Ressureição de Lázaro – Destaque em Março 2018

“Ressureição de Lázaro” – Destaque em Março 2018

 

Jacob Willemsz. de Wet (c. 1610- depois de 1677)

Haarlem (Holanda), c. 1642

Óleo sobre madeira de carvalho

Alt. 63cm X Larg. 50,5cm

 

 

 

“Jacob de Wet (…) has in the course of centuries been deprived of many of his works which have been sold as alleged Rembrandts”

“Jacob de Wet (…) tem sido privado ao longo dos séculos de muitas das suas obras que foram vendidas como alegados Rembrandts”

Cornelis Hofstede de Groot

 

 

Pintura a óleo sobre madeira de carvalho, representando a Ressurreição de Lázaro (João 11,41). Esta obra foi durante largos anos atribuída ao grande pintor e gravador holandês Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669) – e como tal incorporada na coleção Medeiros e Almeida – sendo que, hoje em dia é considerada uma pintura do também holandês Jacob Willemsz. de Wet (c.1610- depois de 1677).

 

A Ressurreição de Lázaro

A Ressurreição de Lázaro, unicamente narrada por São João Evangelista (João 11:1-46), é um dos milagres de Jesus no qual este traz Lázaro de Betânia, de volta à vida depois de várias semanas sepultado. Este episódio foi muito representado ao longo de toda a história da arte cristã, já que é considerado uma prefiguração da própria Ressurreição de Cristo e em consequência, também da própria ressurreição dos mortos após o Julgamento Final, uma vez que muitas vezes nos ciclos cristológicos todos os trabalhos de Cristo se concentram neste acontecimento.

 

Desde inícios do século III que a Ressurreição de Lázaro é representada, surgindo frequentemente na decoração de catacumbas cristãs, onde era vista como esperança de vida eterna e de renascimento espiritual. Nas primeiras imagens as únicas figuras presentes serão as de Cristo e Lázaro, este último saindo do sepulcro, mas com o passar do tempo outras personagens se irão incorporando, nomeadamente as irmãs de Lázaro, Marta e Maria e por vezes, um apóstolo. Posteriormente, embora esta composição mais simples continuará a usar-se até um período tardio, começa a impor-se um tipo de representação mais elaborada no qual, para além de Cristo, Lázaro e as suas irmãs, são representados vários apóstolos e um grupo de judeus, em número variável, que teriam presenciado o acontecimento, o que dá lugar a uma narrativa mais completa do episódio.

 

No chamado Século de Ouro Holandês, embora a pintura religiosa não tenha a mesma importância que no resto dos países europeus, dado o triunfo do calvinismo e a sua rejeição do culto da imagem, continua a existir uma apreciável produção de temática religiosa, já que uma considerável parte da população permanece católica e a encomenda deste tipo de obras não cessou, existindo um notável grau de tolerância religiosa. Muitos autores holandeses abordaram o tema da Ressurreição de Lázaro, sendo que alguns destes pintores seriam calvinistas, como Rembrandt, de quem se conhecem pelo menos quatro Ressurreições de Lázaro.

 

 

O problema da atribuição / datação

 

Quando António de Medeiros e Almeida adquire a pintura em estudo, esta estaria atribuída a Rembrandt e como tal apareceria mencionada em diversas revistas e artigos e teria participado em várias exposições, como a exposição em 1948 na Galerie Basel-Katz em Holanda, “Rembrandt Ausstellung”, ou a celebrada em Londres na Royal Academy of Arts em 1952, “Dutch Pictures 1450-1750”. De facto, nalguma desta documentação não só aparece esta obra como sendo da mão do mestre holandês, como se indica que a mesma está assinada e datada (RHL, 1924).

