“Potes Carpas”, Destaque Fevereiro de 2016

“Potes Carpas”, Destaque Fevereiro de 2016

Par de potes de grandes dimensões em porcelana, com decoração de cinco cores – decoração wucai – representando carpas nadando entre lótus, nenúfares e outra vegetação aquática.

 


O reinado de Jiajing
Jiajing (1507-1566) foi o 11º imperador da dinastia Ming, governando a China entre 1522 e o ano da sua morte. O seu reinado é recordado pela má administração e o desgoverno, o que dará lugar a numerosas revoltas internas e a um clima de desconforto que propiciará também uma serie de ataques externos, principalmente por parte dos Mongóis, a norte, e dos piratas japoneses ao longo de toda a costa sudeste.

 

Contrariamente aos seus predecessores, Jiajing adota o Taoísmo, tornando-se num fervoroso devoto e chegando inclusive a mandar destruir os templos budistas da Cidade Proibida, o que causará um grande mal-estar e evidenciará o seu carácter violento ao mandar assassinar todos os que se opusessem às suas polémicas decisões. Grande parte dos seus últimos anos, foram empregues patrocinando alquimistas na procura do elixir da juventude que lhe outorgasse a imortalidade – ironicamente, foi provavelmente o mercúrio contido nessas poções que o levou à morte.

 

Embora Jiajing não tenha ficado na história como um grande mecenas das artes, a produção de porcelana durante o seu reinado será muito importante, com numerosas encomendas nos fornos imperiais de Jingdezhen. A evolução técnica desenvolvida durante toda a dinastia Ming continuará o seu andamento, agora com maior foco no aperfeiçoamento da policromia e na produção de diferentes cores. A linguagem decorativa anterior é substituída pela simbologia taoista, sem praticamente lugar para a temática de inclinação budista.

 

O uso da policromia no reinado Jiajing – A porcelana Wucai
Durante o reinado Jiajing os fornos de Jingdezhen estavam sobrecarregados tentando responder às enormes encomendas que chegavam de palácio, o que fez que muitas vezes a atenção ao pormenor não fosse uma prioridade e que a quantidade de peças fosse mais importante do que a qualidade das mesmas – razão que ajuda a compreender a preferência por peças de outros reinados da dinastia Ming, pelos colecionadores europeus -. A abundância da decoração polícroma durante este reinado poderá dever-se, em certa medida, a uma tentativa de compensar, através da cor, a baixa qualidade e a pobreza da argila utilizada, que tentava assim ser ultrapassada com recurso a um arrojado uso da paleta de esmaltes.

 

 

À medida que a decoração policroma se tornava mais popular, foram também realizadas novas descobertas que permitiram obter pequenos matizes e variações nas cores, embora as gradações fossem muito limitadas e os sombreados dentro do mesmo tom praticamente inexistentes. Os ceramistas aprenderam a misturar os diversos tipos de minerais – ferro, cobre, cobalto -, dando lugar a uma maior paleta cromática, que permitiu também alargar e enriquecer o repertório temático.

 

É neste contexto que se aperfeiçoa a chamada decoração wucai que, tal como acontece com a porcelana doucai – técnica originada durante o reinado Xuande (1425-1435), embora também associada com o Chenghua (1464-1487) -, consiste na combinação de azul e branco sob vidrado com a aplicação de esmaltes sobre o vidrado. A grande diferença entre a decoração doucai e a wucai consiste em que enquanto na primeira técnica o desenho é realizado com um suave azul sob o vidrado, usando o cobalto para delimitar as formas que posteriormente serão coloridas, no wucai todas as cores têm o mesmo protagonismo sendo que a pintura a azul forte é feita sob o vidrado e depois completada a decoração com a aplicação das restantes cores sobre o vidrado – esta forma é conhecida por wucai “azul e branco”. A utilização do azul somente sob o vidrado é justificado pela impossibilidade, na altura, de se conseguir trabalhar esta cor sobre o vidrado.

 

Tal como na porcelana ducai, o método de produção de porcelana wucai requer duas cozeduras. Na primeira fase do processo, o azul-cobalto é aplicado sobre a base da peça, que será posteriormente vidrada e submetida a uma primeira cozedura. Seguidamente são usados esmaltes translúcidos sobre o vidrado de modo a completar a decoração, e o conjunto será levado novamente ao forno a uns 770-800º C.

 

Wucai significa literalmente decoração de “cinco cores”: azul, amarelo, vermelho, verde e branco do corpo da porcelana. Porém, em muitas peças surgem outras cores, como por exemplo o laranja, conseguido pela combinação do amarelo e vermelho, que permitiu – tal como vemos nos exemplares da Casa-Museu – reproduzir de um modo realista o “peixe dourado”, motivo muito popular nas porcelanas deste reinado.

 

Temáticas nas porcelanas do reinado Jiajing – O motivo da carpa dourada
Durante este reinado, devido à conversão do imperador, as artes estarão carregadas de iconografia taoista, com destaque para as personagens legendarias taoistas e os seus atributos. O tema da busca da longevidade está também presente no decorrer do período Jiajing; assim na decoração da porcelana podemos ver gamos; animal capaz de encontrar o cogumelo da imortalidade ou lingzhi; grous; ave que vive dois mil anos, pessegueiros; símbolos de bom augúrio, ou peixes, cujo nome (yu) tem o mesmo som que a palavra que designa abundância, sendo que um par de peixes simboliza a fertilidade e a felicidade conjugal.

