Casa-Museu Medeiros e Almeida

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PEÇA DO MÊS DE ABRIL
 
Bacia lava-pés “São Martinho”
 IG (ativo 1758-1768)
Porto (Portugal), 1758-1768
Prata
Alt. 16.5 cm. / Diam. 55 cm / Peso. 5190 gr. 

 

Bacia circular de grandes dimensões em prata batida, cinzelada e incisa, de corpo em forma de semiesfera achatada e aba revirada emoldurada por filetes com decoração de caracter joanino com concheados, volutas, palmas e ornatos geometrizantes. No centro, inserido numa tarja rocaille, um escudo esquartelado encimado por um pequeno elmo e grande coronel ducal.

 

Bacia Lava-Pés:

Embora se desconheça a origem desta peça e o seu uso original, pelas suas dimensões e características estamos perante uma bacia de abluções, muito provavelmente uma bacia lava-pés, peça destinada à cerimónia do mesmo nome realizada na Quinta-Feira Santa.

A cerimónia de lava-pés, rito religioso da liturgia cristã, está baseado no relato de São João onde este narra como, terminada a Ceia, Jesus “deitou água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxuga-los com a toalha que pusera à cinta” (João 13:5). Esta prática terá porém origens anteriores, estando ligada a formas de hospitalidade de civilizações antigas nas quais o anfitrião providenciava um jarro com água e um alguidar ao hóspede que acabava de chegar, assim como um criado para ajuda-lo na tarefa de lavar os pés. A partir de certa altura este ato transcenderá o lado meramente utilitário do lavar de pés e, tal como se relata em várias passagens da Bíblia, passará a ser uma prática que simbolizava submissão e humildade.

 

 

 

 

Hoje em dia a cerimónia do lava-pés continua a ser praticada durante a Missa da Ceia do Senhor, na qual o sacerdote lava o pé direito a doze homens, em representação dos doze Apóstolos, sendo que desde 2016 o Papa Francisco abriu também esta cerimónia às mulheres.

As bacias lava-pés são recipientes em forma de taça, de formato circular ou oval, destinados à recolha da água vertida durante o ato de lavar os pés. Habitualmente eram acompanhadas por um jarro ou gomil para conter a água. Bacias lava-pés similares a esta da Casa-Museu Medeiros e Almeida, no que respeita à sua tipologia e cronologia, existem noutras coleções, como no Museu de Lamego (http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=8974 ) ou no Palácio Nacional de Mafra (http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=997095).
  
As Armas:

No centro da bacia, sobre fundo liso sem decoração, destaca-se um escudo esquartelado encimado por um pequeno elmo e grande coronel ducal bordeado por tarja rocaille.

O elmo heráldico deve ter em rigor a mesma altura que a largura do escudo e, embora raramente se encontrem desenhados com tal precisão, é curioso o diminuto tamanho que este elemento adquire neste caso. Tal como ditado pela convenção, o elmo aparece representado de perfil - o elmo de frente é exclusivo aos reis, príncipes e duques soberanos - e fechado - o que era próprio para os recém-nobilitados sendo que os nobres com mais de três gerações usavam o elmo aberto.

Encimando o elmo um coronel de nobreza; coroa que indica o título nobiliário, que neste caso será um coronel ducal por ter oito florões, dos quais somente cinco visíveis.

 

 

Quanto ao escudo propriamente dito, este é esquartelado, identificando-se as seguintes armas:

1º quartel: Magalhães (três faixas axadrezadas de três tiras cada uma).
2º quartel: Meneses (partido: o 1º e o 4º quartel com cinco escudetes em cruz cada um com cinco besantes e o 2º e 3º quarteis com três flores-de-lis. Sobreposto um escudete com anel encoberto com um rubi encastoado, voltado para o cantão esquerdo da ponta).
3º quartel: Abreu (cinco asas em sautor).
4º quartel: Cardoso (cardo florido de duas peças sustentado por dois leões afrontados).