 

A quantidade de pinturas, desenhos e gravuras erroneamente atribuídos a Rembrandt tem sido tema de inúmeros livros, artigos e estudos. Isto deve-se em grande parte, à numerosa produção do autor, mas também à elevada atividade do seu atelier, à sua quase inigualável fama (que dará lugar a que todos desejassem ter um Rembrandt nas suas coleções) e à influência que, de um modo mais ou menos direto, o seu trabalho teve sobre os artistas do seu tempo. A primeira tentativa de catalogar a produção de Rembrandt foi levada a cabo pelo comerciante de arte inglês John Smith em 1836, que atribui ao artista um total de 614 trabalhos. Em inícios do século XX, o historiador de arte alemão Wilhelm von Bode e o colecionador holandês Cornelis Hofstede de Groot, farão uma revisão do trabalho de Smith com novas atribuições e a eliminação de outras tantas obras da lista. Anos mais tarde, em 1968, com o objetivo de estudar todo o trabalho de Rembrandt com uma visão científica e objetiva, de modo a poder criar finalmente um corpus conexo e consensual da obra do pintor, organiza-se um grupo de estudo na Holanda, o Rembrandt Research Project (RRP), que estará em ativo até inícios de 2011.

 

Em 1991, aproveitando a presença de peritos para a Europália na Casa-Museu (sendo que várias obras da coleção da Casa-Museu foram emprestadas para exposições dentro deste evento cultural celebrado na Bélgica, no qual Portugal foi o país em destaque), esta pintura foi analisada chegando-se à conclusão que seria uma obra não do mestre mas sim do seu atelier. Em 2000, o Prof. Dr. E. van de Wetering, na altura diretor do RRP, conclui após estudo da obra que “(…) the De Wet attribution is not only justified, but that you also happen to have one of the best J.W. de Wet paintings in your collection with very interesting Rembrandt influences” [Tradução livre da autora: “a atribuição a De Wet não está apenas justificada, como também possui na sua coleção uma das melhores pinturas de J.W. de Wet com influencias muito interessantes de Rembrandt”, em carta de 6 de Abril de 2000 à Dra. Teresa Vilaça, diretora da Casa-Museu].

 

Em relação à datação, até a visita do Rembrandt Research Project a data atribuída em toda a documentação referente a esta “Ressurreição de Lazaro” era a de 1624, uma datação muito precoce mesmo quando a obra era atribuída a Rembrandt, já que este teria apenas 18 anos e estaria terminando a sua fase de formação. Em 2001 o Dr. Peter Klein, como resultado da visita do Rembrandt Research Project, envia um relatório sobre a análise dendrocronológica do suporte da obra, atestando que o painel é composto por três tábuas de carvalho provenientes de madeira da região báltica /polaca; atendendo ao desenvolvimento das madeiras e ao período de maturação, a pintura só poderia ter sido realizada após 1636, mais provavelmente após 1642.

 

Jacob Willemsz. De Wet

 

Jacob Willemsz. de Wet – também conhecido como Jacob de Wet I, Jacob de Wet o velho ou Jacob van Wetten – é um pintor holandês, filho de Willem Jansz de Wet, oficial de justiça católico, e irmão de Gerrit de Wet (1616-1674), também pintor. Nasce em Haarlem por volta de 1610, sendo que a data exata da sua morte se desconhece, considerando-se normalmente após 1677 (ano em que o seu nome aparece associado a um contrato realizado pelo seu cunhado) e anterior a 1691, ano em que o seu filho vende a sua casa (embora o seu filho já residisse há vários anos em Inglaterra pelo que, embora a venda tenha tido lugar nesse ano, a morte poderia ter acontecido vários anos antes).

 

Após um primeiro casamento em 1635 com Maria Jochemsdr van Woubrugge, que morrerá pouco depois sem deixar filhos, de Wet volta a casar em 1639 com Maria Jabosdr. de Diemen, com quem terá cinco filhos, o mais velho dos quais, Jacob de Wet II (1641-1697) será também pintor, conhecido pela sua série de retratos idealizados de monarcas escoceses realizados para o Palácio de Holyroodhouse durante o reinado de Carlos II.

