Ponteiros retrácteis, Destaque Janeiro de 2017

Ponteiros retrácteis, Destaque Janeiro de 2017

Relógio de bolso oval, com mostrador de esmalte com dois mostradores subsidiários, ponteiros retrácteis e caixa dupla em ouro de 18 K decorada com pérolas, diamantes e esmaltes.

 

Relógios para o mercado chinês
Desde meados do século XVI que os missionários chegados à China tinham por hábito presentear o imperador com artefactos vindos da Europa, introduzindo assim a tecnologia ocidental no oriente. Foi assim que em 1601 o jesuíta italiano Matteo Ricci ofereceu ao Emperador Wanli (que reinou entre 1572 e 1620) dois relógios mecânicos, com carrilhão, decorados que causaram um grande entusiasmo na corte, ou como Kangxi (imperador da dinastia Qing entre 1662 e 1722) adquiriu grande parte da sua coleção de relógios e outros artefactos científicos.

 

O crescente interesse dos chineses por estas máquinas, que eram vistas como símbolos de status e poder, levou a que os relojoeiros europeus começassem durante o século XVII, e nomeadamente durante o XVIII, uma produção específica para o mercado chinês, realizando elaborados relógios adaptados ao gosto oriental. Os mais cobiçados relógios eram os ingleses, especificamente os de maior complexidade, com mecanismos que faziam soar gongos, que imitavam o som de animais, ou com outras complicações como mecanismos autómatos, inseridos em caixas de ouro muito decoradas com pedraria e delicados esmaltes ou em objetos de uso quotidiano como leques, caixinhas ou frascos de perfumes.

 

Desde a segunda metade do século XVIII os relojoeiros suíços, que até então tinham produzido peças e esmaltes para os relojoeiros ingleses, começaram também a fabricar relógios para o mercado chinês. Porém, a falta de canais de venda diretos fez, num primeiro momento, que tivessem que vender a sua mercadoria através de intermediários, até que, a partir do século XIX, se estabeleceu uma via direta para o comércio. Outro problema era a falta de prestígio dos relógios suíços em relação aos ingleses, o que levou a que alguns relojoeiros suíços chegassem a estabelecer oficinas em Londres para que as suas peças pudessem ser vendidas como sendo inglesas ou vender através de relojoeiros ingleses que assinavam com o seu nome.

 

Uma das características mais surpreendentes dos relógios fabricados especificamente para o mercado chinês é o facto de muitos deles serem fabricados aos pares, tal como é o caso de muitas das peças realizadas pelos principais relojoeiros ingleses como James Cox, William Ilbery ou o próprio William Anthony, assim como muitos relojoeiros suíços. Este facto pode estar relacionado com os princípios filosóficos do Yin e do Yang, como o hábito chinês de oferecer qualquer objeto aos pares ou com o simples gosto oriental pela simetria. Outros historiadores relacionam a produção e venda de relógios aos pares com uma questão de cariz prático, já que embora existissem algumas oficinas de relojoaria na China – o próprio Ricci teria treinado eunucos da corte imperial na arte da relojoaria -, estas não estavam habilitadas para reparar a grande maioria dos delicados mecanismos dos relógios europeus, pelo que estes tinham de viajar cada vez que tivessem uma avaria e, dado que as viagens de ida e volta podiam levar meses, era útil ter um outro relógio para substituir o primeiro. Embora estas teorias possam explicar a proliferação de relógios para o mercado chinês aos pares, também se levanta a hipótese que esta tradição se deveu simplesmente a uma tática desenvolvida pelos suíços para aumentar as vendas, sendo que estes levaram o conceito ainda mais longe não só criando pares idênticos como fazendo com que a decoração dos pares fosse em espelho, de modo a responder perfeitamente ao conceito chinês de equilíbrio e harmonia.

 

Desde a segunda metade do século XIX, com as guerras do ópio, o saque do Palácio de Verão e a Rebelião dos Boxers, muitos dos relógios ditos “chineses”, voltaram para Europa, onde entraram no mercado e a grande maioria dos pares foram separados (como aconteceu com vários exemplares em exposição na Casa-Museu), pelo que hoje em dia encontrar um par junto é raro (exceção para algumas coleções como a do Museu Patek Philippe onde existem vinte pares!) convertendo-se assim em objeto de desejo para muitos colecionadores.

 

O relógio da Casa-Museu
Este relógio, pertencente à coleção da Casa-Museu, é um dos peculiares relógios ovais feitos aos pares para o mercado chinês pelo reconhecido relojoeiro inglês William Anthony.