 

A representação no 2º quartel das armas de Meneses está incorreta; as flores-de-lis aparecem no 2º e 3º quarteis em vez de no 1º e 4º como seria correto e o rubi do anel aponta para o lado contrário ao esperado levando-nos a pensar que este brasão pode ter sido copiado a partir de um sinete, no qual as armas se encontrariam adequadamente invertidas. Assim sendo a ordem correta deveria ser um esquartelado de Meneses, Magalhães, Cardoso e Abreu.

Segundo José de Campos e Sousa, consultado aquando da compra desta bacia em 1971, que realizou a leitura e interpretação do brasão, esta bacia teria sido: “mandada fabricar para uso de Ascenso de Siqueira Freire de Sousa Chichorro Abreu Cardoso Castro Caldas e Cerniche (1766-1833)”, Conde de São Martinho. Sendo que a datação atribuível a esta bacia segundo as marcas de ourives e de ensaiador é de entre 1758 a 1768, presumimos que a bacia já existia e que poderá ter sido oferecida ou adquirida por Ascenso de Siqueira Freire posteriormente, sendo nesta altura adicionadas as suas armas no entanto, existe um erro no brasão pois a coroa que o encima é ducal e Ascenso de Siqueira Freire foi feito Conde, título a que corresponderia um coronel de dezasseis pérolas no alto das pontas, das quais seriam visíveis nove.

Era de facto uma prática bastante frequente que quando uma peça de ourivesaria mudava de dono, este quisesse incluir o seu próprio brasão, muitas vezes até apagando um eventual brasão anterior.

 

 

As Marcas:

A marcação das peças de ourivesaria é a forma de garantir a qualidade destas, nomeadamente em relação á permilagem de metal precioso na liga. As primeiras regulações no campo da ourivesaria em Portugal vêm do tempo de D. João I, tendo sido modificadas nos reinados seguintes. Na Idade Média eram as corporações de ourives que estavam encarregues de realizar este controlo; posteriormente, com o desaparecimento destas corporações, serão os municípios os responsáveis desta tarefa, até que em 1882 é decretada a criação das Contrastarias de Lisboa e Porto subordinadas à Casa da Moeda.

 

No estudo de uma peça como esta bacia lava-pés as marcas, para além de ser uma garantia em relação ao toque do metal, constituem elementos de estudo fundamentais, proporcionando informações relativas à datação, ao centro de fabrico ou ao autor. Neste caso concreto podemos distinguir dois tipos de marcas que aparecem inseridas num dos concheados da aba: a marca de ourives e a marca de ensaiador. A marca de ensaiador e aquela que atesta que o metal – neste caso a prata – possui a liga de lei, tendo sido substituída pela marca de contrastaria desde a fundação das atuais contrastarias. A marca de ourives é a marca, previamente registada, aplicada pelo autor da peça.

 

 

Em diferentes alturas do século passado diversos autores fizeram um esforço por reunir e organizar estas marcas – nomeadamente em relação à prata – tentando, dentro do possível, atribuir nomes e datas a cada uma delas, para o que é necessário não só o estudo do maior número possível de peças marcadas, como de um grande corpo documental direta ou indiretamente associado a estas. Embora tenham existido outros, destacamos três nomes: Manuel Gonçalves Vidal (Marcas de Contrastes e Ourives Portugueses), Fernando Moitinho de Almeida (Marcas de Pratas Portuguesas e Brasileiras. Século XV a 1887) e Gonçalo de Vasconcelos e Sousa (Dicionário de ourives e lavrantes da prata do Porto. 1750-1825). Seguindo estes três estudos, podemos aproximar a datação da bacia lava-pés em estudo a meados do século XVIII, mais provavelmente entre 1758-1768, o centro de produção será o Porto porém o autor fica por identificar, sendo um ourives com as iniciais “IG”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para além das duas marcas referidas, e situada entre ambas, podemos apreciar também nesta peça uma “bicha” ou “burilada”, nome pelo qual se conhece a marca em ziguezague, realizada pelo buril na recolha de uma amostra para testar a liga da prata.