 

As suas pinturas são predominantemente de temas bíblicos (como a obra em estudo) e mitológicos, embora também tenha algumas obras históricas e de género, sendo a paisagem do acervo da National Gallery de Londres das raras exceções nas que não aparecem personagens (https://www.nationalgallery.org.uk/paintings/jacob-de-wet-the-elder-a-landscape-with-a-river-at-the-foot-of-a-hill).

 

Alguns autores colocam a possibilidade de De Wet ter estudado entre 1630/31 e 1632 no atelier do grande mestre Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669), que embora apenas alguns anos mais velho que ele, desde muito cedo teve pupilos (o primeiro conhecido será o pintor Gerrit Dou em 1628, quando Rembrandt contava apenas 22 anos). Em 1630 e início de 1631 Rembrandt estará todavia sediado na sua cidade natal de Leiden, mudando-se no final de 1631 para Amsterdão para dar resposta às muitas encomendas que daí lhe chegavam; se De Wet fez parte do seu grupo de discípulos terá sido provavelmente nesta segunda fase em Amsterdão, embora também exista a possibilidade de que nunca tenha havido um contacto direto entre os dois pintores e que a clara influência que Rembrandt teve em De Wet seja exclusivamente através da sua obra, tal como aconteceu com muitos outros artistas da altura.

Sediado principalmente em Haarlem – o seu mais antigo trabalho assinado e datado conhecido é “O Batismo do Eunuco”, de 1632, ano no que se torna membro da guilda de São Lucas em Haarlem -, o artista viveu por diversos períodos de tempo noutras localidades holandesas, nomeadamente em Alkmaar, escapando à peste que desde o verão de 1635 assolava a região mais a sul. Em 1677 De Wet irá viver para Colónia, onde provavelmente passará os seus últimos anos, o que possivelmente estará relacionado com o “Rampjaar” de 1672, conhecido como Ano do Desastre em que a República Holandesa é atacada simultaneamente por vários exércitos invasores, o que da lugar a uma severa crise no mercado da arte e a vida não estará de certeza facilitada para os católicos.

 

A pintura da Casa-Museu

 

O momento escolhido para a representação da Ressurreição de Lázaro na pintura da Casa-Museu é o momento crítico da narrativa, tal e como era habitual na época. Jesus aparece em pé na entrada da cova que dá acesso ao sepulcro, com o braço e a mão esquerda estendidas em direção ao túmulo acaba de pronunciar as palavras que trarão de volta à vida Lázaro: “Lázaro, sai para fora”. Frente a Jesus, no canto inferior da pintura, Lázaro aparece no momento em que se levanta, com o corpo semicoberto por um sudário. Rodeando Jesus uma multidão observa o acontecimento, o espanto refletido nas caras e gestos. À direita, Maria e Marta de Betânia, irmãs de Lázaro, ajoelhadas.

 

Esta pintura é um típico exemplo da relação estilística que muitos autores estabelecem entre Rembrandt e Jacob de Wet: o uso dramático da luz que acentua os pontos onde se concentra o milagre (a figura de Cristo e a de Lázaro); a força das expressões dos assistentes que com os seus gestos dão dramatismo a composição; o modelado dos corpos através do uso do chiaroscuro ou o recurso a modelos realistas que trazem veracidade à cena. Se aceitamos como data de produção deste painel 1642, Rembrandt já teria pintado o óleo da mesma temática que se conserva no Los Angeles County Museum of Art (https://collections.lacma.org/node/238402).

 

Embora as influências rembrandianas na obra de De Wet sejam inegáveis, não há qualquer documentação que comprove inequivocamente a passagem deste último pelo atelier do mestre. A verdade é que no período de tempo em que ambos trabalharam, a produção artística na Holanda vivia uma época dourada. Muitos artistas tinham viajado para Itália no primeiro quartel do século XVII, onde tinham visto a obra de Caravaggio e adotado o uso do chiaroscuro e a representação naturalista dos modelos para a pintura de género, mas também para a religiosa. Estes artistas através da sua obra trouxeram estas novas técnicas e soluções quando voltaram para a Holanda, influenciando por sua vez outros artistas (como o próprio Rembrandt ou De Wet) que nunca tinham estado em Itália.

