Secretária com Alçado, 1840

Secretária com Alçado, 1840

Secretária com alçado em mogno. O corpo inferior é formado por dois módulos de quatro gavetas escondidas por trás de portas de trinco de palheta sendo unidos por um tampo. O alçado, encimado por elaborada cimalha entalhada e vazada, é composto por um corpo central com armário superior de duas portas e parte inferior dividida em compartimentos retangulares identificados por etiquetas a dourado, que se escondem por trás de um tampo de secretária rebatível e dois corpos laterais fechados por portas forradas de espelho, com armário e duas gavetas no interior, uma das quais – a gaveta superior do lado esquerdo do móvel – compartimentada para guardar objetos de escritório.
O interior das portas do armário central do alçado foi modificado, sendo que no da esquerda está aparafusado um possível chaveiro, e no da direita um dispositivo de função desconhecida, formado por tiras de madeira que correm numa calha.

 

História de uma secretária:

Esta secretária – de autor desconhecido mas claramente baseada nos desenhos de Thomas Chippendale – foi feita, quase com absoluta certeza, para os escritórios de uma estação de caminhos-de-ferro da costa Este de Inglaterra. Num dos compartimentos retangulares do módulo central superior pode-se ler numa pequena tira de papel ‘North Eastern Railway’, nome da antiga companhia de caminhos-de-ferro inglesa à que provavelmente pertenceria. 
Será, pois, esta localização que explica algumas das características do móvel, como os referidos compartimentos do corpo central que serviriam para classificar a documentação relativa à dita estação, e nos quais, para além do nome da companhia, podem-se ainda distinguir os seguintes rótulos:

 

  • Bills for examination (faturas a examinar)
  • Bills to Pay (faturas a pagar)
  • Loans (empréstimos)
  • Schools (escolas)
  • Servants (empregados)
  • Wage Books (livros de salários)
  • Plans (planos)
  • Darlington (uma das estações principais da linha)
  • Nether Grange
  • Cluny Lodge

 

Os últimos dois rótulos são os mais complicados de explicar, já que não fazem referência a estações, como num primeiro momento se pensou, sendo que todos os outros podem perfeitamente estar relacionados com o funcionamento e a documentação habitual de uma estação. Nether Grange é hoje em dia um hotel rural, pertencente à companhia HF Holidays, situado em Alnmouth, cidade cuja estação fazia parte da linha da NER; em tempos foi um moinho de farinha e celeiro, o que poderia explicar o facto de aparecer na secretária em estudo, já que em documentação da NER aparece referido em variadas ocasiões o transporte de sacas de farinha, quanto a Cluny Lodge desconhece-se se tem algo a ver com um lar de idosos com este nome situado perto de Edimburgo.

 

 

Para além deste módulo para a organização de documentação, e tal e como já foi referido, existem no interior das portas do módulo central modificações, claramente posteriores à manufatura do móvel, devidas ao uso particular deste. Na porta esquerda aparece aparafusada uma madeira com diversos ganchos que poderia ter funcionado em tempos como chaveiro. Na porta direita foi colocado um dispositivo de função desconhecida, formado por tiras de madeira que correm numa calha podendo adotar três posições diferentes cada uma delas, e que têm cada um cordel pendurado.

 

Os fechos da secretária são da S. Mordan & Co., companhia de Sampson Mordan (1790-1843), prateiro e serralheiro inglês que para além de fechaduras e outros objetos em prata e ouro, inventou e patenteou em 1822, com John Isaac Hawkins (1772-1825), a lapiseira.

