Serviço de Viagem, Destaque Julho 2017

Serviço de Viagem, Destaque Julho 2017

Conjunto de viagem/piquenique para quatro talheres em vermeil (prata dourada) com o monograma LCO encimado por coroa dos Filhos da França. As peças encaixam umas nas outras para ser guardadas num estojo em madeira de mogno – que apresenta o mesmo monograma na tampa – com compartimentos interiores em veludo roxo e marroquim. Todo o conjunto pode ser acomodado numa mala de cabedal para transporte.

 

Conjuntos de viagem / nécessaires de voyage:

Já desde o século XVII que os jovens das famílias nobres realizavam o chamado Grand Tour, a grande viagem pela Europa que visava o contacto destes com o legado cultural da Antiguidade Clássica e do Renascimento, assim como o convívio com a aristocracia europeia e a possibilidade de aperfeiçoar outras línguas e familiarizar-se com novas formas de arte e música. Durante os séculos XVIII e XIX viajar transformou-se numa realidade cotidiana entre as classes mais endinheiradas, o que não só respondia a questões de ordem prática como também era considerado um privilégio e um símbolo de poder. De modo a não renunciar a algumas das comodidades a que estavam habituados no seu dia-a-dia, os viajantes mais abastados faziam-se acompanhar nas suas deslocações de sofisticadas malas nas quais transportavam os seus pertences, surgindo assim os chamados “nécessaires de voyage (travelling cases).

 

A origem dos conjuntos de viagem em França remonta verdadeiramente ao século XIV, embora estes primeiros exemplos sejam modelos muito básicos e utilitários, normalmente limitados a objetos relacionados com o asseio, que com o passar do tempo se enriquecem e se transformam em verdadeiros acessórios de luxo. Os conjuntos de viagem são fundamentalmente estojos mais ou menos requintados, adaptados para conter e transportar em segurança os mais variados objetos: utensílios e produtos para a higiene pessoal, joias, instrumentos de costura ou escrita, loiças, talheres, frascos, candelabros e até material médico ou científico. Para a manufactura destes extraordinários e valiosos conjuntos era necessária a colaboração de um diversificado grupo de artífices, tais como ourives, fabricantes de vidro e porcelana, cuteleiros, marceneiros, etc. Os interiores das caixas ou estojos eram perfeitamente desenhados e equipados com compartimentos para encaixar cada um dos objetos a conter, e as caixas eram habitualmente equipadas com fechaduras e, por vezes, com compartimentos secretos para esconder os objetos mais valiosos ou queridos.

 

Os nécessaires de voyage eram muitas vezes personalizados, tanto no seu conteúdo como na decoração (presença de monogramas, brasões, etc.) e, embora normalmente desenhados por encomenda, existiam também conjuntos fabricados de forma mais genérica sem um destinatário preciso. Não era raro que membros de uma família real, assim como outras figuras proeminentes, tivessem o seu próprio conjunto (ou conjuntos) de viagem, muitos dos quais hoje em dia se encontram desaparecidos.

 

Conjuntos de piquenique:

Pensa-se que a palavra piquenique venha do francês “pique-nique” que surge no século XVI para designar uma refeição convivial na qual a comida era partilhada pelo grupo. A prática, cada vez mais ligada ao significado actual associado a uma escapada campestre e festiva, torna-se progressivamente popular entre a nobreza e a aristocracia um pouco por toda Europa, sendo que no século XVIII começa a ser usado o termo “picnic” em Inglaterra. Este costume estender-se-á também por outras camadas da sociedade.

 

No século XVIII e XIX os piqueniques eram verdadeiros acontecimentos de gala entre as classes mais altas sendo as refeições servidas com o maior requinte. Os fabricantes de conjuntos de viagem, acompanhando esta moda, desenham nécessaires próprios para transportar todos os utensílios indispensáveis a este tipo de banquetes: pratos, terrinas, molheiras, saleiros, frascos para especiarias, talheres, garrafas, copos, tachos, queimadores, etc. Estas peças podiam ser realizadas em diversos materiais como prata ou prata dourada, vidro ou porcelana. Os conjuntos variavam também muito em tamanho e composição, desde pequenos estojos para uso individual a grandes caixas para quatro, seis ou oito pessoas. Com o tempo começaram a aparecer variantes e complementos destes conjuntos, tais como conjuntos de chá (com chaleira, chávenas, pires, açucareiro) ou conjuntos para cocktail (compostos por garrafas, copos, copos de mistura e inclusive balde e pinças para gelo).

