“Piano de Meia Cauda ” – Destaque Dezembro de 2014

Piano de Meia Cauda

Maison Erard (caixa harmónica) / Maison Jansen (decoração)

Piano Nº 77836

Paris, 1899

Madeira pintada e lacada, bronzes dourados, marfim, ébano, feltro e metal

Alt. 100cm (fechado) x 195cm (aberto) x Comp. 180cm x Larg. 240cm

O Piano:
Piano de meia cauda, lacado a ‘vernis Martin’ em tons dourados, decorado com reservas representando cenas pastoris pintadas a óleo aludindo à vivência campestre e aos prazeres da música no reinado de Luís XV. Profusa aplicação de bronzes dourados formando enrolamentos vegetalistas e três ‘espagnolettes’ ao gosto rococó em voga no século XVIII.

O piano é um clássico da Casa Erard, Modelo nº1 (meia cauda), feito segundo a patente de 1850 (“brevet de 1850“). De acordo com os registos da Casa Erard, entre 1850 e 1931 foram fabricados  10.280 exemplares desta tipologia: http://www.fanderard.org/Beaupain.htm

O teclado em marfim e ébano é de sete oitavas.

No interior do piano, por baixo das cordas, lê-se a inscrição: “Par Brevet d’Invention Seb. Et Pre. Erard, 13&21, Rue du Mail, Paris”. Também no interior, no lado esquerdo, inscreve-se o número de série do instrumento: 77836 (a tinta) e duas estampilhas que farão referência, provavelmente, aos marceneiros que trabalharam no piano – na construção do móvel e na caixa harmónica –, e que teriam o fim de responsabilizar os mesmos pelo seu trabalho: “F. TURBEC” e “C. DOUETTE“.

Este tipo de pianos eram de produção extremamente cara, já que combinavam num só instrumento, o melhor da técnica de uma das famosas casas fabricantes de instrumentos musicais como era a Maison Erard, com um impecável trabalho construtivo e um programa pictórico e escultórico de superior qualidade atribuído à Maison Jansen, a prestigiada firma de decoração de interiores (e posteriormente de antiguidades) fundada em 1880 em Paris pelo holandês Jean-Henri Jansen.

Sendo só em 1890 que a casa Jansen teve as suas próprias oficinas, até então os trabalhos eram entregues a diversos marceneiros a trabalhar à época em Paris, como Joseph-Emmanuel Zwiener (c. 1849-1895), François Linke (1855-1946), o bronzista Léon Messagé (1842-1901) ou a casa Roux et Brunet (fundada em 1893).

O estilo de François Linke, que copiava o gosto francês Luís XV do século XVIII, está bem patente na luxuosa decoração deste piano. Sabendo que o marceneiro colaborou com a Erard através dos seus trabalhos de decoração para a casa Jansen, e tendo ainda em conta que existem elementos recorrentes no seu trabalho como o golfinho ou a treliça, é bem provável que a decoração deste piano seja da autoria de François Linke apesar de, até agora, não ter sido encontrada qualquer assinatura.

Por sua vez, o desenho do extraordinário piano tem provavelmente raíz nos desenhos de Léon Messagé, como parece provar a aguarela nº 167 do seu “Cahier de Dessins & Croquis style Louis XV bronzes, orfèvrerie, décoration, meubles” (Paris: A. Guérinet, 1890). Messagé, como escultor e desenhador independente, trabalhou com o marceneiro Joseph-Emmanuel Zwiener desde 1880/1881 e com François Linke desde cerca de 1885, sendo que se conhecem vários exemplos de pianos de movimento Erard desenhados por este último que incluem bronzes de Messagé. Linke utilizou várias vezes os desenhos publicados por Messagé já que estes estavam em domínio público, como pode ser o caso desta peça já que sabemos, foi entregue em 1898 para ser decorada na casa Jansen (após a morte de Messagé, Linke adquiriu os desenhos à viúva).

Esta opinião é secundada por Christopher Payne, o autor de diversa bibliografia sobre o tema e detentor dos arquivos de François Linke, que, por duas vezes, visitou a Casa-Museu no sentido de estudar as duas peças de F. Linke do acervo, bem como o restante mobiliário francês do século XIX.

