“Pedras Sonoras”, Destaque Junho de 2015

“Pedras Sonoras”, Destaque Junho de 2015

O jade
O jade é um material natural cuja denominação gemológica engloba dois minerais quimicamente diferentes, mas semelhantes nas características e utilização. O mais raro e valioso é a jadeíte (silicato de sódio e alumínio), material mais brilhante e translúcido que existe em variantes de verde (o famoso verde esmeralda/espinafre é conhecido na China como ‘jade imperial’), em vermelho, lavanda, preto e branco. A nefrite (mais frequente na natureza), – composta por silicato de cálcio e magnésio -, é mais macia e apresenta uma grande gama de cores existindo em verde-claro a escuro e em variantes de branco sujo, amarelo, preto, cinzento, castanho e azul. São frequentes as inclusões de outros minerais, que resultam em veios de cores diferentes.
O valor do jade depende da cor, brilho e transparência, sendo as cores verde-esmeralda para a jadeíte e branco para a nefrite as mais apreciadas. A apreciação passa ainda pela interpretação de cada pedaço de pedra que se traduz no desenho escolhido que, juntamente com a complexidade e técnica do trabalho de escultura/gravação, tem que valorizar as caraterísticas naturais da pedra – a(s) cor(es) e a transparência. O nível de polimento e leveza conseguidos são igualmente importantes. 
Sendo um material muito duro (6 a 7 em 10 na escala de Mohs – dureza), logo difícil de trabalhar, a técnica de trabalho envolvia outros minerais mais duros na escala de dureza, que eram usados (em bruto ou moídos) para esculpir, perfurar e friccionar o jade. Cada peça é feita a partir de um só pedaço de pedra.

 

O jade na China


O jade foi trabalhado na China desde o Neolítico (c. 7-4.000 a.C.), tendo-se iniciado então uma tradição que se mantém até hoje. Pelas suas características de beleza e de resistência foi desde sempre altamente apreciado pelos chineses tendo sido considerado como a pedra mais preciosa (além do ouro, prata ou da esmeralda) atribuindo-lhe os chineses complexos simbolismos. Como tal, o seu uso esteve ligado ao poder e ao prestígio ao longo de toda a história da China. Tão poderoso era considerado o jade que era entendido como o intermediário entre os homens e o Céu. O próprio carater do jade denuncia essa ligação; a palavra ‘yù’ é composta pelo radical tu = terra e pelo dian (o ponto) = gota de céu.

 

A este propósito, Chan Hou Seng, Diretor do Museu de Arte de Macau cita um texto de Confúcio (551-479 a.C.) que enaltece as onze virtudes do jade ilustrando o profundo significado espiritual do jade na China Antiga: “O junzi [letrado] dos tempos antigos usava peças de jade em sinal de virtude. Macio, liso e brilhante, parecia-lhes como a benevolência; fino, compacto e forte, parecia-lhes como a inteligência; anguloso sem ser aguçado ou cortante, parecia-lhes como a justiça; suspenso (em contas) e como que caindo na direção da terra, parecia-lhe como a (humildade) da propriedade moral; quando percutido, a sua nota clara e prolongada, mas terminando abruptamente, parecia-lhes musical; com defeitos que não escondiam a sua beleza, e uma beleza que não escondia os seus defeitos, parecia-lhes como a lealdade; com um brilho interior irradiando de todos os lados, parecia-lhes como a boa-fé; radioso como um arco-íris, parecia-lhes como o céu; refinado e misterioso, surgindo nas montanhas e torrentes, parecia-lhes como a terra; fazendo-se conspicuamente notar nos símbolos de estatuto, parecia-lhes como a virtude e, estimado por todos, era tido como manifestação da via da verdade e do dever”.

 

Os artefactos em jade refletem a evolução da cultura chinesa; cronologicamente, o uso do jade resume-se em diferentes tipologias: artefactos de guerra/caça, amuletos mitológicos, atributos imperiais, artefactos rituais, formas simbólicas, artigos utilitários e objetos do quotidiano erudito e de ornamentação pessoal. 
O significado espiritual e ritual do jade conheceu um certo declínio nas dinastias Ming e Qing dando lugar a um entendimento menos simbólico, tendo-se os artefactos tornado em objetos utilitários e ornamentais, portadores de boa sorte e felicidade sendo destinados à contemplação estética, manuseamento e entretenimento. Os modelos antigos são repetidos (se bem que despidos do seu simbolismo) mas surgem novas tipologias ditadas pela imaginação dos artistas.

 

Foi no reinado do imperador Qianlong da dinastia Qing (1711-1799) que a arte de esculpir o jade atingiu o apogeu devido ao impulso dado por este imperador que se envolveu na produção de jade imperial (principalmente jadeíte) tendo esta atingido o mais alto nível de qualidade e quantidade.