 

A carpa (cyprinus carpio), considerada um dos peixes mais auspiciosos, terá lugar de destaque dentro da gramática decorativa da porcelana produzida no reinado Jiajing. Seguindo a lógica do significado geral dado aos peixes, uma carpa dourada simboliza abundância de ouro (fortuna). Para além disso, a palavra para carpa (li), tem o mesmo som que a palavra que designa “lucro”, estando ainda relacionada com o conceito taoista de rectidão moral. Associada à capacidade das carpas de nadarem contracorrente – e à lenda que narra o episódio no qual a carpa alcança as cataratas do Rio Amarelo e se transforma em dragão -, surge um outro significado que relaciona a carpa com o estudante que luta para passar os exames civis e conseguir um lugar oficial de destaque.

 

 

Embora desde o período Neolítico os peixes apareçam na decoração de terracotas chinesas, este motivo manteve-se muito popular durante toda a história da cerâmica chinesa bem como na pintura. No início, a inclusão de peixes na decoração estava em parte justificada pela importância do peixe na dieta dos diferentes povos, mas com o passar do tempo juntaram-se toda uma serie de conotações estéticas, filosóficas e simbólicas. O motivo dos peixes a nadar num tanque entre vegetação aquática é também muito anterior ao reinado Jiajing, mas é neste momento que se fixa enquanto motivo, servindo as porcelanas desta época como modelos para a decoração de peças posteriores, particularmente do reinado Kangxi.

 

Os potes da Casa-Museu

Par de potes bojudos, de ombros altos e gargalo curto rematado em rebordo grosso. Não têm tampa (originalmente estas peças têm uma tampa com pega).

 

No exterior destaca-se o friso contínuo que se desenvolve à volta do bojo, onde carpas douradas de diversos tamanhos nadam entre lótus e plantas aquáticas (hydrocharis, vallisneria spirali, ceratophyllum submersum, marsilea minuta). Toda a composição – as diferentes posições dos peixes, a vegetação ondulante – é concebida de modo a conferir movimento e realismo à cena, o que é reforçado pelo uso de cores vibrantes.

 

 

 

O painel central é delimitado por duas faixas; na parte inferior, a faixa é decorada com folhas sobrepostas, grosseiramente esboçadas em azul-cobalto e na parte superior, à volta do gargalo, com uma banda de painéis rectangulares alternados (azul, amarelo e vermelho) encerrando motivos flamejantes.

 

Na base, marca Jiajing de 6 caracteres em azul sob o vidrado.

 

Em relação ao uso da policromia na decoração destes potes, é de salientar a procura de novas tonalidades por parte dos ceramistas, para além das cinco cores próprias das porcelanas wucai. É visível a intenção de gradação de algumas cores – como os verdes mais esvaídos de algumas folhas – e a utilização de uma sexta cor, o laranja, cuja aplicação, juntamente com o vermelho, permite uma representação mais pormenorizada das carpas (delimitando as barbatanas e escamas), o que, como já foi referido, é fundamental, não só do ponto de vista estético, como também simbólico.

 

 

Originalmente este tipo de potes – que poderiam servir para guardar vinho – eram fechados por uma tampa, porém exemplares com tampas originais em coleções privadas são extremamente raros, existindo alguns com tampas de substituição, de grande qualidade, realizadas no Japão no século XIX.

 

Potes com tampas originais podem ser vistos em algumas grandes instituições como o Palace Museum em Pequim, no Asian Art Museum de São Francisco (http://education.asianart.org/explore-resources/artwork/covered-jar-with-fish-lotus-pond), no Walters Art Museum (http://art.thewalters.org/detail/28583/wine-jar-with-carp-among-water-weeds-and-lotuses/) ou no Museu Nacional de Artes Asiáticas Guimet em Paris.

 

Apesar dos exemplares da coleção não possuírem tampas, é de notar que a Casa-Museu possui um par, algo raro nas referidas coleções e que muito valoriza o conjunto.

 

Proveniência
É curioso que, sendo António Medeiros e Almeida um homem relativamente sistemático no arquivo e organização da documentação relativa às peças por ele adquiridas (catálogos, troca de correspondência com os antiquários ou intermediários nas suas compras, faturas, documentação relativa a transportes, seguros, alfandegas, etc.), não exista qualquer registo relativo à compra destes dois potes chineses, sendo a única alusão à sua proveniência uma anotação (da qual desconhecemos a origem ou veracidade), na qual se refere que estas peças foram “encontradas enterradas por um agricultor holandês nos anos 50”.

 

Samantha Coleman Aller

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Bibliografia
COX, Warren E., The Book of Pottery and Porcelain, Nova Iorque, Crown Publishers, 1944

GOIDSENHOVEN, J.P. van, La ceramique Chinoise. Commentaires sur son evolution, Bruxelles, Editions de la Connaissance, 1954

HOBSON, R.L., Chinese Pottery and Porcelain: an account of the potter’s art in China from primitive times to the present day, London, Cassell and Company, 1915

JENYNS, Soame, Ming Pottery and Porcelain, Londres, Faber and Faber, 1953

MATOS, Mª Antónia Pinto de, A Casa das Porcelanas, Lisboa, Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, 1996

MEDLEY, Margaret, The Chinese Potter:A Practical History of Chinese Ceramics, Phaidon Press, 1999

VALENSTEIN, Suzanne G., A Handbook of Chinese Ceramics, Nova Iorque, The Metroplotian Museum of Art, 1989

WELCH, Patricia B., Chinese Art: A Guide to Motifs and Visual Imagery, Tuttle Publishing, 2012

Artista

Ano

Dinastia Ming, Reinado Jiajing (1522-1566)

País

China

Materiais

Porcelana com decoração azul-cobalto sob vidrado e esmaltes polícromos sobre vidrado Fornos de Jingdezhen, província de Jiangxi

Dimensões

Alt.36 cm. Diam. 40 cm Diam. gargalo 20 cm. Diam. base 25 cm 

Categoria
Destaque