A caixa dupla em ouro de 18K é muito decorada. Ambos os lados desta caixa são emoldurados por um filete de pérolas, material que também  embeleza a base da argola. No reverso, sobre base de esmalte azul translúcido, muito ao gosto dos chineses, com efeito guilhochado de raios concêntricos, assenta ao centro um diamante oval cercado por catorze pequenos diamantes formando uma flor. A envolver a flor, uma cercadura em prata cravejada de diamantes formando oito pontas lanceoladas alternando com oito pérolas. A decoração é rematada por uma cercadura oval em esmalte decorada com pequenos círculos policromados.  

Na caixa interior surge gravada a assinatura do autor e do local de fabrico: William Anthony. London, assim como o número do relógio – 1707 -, um desenho de um cavalo cuja cauda rodeia o orifício da corda indicando a direção desta e o desenho dos originais ponteiros junto do orifício que serve para acertar as horas. O mecanismo é inteiramente gravado com elementos vegetalistas e flores.

O mostrador em esmalte branco, tal como era habitual nos relógios após 1755 quando o esmalte substitui os mostradores em prata ou ouro, apresenta as horas em numeração romana a preto e a marcação dos minutos a dourado. Presença de dois mostradores subsidiários: um com marcação dos segundos por baixo do número XII, e foudroyante (mostrador subsidiário onde um ponteiro completa uma volta por segundo indicando frações de segundo, neste caso quartos) sobre o número VI. O número 4 aparece como IIII e não IV como seria correto em termos da numeração romana, o que é relativamente frequente, sendo que os relojoeiros usavam indiscriminadamente uma ou outra opção. Em relação a este facto os historiadores têm desenvolvido diversas teorias, sendo a explicação mais comummente aceite a de que é uma escolha puramente estética já que com esta variação se conseguia uma maior simetria no desenho do mostrador, sendo que o IIII serviria melhor de contraponto ao VIII, resultando num mostrador mais equilibrado e harmonioso.

O mais curioso deste relógio são, sem dúvida, os ponteiros retrácteis, também chamados ponteiros pantographe, nome francês para um tipo de braço telescópico inventado no século XVII. Estes ponteiros alongam-se e retraem-se acompanhando o desenho oval do mostrador.

Movimento de calibre Lepine (calibre de pontes introduzido por Jean-Antoine Lépine por volta de 1760, que veio substituir os antigos relógios de dupla platina e pilares) em latão gravado e dourado. Escape de cilindro, oscilador de balanço e autonomia de 8 dias. O estado geral do relógio é bom, com apenas pequenas perdas no esmalte e outras pequenas falhas.

 

Nota: O exemplar nº 1751 é um relógio com mostrador circular cuja decoração é muito semelhante ao da Casa-Museu: https://www.justcollecting.com/miscellania/beautiful-gold-and-diamond-watch-taken-from-china-could-bring-165-000 

O par do relógio da Casa-Museu
O par deste relógio pertenceu à coleção de Sir David Salomons (1797-1873) e posteriormente ao L.A. Mayer Museum for Islamic Art em Jerusalém, fundado pela sua bisneta Mrs. Vera Francis Bryce Salomons (1888-1969).

Em Abril de 1983, mais de uma centena de peças do L.A. Mayer Museum foram roubadas, entre as quais o par do relógio da Casa-Museu. As peças estiveram desaparecidas até 2006, quando um antiquário de Telavive contactou o museu com novas informações sobre o paradeiro de algumas das obras, o que deu lugar a uma série de buscas em Israel e em diversos países da Europa e E.U.A., das quais se conseguiram recuperar grande parte dos objetos (96 dos 106 roubados).

 

O par do relógio da Casa-Museu, embora em tudo igual ao exemplar em estudo, foi modificado em 1902, tendo o escape de cilíndro sido substituído por um escape lever (escape inventado por volta de 1755 pelo inglês Thomas Mudge, posteriormente melhorado por outros relojoeiros, que é usado na grande maioria de relógios mecânicos desde 1900).

 

Existe outro par de relógios ovais realizados por William Anthony para o mercado chinês sendo que um dos exemplares está no Museu Patek Philippe de Genebra (assinado com o nome de um revendedor, Vardon et Stedmann) e o par na coleção Sandor no Locle (Suíça) http://www.patekmuseum.com/pop/popWatch.asp?ID=182&themeId.

