Os Van Goyen da Casa-Museu, Destaque Novembro de 2016

Os Van Goyen da Casa-Museu, Destaque Novembro de 2016

A Casa-Museu possui no seu acervo de pintura oito obras do pintor holandês Josefsz van Goyen (1596-1656), conhecido como um dos primeiros pintores de paisagem, enquanto género pictórico. As oito pinturas, a óleo sobre madeira, assinadas e datadas, cobrem as diversas fases do período de atividade do artista, que teve início na década de vinte de seiscentos, ilustrando o seu percurso enquanto pintor.

 

A paisagem como protagonista
Sendo a nação mais urbanizada do século XVII e um país com um cenário natural algo desinteressante, paradoxalmente, a Holanda inventou a pintura naturalista, uma Ars Nova, que iria mudar radicalmente a pintura ocidental.
Como temática propriamente dita e não somente o cenário ou suporte de narrativa, a pintura de paisagem foi uma criação da Holanda do início do século XVII. Anunciada anteriormente na pintura alemã e flamenga de finais do século XVI, apesar de carregada de associações, alusões e metáforas, a paisagem – enquanto tradução do mundo real – foi conquistando terreno. Esta nova experiência; a introdução do mundo como um local experienciado pelas pessoas e traduzido para a tela com honras de protagonismo foi adoptada e adaptada pelos pintores do século XVII que desenvolveram a nova visão representando o seu país em paisagens campestres, de aldeias, de estradas de campo, de dunas, de inverno, de praias, de marinhas e de cidades.

Cena de aldeia, 1623

Tal foi a importância deste olhar que deu origem a uma nova palavra – inexistente até então no Ocidente – landschap (e subsequentemente a palavra inglesa landscape), que passou a caracterizar o género pictórico, remetendo a sua etimologia para a noção de natureza, dos elementos naturais e do seu registo visual por parte do observador.
Nesta cadeia de acontecimentos, surgiu ainda uma literatura que canta a paisagem – o hofditch; os poemas de casas de campo – e o culto dos jardins de recreio e gosto pela jardinagem.

 

A nova Holanda
Tendo a República das Províncias Unidas Holandesas sido formada em 1581 após a independência do jugo espanhol, professando a fé Calvinista e organizando-se em províncias regidas por estadistas, a recém-nascida sociedade holandesa encontrou-se sem os tradicionais encomendantes de arte; a aristocracia e a Igreja. Nesta altura, a pintura de retábulos sacros e a imaginária perdem-se pois eram considerados idolatria papista. Porém, a prosperidade económica do país levou ao aparecimento de uma alargada burguesia endinheirada cuja aceitação deste novo tipo de pintura – numa tradução do seu mundo, de fácil entendimento, sem narrativa implícita e agradável à vista – foi esmagadora.
Nas primeiras décadas de seiscentos, a produção e o mercado de pintura aumentaram dramaticamente tendo para isso contribuído a moda que se afirmou. A produção era numerosa e, no geral, não resultante de encomendas específicas pelo que as tradicionais regras de mercado se alteraram sendo a pintura vendida no mercado livre e transacionada ao sabor das leis da oferta e procura numa nova interação entre o artista e a sociedade.

Paisagem com bom tempo, 1625

Paisagem com mau tempo, 1625

As imagens do campo apelavam tanto aos sentidos, à fruição – lembrando o prazer de uma tarde de lazer – como eram imagens de um orgulho patriótico; orgulho na independência de Espanha e no bem-estar económico recém-conquistados mas principalmente num país construído pelas próprias mãos, conquistado ao mar (no século XVII acrescentaram-se cerca de dois terços ao território) que originou o ditado popular holandês: “Deus criou o mundo, os Holandeses criaram a Holanda” .

 

A importância da pintura de paisagem
A viagem que nos leva da época medieval ao dealbar do século XVII preparou um contexto de condições estéticas, formais, sociais, geográficas, económicas, políticas, religiosas e científicas que levaram a que a Holanda fosse o berço oficial da pintura de paisagem. É de salientar que na Flandres católica, sob domínio de um império e da tradição, Peter Paul Rubens (1577-1640) e A. van Dyck (1599-1641) seguem a estética do Barroco fazendo pintura religiosa, de história, mitológica e retrato de aparato, numa afirmação do poder diferenciador dos contextos.
Em jeito de resumo, não esquecendo que a paisagem esteve sempre presente na arte ocidental, podemos traçar o percurso da sua representação desde a Antiguidade Clássica Grega e Romana em que surgia em segundo plano com um papel meramente decorativo, de valor agradável, para assumir uma função, um papel simbólico e uma representação esquemática na época medieval – não esquecendo o caso particular da iluminura -, passando a suporte de narrativa pelas suas características descritivas se bem que idealizadas no Renascimento. Começando a insinuar-se no século XVI quando ganhou estatuto de proto paisagem, a paisagem conquista finalmente total protagonismo e carácter de registo naturalista na Holanda do século XVII.