 

Nota: Um exemplo de conjunto de viagem de chá francês do terceiro quartel do século XVIII (The Garrick Service) pode ser visto no V&A (Victoria and Albert Museum) em Londres: http://collections.vam.ac.uk/item/O1240298/the-garrick-service-travelling-case-unknown/

 

No século XIX aparecem as caixas ou malas para piquenique em vime, e com o passar do tempo a qualidade e requinte dos serviços de piquenique é substituída por exemplares mais baratos de produção em massa e os metais, os vidros e as porcelanas são substituídos pelo plástico, tal como testemunham os coloridos conjuntos tão em voga nos anos 50 e 60 do século XX.

 

O conjunto de viagem da Casa-Museu:

 

O conjunto de viagem pertencente à coleção da Casa-Museu é um conjunto para piquenique de fabrico francês do segundo quartel do século XIX. Originalmente desenhado para quatro talheres, encontra-se atualmente incompleto, conservando-se contudo 30 peças: um tacho com tampa, uma terrina com tampa, quatro pratos de sobremesa, um prato raso, três colheres de sobremesa, três colheres de sopa, três garfos, quatro facas, dois copos, um suporte de ovos quentes, um saleiro, duas caixas com tampa, um açucareiro, uma pinça de açúcar, um jarro e uma bacia. Todas estas peças – à exceção do cabo do tacho e da pega da tampa do mesmo que são em marfim – são em vermeil liso, com apenas alguns apontamentos ornamentais de caracter vegetalista na terrina e decoração de nós, nos talheres e na pinça para o açúcar, estando esta última também rematada com garras de leão. Cada um dos objetos mencionados tem gravado o monograma LCO encimado por coroa dos Filhos da França.

As peças encaixam umas nas outras para ser guardadas numa caixa-baú quadrangular em madeira de mogno, com compartimentos interiores em veludo roxo e marroquim para organizar todos os componentes do serviço. A tampa da caixa apresenta também o mesmo monograma LCO coroado embutido em madeira mais clara. Inscrito na placa metálica interior da fechadura a assinatura “Aucoc Aine Fournisseur du Roi a Paris”, hoje-em dia apenas parcialmente legível. Todo o conjunto pode ser acomodado para viagem numa mala de transporte em cabedal, com fecho de correias e pegas laterais.

Na maioria das peças do serviço de mesa aparece incisa a assinatura “AUCOC/AINÉ”, assim como a marca de autor – galo, CA e estrela em perímetro losango vertical – correspondente a Jean-Baptiste-Casimir Aucoc, registada em 1839 e cancelada em 1856. Nos talheres existe a marca de um outro fabricante – PQ e remo em perímetro losango horizontal – pertencente a Pierre-François Queille (filho), ativo entre 1834 e 1846. Nas lâminas de duas facas, em muito mau estado, pode ler-se: “AUCOC Bvté DU ROI”, enquanto nas outras duas, em muito melhores condições, surge uma marca por identificar. Esta multiplicidade de marcas não é de todo inusual nos objetos em prata, já que cada parte destes era executada separadamente, o que é especialmente evidente no caso das facas, com artífices especializados a trabalhar nas lâminas. Em todas as peças note-se a presença da cabeça de Minerva 1 em perímetro octogonal; marca de garantia em França entre 1838 e 1919.

 

Os autores:

Jean-Baptiste-Casimir Aucoc foi um dos mais importantes e reconhecidos fabricantes de conjuntos de viagem em França no segundo quartel do século XIX. Em 1821 Aucoc começa o seu negócio como ourives na Rua Saint-Honoré em Paris, especializando-se na produção de nécessaires de voyage. Rapidamente é apontado fornecedor do rei e muda o seu atelier para a Rue de la Paix. Em 1854, após vários anos de trabalho conjunto, Jean-Baptiste deixa o negocio nas mãos do seu filho Louis Aucoc (também conhecido como Louis Ainé), que incorpora a joalharia na firma. A Casa Aucoc continuará na família até 1932.

