Secretária de Rolo, Destaque Janeiro de 2016

Secretária de Rolo, Destaque Janeiro de 2016

Pequena secretária de rolo ou cilindro, apoiada em quatro pernas galbadas decorada em todas as superfícies com intricado trabalho de marchetaria e com aplicações de bronze dourado.

 

A segunda metade de oitocentos segundo o gosto do século XVIII

A 2ª metade do século XIX é caracterizada pelo ecletismo que reviveu e copiou modelos históricos e assumiu-se como um estilo típico das grandes fortunas da classe burguesa que triunfava devido ao espírito empreendedor, motor do desenvolvimento da indústria, da banca e do comércio. O panorama artístico e particularmente o universo das artes decorativas inspira-se nas obras dos grandes mestres do século precedente, justificando a presença do neologismo “neo” nas artes desta época. 
O mobiliário viu nas linhas sinuosas do estilo Luís XV – como afirma Christopher Payne, perito em mobiliário do século XIX -, a união da elegância e do conforto entrando nos grandes salões oitocentistas como o estilo predileto da alta sociedade da 2ª metade do XIX.

 

 

Recuando ao século XVIII, encontramos França como capital da moda europeia e o gosto francês predominando além-fronteiras com diversas cortes, como a dos Romanov e dos Bragança, a encomendar nas melhores oficinas de Paris.

 

No que respeita o mobiliário – minuciosamente elaborado com as melhores e mais exóticas madeiras, decorado ao gosto clássico e com bronzes e por vezes ouro – a importância da sua produção pode ser ilustrada através do impulso dado pelas duas mulheres mais célebres daquele século; a Madame de Pompadour (1721-1764) e a Rainha Maria Antonieta (1755-1793) que fomentaram tanto a produção como a divulgação do panorama artístico do seu tempo recheando as suas residências com belos exemplares e dando o mote a toda a aristocracia. Na altura, o fabrico de móveis de menores dimensões e mecânicos, destinados a senhoras como as dressing table, toucadores, pequenas secretárias e escrivaninhas foram a principal novidade já que estes eram mais práticos e consequentemente mais confortáveis e desejáveis. Por se tratarem de móveis de pequeno porte e de uso maioritariamente feminino, esta tipologia recebe ainda a denominação “bureau de dame”.

 

Em França, estes costumes setecentistas voltaram a ser reproduzidos nos revivalismos oitocentistas, por ebanistas como Paul Sormani (1817-1877), François Linke (1855-1946), Napoléon Quignon (1815-1874) e pelas primeiras casas de mobiliário como a Maison Krieger, a Escalier de Cristal; a Maison Giroux; a Tahanmas, sempre procurando igualar e mesmo suplantar os seus antecessores do século XVIII.

 

A produção de mobiliário no século XVIII


No século XVIII, a produção de móveis de luxo exigia a cooperação de vários “corpos de ofícios” aos quais eram atribuídas distintas tarefas sendo o mobiliário, enquanto artigo de luxo, o fruto da união de diversas técnicas. Neste sistema corporativo, o modelo do móvel era muitas vezes fornecido pelo desenhador, os bronzes aplicados eram tarefa dos bronzistas e os acabamentos interiores, como o couro das secretárias, eram função de um tabletier, funcionando como uma grande empresa, cujos sectores, especializados e bem delimitados entre si se articulavam ao ritmo das necessidades.

 

Sendo os marceneiros os produtores das peças em madeira maciça – apenas esculpida ou entalhada -, os principais fabricantes eram os ebanistas; homens que trabalhavam o ébano e as madeiras nobres e exóticas, sendo os responsáveis pela elaboração dos folheados e marchetados que compunham o revestimento decorativo das peças de mobiliário.

 

Secretárias de cilindro

A secretária de cilindro ou de rolo é um modelo que surgiu por volta de 1760 com o ebanista de origem alemã Jean-François Oeben (1725-1763), tendo o seu paradigma no famoso “bureau du roi” exposto em Versalhes (começado por Oeben e terminado por Riesener).

 

A tipologia deste móvel compõe-se de uma base/estirador – que serve como mesa para escrever e que pode ser fixa ou deslizar para a frente quando se abre o cilindro, uma estrutura de gavetas e prateleiras que podem conter diferentes apetrechos e por um cilindro ou rolo – constituído por ripas de madeira unidas por linho ou lona.

