Taça de pé em prata dourada, repuxada e martelada. Pertence a um conjunto de doze, feito em Itália, cerca de 1560, provavelmente por ourives flamengos itinerantes. O conjunto homenageia os doze primeiros Césares romanos (Augusto e seguintes onze imperadores), cuja vida é contada por Caio Suetónio (c.69-122) na obra intitulada “Os Doze Césares” (De Vita Caesarum, 121), fonte de inspiração para a iconografia das peças.
Cada taça é composta por três partes: figura, prato e pé.
No topo ergue-se a figura ereta de um dos Imperadores assente em pequena coluna, colocada ao centro de um prato decorado com quatro reservas representando cenas da vida do respetivo César, por sua vez assente em pé alto, terminado por base circular.
Historial:
O conjunto de doze taças foi encomendado por Ippolito Aldobrandini (Fano, 1536 – Roma, 1606), nomeado cardeal em 1585 e eleito Papa – Clemente VIII – em 1592. Sete das taças têm gravadas as suas armas, em local escondido. As taças foram herdadas, por dois sobrinhos do Papa, primos entre si, ambos colecionadores e nomeados cardeais em 1593 pelo tio: Cinzio (1551-1610) e Pietro (1571-1621). Depois da morte dos cardeais as taças voltaram a estar reunidas na posse de Ippolito Aldobrandini, o Jovem, sobrinho dos cardeais, em cujo inventário são mencionadas em 1638. Na ausência de descendência masculina, a taça foi herdada por Olímpia Aldobrandini (1623-1682) casada com Paolo Borghese e em segundas núpcias com Camillo Pamphili. Em 1710, quando da morte do filho de Olímpia, Giovanni-Battista Pamphili (1648-1709), as taças ainda pertenciam à família Aldobrandini-Borghese, como documenta o inventário dos seus bens. Em 1792 as taças foram levadas do palácio Aldobrandini e enterradas para escaparem ao saque dos invasores franceses. Mais tarde, as taças aparecem como propriedade de um tal Dominichi, um criado da família, quando este morre, são vendidas (para Inglaterra?) e o dinheiro gasto em missas e caridades para salvação da alma do seu último possuidor.
As peças sofreram então um percurso na mão de comerciantes londrinos; o primeiro proprietário foi o retalhista de pratas ‘Kensington Lewis’, 22, St. James’s Street, que em 1826 as anuncia no “Ackermann´s Repository of Arts”, um periódico da moda inglês descrevendo-as como: “…twelve very curious silver ornaments (…) by Benvenuto Cellini”. Seguiram-se o ourives e joalheiro ‘Thomas Hamlet’ (1770-1853) com loja no nº 1 da Princes Street, Leicester Square e a ourivesaria dos ‘Emanuel Brothers’, sita no nº 7 de Bevis Marks, St. Mary Axe, que as vendeu a 3 de fevereiro de 1834 a George Robins, ainda como obra atribuída ao italiano Benvenuto Cellini.
O conjunto terá, de seguida, estado na posse de Charles Scarisbrick, de Scarisbrick Hall no Lancashire que as vendeu em leilão da Christie’s, em Londres, a 15 de maio de 1861, lote 159, tendo sido adquiridas por Richard Attenborough.
Foi esta a última vez que as taças foram vendidas em conjunto, nesta altura, a prata foi dourada e as peças, cujos elementos se desmontam por meio de roscas, foram baralhadas, tendo sido, por razões desconhecidas (limpeza?) trocados as diferentes partes. Assim, há taças cuja figura do imperador não corresponde à vida relatada nas reservas do respetivo prato. Este facto deu-se por as estatuetas dos Césares estarem identificadas – tendo os seus nomes inscritos na base das colunas onde assentam -, mas os pratos não têm identificação, nem do imperador, nem do episódio a que se reportam, tendo que se conhecer os episódios relatados nas reservas para fazer a correspondência.
Depois desta data, e já trocadas, as taças dispersaram-se tendo sido vendidas a diferentes colecionadores, entre eles Frédéric Spitzer (1815-1890), um comerciante de arte a trabalhar em Paris que adquiriu seis; Júlio César, Otão, Vitelio, Vespasiano, Tito e Domiciano. Este conhecido negociante de arte austríaco, estabelecido em Paris em 1852, tinha também loja em Aachen onde trabalhava com o ourives Reinhold Vasters (1827-1909), a quem encomendou uns pés mais elaborados, para substituir os originais – gomados – por os achar muito simples. Em 1891, Spitzer vendeu a Paul Chevalier as seis taças, fazendo referência, no catálogo, à existência das outras seis.
Até aos dias de hoje, as taças têm aparecido em diversos leilões, tendo sido adquiridas por museus e particulares. Apesar das vicissitudes, as doze taças chegaram aos nossos dias, conhecendo-se a sua presente localização:
A taça da Casa-Museu, representa o imperador GALBA, sendo composta por pé (original) de base circular e coluna decorados com caneluras e prato redondo ligeiramente abaulado com rebordo limitado por friso em escama, apresentando no fundo quatro reservas separadas por grandes colunas estriadas com bases e capitéis clássicos. Cada reserva é decorada com cenas da vida do Imperador TIBÉRIO, provavelmente inspiradas em gravuras de Pirro de Ligório (c. 1500 – 1583):
Este prato apresenta, ao centro, um pequeno círculo rematado por friso ovalado, erguendo-se no meio uma pequena coluna canelada como o pé e base, donde se destaca a figura do Imperador Sérvio Sulpício Galba de corpo inteiro, em traje militar de gala, a mão direita aberta e esticada para a frente, a esquerda segurando a espada que passa por trás das costas, entre o manto e as vestes, vendo-se apenas os copos e a ponta. Na cabeça, o imperador ostenta a característica coroa de louros.
Marcas:
Proveniência:
A taça foi adquirida na leiloeira Leiria & Nascimento Lda., Rua da Emenda, 30-36 em Lisboa, a 30 de setembro de 1959, por 160.000$00. Desconhece-se como chegou a Lisboa.
Maria de Lima Mayer
Casa-Museu Medeiros e Almeida
Desconhecido
1585-1592
Italia, Roma
Prata dourada
Alt. - 43 cm / Diâmetro prato - 35 cm; Alt. pé - 19,8 cm / Diâmetro base - 18,5 cm / Alt. figura - 21,5 cm; Peso - 2970 gr.