Veja aqui um relógio semelhante ao da Casa-Museu, recentemente vendido em leilão: http://www.sothebys.com/de/auctions/ecatalogue/2016/genius-thomas-tompion-l16056/lot.40.html

 

O autor
William Anthony (1765-1844), autor deste relógio, foi um dos grandes relojoeiros ingleses do seu tempo. Ativo entre 1790 e 1828, Anthony trabalhou em vários locais em Londres (55 St. Johns St, 27 St. John Sq. e 55 Red Lion St.). É conhecido pelos relógios de luxo altamente decorados entre os quais se destacam os relógios ovais de ponteiros retrácteis. Dado que os chineses eram apreciadores deste tipo de complexidades, Anthony realizou várias peças com este tipo de ponteiros para o mercado chinês como um pequeno grupo de pares de relógios ovais, com autonomia de oito dias, para a corte de Pequim.

Como reconhecido negociante, formou parte na fundação da National Benevolent Society of Watch and Clock Makers, uma associação que desde 1815 presta ajuda financeira a membros da comunidade de relojoeiros, assim como às suas viúvas e sucessores. Apesar do seu sucesso sofreu também alguns episódios menos sucedidos, que resultaram em importantes perdas, como o litígio com a casa relojoeira Grimaldi & Johnson, ou a tentativa falhada de realizar uma exposição com fins comerciais na Somerset Gallery.

William Anthony morreu em Jerusalém, em 1844, com quase 80 anos de idade em precárias circunstâncias já que, segundo parece, se tinha esquecido de coletar as rendas das suas propriedades durante os últimos vinte anos de vida.

Proveniência
António de Medeiros e Almeida adquiriu este relógio na Galerie d’Horlogerie Ancienne, no leilão realizado no Hotel Richmond em Genebra – 6, Rue Adhémar-Fabri, a 9 de Abril de 1978 – lote 424 – através de Edgar Mannheimer. Também por mediação de Mannheimer, Medeiros e Almeida comprou na mesma altura outros dois relógios, ainda presentes na coleção e em exposição permanente na Sala dos Relógios da Casa-Museu: um relógio de bolso, de tato, da autoria de Abraham-Louis Breguet (FMA 7743) e um relógio de bolso de Louis-Clément Breguet (FMA 7748).

Edgar Mannheimer (1925-1993) foi uma reconhecida figura no mercado da arte português, nomeadamente a partir do “boom” dos anos sessenta, que se especializou no comércio de relógios, instrumentos científicos e caixinhas.

 

Samantha Coleman-Aller
Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Bibliografia
BAILLE, G.H.; Watchmakers & Clockmakers of the World, 3ª edição, N.A.G. Press ,1966
BAILLE, G.H., CLUTTON, C., ILBERT, C. (Ed.); Britten’s Old Clocks and Watches and their makers, 9ª edição, London, Methuen & Spon, 1982
CLUTTON, C. & DANIELS, G.; Watches, London, Batsford, 1965
SABRIER, J.C.; Le Guidargus de L’Horlogerie de Collection, Paris, Les éditions de l’amateur, 1982
PAGANI, C.; Eastern magnificence and European ingenuity clocks of late imperial China, Michigan, The University of Michigan Press, 2001
VV.AA.; The Mirror of Seduction, Prestigious pairs of “Chinese” watches, Geneva, Patek Philippe Museum, 2010

 
Webgrafia
CORREIA DE OLIVEIRA, F.; O grande mistério da relojoaria: IIII ou IV, in: Estação Chronográfica, 8 Novembro de 2009
http://estacaochronographica.blogspot.pt/2009/11/o-grande-misterio-da-relojoaria-iiii-ou.html
Chinese watches at the Patek Philippe Museum in Geneva in The French Jewellery, post, 6 Abril 2016
http://thefrenchjewelrypost.com/en/it-joaillers/les-montres-chinoises-du-musee-patek-philippe-a-geneve
43 rare clocks stolen from Israel four in France in Museum Security Network, 22 Novembro 2008
http://www.museum-security.org/2008/11/43-rare-clocks-stolen-from-israel-found-in-france
Site oficial da The National Benevolent Society of Watch and Clock Makers
http://www.nbswcm.org.uk/
Site oficial do L.A. Mayer Museum for Islamic Art
http://www.museumsinisrael.gov.il/en/museums/Pages/islamic-art.aspx

Artista

William Anthony (1765-1844)

Ano

1815

País

Inglaterra, Londres

Materiais

Ouro, esmalte, pérolas, diamantes, aço e vidro.

Dimensões

Comp. 70 mm (95 mm. com argola) / Larg. 56 mm.

Categoria
Destaque