 

 

A secretária da Casa-Museu


A secretária de rolo ou cilindro da Casa-Museu é um pequeno móvel de elegantes proporções – produzido na segunda metade do século XIX segundo um modelo do século XVIII – totalmente revestido a folheado, decorado com minucioso trabalho de embutidos em madeiras coloridas, representando motivos geométricos, vegetalistas, troféus e cenas do quotidiano em fundos de paisagem. O móvel tem diversas aplicações de elementos de bronze cinzelado e dourado, formando mascarões e elementos vegetalistas que sublinham as suas formas.

 

O móvel é sustentado por quatro pernas galbadas – calçadas com garras de leão – e encimado por um tabuleiro, de alçado baixo, limitado por gradinha em bronze dourado aberta na frente, decorado em marchetados com um medalhão central com perfil romano ladeado por dois defumadores em fundo axadrezado.

 

 

 

O corpo é constituído por um rolo encimado por um friso rítmico de medalhões circulares contendo uma flor e é ladeado por aplicações com elementos vegetalistas que rematam no topo com duas cabeças em bronze dourado representando a deusa Minerva com o seu capacete e quatro mascarões esculpidos que envolvem os joelhos.

 

 

Na superfície do rolo que se movimenta por duas pegas em bronze dourado decoradas com pequenas flores, sobre fundo do mesmo desenho axadrezado em marchetado, destacam-se diversas composições; ao centro, numa reserva polilobada, contempla-se uma paisagem na qual se destaca em primeiro plano um rio com patos, ao centro um poço e uma árvore e nas laterais, casario e quatro figuras trajadas à século XVIII. À esquerda do rolo observamos um conjunto de elementos associados às artes e ao conhecimento (livro, globo, cavalete, paleta, transferidor e compasso) encimado por uma laça e à direita uma composição encimada por laça representando uma alegoria à guerra com uma panóplia composta por um capacete, um escudo, uma alijava de setas e lanças das quais pendem panejamentos.

 

Na frente do móvel, o aro guarda uma única gaveta cuja frente é decorada com três reservas retangulares sendo que a central, de maiores dimensões, apresenta uma paisagem com casas e figuras, nas reservas que a ladeiam representa-se o interior de um jardim vedado por um muro e portão onde se encontram três figuras e uma cena de exterior com casario e árvores com duas figuras num sissó.

 

 

 

 

Ao abrir o cilindro, o estirador desliza para fora automaticamente – este é forrado a couro e delimitado por friso gravado a dourado de inspiração neoclássica – revelando o interior com sete gavetas a simular nove, encimadas por uma prateleira. As gavetas são forradas a cetim azul.

 

 

O espelho da fechadura que destranca o maquinismo móvel é em bronze dourado decorado ao centro com uma cabeça de leão e desenvolvendo-se para os lados em estilizados elementos vegetalistas ornados de bolotas. As peças de bronze estão assinadas no verso com algumas marcas e as iniciais ‘??PR’ (ainda por identificar).

 

 

A parte traseira do móvel é decorada com uma alegoria à música; sobre o fundo axadrezado observamos uma composição central, em marchetado, constituída por uma panóplia de instrumentos musicais (violino, guitarra, pandeireta, flautas e trompete) e pautas musicais, ladeada por dois grandes ramos de flores polícromas. Tal como na frente, surge aplicado em baixo o mesmo tipo de composição em bronze dourado com a cabeça de um leão.

 

 

Ao figurar na coleção da casa-museu, esta peça retrata não só uma tipologia de móvel famoso no século das luzes como é exemplo do ecletismo, do revivalismo, da cópia, do conforto bem como do gosto pelos mecanismos que caracterizaram a busca estética da sociedade do século XVIII.

 

Vídeo-visita guiada à secretária:

https://drive.google.com/a/campus.ul.pt/file/d/0B-9XBtrcZ7vyMU8tdEtSa1NmaGs/view?usp=drive_web
Nota: A Casa-Museu agradece a colaboração de Tiago Rodrigues e de Simone Lopes

 

Peças semelhantes

Pela correspondência trocada em 1966 com um dos seus negociantes ingleses, Ronald A. Lee, sabe-se que o mecenas português se interessou pela secretária de cilindro ao vê-la anunciada na casa leiloeira Sotheby’s, tendo pedido a Lee para averiguar sobre a peça em questão. A 25 de Abril, Ronald A. Lee confirma que se trata de uma cópia do século XIX de um original realizado por Foulet (atribuição da época), datada de finais do século XVIII (c.1776-1780), que se encontrava musealizada no Museu Victoria & Albert de Londres (Coleção Jones).

 

De facto a peça que encontramos na CMMA é semelhante à original do século XVIII hoje no V&A em termos de construção e decoração, porém esta apresenta na gaveta do aro três compartimentos fechados por tampas que revelam um conjunto de toilette com espelho ao centro e no interior do rolo uma gaveta falsa e uma gaveta tinteiro (vide: http://collections.vam.ac.uk/item/O152802/cylinder-desk-unknown/).