 

 

A NER – North Eastern Railway:


Em 1821, perante a necessidade de transportar o minério da região de Bishop Auckland, aprova-se a construção de uma linha que unia esta zona com o rio Tees em Stockton, passando por Darlington. Num primeiro momento pensou-se usar carruagens de metal puxadas por cavalos mas, com a colaboração do engenheiro George Stephenson (1781-1848), mudou-se esta ideia inicial e finalmente construiu-se uma linha para locomotoras a vapor.
A Stockton & Darlington Railway inaugurou com grandes honras os seus 61 quilómetros de linha em 1825, com uma travessia muito acidentada que duraria 3 horas e 7 minutos e seria a primeira em que uma locomotora a vapor levou passageiros para além de carga. Esta primeira linha será nos anos 40 – época da que data a peça em destaque – incluída na North Eastern Railway (NER), companhia que por sua vez será, em 1923, reestruturada como London and North Eastern Railway, e da que ainda hoje em dia sobrevive o ramo principal na costa Este como parte da linha entre Londres e Edimburgo.

 

A NER cobria um território relativamente amplo, do qual teve um quase monopólio; este estendia-se através de Yorkshire, Durham County e Northumberland, com postos avançados em Westmorland e Cumberland. Como sucessora da Stockton & Darlington Railway, a NER tinha reputação de ser uma companhia inovadora; foi pioneira em matéria de design (desenhando algum do seu mobiliário como iluminárias ou assentos dos cais), arquitetura (sendo a primeira companhia ferroviária a contratar um arquiteto a tempo inteiro) e na eletrificação (uma das primeiras companhias ferroviárias inglesas a adoptar a tração elétrica). Começou também a coleção que mais tarde daria lugar ao Museu Ferroviário de York e que hoje em dia é o Museu Nacional Ferroviário (National Railway Museum).

 

Thomas Chippendale:

Thomas Chippendale (1718-1779) foi um marceneiro e designer de mobília inglês. Na sua família já havia tradição de trabalhar a madeira, e terá sido com o seu pai que ele se iniciou no ofício, mas é provável que antes de se mudar para Londres, onde irá estabelecer o seu negócio que se manteve até 1813 já com o seu filho à frente, tenha sido também aprendiz em outras oficinas.

 

Além de marceneiro Chippendale fez projetos de interiores, realizando numerosas encomendas para a aristocracia, algumas das quais ainda são identificáveis hoje em dia nas suas localizações originais, tendo colaborado também com os mais proeminentes arquitetos da altura, como Robert Adams e Sir William Chambers.

 

Porém, hoje em dia o seu nome é mais reconhecido como sendo o primeiro marceneiro a publicar um livro dos seus desenhos; “The Gentelman & Cabinet Maker’s Director”, cuja primeira edição é de 1754, com uma reedição de 1755 e uma terceira edição de 1762 revista e ampliada com novos desenhos correspondentes ao novo estilo – o Neoclássico.

 

 

Neste livro, que lhe valeria a fama como um dos mais célebres marceneiros do século XVIII, Chippendale faz uma compilação de desenhos que é considerada o reflexo dos diferentes estilos que estavam de moda na altura, com influências que vão desde o Rococó francês muito elaborado ao Neogótico, passando pelos móveis lacados de clara inspiração chinesa. Muitos marceneiros da época usaram estes desenhos nas suas criações, podendo identificar-se produção de direta influência em cidades tão distantes como Dublin, Copenhaga, Hamburgo, Lisboa ou Filadélfia sendo que até a imperatriz da Rússia e o rei Luís XVI possuíam cópias do ‘Diretor’ na edição francesa. Tão influentes chegaram a ser os seus desenhos que ainda na atualidade o termo “Chippendale” se tornou uma descrição abreviada para mobília baseada ou semelhante a estes.
Na segunda metade do século XIX a influência de Chippendale voltaria com força, porém, muitas vezes já longe do conceito original – será esse o caso da secretária em análise.

 

Proveniência:

Pertenceu à coleção do Esquire Michael Levi, Inglaterra.
Adquirida à casa Maple & Company International Ltd, 141-150, Tottenham Court Road, Londres, em 10 de Maio de 1971, lote 98, por £2.000.

 

Samantha Coleman Aller
Casa-Museu Medeiros e Almeida

ARTISTA

Desconhecido

Ano

1840

País

Inglaterra

Materiais

Mogno, espelho e bronze


Dimensões

Alt. 261cm. x Larg. 173cm.

Categoria
Mobiliário Inglês