Uma secretária “brisé” – Destaque em Fevereiro 2018

Secretária Mazarina Brisé

Paris (?), último terço séc. XVII

Madeira, folheada a pau – rosa e marchetada a ébano, casca de tartaruga, pau – violeta, oliveira, pau-santo, nó de nogueira, amaranto, madeira entalhada e dourada e estanho

Alt. 78 cm. x Larg. 104

 

 

Secretária Mazarina

Em francês bureau designa as “mesas adaptadas à escrita”. Móvel surgido no princípio do século XVII, derivando o termo de bure, o burel colocado inicialmente sobre o tampo em cima do qual eram então pousados documentos, livros, papeis, sendo nesta época ainda imprecisa a sua forma. A difusão do seu uso parece só ter acontecido durante a década de 1680. Paralelamente surge em finais da década de 60, um modelo de secretária designado por mazarina.

A secretária mazarina (designação que apenas aparece no século XIX) corresponde a uma tipologia híbrida de móvel que deriva dos cofres (gavetas) e contadores (“múltiplos pés”), nascida durante a segunda metade do século XVII e produzida até ao início do XVIII, cerca de 1710 / 15, período em que é substituída por um novo modelo de móvel para escrita entretanto surgido e designado por bureau plat.

 

A sua criação cerca de 1669, atribui-se a Pierre Gole (ebanista de Luis XIV e do Cardeal Mazarin) nascido na Holanda mas, emigrado em Paris onde ganhou fama. Caracteriza-se pela existência de dois corpos de gavetas assentes em quatro pernas unidos por um tampo, tendo ao centro porta ou batente recuado, as pernas ligadas entre si por travejamento em forma de X ou de H, podendo ser ou não, unidos por uma travessa entre si. O facto de o tampo das mesmas (em geral) não ser coberto de couro, veludo ou estofado noutro tecido, como era habitual nos móveis de escrita, mas sim folheado e marchetado, assim como o espaço “destinado às pernas” ser reduzido e pouco profundo, deixa pressupor uma utilização mais variada e polivalente. Poderão ter sido móveis sobre os quais se podia escrever, mas também terem sido usados como móveis de toilette. Por vezes, sobre o tampo apresentam um corpo de pequenas gavetas, sendo neste caso denominadas à gradin.

Dentro das secretárias mazarinas, encontramos um grupo específico e menos comum destinado à escrita, no qual se insere a peça da Casa – Museu: uma mesa ou secretária brisé. O tampo dividido ao meio (brisé – partido), abre através de dobradiças permitindo aceder ao interior onde se encontra uma superfície de escrita e a “fábrica” com gavetas.

Em geral, são móveis de dimensões reduzidas destinados a serem encostados à parede, uma vez que, a parte de trás frequentemente, não era decorada com o mesmo cuidado do resto do móvel. Quando a decoração do tardoz era igual à das outras faces, então este, podia ser colocado no meio de uma sala, podendo ser admirado a partir de qualquer ângulo.

As mais antigas secretárias desta tipologia são de tamanho reduzido (no máximo120cm de comprimento, a da Casa – Museu tem 104cm) decoradas por motivos relativamente simples de feição geométrica e apresentam pernas em estípite rematadas por capiteis em madeira dourada, assim como uma travessa central que une os dois travejamentos das pernas, tal como a da Casa-Museu.

A secretária mazarina foi produzida pelas oficinas não apenas de Gole, mas também, por outros ebanistas como por exemplo André – Charles Boulle em Paris e Thomas Hache em Grenoble, embora a ausência de estampilha (obrigatória em 1743) apenas permita uma atribuição por aproximação formal e estética.

Tanto Gole como Boulle fabricaram este tipo de secretária decorada por marchetados que associam além das madeiras, outros materiais como a casca de tartaruga e o metal (como o latão e o estanho surgindo este último nesta decoração) mas, qualquer deles seguindo uma gramática decorativa profusa (o primeiro preferindo flores e folhagem, o segundo arabescos ao gosto de Jean Bérain) bastante diferente daquela presente na secretária da Casa – Museu.

Hache ebanista de Grenoble produziu peças em que usou marchetados de madeiras de cores contrastantes como o pau-santo, nogueira, pereira, o pau-rosa, etc., sendo-lhe atribuída a técnica de aproveitamento dos veios do pau-rosa para criar marchetados de efeito “asa de borboleta”, através do seccionamento obliquo da madeira, como os que decoram a secretária da Casa-Museu.