Na exuberante decoração dos bronzes dourados (ou ‘ormolu’, do termo francês d’or moulu, dourure d’or moulu), para além dos enrolamentos vegetalistas que invadem todo o móvel e formam as cartelas que ostentam as pinturas, destacam-se três bustos femininos adossados às três pernas do piano, cada um ostentando um instrumento musical: harpa, violino e alaúde. A decoração do suporte dos pedais, também em bronze dourado, é composta por uma harpa com o rosto de um sol radiante na base, que podemos identificar com Apolo, deus do sol e da luz, da música e da poesia.
No interior da tampa do teclado surge a assinatura ‘Erard Paris’ a encimar uma lira, por sua vez, envolta em enrolamentos de flores.

 

Segundo um artigo publicado em 1899 sobre este piano e citado na correspondência entre o antiquário londrino Stanley Pratt e Medeiros e Almeida, a superfície do piano estaria originalmente protegida por: “vinte e quatro camadas de ‘vernis Martin’”, o que lhe conferia uma original transparência (hoje muito oxidado) e as pinturas nas reservas remetiam para os trabalhos dos pintores Henri-François Riesener (1767-1828) e Léon Riesener (1808-1878). Destas pinturas, hoje algo oxidadas, é possível a identificação de sete cenas na tampa, verso da tampa e aro: “O piquenique”, “O passeio de trenó”, “O seesaw”, “A lição de canto”, “Os tocadores de guitarra”, “O salto da cerca” e “O baloiço”.”

 

 

A Casa Erard e o seu fundador:
Sébastien Erard (Sébastien Erhard) nasceu em 1752, filho de um marceneiro, em Strasbourg, tendo estudado com grande sucesso na École du génie de Starsbourg. Em 1768, após a morte do pai, muda-se para Paris onde trabalhou como ajudante para um construtor de harpas, sendo que rapidamente fica patente a sua habilidade não só para o trabalho da madeira, como para encontrar soluções para os problemas mecânicos.

 

O pianoforte estava a surgir nesta altura, substituindo o cravo, o que oferecia novas oportunidades a construtores, compositores e pianistas. A cena musical acompanhou a revolução social trazida pela instabilidade política que culminou com a Revolução Francesa em 1789 e o cravo, que era tocado na privacidade dos salões da nobreza, vai ser substituído por um novo instrumento de teclas que serve a burguesia em salas de concerto públicas que começam a surgir. O Conservatório Nacional de Música é criado e é incentivada a criação de obras dando espaço aos construtores  para desenvolverem os instrumentos; numerosas patentes são apresentadas, prémios são atribuídos em exposições industriais marcando o auge do pianoforte.

Neste âmbito, destacam-se fabricantes como Erard e um pouco mais tarde Pleyel em Paris e John Broadwood em Londres que, trabalhando a par dos músicos, estudando as suas capacidades e obras de preferência, constroem  instrumentos mais robustos, nervosos e de grande riqueza, capazes de enfrentar as cada vez mais exigentes obras e maiores salas de concerto. Como evolução natural, o pianoforte, sem capacidade para a exigência crescente, vai desaparecendo, dando lugar ao piano moderno, instrumento que se estabelece entre 1875 e 1880.

 

Com vinte e cinco anos Sébastien Erard estabelece o seu próprio negócio – Manufacture Érad & Cie – na Rue du Mail em Paris e o seu sucesso causa a inveja entre os rivais, que o acusam de trabalhar sem licença, mas também a admiração dos músicos. O seu primeiro piano foi feito em 1777, a partir daí produz sem parar para toda a elite francesa e europeia.

A sua fama e as encomendas por ele realizadas para os monarcas Luís XVI e Maria Antonieta, põem-no em risco durante a Revolução Francesa, pelo que decide mudar-se para Londres onde permanece até 1796, e onde abre uma nova sucursal do negócio, da qual mais tarde ficará responsável o seu sobrinho Pierre (1796-1855), sendo que o seu irmão, Jean-Baptiste (1750-1826), fica a cargo, em sociedade, do ramo francês. Entre 1808 e 1812 volta a Inglaterra, antes de regressar definitivamente a França para se dedicar a melhorar os dois instrumentos associados ao seu nome: o piano e a harpa.

