Placa “São João Batista”, Destaque Março de 2016

Placa “São João Batista”, Destaque Março de 2016

Placa pintada em esmaltes polícromos representando São João Baptista com os seus atributos. Nos cantos superiores duas reservas ovais com dois passos da vida do Santo: o Batismo de Cristo e a Pregação de São João.

 


O trabalho em esmalte
O esmalte é uma matéria vítrea transparente, a base de sílica, que pode fundir-se sobre uma superfície de ouro, prata, cobre ou outras superfícies metálicas, por meio da aplicação de calor, como forma de revestimento ou como método decorativo, juntando diferentes óxidos ao esmalte para conseguir diversas cores.

 

Embora já desde a antiguidade fosse conhecida a técnica do trabalho em esmalte, será nomeadamente a partir dos séculos IX e X que este tipo de trabalho se estende por toda a Europa através da troca de presentes entre cortes e, principalmente, a partir do casamento em 972 de Otão II – Sacro Imperador Romano-Germânico – com a princesa bizantina Teofânia, cujo dote compreendia magníficas joias e artefactos de esmalte.

 

A partir deste momento as técnicas de aplicação de esmalte sucedem-se de modo a conseguir diferentes formas e efeitos e de permitir, cada vez, maior liberdade nas representações. Um dos lugares onde grande parte desta evolução tem lugar é Limoges que, desde a Idade Média, é o mais famoso centro europeu de produção de esmaltes; o famoso “Opus Lemovicense”.

 

A produção de Limoges nos séculos XVI e XVII
[NOTA: para mais informação sobre o trabalho em esmalte e a produção de Limoges nos séculos XII-XIII ver “Cristo Crucificado – Opus Lemovicense”)
A partir de finais do século XV surge em Limoges uma nova técnica de trabalho em esmalte que se consolida no século seguinte. Esta técnica vai permitir a pintura com esmaltes, sem necessidade da existência de divisões físicas que contornassem o desenho, como acontecia no passado com as técnicas de cloisonné e champlevé. O moderno método – embora com influencias do trabalho de esmalte dos ourives, da pintura de vidro e dos esmaltes do norte de Itália – supõe a criação de um processo que dá lugar a uma nova forma de arte figurativa.

 

No início, estes esmaltes são muito coloridos e com figuras estilizadas, porém, a partir do segundo quartel do século XVI, uma nova evolução, a pintura em esmalte grisaille, vai permitir uma gradação de intensidades e um delineado de formas com o qual se pode conseguir composições muito mais estruturadas e com um maior grau de realismo. Entre 1545 e 1580, o esmalte de Limoges vive uma época dourada, com encomendas vindas não só da corte, como também do exterior de França, com uma ampla produção de esmaltes devocionais mas também de objetos de uso secular.

 

O ofício dos trabalhadores de esmaltes continuava a estar estruturado de uma forma muito próxima à organização das guildas, com mestres que lideravam os ateliers e que formavam os seus filhos no ofício de modo que os modelos se mantinham e o trabalho permanecia muito homogéneo no tempo. Este fenómeno permite distinguir claramente umas poucas famílias de esmaltistas que dominaram a produção durante todo o século XVI e XVII, entre as quais os Penicaud, os Limosin (família à que pertencerá o autor da obra em foco), os De Court, os Nouailher ou os Laudin, sendo que algumas delas ainda estão ativas, embora em menor escala, em inícios do século XVIII.

 

 

A placa da Casa-Museu
Esta placa – uma placa retangular de cobre pintada com esmaltes polícromos e com contornos e pormenores dourados a realçar a composição – está totalmente dedicada à figura de São João Batista. As principais fontes para o estudo da vida e obra de São João Batista são os Evangelhos – nomeadamente o Evangelho de São Lucas –, os Evangelhos Apócrifos, e a obra Antiguidades Judaicas, do historiador judaico-romano Flávio Josefo (37/38 – ca.100).

 

Filho do sacerdote Zacarias e de Isabel (prima da Virgem Maria), João o Batista, nasceu seis meses antes de Jesus, mas pouco se sabe da sua infância. Já em idade adulta “a palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto. Começou a percorrer toda a zona do Jordão, pregando um batismo de penitência para remissão dos pecados” (Lucas 3: 2-3). Será assim que João é considerado O Precursor, anunciando a vinda do Messias – “vai chegar quem é mais poderoso do que eu, Alguém cujas correias das sandálias não sou digno de desatar” (Lucas 3: 16), – que reconhecerá aquando do batismo no rio Jordão. Inicia-se assim a atividade messiânica de Jesus.

