Prato de Casamento – Destaque em Fevereiro 2019

Prato de Casamento Catarina de Bragança – Carlos II

 

Inglaterra (Lambeth?), 1662

Cerâmica de delft

Ø 43cm. / Alt. 8,5cm.

 

Prato em cerâmica de delft com decoração polícroma que comemora o casamento de Carlos II de Inglaterra com a princesa portuguesa Catarina de Bragança. Ao centro, sobre um chão axadrezado, as figuras de corpo inteiro dos monarcas ladeadas pelas iniciais CR (Charles Rex) e KR (Katherine Regina) e a data do casamento, 1662.

 

Cerâmica de delft: delftware ou gallyware

A chamada delftware inglesa é um tipo de cerâmica fabricada na Grã-Bretanha entre meados do século XVI e finais do século XVIII. Esta cerâmica caracteriza-se pelo uso de um vidrado contendo chumbo calcinado, ao qual foram adicionadas cinzas de estanho para produzir uma superfície absorvente, branca e opaca na qual as cores são mais facilmente aplicadas do que na faiança produzida anteriormente, criando todo um novo leque de possibilidades decorativas. Este vidrado de estanho tem origem no Próximo Oriente e por volta do século XIII chega a Espanha com a faiança hispano-mourisca, e daí passa para a maiólica italiana e finalmente para a cerâmica dos Países Baixos e outros países europeus, sendo que os exemplares mais antigos encontrados em Inglaterra são um tipo de jarras, habitualmente montadas em prata, realizadas a partir de 1549-50.

O antigo nome inglês para este tipo de faiança era gallyware, provavelmente derivado do nome dos barcos conhecidos como Flanders galleys – galeras flamengas – que, procedentes de Veneza, chegavam ao Canal da Mancha transportando maiólica para o mercado inglês, francês e dos Países Baixos. A partir de inícios do século XVIII a designação delftware – ou cerâmica de delft – generaliza-se, o que pode gerar confusão, já que o fabrico em Inglaterra deste tipo de cerâmica é anterior à popularização da cerâmica realizada na cidade holandesa de Delft embora, como veremos, a influência holandesa será fundamental no desenvolvimento da delftware inglesa. Os primeiros contactos diretos de Inglaterra com a cerâmica de vidrado de estanho terão lugar no final do século XV através das importações de luxo de maiólica italiana destinada às classes mais altas. Em meados do século XVI chegam a Inglaterra artesãos flamengos fugindo das perseguições religiosas, entre os que se destacam dois nomes: Jasper Andries e Jacob Janson, ceramistas que se estabelecem em Norwich – onde produzem fundamentalmente telhas de pavimentação e recipientes farmacêuticos ao gosto holandês – e posteriormente em Londres, onde a sua produção se diversifica. Embora a delftware inglesa dos séculos XVI e inícios do XVII fosse maioritariamente realizada por artesãos flamengos e por isso naturalmente influenciada pela faiança realizada na Flandes, a partir de 1620-30 vai adquirir um carácter diferenciado, tanto a nível decorativo como nas técnicas de produção.

No século XVII vários centros de manufatura de delftware estabelecem-se ao longo do curso do rio Tamisa nos arredores de Londres aproveitando edifícios pré-existentes e, apesar do grosso da produção estar concentrada nos arredores de Londres, Liverpool e Bristol, existem oficinas de fabrico noutros pontos do país, sempre perto de portos ou rios que permitiam tanto a chegada das matérias-primas como a posterior distribuição das mercadorias.

Em relação ao tipo de objetos produzidos nestas olarias, existiram fundamentalmente duas vertentes: os objetos de uso quotidiano (utensílios de mesa, objetos para a bebida, floreiras e candelabros, recipientes de farmácia) e as peças decorativas (que podiam ser religiosas, políticas, armoriadas). A produção de cerâmica de delft continua até finais do século XVIII, altura em que foi substituída por outros tipos de cerâmica mais resistentes.

 

Os grandes pratos comemorativos (blue-dash chargers)

 Charger” é o nome habitualmente usado para designar os pratos de grandes dimensões (entre 25 e 40 centímetros de diâmetro, embora existam exemplares ligeiramente maiores como o patente na coleção da Casa-Museu), em cerâmica de delft e produzidos principalmente nas olarias de Londres (nomeadamente Lambeth) e Bristol. Estes pratos tinham uma função ornamental, o que constituía uma novidade dentro da cerâmica inglesa que tinha sido sempre maioritariamente utilitária, sendo usualmente exibidos em paredes ou aparadores, daí que na parte posterior existisse uma saliência que permitia a sua fixação mediante um cordel ou arame. O facto de ter chegado até os nossos dias um grande número destas peças em boas condições é devido não só à sua função decorativa, como também à popularidade que parecem ter alcançado na altura, o que deu lugar a uma avultada produção.