 

Após a morte do fundador em 1831, a casa Erard continua a ser gerida pela família, até que em 1890 parte da Erard de Londres é adquirida em leilão por J. George Morley, fabricante de harpas, sendo que a parte remanescente da fábrica continua a produção, em menor escala, até fechar definitivamente na década de 1930. A casa Erard em Paris passa a ser, a partir de 1883, a Blondel et Cie. (Maison Erard), para posteriormente fundir-se com a Gaveau e, em 1961, com a sua antiga concorrente, a Pleyel. Em 1971 a Erard cessa finalmente a sua atividade e a fabricante alemã de pianos Schimmel compra o direito de uso das diversas marcas.

Músicos como Beethoven, Chopin, Liszt, Mendelssohn ou Verdi tocaram ou possuíram pianos Erard. Ficaram célebres o piano nº28 que pertenceu a Haydn (1800) e o nº133 que pertenceu a Ludwig van Beethoven (1803). Como curiosidade, artistas como Liszt e Ravel tiveram contratos de exclusividade com esta casa, prática habitual na relação entre construtor e pianistas, ainda comum na atualidade. É famosa a rivalidade com a casa Pleyel que levava a acesos debates entre os melómanos da época a propósito das qualidades dos instrumentos:

 

« Erard-Pleyel ! Liszt-Chopin ! », écrit Wilhelm von
Lenz, soulignant par ces mots les affinités électives de ces grands artistes.
Cette formule rejoint bien d’autres constatations empruntées, entre autres, au périodique musical Le Pianiste : «Vous donnerez donc un piano d’Erard à Liszt, à Herz, à Bertini, à Schunke ; mais vous donnerez un piano de Pleyel à Kalkbrenner, à Chopin, à Hiller ; il faut un piano de Pleyel pour chanter une romance de Field, caresser une mazourk [sic] de Chopin, soupirer un nocturne de Kessler ; il faut un piano d’Erard pour le grand concert. Le son brillant de ce facteur porte, non pas plus loin, mais d’une façon plus nette, plus incisive, plus distincte, que le son moelleux de Pleyel, qui s’arrondit et perd un peu de son intensité dans les angles d’une grande salle. »

In : https://www.stephenpaulello.com/sites/default/files/paulello/presse/pianondeg25linfluencedesmaitressurlafactureqqcorrections.pdf

 

“Erard-Pleyel! Liszt Chopin! , Escreve Wilhelm von
Lenz (escritor, biógrafo de Beethoven), enfatizando com estas palavras as afinidades eletivas desses grandes artistas.
Esta fórmula junta-se a muitas outras observações, entre outras, do periódico musical “Le Pianiste”: “Dá-se um piano Erard a Liszt, Herz, Bertini, Schunke; mas dá-se um piano Pleyel a Kalkbrenner, Chopin, Hiller; é preciso um piano Pleyel para cantar um romance de Field, acariciar uma mazurca de Chopin, suspirar uma nocturna de Kessler; é preciso um piano Erard para o grande concerto. O seu som brilhante leva, não mais longe, mas de um modo mais claro, mais incisivo, mais distinto, do que o som suave do Pleyel, que se arredonda e perde um pouco de sua intensidade nos ângulos de uma sala grande.” (Tradução da autora)

 

Proveniência:
O piano foi uma encomenda de Salomon Barnato Joel (1865-1931), “Solly”, à casa Erard em 1890. Salomon Joel, nascido em Londres no seio de uma família judia, fez a sua fortuna no negócio de diamantes e na indústria do ouro. Era famosa a sua enorme coleção de obras de arte, incluindo a de móveis ingleses Chippendale.
O piano foi construído na casa Erard de Paris e entregue, em Dezembro de 1898, “em branco”, à Casa Jansen para ser decorado. De seguida foi enviado, em 22 Setembro 1899, para a sucursal Erard de Londres para ser entregue ao encomendante, pelo preço de 4.000 £;

Medeiros e Almeida adquiriu o piano num leilão da Sotheby’s de Londres em Dezembro de 1971 (lote 172), por 4.200£, através do antiquário Stanley J. Pratt (27 Mount Street), habitual intermediário nas suas compras.
Não se sabe se houve outros proprietários entre Salomon Joel e Medeiros e Almeida.