 

As pregações de João terão preocupado as autoridades de Jerusalém e Herodes Antipas terá ordenado a sua encarceração (em 26 d.C.), sendo finalmente decapitado (segundo alguns autores por ordem de Herodes, por intermédio da sua filha Salomé – que segundo a lenda recebeu a sua cabeça numa bandeja de prata -, como vingança por este ter criticado publicamente o adultério de Herodes e Herodías).

 

São João Batista será assim o último dos profetas de Israel e o primeiro mártir da fé de Cristo. Curiosamente, a Igreja celebra não só o dia da morte de São João – 29 de agosto -, como também a data do seu nascimento – a 24 de junho -, sendo que no calendário litúrgico só são celebrados, para além desta, outras duas natividades; a de Cristo e a da Virgem Maria, o que da ideia da importância concedida a este Santo e justifica a proliferação de placas devocionais – para além de pinturas ou esculturas – a ele dedicadas.

 

Na placa da Casa-Museu, no plano principal, presidindo a composição, encontramos a figura de corpo inteiro de São João com uma auréola radiante, barbado, com o cabelo comprido, descalço e vestindo, tal como aparece relatado no evangelho de São Mateus “…um traje de pelos de camelo e um cinto de couro à volta da cintura” (Mateus 3: 4), embora nesta representação também envergue uma capa púrpura, aludindo ao seu martírio. Na mão esquerda sustenta os seus atributos: o Agnus Dei, com estandarte, sentado sobre o Livro Sagrado que o acredita como profeta, sendo este conjunto símbolo próprio do Precursor: “Eis aqui o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29). A figura apresenta-se no meio de uma paisagem de casario e montanhas, com o rio Jordão atravessando horizontalmente a composição e um fundo de céu estrelado. À esquerda, uma árvore para a qual o Batista dirige a sua mão direita; esta árvore poderia ser uma oliveira – árvore muito associada ao cristianismo – ou um tipo de azevinho – que remeteria para a Paixão de Cristo que São João prefigura. No canto inferior esquerdo, uma reserva oval com um brasão bipartido, de fundo azul e com três flores, por identificar.

 

 

No canto superior direito, em reserva oval emoldurada a dourado, encontra-se representado o tema de “São João pregando no deserto”, embora o fundo não seja o próprio de um deserto, mas sim de um bosque, o que era habitual neste tipo de esmaltes, criando um paralelismo entre a pregação de Cristo na montanha e a pregação de São João. O profeta aparece dirigindo-se ao povo desde um púlpito improvisado a partir do que parece ser um pau ou uma corda atada entre duas árvores, o que é uma iconografia para esta temática. O dedo indicador elevado expressa a missão de São João como anunciador, tal como o arcanjo Gabriel, reforçando a ideia de João Batista como o Precursor que anuncia a chegada do Messias.

 

 

Na reserva do canto superior esquerdo figura “O Batismo de Cristo”. Cristo aparece em pé no rio Jordão, com cendal e com a água pelos joelhos, num batismo de imersão que era entendido como forma de purificação. São João, ajoelhado na margem do rio em sinal de respeito, tem a mão direita estendida sobre a cabeça Cristo, significando o gesto de verter a água batismal. Por cima da mão de São João, no centro de uma áurea dourada, uma pomba branca de asas abertas, tal como descreve Lucas: “…e o céu abriu-se, e o Espírito Santo desceu como pomba sobre ele em forma corpórea, e veio uma voz do céu: Tu és o meu Filho dileto, em ti me agrado” (Lucas 3: 21-22), representação que se fixa no imaginário e que será muito difundida.

 

 

Esta placa, cujos desenhos seguiram certamente os de uma gravura anterior, pode ter pertencido a um conjunto maior, talvez um tríptico, já que em cada um dos laterais se observam três perfurações que serviriam como ponto de união a outras placas à face de um cofre ou de um evangeliário.

 

O autor

A placa em estudo não está assinada, nem há indícios de qualquer marca ou iniciais, porém foi atribuída a Jean de Limosin, e datada de ca.1560.

