Salva “Melo”, Destaque Fevereiro de 2013

Salva “Melo”, Destaque Fevereiro de 2013

Salva em prata que, pela decoração da aba, corresponde à tipologia das salvas de “bastiães”, um dos temas mais divulgados no final da Idade Media e dos mais usuais em salvas Portuguesas segundo os exemplares que se conservam e a documentação existente. No medalhão central, um brasão que poderia corresponder ao dos Melos ou Almeidas.

 

Função e decoração das salvas:

Uma salva é, na descrição de Rafael Bluteau no seu Vocabulário Portuguêz & Latino de inícios do século XVIII, “…a peça de ouro, prata, ou outra matéria, sobre que se serve ao senhor o vaso, em que há de beber”. Esta frase não só nos dá uma primeira descrição de como são este tipo de peças como também nos aproxima de um dos seus usos, o que é fundamental para compreender a evolução das salvas na sua forma e função.

 

As salvas, frequentemente referidas na documentação dos séculos XV e XVI, eram originalmente peças de aparato que poderiam cumprir duas funções: uma mais utilitária ligada aos rituais da mesa e outra de carácter mais simbólico como elemento decorativo e de ostentação. Na sua função mais prática – tal e como se pode ver na pintura “Última Ceia” de Gregório Lopes, da Igreja de São João Baptista de Tomar – a salva era utilizada para verter parte do vinho que havia de beber o senhor, para que fosse provado primeiro por um servente de modo a evitar possíveis envenenamentos. Será de facto desta cerimónia, denominada “Tomar a Salva” – pôr o senhor a salvo – de onde parece derivar o nome da peça.

 

Na sua vertente mais decorativa, as salvas eram colocadas em prateleiras ou aparadores para enfeitar a sala e, nomeadamente, como símbolo de riqueza do proprietário, daí a importância da heráldica que muitas vezes aparece associada a estas peças. Prova disto é a salva representada na “Apresentação da Cabeça de São João Baptista”, também de Gregório Lopes, onde por trás da mesa de Herodes encontramos um aparador com dois jarros e uma salva brasonada em exposição.

 

À medida que a sua função original vai caindo em desuso – nomeadamente a função ligada à cerimónia da refeição – as salvas irão ganhando novos usos e, com eles, novas formas, sendo que na atualidade podemos ver o termo “salva” associado a inúmera variedade de pratos de tamanhos, formas, decorações e usos muito diversos.

 

Em relação à decoração das salvas de finais do século XV e inícios do século XVI, Joaquim Oliveira Caetano, no seu texto “Função, Decoração e Iconografia das Salvas” no Inventário do Museu Nacional de Arte Antiga, distingue diversos tipos, que podemos resumir em:

 

  • • salvas de gramática ornamental de carácter modular (“meia pérola”, “ponta-de-diamante”, decoração vegetalista);

 

  • salvas de “bastiães” ou salvas com decoração de homens-silvestres, que será o tipo mais habitual entre as salvas portuguesas e no que se insere a salva em estudo;

 

  • salvas de iconografia histórica ou mitológica.

 

Nuno Vassallo e Silva, no livro sobre ourivesaria portuguesa de aparato, refere a importância das formas arquitetónicas, nomeadamente no último quartel do século XV, na ourivesaria portuguesa, e salienta também um conjunto de salvas “com grandes superfícies polidas, sem ornamentação”, que seriam já da segunda metade do século XVI ou posteriores, ressaltando porém que este recurso “…é uma constante na arte da ourivesaria, bem anterior aos séculos XV e XVI”, sobretudo quando se desejam peças utilitárias, e cuja produção continuará no tempo.

 

Leitura formal da salva da Casa-Museu Medeiros e Almeida:


Esta salva seria provavelmente uma peça de ostentação, ou muito excecionalmente utilizada, dado a sua superfície muito trabalhada, que aponta mais para a uma função decorativa e como símbolo de poder.
Realizada em prata repuxada e incisa – provavelmente originalmente dourada, mas apenas restam vestígios na parte inferior -, com decoração organizada, como é habitual neste tipo de peças, em faixas concêntricas. No centro elevado, e rodeado de uma cercadura a base de ponteado, as armas dos Melos ou Almeidas com seis arruelas, de gravação muito esquemática, podendo inclusive ser resultado de uma alteração posterior à manufatura da peça na que se inseriu o brasão do novo possuidor, prática muito comum e que em nada desvalorizava a peça.

 

 

As faixas em volta do medalhão central – que conformam três níveis descendentes separados por caneluras côncavas, pronunciadas e estreitas – estão decoradas consecutivamente com corda torcida, cartelas ovais, e motivos vegetalistas o que, para alguns autores, seria também uma decoração posterior já que estaria mais próxima da utilizada em finais do século XVI do que em inícios deste século, momento no qual estaria datada esta salva. A transição entre este núcleo e a aba é feita por uma última canelura cercada por perlado relevado.

 

A aba está profusamente decorada mediante cinzelado. Nela, sobre fundo de videira, com cachos de uvas e folhas de parra, doze figuras em anárquica disposição: 6 homens-selvagens – criatura maravilhosa do imaginário tardo-medieval, com o corpo coberto de tufos de pêlo que deixam só livres a cara, mãos e pés -, 5 centauros – animal fabuloso meio homem, meio cavalo – com toga ou manto, e 1 híbrido de homem-selvagem e centauro. Algumas destas figuras envergam barretes ou capacetes, assim como outros objetos entre os que se misturam atributos próprios dos cavaleiros (escudo, arco), dos bispos (cruz, báculo, cálice) e outros elementos associados ao homem-selvagem, como grandes bastões ou ramos de árvore. Entre estas figuras e a vegetação aparecem também diversos animais (cães, aves, macacos) de difícil identificação dada a sua representação pouco realista.