 

Folhear, incrustar, marchetar

 Na segunda metade do século XVII, Paris sob o governo de Luis XIV, oferecia um vasto mercado de trabalho aos marceneiros e ebanistas, tanto franceses como estrangeiros. Neste período, é frequente encontrar profissionais de origem holandesa, flamenga e alemã a trabalharem na cidade e por vezes até mesmo, nas Galerias do Louvre. O esplendor da corte do Rei-Sol oferecia-lhes um mercado de trabalho inesgotável associado à construção / remodelação de palácios como Versailles. Traziam consigo o gosto e a boa execução técnica de marchetados em móveis de requinte, muito apreciados à época pelas elites, passando a assumir na 2ª metade do século XVII, o mobiliário francês novos contornos sob a influência destes ebanistas estrangeiros que executavam com mestria técnicas decorativas ainda pouco divulgadas em França.

 

 

Na Flandres, Holanda e Augsburgo, os artífices recorriam a materiais variados como diferentes tipos de madeiras, pedra, marfim, madrepérola, casca de tartaruga, latão, estanho, para decorarem os móveis, “novidades” muito apreciadas pela família real e elites francesas.  A partir do final do reinado de Henrique IV, o reconhecimento pelo trabalho de vários artífices leva a que comecem a ser alojados pelo rei no Louvre, privilégio concedido só a alguns, mas extensível também a estrangeiros, que percebendo a procura, se deslocam do seu país de origem para se instalarem em Paris. De facto, entre os ébanistas de renome que encontramos ao longo dos séculos XVII e XVIII vários são de origem estrangeira (Pierre Gole, Jan Bolt, A. J. Oppenordt tendo mesmo nalguns casos afrancesado o nome, como por exemplo, o caso Jan Bolt pai de André – Charles Boulle, originário dos Países-Baixos e que se instalou em Paris em 1637, de Jan Ghermaens originário da Flandres ou da actual Renânia – Norte -Vestefália a viver em Paris cerca de 1630-35 e que alterou o nome para Jean Armand ou de Cander-Johan Oppen-Oordt nascido cerca de 1639 na província holandesa da Guéldria, naturalizou-se francês em 1679  passando a chama-se Alexandre -Jean Oppenordt.

 

Num meio de trabalho corporativista, a especialização ditava as diferentes actividades de cada oficina e o tipo de trabalho que podiam executar, cabendo aos ebanistas a decoração dos esqueletos de peças executadas pelos marceneiros, usando materiais sofisticados cujo manuseamento lhes estava vedado.

Entre as técnicas decorativas a mais comum e simples era o folheado, na qual uma lâmina de madeira ou de outro material é colada sobre a estrutura do móvel, escondendo-a. A decoração podia ser feita apenas com um tipo de madeira ou cruzar vários de tonalidades e veios diferentes, criando motivos decorativos mais complexos. Esta técnica podia surgir sozinha ou em conjunto com outras, como a marchetaria.

A marchetaria técnica originada em Itália, consiste na decoração das superfícies dos móveis sobre as quais são colados pedaços de madeiras de diferentes tonalidades assim como, de outros materiais como madrepérola, marfim, metal, osso, casca de tartaruga, etc. constituindo um motivo decorativo.  Praticada e desenvolvida nos Países – Baixos  com grande qualidade técnica e estética, possivelmente aprendida com artesãos italianos estabelecidos no sul da Alemanha e posteriormente em contacto com holandeses e flamengos, a técnica de tarsia à incastro (ou Boulle), na qual se sobrepõem várias lâminas de diferentes materiais tendo no topo uma folha de papel com o desenho e cortadas em simultâneo seguindo o debuxo, permitia criar várias peças em paralelo que depois eram encaixadas umas nas outras de forma a criar contrastes de cores e materiais.

Quando o fundo era escuro em ébano, pau-santo, casca de tartaruga e a decoração em madeiras de tonalidades mais claras, estanho, cobre, madrepérola era designado em première partie quando era ao contrário em contre partie.

Seguindo uma tradição vinda da pintura, estes artesãos executavam móveis de decoração complexa na qual, jarras de flores onde por vezes pássaros e borboletas esvoaçam, eram o motivo predilecto, mas não único, de execução de tal modo perfeita que, são designadas por “pintura de madeira”. Os motivos decorativos podiam ser também de complexos enrolamentos e entrelaçados seguindo as propostas de desenhadores em voga como Jean Bérain.