 

Existem, porém, dois Jean (ou Jehan) pertencentes à famosa família de esmaltistas Limosin. O primeiro, Jean I Limosin, é irmão de Léonard Limosin, o mais celebrado artista de esmaltes do século XVI, e teria nascido antes de 1528, sendo a data da sua morte por volta de 1610, o que iria ao encontro da datação proposta para esta peça. Porém, alguns autores afirmam que este Jean não terá sido esmaltista, mas sim cônsul. Por outro lado Jean II Limosin, filho do anterior, tem numerosa obra reconhecida, mas o facto de ter nascido por volta de 1561 em Limoges, e ter morrido em 1646, levar-nos-ia a adiar a data de produção da placa da Casa-Museu.
Nos Museus de Angers existe um prato oval esmaltado cujo tema é também o de São João Batista pregando, que tem uma inscrição onde se pode ler IEHAN LIMOSIN. Este prato está datado de 1616 e é por isso atribuído a Jean II. Uma característica dos esmaltes de Jean II Limosin – embora não exclusiva deste autor – que podemos apreciar na placa que nos ocupa, é a utilização de diversas tonalidades de verde para configurar a paisagem, assim como céus de um azul brilhante.

 

Proveniência
Esta peça pertenceu à coleção de Sir Francis Scott, 3º Baronete (1824-1863), terra tenente inglês. Em 1859 foi por ele cedida em empréstimo ao Birmingham and Midland Institute – instituição fundada em 1854 para a “difusão e o progresso da Ciência, Literatura e Arte entre todas as pessoas residentes em Birmingham e nos condados do Midland” -, tal como atestam as duas etiquetas fixadas no reverso. Sir Francis Scott legou a este estabelecimento uma série de vinte e um esmaltes de Limoges, entre os quais esta placa. O conjunto foi vendido em leilão da Sotheby’s de 27 de abril de 1965, sendo que o dinheiro apurado foi utilizado para ajudar na compra do terreno onde hoje em dia está instalado o Birmingham and Middland Institute.

 

Em maio de 1966 a peça foi comprada por António de Medeiros e Almeida ao antiquário Ronald A. Lee, em Londres, Inglaterra.

 

 

Ronald Alfred Lee (1913-?) era o filho mais novo do também negociante Herny Morton Lee, com quem começa o seu percurso, junto do seu irmão Morton Lee, na H.M. Lee & Sons. Após a II Guerra Mundial, Ronald e o seu irmão seguem caminhos separados. O primeiro funda em Londres a Ronald A. Lee Fine Arts Ltd – da qual será também sócio Reginal T. Gwynn -, membro da B.A.D.A., a British Antique Dealers’ Association, a associação fundada em 1918 que reúne os principais antiquários da Grã-Bretanha e também antiquários internacionais.

 

Samantha Coleman Aller

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Bibliografia
BENEZIT, E., Dictionaire critique et documentaire des Peintres, Sculpteurs, Dessinateurs et Graveurs, vol. 5, France, Librairie Gründ, 1961

BEYSSI-CASSAN, M., Le métier d’émailleur à Limoges: XVIe – XVIIe siècle, Limoges: Presses Universitaires de Limoges, 2006

HONEY, W.B., Limoges Enamels in the Birmingham Gallery, The Burlington Magazine for Connoisseurs, Vol. 54, nº315, junho 1929

RÉAU, Louis, Iconographie de l’Art Chrétien, 3 vol., Paris: Presses Universitaires de France, 1955-1959

SPEEL, E., Dictionary of Enamelling. History and Techniques, Vermont: Ashgate Publishing Company, 1998

SPEEL, E., Painted Enamels. An Illustrated survey 1500-1920, London: Lund Humphries, 2008

TOUSSAINT, J., Émaux de Limoges XIIe – XIXe siècle, Namour: Musée des Arts Anciens du Namourois, 1996

VV.AA., L’oeuvre de Limoges. Émaux limousins du Moyen Age, Paris: Réunion des Musées Nationaux, 1995

VV.AA., The Robert Lehman Collection, Vol. XV: European and Asian Decorative Arts, New York: The Metropolitan Museum of Art, 2012

 

Outras fontes

A Bíblia Sagrada. Versão segundo os textos originais Hebraico, Aramaico e Grego, Lisboa-Fátima: Difusora Bíblica, 1966

MARCHEIX, M.M., Pénicaud Les (XV-XVI s.), Encyclopaedia Universalis [en ligne]: http://www.universalis.fr/encyclopedie/penicaud-les/

Limosin, 
Imago Mundi. Encyclopédie Gratuite en ligne: http://cosmovisions.com/Limosin.htm

The Sydney Morning Herald, 12 Jan 1865

Artista

Atrb. Jean de Limosin (c.1528-c.1610)

Ano

1560 (?)

País

França

Materiais

Esmaltes sobre cobre

Dimensões

Alt. 17,8 cm x Larg. 13 cm

Categoria
Destaque