Pierre-François Queillé (ativo entre 1834 e 1846) foi um fabricante de talheres parisiense. A sua família esteve no negócio da manufatura e venda de talheres e peças de servir desde 1808 até a década de 30 do século XX. A marca familiar registada por Pierre-François Queillé (pai) – as iniciais PQ separadas por um remo e inscritas num losango horizontal – mantém-se a mesma, com apenas pequenas variantes ao longo do tempo. As suas peças eram comercializadas por eles, mas também por mediação de outros ourives e grandes firmas com as que colaboraram, como la Maison Odiot, Froment Maurice ou, como no caso do conjunto que nos ocupa, Aucoc Ainé.

 

Proveniência:

Embora sem qualquer prova documental que o corrobore, o monograma LCO coroado leva-nos a considerar que este estojo terá sido uma encomenda de (ou para) Louis-Charles d’Orléans, Duque de Nemours. Louis-Charles-Philippe-Raphael d’Orléans (1814-1896) foi o segundo filho varão do Rei Louis-Philippe I de França e de Maria Amália de Nápoles e Sicília, pelo que a coroa de Filho da França encimando o monograma que combina as iniciais do seu nome, é perfeitamente adequada já que é o título honorífico que possuíam os filhos legítimos dos Reis e Delfins da França. Além disto, Louis d’Orléans foi bisavô de D. Isabel de Orléans e Bragança (1911-2003), pelo que não é ilógico pensar que o conjunto de viagem pudesse ter acabado nas suas mãos e, sendo D. Isabel casada com Henry, Conde de Paris (1908-1999), o mesmo pudesse ter acabado no mercado de arte na altura em que este vende em leilão numerosos objetos e obras de arte da família para apoiar a sua causa política.

 

 

Proveniência:

António de Medeiros e Almeida adquire este conjunto de viagem à Casa Liquidadora Leiria & Nascimento, Lda. – antigo Bazar Católico – Rua da Emenda, 19, em Lisboa, tal como atesta a fatura de 23 de Fevereiro de 1949 conservada nos arquivos da Casa-Museu Medeiros e Almeida. Apesar de a fatura não ter qualquer indicação a esse respeito, trata-se provavelmente de uma compra feita no leilão do Conde de Paris, efetuado nesse ano.

 

Quando em 1972 Medeiros e Almeida cria a Fundação com o seu nome, este serviço de viagem passa a formar parte do seu acervo, integrando as coleções hoje em dia patentes na Casa-Museu.

 

Samantha Coleman-Aller

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Bibliografia:

ARMINJON, Catherine e BILIMOFF, Michele; Dictionnaire des poinçons de fabricants d’ouvrages d’or et d’argent de Paris et de la Seine. 1838-1875, Paris: Imprimerie Nationale, 1994

BEUQUE, Emile; Dictionnaire des Poinçons officiels français et étrangers: anciens at modernes de leur création XIVe siècle à nos jours, Tome I, Paris: F. de Nobele, 1962

KAMP, Mies & Jaap; Royal Travel Cases. Koninklijke Reiskistjes Vorsten Op Reis, Zwolle, 2013

VILAÇA, Teresa (coord.), Tesouros da Intimidade Real. Objetos do uso pessoal de Príncipes Europeus na Colecção Medeiros e Almeida, Lisboa: Fundação Medeiros e Almeida, 2005

Poisons D’Argent. Les poinçons de garantie internationaux pour l’argent (9ª ed), Paris: Tardy, 1969

GILLIS, James; Travel with Style, 2013

https://www.rauantiques.com/blog/travel-with-style/

LUCIAN, Daniel; Antique Box Guide. A guide to the history, design and manufacture of antique jewellery boxes and dressing cases

http://www.antiquebox.org

WRAIGHT, Tony; The Golden Age of Picnic Sets

http://www.finesse-fine-art.com/Picnic/PicnicArticle.htm

Artista

 Jean-Baptiste-Casimire Aucoc (ativo 1839-1856)

Ano

1839-1846

País

Paris, França

Materiais

Mala de viagem: couro e metal Caixa/estojo: Madeira de mogno, bronze, veludo e pele Serviço de mesa/piquenique: vermeil (bronze dourado)

Dimensões

Alt. 23cm X Comp. 54,5cm X Larg. 31cm [medidas do conjunto completo arrumado dentro da mala de viagem]

Categoria
Destaque