion, que muito provavelmente é uma falsificação da altura realizado em Amsterdão ou Genebra).

 

 

Na última década da sua vida, Tompion estabelece várias parcerias; primeiro com Edward Banger (1668-1720) – entre 1701 e 1707 – que tinha sido seu aprendiz e que casará com uma das suas sobrinhas e, posteriormente – a partir de 1711 ou 1712 -, com George Graham, também casado com uma sobrinha de Tompion, com quem assinará varias peças em conjunto e que continuará o negócio após a sua morte, assim como o seu sistema de numeração.
Thomas Tompion morre a 20 de novembro de 1713, e está enterrado na Abadia de Westminster.

 

Os relógios da Casa-Museu:
Relógio de bolso
Londres, 1697
Ouro, aço, latão, vidro e seda

 

 

Relógio de bolso de dupla caixa em ouro. A caixa exterior sem decoração, com a parte dianteira aberta, e o interior forrado a seda. A caixa interior possui uma dupla articulação para abertura da parte frontal, de vidro, sendo a parte posterior em ouro liso. Na face interna posterior da caixa interior aparece gravado o número de serie do relógio (2349), as iniciais WS – que provavelmente correspondam com o fabricante da caixa (sem identificação) – e outras três marcas: o lion passant – que até 1844 foi usado não só como marca de pureza para a prata de lei como também para o ouro de 22 quilates -, a cabeça de leopardo coroada – usada entre 1478 e 1822 como marca da cidade de Londres, perdendo a coroa a partir de 1822 -, e a marca de datação – B – que corresponde ao ano de 1697.

 

Mostrador em champlevé com as horas (em numeração romana) e os minutos (em numeração árabe) a preto e losangos relevados que marcam as meias horas. Ao centro duas cartelas, na superior – ladeada por dois putti que seguram uma grinalda – surge inscrito o nome do relojoeiro; Tompion, enquanto na inferior aparece inscrito o local de fabrico; Londres. Os ponteiros em aço, sendo o das horas de tipo tulipa e o dos minutos tipo ponteiro (liso).

 

Na parte posterior do mecanismo, muito decorada com vazados de enrolamentos vegetalistas e um mascarão, aparece gravado mais uma vez o nome do autor; T. Tompion e o da cidade; Londres, assim como o número de série.
Relógio de corda e fuso, com escape de reencontro, oscilador de balanço e espiral plana.

 

Proveniência:

Pertenceu à coleção de Thomas Weaving Ferrers-Walker de Baddesley Clinton, Inglaterra
Vendido em leilão da Christies de 26 de julho de 1971, lote 83
Adquirido a Celestino de Matos Domingues, Lisboa, em maio de 1978

 

Relógio de bolso
Londres, 1688
Ouro, esmalte, aço, latão e vidro

 

 

A atual caixa deste relógio pode ser fruto de uma encomenda especial saída da oficina de Tompion ou pode tratar-se de uma caixa posterior, sendo que, neste caso, a original seria provavelmente da autoria de Nathaniel Delander (1668/69-antes de 1705).

 

A caixa está inteiramente decorada com esmaltes polícromos representando cenas de guerra, tanto no exterior como no interior. O mostrador, em ouro, tem a numeração das horas em números romanos e a dos minutos em números árabes em reservas próprias elevadas sobre um fundo finamente granitado, possuindo também uma cena em esmalte no centro; um cupido segurando numa mão uma coroa de louros e na outra um estandarte.

 

A máquina (Tompion nº1006) e os ponteiros – de aço azulado e formato “beetle and poker” – são da autoria de Thomas Tompion. Na máquina, muito decorada com enrolamentos vegetalistas e um pássaro de asas abertas ao centro, aparece gravada a assinatura – Tho Tompion – e a indicação da cidade de Londres.
Relógio de fuso, com escape de reencontro, oscilador de balanço e espiral plana.

 

A proveniência deste exemplar não está documentada.

 

 

Relógio de bolso de repetição
Londres, c. 1699
Prata, esmalte, aço, latão e vidro

 

 

A caixa original deste relógio seria provavelmente da autoria de Willliam Jaques (ativo 1692-1730).

 

A atual caixa exterior é marcada na parte interior com o lion passant, a cabeça de leopardo coroada, a marca de datação – que correspondem ao período entre maio de 1784 e maio de 1785 -, e uma outra marca, a chamada Duty Mark, que era usada para indicar que tinha sido pago o imposto à coroa e que corresponde ao perfil da cabeça do monarca reinante, no caso que nos ocupa o rei Jorge III. Esta caixa é muito ornamentada, com trabalho vazado e gravado; na parte posterior representa-se uma figura segurando uma árvore e, sobre esta, o mote “LES SES DIRE”.

 

 

A caixa interior é em prata vazada e gravada com motivos vegetalistas. O mostrador de esmalte branco, apenas com a numeração a preto – números romanos para as horas e árabes para os segundos -, será, quase certamente, uma modificação posterior. Ponteiros azulados do tipo “beetle and poker”. 
Na parte posterior do mecanismo, decorada com vazados de enrolamentos vegetalistas, surge gravado o nome do autor – Tho. Tompion – e o da cidade – London – assim como o número 95 (os Tompion de repetição tinham com uma numeração própria).

 

Relógio de repetição de quartos, de corda e fuso, escape de reencontro, oscilador de balanço e espiral plana.

 

A proveniência deste exemplar não está documentada.

 

Samantha Coleman-Aller

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Bibliografia


BAILLE, G.H.; Watchmakers & Clockmakers of the World, 3ª edição, N.A.G. Press, 1966

BAILLIE, G.H., CLUTTON, C., ILBERT, C. (Ed.); Britten’s Old Clocks and Watches and their makers, 9ª edição, London, Methuen & Spon, 1982

CLUTTON, Cecil and DANIELS, George; Clocks and Watches in the collection of the Worshipful Company of Clockmakers, Londres, Sotheby Parke Bernet, 1975

CORREIA DE OLIVEIRA, F.; Dicionário de Relojoaria. O Universo do Tempo e dos seus medidores, Lisboa, Âncora Editora, 2007

EVANS, J., CARTER, J., WRIGHT, B.; Thomas Tompion. 300 Years. A celebration of the life and work of Thomas Tompion, Gloucestershire, Water Lane Publishing, 2013

MEIS, R.; Les montres de poche. De la montre-pendentif au tourbillon, Fribourg, Office du Livre, 1980

SUMONDS, R.W.; Thomas Tompion. His Life & Work, London, Batsford, 1951

 


Webgrafia

CORDER, Rob; England: where watchmaking all began, 2013

http://www.watchpro.com/14511-england-where-watchmaking-all-began/

EVANS, Jeremy L.; Thomas Tompion. English Clockmaker
http://www.britannica.com/EBchecked/topic/599008/Thomas-Tompion


McCREDDIE, Laura; A history not to be repeated: Horology
https://www.retail-jeweller.com/a-history-not-to-be-repeated-horology/5020055.article

Artista

Thomas Tompion(1639-1713)

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