Procedimento igualmente originado em Itália e designado por intarsia certosina, a incrustação ou embutido, consistia na inserção de pedaços (cortados com a forma pretendida) de madeira, pedra, metal, madrepérola, tartaruga, etc. sobre uma superfície que foi antecipadamente escavada e na qual estes materiais eram inseridos, formando assim um motivo decorativo.

 

A secretária da Casa-Museu

Secretária mazarinabrisé” em madeira, folheada a pau – rosa e marchetada a ébano, casca de tartaruga, pau – violeta, oliveira, pau-santo, nó de nogueira, amaranto e estanho. Tampo de levantar (brisé) deixando ver a fábrica no interior, constituída por cinco gavetas, aparentando uma delas, ser dupla. Frente com dois corpos de gavetas apresentando ao centro porta recuada. Assenta sobre oito pernas em estípide, com pés em bola de madeira, ligadas por travejamento em H, por sua vez unido por travessa com saliência rectangular ao centro, destinada à colocação de uma peça ornamental. Decoração folheada, formando os veios do pau – rosa motivos em “asa de borboleta”. Marchetados em estanho criando losangos, sobre fundo de tartaruga. No tampo de escrita, decoração de marchetados de diferentes madeiras compondo motivos florais e geométricos.

A simplicidade das linhas estruturais e decorativas (geometrizadas), em particular nas faces exteriores, o facto de possuir uma travessa que une os dois grupos de pernas, a reduzida dimensão e as pernas em estípide rematadas por capiteis em madeira dourada esculpida, características de peças feitas no início do período deste tipo de produção, situada no início da década de setenta do século XVII, permitem-nos datá-la  no último terço do século XVII, possivelmente ainda na década de setenta.

Peça cuja origem (francesa?) permanece desconhecida, toda a simplificação decorativa de linhas geométricas parece ser pouco comum no universo das peças conhecidas deste tipo de secretária, tendo apenas por referência dois outros casos publicados, mas cuja propriedade e autoria / produção ignoramos.

Desconhecido também é o seu historial, sabendo-se unicamente que foi comprada em Paris ao antiquário Maurice Chalom, tendo chegado à colecção de Medeiros e Almeida em 1972. Desta forma, é apenas possível contextualizá-la pelas suas características, num modelo relativamente pouco frequente, decorado de forma pouco comum, mas de execução técnica de qualidade, muito provavelmente produzido em França, no último terço do século XVII, início de um período de grande qualidade técnica e artística na produção de mobiliário francês, de que esta peça é já exemplo.

 

 

Cristina Carvalho

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

 

Bibliografia

Courtin, Nicolas – L’art d’habiter à Paris au XVIIe siècle, l’ameublement des hôtels particuliers à Paris, Dijon, Éditions Faton, 2011

Demetrescu, Calin – Jean Armand un ébéniste redécouvert au temps de Louis XIV, [Bucareste ?], s/ed. [2011 ?]

Jeanneau, Guillaume – Le Meuble d’Ébénisterie, Paris, Vincent Fréal editeurs, 1970

Kjellberg, Pierre – Le Mobilier Français du Moyen Âge a Louis XV, tome premier, Paris Éditions le Prat, 1978

Ramond, Pierre – André-Charles Boulle ébéniste ciseleur et marqueteur ordinaire du Roy, Turin, Editions Vial, 2011

Reyniés, Nicole – Le Mobilier Domestique : vocabulaire typologique, vol. I, Paris, Imprimerie Nationale, 1992

Rouge, Pierre et Rouge, Françoise – Le Génie des Hache. Dijon, Éditions Faton, 2005

Salverte, François – Les Ébénistes du XVIIIème siècle, leurs œuvres et leurs marques. Paris, F. de Nobele, 1962

 Scheurleer, Th. H. Lunsingh –  Pierre Gole, ébéniste du roi Louis XIV, The Burlington Magazine Vol. 122, No. 927 (Jun., 1980), pp. 380-394

Scheurleer, Th. H. Lunsingh – Pierre Gole Ébéniste de Louis XIV. Dijon, Éditions Faton, 2005

Artista

Desconhecido

Ano

Último terço do século XVII

País

Paris, França

Materiais

Madeira, folheada a pau – rosa e marchetada a ébano, casca de tartaruga, pau – violeta, oliveira, pau-santo, nó de nogueira, amaranto, madeira entalhada e dourada e estanho

Dimensões

Alt. 78 cm. x Larg. 104

Categoria
Destaque