A decoração desenvolve-se normalmente à volta de um tema central que pode ser de caracter bíblico (sendo a representação de Adão e Eva uma das mais estendidas), mitológico ou histórico, mas também pode resumir-se a uma decoração floral ou geométrica. À volta deste tema central o rebordo – que pode ser liso ou curvo – aparece ornamentado muito frequentemente com motivos renascentistas inspirados na maiólica italiana (dragões, esfinges, grotescos, cariátides) e, por vezes, motivos chineses.

Este grupo de pratos de decoração simples e despretensiosa, compensava a aspereza do desenho pelo uso decorativo e harmonioso da cor. As cores usadas eram os azuis obtidos do cobalto, o verde do cobre, os roxos do manganês, o vermelho do ferro e o amarelo do antimónio. Com o tempo começaram a fazer-se misturas para obter outras tonalidades e, posteriormente, usaram-se outras cores sobre o vidrado, como os rosáceos e os dourados, embora isso tenha sido mais frequente na faiança do continente e mais raramente usado em Inglaterra.

Estas peças eram muitas vezes concebidas para comemorar algum evento ou destinadas a servir como presentes, pelo que frequentemente aparecem inscritas datas, nomes ou outro tipo de legendas. O exemplar mais antigo que se conhece com uma inscrição inglesa é um prato de 1600, conservado no Museum of London, no qual, à volta de uma paisagem urbana, se pode ler: ‘THE ROSE IS RED THE LEAVES ARE GRENE GOD SAVE ELIZABETH OUR QUEENE’. Este poderá ser considerado não só o primeiro prato com uma inscrição em inglês, como também o primeiro dos chamados “blue-dash chargers”, pratos nos quais o rebordo aparece decorado com riscos azuis. É frequente, como no caso anteriormente referido, encontrar alusões políticas, sendo que muitos destes pratos ostentam representações dos diferentes monarcas (Charles I, Charles II, James II, Queen Mary, … até George I), muitas vezes em referência a um acontecimento concreto como uma coroação ou um casamento – caso do exemplar em estudo -, ou ainda como forma de reforçar as lealdades do proprietário da peça.

 

O prato da Casa-Museu

 O prato presente na coleção da Casa-Museu Medeiros e Almeida é não só um bom exemplo da cerâmica de delft inglesa, como um excelente exemplo de “blue-dash charger”. Decorado em tonalidades de azul, verde, manganês, amarelo e laranja, apresenta ao centro as figuras de corpo inteiro de Carlos II – coroado, com capa de arminho e ostentando ceptro – e Catarina de Bragança – com chapéu e segurando um leque fechado na mão esquerda -, no que parece ser um pátio de chão axadrezado. De cada lado dos monarcas surgem iniciais a azul identificando-os como Charles Rex (CR) e Katherine Regina (KR) e uma data na qual os dois primeiros dígitos (16) estão à direita do rei Carlos II e os últimos dois à esquerda da rainha consorte (62). Os últimos dois dígitos causaram durante um tempo confusão entre os investigadores; a dificuldade de interpretação dos arabescos que os compõem deu lugar a que fossem lidos como um 69, o que não correspondia a uma data destacada na vida dos monarcas, sendo muito mais plausível o ano de 1662 no qual, com a chegada de Catarina de Bragança a Inglaterra teve lugar o casamento, o que faz deste prato uma peça comemorativa deste acontecimento.

No rebordo do prato, separado da cena central por três filetes azulados contínuos, folhas de carvalho em ziguezague e formas geometrizadas que poderiam ser representações simplificadas de frutos. O remate, como é próprio deste tipo de peças, é feito com traços oblíquos e irregulares a azul.

Proveniência

Este prato foi comprado pela Tilley & Co (Antiques) Ltd. em leilão da Sotheby’s de 15 de outubro de 1959 [Fine English Pottery and Porcelain. The Property of Mrs. Radcliffe. Lote 29].