 

A 15 de abril de 2011 a leiloeira Sotheby’s de Nova Iorque leva à praça: “um importante e raro piano estilo rococó decorado com bronzes e ‘vernis-Martin’, construído em Paris cerca de 1891 por Joseph-Emmanuel Zwiener ou François Linke e com os desenhos dos bronzes atribuídos a Léon Messagé”, que foi arrematado pelo valor de 1.112.500 dólares. As semelhanças deste piano Érard com o da Casa-Museu Medeiros e Almeida são evidentes apesar das espagnolettes não serem as de origem.

Veja aqui: http://www.sothebys.com/fr/auctions/ecatalogue/lot.226.html/2011/19th-c-furniture-n08737

 

Em Maio de 2016 a Casa-Museu foi contactada por uma empresa de restauro de pianos de Nice, França (KYOL) e pela Chambre Nationale des Experts Spécialisés
en objets d’art et de collection – CNES, que solicitaram fazer moldes das esculturas que ornam o piano da coleção pois, estando em processo de restauro de um piano muito semelhante (o vendido pela Sotheby’s de Nova Iorque) para um colecionador privado, queriam repor cópias das estatuetas originais.

A vinda destes técnicos proporcionou informações adicionais a propósito do piano, nomeadamente o acesso aos registos online da casa Erard referentes ao nosso exemplar:

http://archivesmusee.citedelamusique.fr/exploitation/Infodoc/digitalcollections/viewerpopup.aspx?seid=E_2009_5_75_P0001

 

 

77836 Piano à Queue Nº 1 Style Louis XV vernis Martin orné de bronzes (a été livré en blanc a Mr Jansen, ebéniste qui a fait la décoration) Décembre 1898

77836 Piano de cauda Nº1 estilo Luís XV verniz Martin ornado de bronzes (foi entregue em branco ao senhor Jansen, ebanista que fez a decoração) Dezembro 1898  (Tradução livre da autora.)

22 Septembre 1899  Mrs S. et P. Erard à Londres

22 de Setembro de 1899 Senhores Sébastien e Pierre Erard em Londres (Tradução livre da autora.)

 

 

NOTA: A Casa-Museu agradece a colaboração do restaurador de pianos Afonso Wallenstein (2014), de Sébastien Briand e de Henry-Bertrand Collet (2016)

 

Nota: A investigação é um trabalho permanentemente em curso. Caso tenha alguma informação ou queira colocar alguma questão a propósito deste texto, por favor contacte-nos através do correio eletrónico: info@casa-museumedeirosealmeida.pt

 

Samantha Coleman-Aller

Paulo Vidal Cruz (Estagiário Fcsh-Unl)

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

 

Bibliografia:

METSDAGH, Camille ; L’Ameublement d’art français 1850-1900, Paris: Les Éditions de l’Amateur, 2010

PAYNE, C., 19th Century European Furniture, Suffolk: Antique Collector’s Club, 1989

PAYNE, C., François Linke 1855-1946. The Belle Epoque of French Furniture, Woodbridge: Antique Collectors Club, 2003

PAYNE, C., Sotheby’s Concise Encyclopaedia of Furniture, Nova Iorque: Harper & Row, 1989

Catálogos
:

Fine Continental and English Furniture, Sculpture and Works of Art, 1830-1930. Sotheby’s Belgravia, 1971

19th Century Furniture, Sculpture, Ceramics, Silver & Works of Art. Sotheby’s New York, 2011

Webgrafia:

Archives Musée de la Musique – https://archivesmusee.philharmoniedeparis.fr/

Association des Amateurs de pianos d’Érard – http://www.fanderard.org/

Pianos et Musique – http://www.pianos-et-musique.com

Conservatoire National des Arts et Métiers, Bibliothèque numérique CNUM, Manufacture Érard & Cie.http://cnum.cnam.fr/CGI/sresrech.cgi?4KY15.18/297

PAULELLO, Stephen; Liszt-Erard – Chopin-Pleyel L’influence des maîtres sur la facture, in: Histoire – https://www.stephenpaulello.com/sites/default/files/paulello/presse/pianondeg25linfluencedesmaitressurlafactureqqcorrections.pdf

Sotheby’s – http://www.sothebys.com

Artista

Casa Erard – nº77836

Ano

1898


País


Paris, França

Materiais


Madeira, óleo, laca, bronze dourado, marfim, ébano, feltro e metal 

Dimensões

Alt. 100cm (fechado) / 120cm (semiaberto) / 195cm (aberto) x Comp. 180cm x Larg. 240cm

Categoria
Destaque