 

 

Leitura Iconográfica:


Esta salva seria provavelmente uma peça de ostentação, ou muito excecionalmente utilizada, dado a sua superfície muito trabalhada, que aponta mas para a sua função decorativa e como símbolo de poder.
Como já foi descrito, o medalhão central desta salva exibe as armas dos Melo ou Almeida, rodeados de várias faixas de decoração que também podem ter sido alterações posteriores, pelo que para a leitura iconográfica nos centraremos na decoração da aba, isto é, na temática das salvas de “bastiães”, com o ‘homem-selvagem’ como motivo central.

 

O tema dos ‘homens-selvagens’ é conhecido na arte portuguesa – não só na ourivesaria como também na iluminura, no trabalho de talha e nas artes cénicas – desde finais do século XIV, e estender-se-á até ao século XVI. No final da Idade Média, o ‘homem-selvagem’ resultava da idealização de uma criatura maravilhosa que habitaria em algum local longínquo (sempre representado como um local cheio de vegetação como podemos observar nesta salva), e que teria como base não só os bestiários medievais, como também os textos clássicos, os relatos mitológicos e até a própria Bíblia. Esta figura, a meio caminho entre um homem e um animal, coberto de pêlos mas a caminhar sobre duas pernas, será a personificação do mais primitivo do homem, com tudo o que isto trazia consigo: o irracional, o caótico, os instintos mais primários, e tudo isto, claro está, como contraposição a um mundo que procurava encontrar a lógica e o ordem na religião e numa rígida organização da sociedade.

 

Como resulta da observação das personagens representadas na peça da Casa-Museu, muitas vezes este intento de plasmar a visão que se tinha do mundo, resultava numa procissão de personagens nas que o homem-selvagem podia aparecer ligado a outras figuras fantásticas – neste caso centauros – e animais fabulosos, numa disposição sem aparente ordem e que, às vezes, pode também ser de luta. Neste singular cortejo, mistura-se o primitivo com os símbolos do mundo que se pensa racional e organizado aparecendo, como já vimos, atributos que fazem referência aos principais escalões da sociedade: os cavaleiros, a Igreja e o próprio rei.

 

Com o passar do tempo, esta iconografia do homem-selvagem foi-se enriquecendo com novas imagens de um mundo que estava a crescer a cada momento com novos descobrimentos, sendo que, com o conhecimento de seres reais, que habitavam lugares reais e identificáveis, e que podiam substituir esta figura idealizada e mítica, o homem-selvagem passara a personificar não tanto o homem primitivo e desconhecido, como todo o que de mau há em cada um de nós, sendo que, segundo Joaquim Oliveira Caetano, “…o selvagem torna-se um mito interno, em vez de ser um mero mito exterior. A caçada e o combate ao homem selvagem simbolizam assim o combate aos seus instintos mais básicos e às suas pulsões primárias”.

 

Em Portugal, como já foi referido, as salvas de “bastiães” tiveram grande divulgação, sendo que se conhecem mais de uma dezena de exemplares, alguns semelhantes à salva da Casa-Museu, com as mesmas armas no medalhão central e apenas com pequenas variações no tamanho ou no número e colocação das figuras que decoram a aba. Existem exemplares no Museu Nacional de Arte Antiga, no Palácio Nacional de Ajuda, na Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva ou, fora de Portugal, no Museu Britânico.

 

Datação:

Dada a ausência de marcas ou punções a datação será sempre aproximada e realizada com recurso à documentação existente e à comparação com peças de características similares como as acima mencionadas. Estas salvas de “bastiães” aparecem na documentação portuguesa desde meados do século XV e, nomeadamente, no início do século XVI.
Como já foi referido anteriormente a decoração do núcleo central, brasão e das três faixas decorativas que o circundam, será provavelmente posterior a julgar não só pelos motivos como também pela própria técnica que difere muito da usada na decoração principal da aba.

 

Proveniência:
Pertenceu à coleção da família Herédia, Málaga, 1906;
Pertenceu à coleção do Dr. August J. von Borosini (1874-?), Los Angeles, Califórnia;
Adquirida por Medeiros e Almeida  em leilão da Christie’s, Londres, de 10 de dezembro de 1958, lote 47, por £420, através de John Mitchell.

 

Samantha Coleman Aller
Casa-Museu Medeiros e Almeida

Bibliografia:

BLUTEAU, Raphael, Vocabulário Portuguêz & Latino, Coimbra, Collégio das Artes da Companhia de Jesu, 1712-1728

OLIVEIRA CAETANO, Joaquim, “Função, decoração e iconografia das salvas”, in OREY, Leonor (coord.), Inventário do Museu Nacional de Arte Antiga: coleção de ourivesaria, Lisboa, Instituto Português de Museus, 1995

REBELO DE ANDRADE, Maria do Carmo, “Iconographic Narrative of stately silverware Portugal XV and XVI centuries”, in European Royal Tables, Lisboa, IPM, 1999

SANTOS, Reynaldo dos, QUILHÓ, Irene, Ourivesaria Portuguesa nas Colecções Particulares, 2ª edição, Lisboa, 1974

VASSALLO E SILVA, Nuno, Ourivesaria Portuguesa de Aparato. Séculos XV e XVI, Lisboa, Scribe, 2012

Artista

Ano

primeira metade do séc. XVI 


País

Portugal

Materiais

Prata repuxada, cinzelada e gravada

Dimensões


Altura: 6cm Diâmetro: 32cm Peso: 1063 gr.

Categoria
Destaque