Em março de 1960 foi adquirido por António Medeiros e Almeida através do intermediário John Mitchell, da John Mitchell and Son Fine Paintings. Na altura da compra a participação desta peça numa exposição dedicada ao tricentenário da Restauração de Carlos II a celebrar na Moseley Old Hall e a Wolverhampton Art Gallery durante o mês de maio tinha sido já apalavrada [“Charles II Exhibition]. Imediatamente após esta exposição o prato é pedido novamente em empréstimo para figurar numa outra mostra de temática similar a acontecer na Royal Academy of Arts em Londres [“The Age of Charles II”]. Finalizada esta segunda exposição o prato fica novamente à guarda de John Mitchell até finalmente ser enviado para Lisboa em finais de 1964.

 

É curioso o interesse que a figura de Catarina de Bragança (e, por associação, a de Carlos II) despertaram em António Medeiros e Almeida. Semanas após a compra do prato de casamento em destaque, Medeiros e Almeida escreve a John Mitchell interessando-se por um jarro, também em porcelana de delft, com as efígies dos monarcas que fora posto à venda pela Sotheby’s a 22 de março e comprado também por Mr. Tilley; porém, este jarro teria sido já vendido, perdendo-se a oportunidade de vir a integrar a coleção da Casa-Museu.

Contudo, nos anos seguintes Medeiros e Almeida consegue adquirir uma série de interessantíssimas peças que hoje em dia formam o núcleo em exposição no chamado Corredor Catarina de Bragança:

– Espelho com moldura em tartaruga e trabalho de stumpwork (trabalho de agulha em voga no 3º quartel do s. XVII em Inglaterra) com representação dos monarcas (adquirido em 1962). http://www.casa-museumedeirosealmeida.pt/pecas/espelho-carlos-ii-e-catarina-de-braganca-destaque-setembro-de-2014/

– Par de medalhões em azeviche e ébano com as figuras de Catarina de Bragança e Carlos II (adquiridos em 1968).

– Retrato de Catarina de Bragança, atribuído a John Riley (1646-1691), óleo sobre tela (adquirido em 1968).

– Relógio de noite da autoria do relojoeiro inglês Edward East (1602-1697), em cuja descrição de catálogo, aquando do leilão da Christie’s onde foi comprado, era considerado como tendo sido o relógio que teria estado nos aposentos da rainha Catarina no palácio de Whitehall, tal como descrito por Samuel Pepys nos seus diários (adquirido em 1972). http://www.casa-museumedeirosealmeida.pt/pecas/relogio-da-noite/

 

Samantha Coleman Aller

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

 

Bibliografia

AA.VV., Catalogue of Fine English Pottery and Porcelain. The Property of Mrs. Radcliffe, Catélogo da Sotheby & Co. De 15 de Outubro de 1959

AA.VV., Charles de II Exhibition, Catálogo da exposição celebrada em Moseley Old Hall, Staffordshire, e Wolverhampton Art Gallery, 1960

AA.VV., English Delftware dishes from the Glaisher Collection. Handlist of na Exhibition in the Adeane Gallery, Cambridge: Fitzwilliam Museum, 1981

DAWSON, A., English & Irish Delftware 1570-1840, London: The British Museum, 2010

GARNER, F.H., English Delftware, London: Faber and Faber, 1948

HONEY, W.B., European Ceramic Art from the end of the Middle Ages to about 1815. A Dictionary of Factories, Artists, Techincal Terms, Et Cetera, London: Faber and Faber, 1949

HUME, I.N., Early English Delftware from London and Virginia, Williamsburg: Colonial Williamsburg Foundation, 1977

TILLEY, F., History and the Potter. From Charles II to Captain Cook in: The Antique Collector, December 1959

Webgrafia

KALDENBACH, K., How did they produce Delft blue fainence or “Delft porcelain” in the Delft potteries?, 2014

https://kalden.home.xs4all.nl/dblue/delftblue-workshopENG.htm

The craftmanship of Royal Delft

https://www.royaldelft.com/en_gb/hand-made-since-1653/item6337

Bulletin of the Metropolitan Museum of Art

https://www.metmuseum.org/pubs/bulletins/1/pdf/3255710.pdf.bannered.pdf

 

Artista

Desconhecido

Ano

1662

País

Inglaterra (Lambeth?)

Materiais

Cerâmica de delft

Dimensões

Ø 43cm. / Alt. 8,5cm.

Categoria
Destaque