Vista perto de Dordrecht, 1639

Para além do contexto histórico, social, político, económico da Holanda, há que ter em conta as razões do campo estético e formal como a forte tradição pictórica formada, no contexto flamengo, desde a pintura de iluminura medieval até ao final do século XVI. A iluminura, pelo seu carácter miniatural, trata a natureza com extrema fidelidade, já que actua, neste tipo de pintura, como descrição do real, do quotidiano.
Paralelamente, em meados do séc. XV, o desenvolvimento da técnica da xilogravura na Alemanha e a sua divulgação maciça pelo resto da Europa, veio contribuir para o intercâmbio de ideias, divulgando a obra dos artistas. Na Flandres, a divulgação de estampas pelas editoras ajudou a difundir o gosto pela paisagem, concorrendo para o estabelecimento de uma nova moda e alertando a imaginação dos pintores.
É de extrema importância ainda a abertura das mentes verificada na Holanda que desde o século XV abraça as ideias humanistas defendidas por Erasmo de Roterdão (1466-1536) que privilegiam a valorização do Homem, recentrando a percepção do mundo. Para este facto também contribuiu a gesta dos descobrimentos e consequente globalização, num alargamento da concepção do mundo e no despertar da curiosidade científica que levou ao aprofundamento do estudo de ciências como a matemática, a cartografia, a geografia, a astronomia e a botânica.
Na Holanda de seiscentos abriu-se assim um vasto leque de entendimento(s) da paisagem, das suas representações, implicações e ambiguidades que conquistou um estatuto na história da arte, que jamais viria a perder. Tal é a importância da pintura de paisagem.

Vista perto de Scheveningen, 1643

Jan Josefosz van Goyen
Jan Josefosz van Goyen nasceu em Leiden em 13 de janeiro de 1596 e morreu em Haia em 27 de abril de 1656. O pintor e desenhador foi um dos primeiros paisagistas holandeses; estudou em Harlem onde foi aluno de Isaac Nicolai van Sweenburgh (1537-1624) e de Esaias van de Velde (1591-1630) que muito o influenciou na vertente da pintura de paisagens realistas. Jan trabalhou em diversas cidades holandesas como Leiden (1618-20’s), Harlem e Kleef e viajou constantemente tanto pelo seu país como por França. Cerca de 1632 estabeleceu-se definitivamente em Haia, à época em franca expansão comercial e imobiliária, onde, para além da sua atividade como pintor, comerciava em antiguidades, no imobiliário e no negócio das tulipas (compra e venda de bolbos de tulipas) com o qual sofreu grande revés financeiro aquando do “crash” provocado pela “tulipomania” que ocorreu em fevereiro de 1637. Em 1638, é eleito o deão da importante Guilda de São Lucas, corporação de pintores que regulava o comércio de pintura na cidade. Apesar das diversas atividades, morreu deixando grandes dívidas à sua viúva. Entre os seus alunos destaca-se o famoso pintor Jan Steen (1626-1679) que se tornou seu genro.
Dentro do novo género naturalista, Van Goyen dedicou-se às marinhas, paisagens de campo, de rios, de dunas, de gelo e de praias, vistas de cidades e cenas de género. Van Goyen foi muito prolífico, conhecendo-se cerca de 200 pinturas e mais de 1000 desenhos. O sucesso da sua pintura granjeou-lhe diversos seguidores e imitadores, tendo sido um artista muito copiado.

