Porta Mogol, Destaque Outubro de 2013

Porta Mogol, Destaque Outubro de 2013

Porta de duas folhas construída em madeira de teca, com detalhes em sândalo, marfim e mica, revestida, parcialmente, por folha de latão amarelo. Nesta peça conjuga-se a arte da madeira com o trabalho do metal e do marfim, numa convivência de grande harmonia, simetria e beleza.

 

Um Império Islâmico na Índia – o Império Mogol

Em 1526, um descendente de Gengis Khan de origem Timúrida (turco-perso-mongol), Babur (1483-1530) invadiu o subcontinente indiano tornando-se o primeiro Grão-Mogol de um período de ocupação islâmica da Índia, que iria perdurar por mais de dois séculos e viria a cobrir a quase totalidade do território indiano – o Império Mogol.

 

O império mogol caracterizou-se por uma grande erudição e requinte que se estenderam à s artes; os grão-mogóis procuraram fundir a sua cultura de origem mongol Timúrida, turca Otomana e persa Safávida, com a pré-existente cultura tradicional indiana, traduzindo-se o resultado na excelência e individualidade da arte mogol. Em relação à tradição Timúrida da Ásia Central, a arte mogol foi buscar a preferência pela geometria e pelo arabesco, a tradição Safávida – a mais erudita – difundiu o gosto ornamental e a dedicação aos jardins (tal tendência deve-se à raridade da água no seu país e à ideia do Islão que vê os jardins como uma analogia do Paraíso) e a tradição indiana trouxe uma grande sensibilidade e o amor à cor. A considerar há ainda a influência da arte europeia responsável pela entrada do naturalismo na estética mogol que vê crescer um interesse pela representação de flores, plantas e animais à imagem dos herbários europeus introduzidos na corte mogol pelos missionários portugueses. O reinado de Shah Jahan (1628-1657) destacou-se como o mais esplendoroso, produzindo uma arte que sintetiza este percurso de influências e do gosto pelo exótico.

 

A geometria e o arabesco

A geometria foi, desde sempre, uma das formas de abordar a arte; no Islão atinge o seu esplendor, com a utilização de padrões geométricos e do arabesco. Utilizada na arte desde a antiguidade, a geometria encontra-se desde a arquitetura ao mais pequeno pormenor decorativo. Com a geometria deu-se a introdução de valores que se tornaram caros à decoração muçulmana; a simetria, a proporção e a repetição. A criação de padrões geométricos define-se como a partição de um espaço plano num conjunto de subespaços contíguos, partindo de um modelo – triângulos, quadrados, hexágonos, … – que se repete sistematicamente, podendo variar a padronização, de regular a uma grande complexidade. No que respeita ao arabesco, este é a forma geométrica e estilizada de representação da natureza já que, de acordo com o Islão, não se devem traduzir nas suas realidades objetivas as criações de Alá. Esta forma de arte é considerada a arte por excelência para a decoração do local sagrado do Islão; a mesquita. Tal é a importância da geometria e do arabesco que vamos encontrar na peça em análise.

 

 

A construção da porta em materiais nobres indica uma encomenda erudita; a teca, árvore nativa da Índia, foi, desde sempre muito utilizada para a construção, mobiliário e objetos de luxo, devido às suas capacidades de durabilidade e resistência ao ataque de térmitas, o sândalo, madeira odorífera, proveniente de árvores de menores dimensões, é também originário da Índia, sendo utilizado na escultura para pequenos objetos ou detalhes mas muito apreciado pela capacidade de exalar um cheiro agradável. A mica, mineral que permite o corte laminado, deve o nome à sua aparência brilhante (do latim micare – brilho), pelo que foi apreciada e utilizada desde a antiguidade. Uma vez laminado o mineral, que assume várias cores, torna-se translúcido, tendo uma boa capacidade enquanto isolante térmico. O marfim, proveniente das presas dos elefantes, foi desde sempre utilizado na arte indiana em objetos de luxo. Quanto ao trabalho do metal tem também longa tradição na arte tanto indiana como islâmica, em trabalhos de maior ou menor erudição.

 

Análise formal  

No que respeita à construção da porta, cada folha da porta é dividida em cinco painéis quadrados, dispostos verticalmente. Cada painel tem uma almofada reentrante formada por placas de sândalo vazado e assentes sobre fundo de lâminas de mica encarnadas e verdes. A decoração segue quatro padrões diferentes que se repetem dois a dois horizontalmente; três são de desenho geométrico (repete-se um) e o central é de cariz vegetalista. Para além do trabalho de madeira, todas as almofadas têm inclusões de pequenas flores de lótus estilizadas em marfim ao centro da área criada pelo vazado, exceto as duas almofadas centrais que são decoradas com uma flor de lótus em marfim ao centro e quatro meias flores nas laterais, entre elaborados enrolamentos de folhagem que compõem o trabalho de sândalo esculpido e entalhado.

 

Os enquadramentos das almofadas, os batentes e a coluna central são totalmente preenchidos com trabalho relevado de cariz vegetalista em latão amarelo e prata, com placas de latão de rendilhado geométrico sobre lâminas de mica colorida e com tachas de metal num horror ao vazio típico da decoração de cariz islâmica que preenche todos os espaços.