 

Estamos, pois, perante não de uma cópia integral, mas de um móvel inspirado num modelo setecentista que já se encontrava musealizado aquando da compra em 1966 por Medeiros e Almeida. Hoje o V&A levanta dúvidas quanto à autoria da peça, sugerindo diversas possibilidades; Riesener, Oeben, Roentgen e Saunier. Conta a história do móvel, apesar de não existirem dados que o fundamentem, que a peça terá pertencido à Rainha Maria Antonieta de França (1755-1793). 
Existem várias cópias de muito boa qualidade desta tipologia fabricadas por marceneiros que se inspiravam na estética setecentista, com variantes quanto à decoração e à composição no seu interior; no decorrer deste trabalho surgiu uma secretária semelhante à do V&A, no antiquário holandês Toebosch Antiques, assinada pelo ebanista Paul Sormani (1817-1877), um italiano que trabalhou em Paris, famoso pelos móveis de pequeno porte, copiando os estilos Luís XV e Luís XVI (o acervo do Palácio Nacional da Ajuda em Lisboa compreende vários móveis deste marceneiro). (vide: https://www.1stdibs.com/furniture/storage-case-pieces/desks/id-f_900217/).

 

Proveniência
Após a peritagem do antiquário Robert Lee, Medeiros e Almeida ordenou a compra da secretária em leilão da casa Sotheby’s de Londres, realizado a 6 de Maio de 1966, tendo sido adquirida por intermédio de Lee, por 1.600£.

 

O catálogo do leilão refere que a peça pertenceu à coleção do 6º Conde de Craven, Sir William Robert Bradley Craven (1917-1965), Inglaterra. 
Após limpeza e pequenas intervenções de restauro, a peça embarcou – a 25 de agosto de 1966 – no navio “Paraguay Star” da White Star Line rumo a Lisboa onde chegou a 27 de agosto.

 

Tiago Rodrigues (Mestrando, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)
Maria Mayer
Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Nota: A Casa-Museu agradece as imagens da Simone Lopes.

 

Bibliografia

LEDOUX-LEBARD, Denise ; Le Mobilier Français du XIXe, 1795-1889, Dictionaire des Ébenistes et des Menuisiers, Les Éditions de l´Amateur, Paris, 1984, p. 396
 du xviii siècle français, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2000;

LEDOUX-LEBARD, Denise ; Le Mobilier français du XIX siècle, 1795-1889. Dictionnaire des Ébénistes et des Menuisiers. Paris : Les éditions de l´Amateur, 1989;

LINLEY, Charles; CATOR, Charles; CHISLETT, Helen ; Star Pieces The Enduring Beauty of Spectacular Furniture, London, Thames & Hudson, 2009;

PAYNE, Christopher, 19th Century European Furniture, Antique Collector’s Club, 1985;

PIVA, Domenico, Mobilier Le monde Fascinant des Antiquaire, Paris, Cevil, 1996;

RIVERS Shayne & UMNEY, Nick, Conservation of furniture, Oxford, Buttenworth Heinemann, 2003;

VERLET, Pierre, BULLOCK, Michael, French royal furniture: an historical survey followed by a study of forty pieces preserved in Great Britain and the United States, London, Barrin and Rockliff, 1963;

VERLET, Pierre, Les ébénistes du XVIII siècle français, Paris, Hachette, 1963;

VERLET, Pierre, Les meubles français du XVIII siècle, 2ª edição, Paris, Presses Universitaire de France, 1982

 

Recursos online:

ANDRADE, Maria do Carmo Rebello de, Artigos em linha – O mobiliário da época de Napoleão III nas coleções do Palácio Nacional da Ajuda in: http://www.palacioajuda.pt/pt-PT/estudos/artigosemlinha/ContentDetail.aspx?id=478
 [consult in: 22/6/2015]

Página eletrónica do Museu Victoria & Albert, Londres – http://collections.vam.ac.uk/item/O152802/cylinder-desk-unknown/ [consult in: 
Página eletrónica da 1stdibs – https://www.1stdibs.com/furniture/storage-case-pieces/desks/id-f_900217/ [consult in: 22/6/2015]

Artista

Ano

2ª metade do século XIX

País

França (?)

Materiais

Pau-rosa, buxo natural e tingido, sicômoro natural e tingido, cabedal e bronzes dourados. Estilo Luís XV

Dimensões

Alt.105 cm x Larg. 85 cm x Prof. 31cm 

Categoria
Destaque