Vista do Maas, 16(4)3 

O trabalho de Jan van Goyen é relativamente fácil de traçar pois geralmente assinava e datava as obras. As suas obras mais recuadas, datando dos finais da década de dez e início dos anos 20’s, são geralmente pequenas cenas de aldeia, cenas no gelo e paisagens cheias de personagens e muito coloridas revelando a aproximação ao estilo do mestre van de Velde. Com o decorrer dos anos vinte as suas paisagens tornam-se mais sóbrias e monumentais e o uso da cor é refreado, pintando vistas de rios com cores frias à imagem dos seus contemporâneos de Harlem, Salomon van Ruisdael e Pieter de Molijn. Nas décadas de 1630 e 1640 a pintura de paisagem holandesa enveredou por uma fase monocromática, na qual uma única cor prevalece unificando a cena. Van Goyen foi adepto desta corrente utilizando uma paleta de castanhos, amarelos, verdes e ocres em diversos tipos de paisagem, onde os diversos elementos de paisagem ou humanos surgem unicamente apontados por meio de sugestivos traços.

O Ferry, 1644

Apesar das críticas que esta técnica feita com pinceladas rápidas e com criação de elementos sugeridos, se destinava a aumentar a produção, o trabalho de Van Goyen traduz a procura de interpretação dos tons sóbrios da luz, céus, mares e campo que compõem a frugal atmosfera holandesa, conseguida pelo uso de uma paleta tonal e pela simplicidade temática. O livro de desenhos que sempre o acompanhava para registar o natural e que constituía a base das suas pinturas, prova que era um trabalhador árduo e muito virtuoso. Entre os seus melhores trabalhos contam-se as muitas vistas panorâmicas de cidades ribeirinhas que pintou, tendo como caraterística conterem elementos topográficos perfeitamente identificáveis.
Apesar de muito apreciado em vida, como o provam as importantes encomendas que obteve, nomeadamente da parte dos regentes de Haia, o pintor foi esquecido pela historiografia durante os séculos seguintes, tendo a sua obra sido reabilitada a partir do final do século XIX pelo historiador e seu biógrafo, Abraham Bredius (1855-1946), que, enquanto diretor do museu Mauritshuis de Haia, estudou o autor e integrou obras suas no acervo. Em 1903 o museu Stedelijk de Amesterdão organizou uma exposição, afirmando a redescoberta do artista. O estudo aprofundado do seu trabalho tem demonstrado que Van Goyen tem o seu lugar entre os primeiros tradutores do novo tipo de pintura, consagrando o seu nome como um dos grandes pintores de paisagem holandeses.

Vista de Haia, 1652

Os oito Van Goyen da Casa-Museu
O conjunto de pinturas da coleção carateriza bem o percurso pictórico de Jan van Goyen; do início da década de vinte registam-se três cenas de aldeia (1923, 1925, 1925) as quais denotam o pendor caricatural desta tipologia e uma paleta colorida, adquiridos na aprendizagem com Van de Velde. Datadas de 1943, as pinturas Vista de Scheveningen, Vista perto de Dordrecht e O Ferry (1644), traduzem o período em que o autor recorria a uma linguagem cromática mais fria e sóbria (ao estilo de Harlem) e as duas restantes obras; Vista do Maas (1644) e Vista de Haia (1652) representam a pintura tonal, sendo que esta última, talvez a tábua mais prestigiada do conjunto, possui a já referida caraterística topográfica que marcou também os trabalhos do pintor.

As oito pinturas da Casa-Museu foram adquiridas entre 1955 e 1958, na maioria, à viúva de um colecionador inglês, Geoffrey Hart (Whych Cross, Sussex, Inglaterra) que se tornou amiga do casal Medeiros e Almeida; Dorothy Hart.
Apenas duas pinturas foram adquiridas no mercado de arte; Vista de Haia foi adquirida num leilão em Paris em 1956 e a Cena de Aldeia num leilão da Christie’s de Londres, em 1958. Todas as pinturas têm proveniência de famosas coleções europeias testemunhando a importância deste núcleo de pinturas de Van Goyen.

Maria de Lima Mayer
Casa-Museu Medeiros e Almeida


Bibliografia
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Artista

Jan Josefsz van Goyen (1596-1656)

Ano

1623, 1625, 1643, 1644, 1652

País

Holanda

Materiais

8 óleos sobre madeira, assinados e datados.

Dimensões

"Cena de aldeia", 1623 (36,5x72cm.) "Paisagem com bom tempo", 1625 (22x44,5cm.) "Paisagem com mau tempo", 1625 (22x44,5cm.) "Vista perto de Dordrecht", 1639 (41x64cm.) "Vista do Maas", 1643 (33x54cm.) "Vista perto de Scheveningen", 1643 (39,5x59,7cm.) "O Ferry", 1644 (34,5x51,5cm.) "Vista de Haia", 1652 (24,5x36cm.)

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