 

 

Na certeza de que na arte mogol se encontra figuração em obras do foro secular (principalmente na iluminura e nas artes decorativas), é de notar a ausência nesta decoração de formas humanas e animais, talvez indicando a finalidade da porta para o âmbito religioso. Como na maioria das peças islâmicas, o artista é desconhecido, devido a uma questão de humildade autoral característica da arte islâmica que raramente é assinada.

 

Análise simbólica 

Esta tipologia decorativa em painéis encontra-se em peças tão distintas como em revestimentos arquitetónicos (paredes, tetos e portas), no mobiliário, nos têxteis, na iluminura, nos marfins ou na ourivesaria. Esta ideia pretende mimetizar o jardim geométrico persa remetendo para a ideia do Jardim do Paraíso prometido aos muçulmanos no Corão. Quanto ao uso de padrões geométricos, A sugestão de repetição dos padrões ao infinito é grata aos muçulmanos pois recorda o poder infinito de Alá e a crença na indivisibilidade de Deus.

 

Uma abordagem mais de teor simbólico que iconográfico desta peça, pois a vertente geométrica da arte islâmica não é rica em iconografia, conduz à valorização do jogo feito com a cor e a sua conjugação com a luz produzido pelo vazado das almofadas da porta, que assim permitem que a luz seja “coada” através da transparência da lâmina de mica colorida, criando uma leitura de grande beleza. As gelosias islâmicas de madeira ou pedra (conhecidas na Índia como jali), recorrem a este tipo de trabalho emprestando uma leitura especial aos espaços, já que conjugam a vertente prática – proteção do calor, da luz intensa e da privacidade, tema tão caro aos muçulmanos – com a vertente estética, criando uma relação especial entre os interiores e os exteriores. A porta em análise foi vendida embutida num painel de madeira ficando prejudicada a leitura lumínica e cromática para que a porta poderá ter sido construída.

 

Esta é, pois, uma peça de leituras abrangentes e com capacidades sensoriais, pois apela aos sentidos por várias formas; pela visão pelo cuidado do seu detalhe, sofisticação da decoração e pelo tratamento da cor e da luz, pelo olfato devido ao cheiro da madeira odorífera e pelo tato, pela capacidade plástica da obra, na alternância de materiais e na rica linguagem das formas.

 

 

Função da porta
Sendo desconhecida a proveniência da porta, abre-se um leque de possibilidades quanto à sua função; a porta pode ter sido utilizada em contexto civil, religioso ou ainda funerário, na certeza, porém de um ambiente sofisticado. A utilização de materiais nobres e delicada decoração leva ainda a considerar que tenha sido uma porta de uso interior. Considerando o âmbito civil, este será certamente palatino; poderá tratar-se de uma porta de um palácio, abrindo-se a algum salão importante ou ainda a um pátio, pavilhão ou jardim interior. Quanto ao contexto religioso, poderá tratar-se de uma das portas interiores de uma mesquita, a porta da dependência onde se guardava o tesouro ou os livros sagrados (que geralmente ladeava o mihrab), a porta de um minbar – espécie de púlpito islâmico ao qual se acede por uma escada fechada por porta – ou ainda a porta de uma maqsura – estrutura situada em frente ao nicho do mirab, por vezes definida por gradeamento de madeira trabalhada, destinada à proteção do sultão. A possibilidade de se tratar de uma porta de dependências interiores de uma madrassa (escola religiosa islâmica), dando acesso ao pátio ou a um dos iwans (nichos enquadrados por um grande arco), é igualmente de ter em conta. Em contexto funerário, a porta poderá ter ainda pertencido a um importante mausoléu.

 

 

Proveniência

A porta foi anunciada pelo antiquário inglês Mallet & Son (Antiques) Ltd. (40, New Bond Street, Londres) na revista Apollo Magazine, de setembro de 1972 e adquirida por Medeiros e Almeida a 28 de setembro de 1972, por duas mil libras esterlinas. A documentação existente refere unicamente que pertenceu a um colecionador privado na Índia.

 

Maria de Lima Mayer


Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Bibliografia

RICE, David Talbot, (1965), Islamic Art, Londres: Thames and Hudson

TRILLING, James (2001), The Language of Ornament, London: Thames & Hudson

WADE, David (1976), Pattern in Islamic Art, London: Studio Vista

WELCH, Stuart Cary (1963), The Art of Mughal India Painting and Precious Objects, The Asia Society, New York: House Gallery Publications

 

Catálogos de Exposições


FLORES, Jorge Nuno; SILVA, Nuno Vassallo e (2004), Goa and the Great Mughal, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian

MICHELL, George; CURRIM Mumtaz (colab.) (2007), The majesty of Mughal decoration: the art and architecture of Islamic India, London: Thames & Hudson

ROGERS, J.M. (1983), Islamic Art & Design 1500-1700, London: British Museum Publications Limited

 

Recursos online


Cosmophilia – Islamic Art from the David Collection, Copenhagen, McMullen Museum of Art, Boston, 2006,
http://www.bc.edu/bc_org/avp/cas/artmuseum/exhibitions/archive/cosmophilia/index.html
Overview Islam, Arts of the Islamic World, Smithsonian Freer Gallery of Art and Arthur M. Sackler Gallery, Washington,
http://www.asia.si.edu/explore/teacherResources/islam.pdf

Artista

Ano

meados séc. XVII


País


Índia

Materiais

Teca, sândalo, marfim, prata, mica e latão

Dimensões


Alt. 167,8cm x Larg, 85,9cm 

Categoria
Destaque