 

A pintura da Casa-Museu é uma belíssima obra representativa do seu tempo. Tanto a sua composição como a sua execução atestam a qualidade do artista que a produziu, merecendo ser reconhecida pelas suas propriedades e pela maestria do seu autor e não simplesmente como uma pintura “anteriormente atribuída a Rembrandt”, o que de facto não faria senão sublinhar a qualidade da mesma.

 

Proveniência

 

As primeiras proveniências atribuídas a esta obra indicam a coleção de Johann V. Bloch (1910-1994) e, posteriormente, de Edward Speelman Ltd (Old Masters Paintings), em Londres.

A 2 de Maio de 1947 foi adquirida em leilão da Christie’s, em Londres, por Mrs. Dorothy Hart, quem durante um ano o empresta ao governo Holandês para a participação em várias exposições.

Após uma longa troca de correspondência entre Mrs. Dorothy Hart e o Sr. Medeiros e Almeida durante todo o ano de 1955, este último acaba por adquirir esta pintura (na altura atribuída a Rembrandt e datada de 1624), por £12.500.

 

Samantha Coleman-Aller

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

 

Bibliografia

 

ALPERS, S., Rembrandt’s Enterprise. The Studio and the Market, London and Chicago, University of Chicago, 1988

BODE, W. e HOFSTEDE DE GROOT, C., Rembrandt. LÓuvre de Maître, Paris, Librairie Hachette, s/d

BREDIUS, A., The Paintings of Rembrandt, Viena, The Phaidon Press, 1937

GELDER, J.G. van, Rembrandt and his Circle, in The Burlington Magazine, Feb. 1953, pp. 34-38

GERSON, H., Ausbreitung und Nachwirkung der holländischen Malerei des 17. Jahrhunderts, Amsterdam, B.M.Israël, 1983

HOFSTEDE DE GROOT, C., A Catalogue Raisonné of the Works of the Most Eminent Dutch painters of the Seventeenth Century, London, Macmillan and Co., 1916

SCHILLER, G., Iconography of Christian Art, London, Lund Humphries, 1971

SUMOWSKI, W., Gemälde der Rembrandt-Schüle, Landau, Edition PVA, 1989

VV.AA., Rembrandt. El Maestro y su Taller, Barcelona, Electa España, 1991

VV.AA., Biblia Sagrada (Versão segundo os textos originais hebraico, aramaico e grego), Lisboa, Difusora Bíblica, 1966

 

Catálogos

Rand, R., Masterpiece in Focus: The Raising of Lazarus by Rembrandt, Los Angeles County Museum of Art, 1991

Vilaça, T. (coord.), Realidade e Capricho. A Pintura Flamenga e Holandesa da Fundação Medeiros e Almeida, Lisboa, Fundação Medeiros e Almeida, 2008

L’âge d’or hollandais. De Rembrandt à Vermeer avec les trésors du Rijksmuseum, Paris, Pinacothèque de Paris, 2009

Dutch Pictures 1450-1750, Londres, Royal Academy of Arts, 1952

Rembrandt Ausstellung, Holanda, Galerie Basel-Katz, 1948

 

Webgrafia

RKD Netherlands Institute for Art History – Jacob de Wet (I)

https://rkd.nl/en/explore/artists/83916

Rembrandt Research Project: http://www.rembrandtresearchproject.org

The Rembrandt Database: http://www.rembrandtdatabase.org/Rembrand

WHEELOCK, A.K.Jr., Dutch Paintings of the Seventeenth Century, NGA Online Editions, http://purl.org/nga/collection/catalogue/17th-century-dutch-paintings

 

Artista

Jacob Willemsz. de Wet (c. 1610- depois de 1677)

Ano

c. 1642

País

Harlem, Holanda

Materiais

Óleo sobre madeira de carvalho

Dimensões

Alt. 63cm X Larg. 50,5cm

Categoria
Destaque