 

A nefrite ocorre na China principalmente na região de Hetian (Khotan ou Hotan) na província de Xinjiang (noroeste), porém, o facto desta província ter estado em permanente disputa com outros povos levou a que o fornecimento não fosse constante. Em 1759 a província foi definitivamente conquistada pelos chineses (trata-se hoje em dia de uma região autónoma) passando a pagar um tributo anual em nefrite (nomeadamente o apreciado branco) diretamente à corte de Qianlong. O verde espinafre/imperial foi o preferido deste imperador.

 

A valiosa jadeíte (rara na China) foi importada do norte de Myanmar (Burma) desde a dinastia Ming (1368-1644) cruzando a província de Yunnan através da Rota da Seda. A partir de meados do século XVIII a importação de jadeíte de Burma aumentou devido ao renovado interesse pela arte de trabalhar o jade.

 

Patas com cinco garras / Nuvem estilizada
Nuvem em forma de lingzhi / Pérola flamejante

 

 

O instrumento musical

As pedras sonoras são instrumentos musicais de percussão chamados ‘qing’ (litofone). O qing é um dos mais antigos instrumentos musicais chineses, provavelmente desenvolvido a partir do xilofone no início da Dinastia Shang (c.1600-1027 a.C.) quando os antigos se aperceberam que, batendo nas pedras, estas produziam sons e que estes variavam conforme o seu tamanho, criando música. Os instrumentos daí advindos, primeiro em pedra calcária ou mármore (qing) e depois em bronze (zhong), adquiriram a forma de esquadro, variando de tamanho e espessura conforme o tom para que eram calibrados. A forma da peça é ainda auspiciosa pois representa um dos oito objetos preciosos e o esquadro do carpinteiro, significado de uma vida justa e honesta. As antigas pedras eram decoradas com simbologia associada ao poder como tigres, leões e dragões e possuíam ao centro um orifício que permitia a suspensão de uma armação (shuju), também esta normalmente decorada.

 

As pedras tocam-se em conjuntos, sendo a percussão feita com um tipo de martelo (baqueta) em madeira na seção mais comprida da pedra. 
Existem dois tipos de conjuntos: o carrilhão de 8 a 24 peças suspensas na mesma armação – o bianqing – e o carrilhão composto por 12 pedras, com as 12 notas (semitons) da escala chinesa, suspensas em armações individuais – chamado teqing -, como é o caso das peças da Casa-Museu. 
As pedras sonoras em jade (yuqing), mais raras, são conhecidas desde o final da Dinastia Zhou (c. 711-221 a.C.) considerando-se – devido à fama do jade – que produziam o melhor som (o que não é verdade em termos musicais).

 

A música sempre teve grande significado na China acreditando-se que exercia influência nas faculdades administrativas do imperador e dos oficiais. Não se considerava instruído um homem sem conhecimentos musicais. Apreciado o seu som desde as dinastias Shang e Zhou, os antigos usavam as pedras para acompanhar rituais e danças.

 

A palavra qing confunde-se com o som de outro carater que significa boa sorte e felicidade, a frase ‘Chi Ch’ing’, que quer dizer ‘fazer soar a pedra sonora’, é equivalente a ‘Que as bênçãos te atinjam’ ou a ‘Boa sorte e melhores votos’, como tal, as pedras sonoras eram oferecidas enquanto objeto decorativo, como presente de anos ou de regozijo e incluídas nos dotes das noivas. São diversos os exemplares desta tipologia da época Qianlong.

 

Exemplares em jade como os da Casa-Museu eram unicamente empregues no entorno imperial como instrumentos musicais rituais, nomeadamente nos serviços em honra de Confúcio que se realizam na Primavera e no Outono. Utilizavam-se ainda no grande cerimonial divino de música e dança ‘Zhonghe shao’ – existente desde o Neolítico -, realizado ainda durante a dinastia Qing, no Templo do Céu na Cidade Proibida em Pequim. Esta cerimónia acompanhava as orações e sacrifícios dos imperadores dirigidas ao Céu ou aos antepassados, os pedidos de boas colheitas ou ainda as tomadas de posse dos imperadores (acreditava-se que o som da pedra sonora, tocada no fim de cada frase musical, inspirava os ouvintes para a justiça e paz).

 

As pedras sonoras
As duas pedras da Casa-Museu são feitas de uma só peça de jade e decoradas com delicada pintura a ouro revelando grande perícia caligráfica – a arte de ‘tai cu’. Ao contrário destas peças, a técnica mais comum de decoração a ouro é feita com incisões que são pintados a ouro ou cobertos com folha de ouro.
A temática decorativa – semelhante no verso e no reverso – representa, entre enrolamentos de nuvens estilizadas em forma de lingzhi (cogumelo mágico), dois ondulantes dragões alados e escamados de quatro patas com cinco garras, afrontados, voltados para uma pérola em chamas que se encontra entre as suas cabeças e cujo centro perfurado serve de ponto de suspensão.

