“Piano de Meia Cauda “, Destaque Dezembro de 2014

“Piano de Meia Cauda “, Destaque Dezembro de 2014

Piano Erard de meia cauda, lacado a ‘vernis Martin’ amarelo dourado, decorado com reservas com cenas pastoris pintadas a óleo aludindo à vivência campestre e aos prazeres da música no reinado de Luís XV e bronzes dourados. Teclado de sete oitavas em marfim e ébano.

 

O Piano:
Este tipo de pianos eram extremamente caros, já que combinavam num só instrumento, o melhor da técnica de uma das famosas casas fabricantes de instrumentos musicais como era a Maison Erard, com um impecável trabalho construtivo e um programa pictórico e escultórico de superior qualidade.

 

A inspiração para a decoração do extraordinário piano da Casa-Museu tem provavelmente raízes nos desenhos de Léon Messagé (1842-1901), como parece provar a aguarela nº 167 do seu ‘Caderno de Desenhos e Croquis estilo Luis XV’. Messagé, como escultor e desenhador independente, trabalhou com ou para o marceneiro Emmanuel Zwiener (c. 1849-1895) desde 1880 ou 1881 e com François Linke (1855-1946) desde cerca de 1885, sendo que se conhecem vários exemplos de pianos de movimento Erard desenhados por este último que incluem bronzes de Messagé.

 

Na exuberante decoração dos bronzes dourados (ou ‘ormolu’, do termo francês d’or moulu, dourure d’or moulu) destacam-se três figuras femininas adossadas às três pernas do piano, cada uma ostentando um instrumento musical: harpa, violino e alaúde. A decoração do suporte dos pedais, também em bronze dourado, é composta por uma harpa com o rosto de um sol radiante na base, que podemos identificar com Apolo, deus do sol e da luz, da música e da poesia.

 

 

A superfície do piano estaria originalmente protegida por vinte e quatro camadas de ‘vernis Martin’, o que lhe conferia uma original transparência (hoje muito oxidado). As pinturas nas reservas remeteriam, segundo um artigo publicado em 1899 sobre este piano e citado na correspondência entre o antiquário londrino Stanley Pratt e Medeiros e Almeida, para os trabalhos dos pintores Henri-François Riesener (1767-1828) e Léon Riesener (1808-1878), sendo possível a identificação de sete cenas: “O picnic”, “O passeio de trenó”, “O seesaw”, “A lição de canto”, “Os tocadores de guitarra”, “O salto da cerca” e “O baloiço”.

 

 

No interior do piano, por baixo das cordas, lê-se a inscrição: “Par Brevet d’Invention Seb. Et Pre. Erard, 13&21, Rue du Mail, Paris”. Também no interior, no lado esquerdo, duas estampilhas junto ao número de série (77836 – a tinta) que farão referência, provavelmente, aos marceneiros que trabalharam no piano – na construção do móvel e na tampa harmónica –, e que teriam o fim de responsabilizar os mesmos pelo seu trabalho: F. TURBEC e C. DOUETTE.

 

No interior da tampa do teclado surge a assinatura ‘Erard Paris’ a encimar uma lira, por sua vez, envolta em enrolamentos de flores.

 

A Casa Erard e o seu fundador:

Sébastian Erard nasceu em Strasbourg em 1752, sendo o seu nome original Sébastian Erhard. Em 1768 muda-se para Paris onde trabalhará como ajudante para um construtor de harpas, e rapidamente fica patente a sua habilidade para encontrar soluções para os problemas mecânicos. Com vinte e cinco anos estabelece o seu próprio negócio e o seu sucesso causa a inveja entre os rivais, que o acusam de trabalhar sem licença, mas também a admiração dos músicos.

 

 

A sua fama e as encomendas por ele realizadas para o rei Luís XVI e Maria Antonieta, põem-no em risco durante a Revolução Francesa, pelo que decide mudar-se para Londres onde permanece até 1796, e onde abrirá uma nova sucursal do negócio, da que mais tarde ficará responsável o seu sobrinho, sendo que o seu irmão, Jean-Baptiste, ficara a cargo do ramo francês. Entre 1808 e 1812 volta a Inglaterra, antes de regressar definitivamente a França onde se dedicará a melhorar os dois instrumentos que permanecem associados ao seu nome: o piano e a harpa.

 

Após a morte do fundador, a casa Erard continuará a ser gerida pela família, até que em 1890 parte da Erard de Londres é adquirida em leilão por J. George Morley, fabricante de harpas, sendo que a parte remanescente da fábrica continuará a produção, em menor escala, até fechar definitivamente na década de 1930. A casa Erard em Paris passa a ser, a partir de 1883, a Blondel et Cie. (Maison Erard), para posteriormente fundir-se com a Gaveau e, em 1961, com a sua antiga concorrente, a Pleyel. Em 1971 a Erard cessa finalmente a sua atividade e a fabricante alemã de pianos Schimmel compra o direito de uso das diversas marcas.

 

Músicos como Beethoven, Chopin, Liszt, Mendelssohn ou Verdi tocaram ou possuíram pianos Erard. De facto, artistas como Liszt e Ravel tiveram contratos de exclusividade com esta casa, prática habitual na relação entre construtor e pianistas, ainda comum na atualidade.

 

Proveniência:

O piano foi uma encomenda de Salomon Barnato Joel (1865-1931), “Solly”, à casa Érard em 1890, tendo custado 4.000 libras. Salomon Joel, nascido em Londres no seio de uma família judia, fez a sua fortuna no negócio de diamantes e na indústria do ouro, enveredando mais tarde por outras áreas. Era famosa a sua enorme coleção de obras de arte, assim como de móveis Chippendale.

 

Medeiros e Almeida adquiriu o piano num leilão da Sotheby’s de Londres em dezembro de 1971, através do antiquário Stanley J. Pratt, habitual intermediário nas suas compras. 
A 15 de abril de 2011 a Sotheby’s de Nova Iorque leva à praça “um importante e raro piano estilo rococó decorado com bronzes e ‘vernis-Martin’, construído em Paris cerca de 1891 por Joseph-Emmanuel Zwiener ou François Linke e com os desenhos dos bronzes atribuídos a Léon Messagé”, que será arrematado pelo valor de 1.112.500 dólares. As semelhanças deste piano Érard com o da Casa Museu Medeiros e Almeida são evidentes.

 

Samantha Coleman-Aller

Paulo Vidal Cruz (estagiário)

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Bibliografia:

PAYNE, C., 19th Century European Furniture, Suffolk: Antique Collector’s Club, 1989

PAYNE, C., François Linke 1855-1946. The Belle Epoque of French Furniture, Woodbridge: Antique Collectors Club, 2003

PAYNE, C., Sotheby’s Concise Encyclopaedia of Furniture, Nova Iorque: Harper & Row, 1989

 

Catálogos:


Fine Continental and English Furniture, Sculpture and Works of Art, 1830-1930. Sotheby’s Belgravia, 1971

19th Century Furniture, Sculpture, Ceramics, Silver & Works of Art. Sotheby’s New York, 2011

 

Nota: A Casa-Museu agradece a colaboração do restaurador de pianos Afonso Wallenstein

Artista

Casa Erard – nº77836

Ano

1898


País


Paris, França

Materiais


Madeira, óleo, laca, bronze dourado, marfim, ébano, feltro e metal 

Dimensões

Alt. 100cm (fechado) / 120cm (semiaberto) / 195cm (aberto) x Comp. 180cm x Larg. 240cm

Categoria
Destaque