 

Proveniência:
Esta bacia lava-pés terá pertencido muito provavelmente a Ascenso de Siqueira Freire (23 de Agosto de 1766 – 8 de Agosto de 1833), detentor de vários cargos na corte real portuguesa, entre os quais o de Governador da Madeira entre 1804 e 1807 ou chefe da Legião Nacional do Campo de Santa Clara em Lisboa. A 3 de Março de 1829 é-lhe atribuído o título de Conde de São Martinho, por carta do rei D. Miguel I de Portugal, sendo que a sua residência familiar em Lisboa, o Palácio da Cruz de Santa Helena em Alfama, passa a ser também conhecido como Palácio dos Condes de São Martinho.

 

Posteriormente fez parte da conhecida coleção do Comandante Ernesto Vilhena (4 de Junho de 1876 – 14 de Fevereiro de 1967), militar, político e um dos mais importantes colecionadores de arte em Portugal da primeira metade do século XX. Peças desta coleção formam parte hoje em dia dos mais prestigiosos museus estatais e privados, constituindo uma referência incontornável do património artístico nacional [NOTA: A Casa-Museu possui trinta peças provenientes da Coleção Vilhena.]

A bacia foi adquirida em 1971 em leilão da Leiria e Nascimento por António de Medeiros e Almeida para integrar a sua coleção, quando já se encontrava em preparação a futura Casa-Museu que levaria o seu nome.

[NOTA: Existe também no acervo da Casa-Museu Medeiros e Almeida um serviço, dito de “São Martinho”, formado por 257 peças em porcelana da China da Dinastia Qing, reinado Qianlong (1736-1795), que terá também pertencido à família Siqueira Feire, desconhecendo-se porém quem a encomendou.]

 

Samantha Coleman-Aller
Casa-Museu Medeiros e Almeida
 

 

Bibliografia:

ALMEIDA, Fernando Moitinho de, Marcas de Pratas Portuguesas e Brasileiras (século XV a 1887), Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1995
COUTO, João; GONÇALVES, António, A Ourivesaria em Portugal, Lisboa: Livros Horizonte, 1960
PINTO, Maria Nogueira, História das Marcas e Contrastes. Metais nobres em Portugal. 1401-2003, Lisboa: Medialivros, 2003
SANTOS, Reinaldo dos; QUILHÓ, Irene, Ourivesaria Portuguesa nas Colecções Particulares, 2ª ed., Lisboa, 1974
SOUSA, Gonçalo de Vasconcelos e, Dicionário de ourives e lavrantes da prata do Porto. 1750-1825, Porto: Civilização Editora, 2005
SOUSA, Gonçalo de Vasconcelos e, Pratas Portuguesas em coleções particulares: séc. XV ao séc. XX, Porto: Civilização Editora, 1998
TEIXEIRA, José Monterroso, O Triunfo do Barroco, Europália, Lisboa, 1991
VIDAL, Manuel Gonçalves, Marcas de Contrastes e Ourives portugueses; Vol I desde o século XV a 1887, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1974
VV.AA., Normas de Inventário. Ourivesaria, Lisboa, Instituto dos Museus e da Conservação, 2011.
ZUQUETE, Afonso Eduardo Martins (Coord.), Armorial Lusitano. Genealogia e Heráldica, Lisboa: Ed. Enciclopedia, 1961

Recursos online:

Página eletrónica do Instituto Nacional Casa da Moeda: https://www.incm.pt/ Página eletrónica Ourivesaria Portuguesa: https://www.ourivesariaportuguesa.info/
Página eletrónica Heráldica Portuguesa: https://www.armorial.net/
Página eletrónica Matriz Net: http://www.matriznet.dgpc.pt/matriznet/home.aspx

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