 

 

Trata-se de uma simbologia imperial pois os dragões de cinco garras são um símbolo do imperador (segundo uma lei existente desde o século XIV) e a pérola em chamas que perseguem, para além de ser também um dos oito objetos preciosos, é uma metáfora da perfeição e do conhecimento, qualidades que o imperador deve perseguir no seu reinado.

Os Oito Objetos Preciosos com a pedra sonora (ao centro)

Os bordos são igualmente decorados com delicados desenhos a tinta de ouro representando nuvens estilizadas sendo que nos dois lados mais compridos se abrem reservas com inscrições (da chang) em escrita ‘zhuanshu’ (estilo de caligrafia antigo) que indicam, para além do encomendante e da data, a nota e respetivo nome (estes nomes são muito curiosos):

 

  • Jade verde-escuro – ‘Kang Hsih Wu shih Wu Nien Chih’ (7 carateres), que significa: ‘Feito no ano de 55 de Kangxi’ (1716) e ‘Hwei P’in’ (2 carateres) – que significa: ‘O hóspede eloquente’ ou seja o 4º dos 6 acordes mais altos (C Sharp – Dó sustenido);

 

  • Jade verde-claro – ‘Kang Hsih Wu shih Wu Nien Chih’, que significa: ‘Feito no ano de 55 de Kangxi’ (1716) e ‘Yung Ch’un’, que significa: ‘O responsável máximo’; nome para o último dos 6 acordes mais baixos (A – Lá).

Inscrições na pedra jade verde imperial / Inscrições na pedra de jade verde claro

As pedras sonoras estão suspensas em suportes individuais (shuju) de madeira – por cordão de fios de seda dourada – indicando que são dois exemplares de um conjunto de doze pedras individuais – o teqing – e têm uma baqueta de madeira com cabeça de pele que não é rigorosa já que estes instrumentos seriam percutidos com uma baqueta só em madeira. 
As duas pedras da Casa-Museu formavam, pois, parte de um teqing imperial do reinado do imperador Kangxi tornando estes itens num conjunto de exceção. A raridade da encomenda, do material, da manufatura e da decoração são disso prova.

 

Suporte – Teqing


Nota: Existem outras pedras da mesma época – provavelmente do mesmo carrilhão – no Metropolitan Museum de Nova Iorque (http://www.metmuseum.org/collection/the-collection-online/search/61946?rpp=30&pg=1&ft=sonorous+stone&pos=2) e no Palace Museum de Pequim. Até à data, a Casa-Museu não identificou mais pedras da época Kangxi.
Mais comuns são os teqing em jade, desta mesma tipologia decorativa, encomendados pelo imperador Qianlong (1736-1795) existindo em alguns museus e coleções particulares.

 

Proveniência

As duas pedras terão pertencido ao entorno do imperador Kangxi (1662-1722)

As pedras foram adquiridas a John Sparks, 128, Mount Street, Londres, a 8 de Julho de 1946, por 200£.

 

Maria de Lima Mayer

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Bibliografia

AA.VV., Jade Qing Litophone and Related Pieces in: The Journal of the Walters Art Gallery, Vol.49/50. 1991/1992. The Walters Art Museum

AA.VV., Ceremonial and Useful Jades, in: Transactions of the Oriental Ceramic Society, vol. 40, 1973-74/1974-75

RANDEL, Don Michael. The Harvard Dictionary of Music, Harvard: Harvard University Press, 2003

RIENAECKER, Victor. Chinese Jade Carving – Part II in Apollo, Magazine of the Arts for Connoisseurs and Collectors, Janeiro e Fevereiro 1947

WILLIAMS, Charles Alfred Speed. Chinese Symbolism and Art Motifs – a Comprehensive Handbook on Symbolism in Chinese Art through the Ages, Londres: Tuttle Publishing, 2006

 

Webgrafia


YU HUICHUN; Qianlong’s Divine Treasures: The Bells in Rhyming-the-Old Hall – http://www.jstor.org/stable/41649979?seq=1#page_scan_tab_contents


Página eletrónica do Museu de Arte de Macau; Citação de Chan Hou Seng, Director do Museu – http://www.mam.gov.mo/oldmam/showcontent.asp?item_id=20121213010200&lc=2


Página eletrónica do Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque; Qing (chime) for linzhong – http://www.metmuseum.org/toah/works-of-art/03.15.1


Página eletrónica do Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque; Music and Art of China, Heilbrunn Timeline of Art History – http://www.metmuseum.org/toah/hd/much/hd_much.htm

Página eletrónica da leiloeira Christie’s; A rare large imperial gilt-decorated spinach-green jade musical chime, bianqing – http://www.christies.com/lotfinder/lot/a-rare-large-imperial-gilt-decorated-spinach-green-jade-5848789-details.aspx

Artista

Ano

1716


País

China

Materiais

Jadeíte ouro, fio de seda e madeira (suporte)


Dimensões


Peso: 5,5 Kg / 6,8 Kg
 Espessura: 2,5 cm / 3,2 c

Categoria
Destaque