Colcha, Bengala – Destaque Dezembro 2021

DESTAQUE DEZEMBRO 2021

COLCHA DE BENGALA, ÍNDIA

Em reservas, mas muito publicada e viajada através de diversos empréstimos para exposições temporárias em instituições nacionais e estrangeiras, a colcha indo-portuguesa pertencente à coleção de têxteis do acervo, pertence a um restrito conjunto de colchas bordadas monocromáticas produzidas em bengala, em contexto da presença portuguesa na Índia.

 

A presença portuguesa na Índia, a partir de 1498, gerou um encontro de culturas que também se refletiu nas artes decorativas.

Modelos híbridos são habilmente executados além-mar por artesãos locais, transpondo o seu saber para peças ao gosto europeu, em geral, baseadas em gravuras de livros como a Bíblia ou a Metamorfoses, de Ovídio que então circulavam a partir do Reino, levados por mercadores. Divulgados entre os artesãos locais, estes aplicavam as suas técnicas a motivos decorativos de caracter europeu.

 

Colcha

Executada no séc. XVII, em Bengala, na região da cidade de Hughli, importante centro produtor de têxteis para o mercado europeu, a colcha em algodão bordado a seda selvagem, a ponto de cadeia, ponto direito, apresenta motivos religiosos inspirados na Bíblia e mitológicos, nas Metamorfoses de Ovídio, o que lhe confere um carácter erudito e palaciano.

Integra pela monocromia e pelo tema central – a Justiça de Salomão – um conjunto de peças ao gosto europeu.

 

A colcha segue um esquema ornamental designado por “padrão de faixas”, partindo do meio para a periferia, destaca-se um campo central, retangular, onde se concentram os motivos principais, que é circundado por diversas faixas temáticas. A decoração desdobra-se, num horror ao vazio, a partir da Justiça de Salomão, esta é rodeada por motivos retirados da cultura clássica como Diana e Actéon ou o Julgamento de Páris; e por ornamentos de origem cristã, como o pelicano que alimenta os filhos – símbolo eucarístico, matriz na missionação do Oriente; ou pela popular história bíblica de Judite e Holofernes, simbolizando a virtude da coragem, tema caro ao Renascimento.

 

 

A primeira faixa dedicada ao mar é decorada por monstros marinhos, sereias aladas, peixes num mar revolto, onde pontuam caravelas, reproduzindo o imaginário português da época sobre as viagens marítimas e os perigos aterradores que as envolviam.

A faixa seguinte é dedicada aos planetas, representados através de deuses da mitologia clássica, sentados em carros tal como na mitologia hindu.  Os deuses surgem também representados com os respetivos símbolos do zodíaco, por entre elementos vegetalistas espiralados de inspiração indiana intercalados com pássaros, veados e mascarões ao gosto do renascimento europeu. Na terceira, motivos venatórios: caçadores com armas de fogo, falcões, cães e cavalos, fauna oriental e animais fantásticos como unicórnios e dragões, são elucidativos o carácter híbrido da peça, uma vez que, a caça era uma atividade popular entre as elites das sociedades ocidentais, indianas e islâmicas.

Águias bicéfalas símbolo da realeza no Ocidente, mas também com tradição na ourivesaria indiana, rematam os quatro cantos da colcha.

A associação de elementos de culturas tão díspares, revela um programa iconográfico de predileção da corte relacionado tanto com a tradição europeia como com a indiana.

 

Referências ao impacto que os bordados indianos tiveram nos portugueses, desde os inícios do contacto dos dois povos, são inúmeros, como o que relata Gaspar Correia quando afirma que Vasco da Gama, durante a sua segunda viagem à Índia, foi presenteado com um bordado de Bengala “terra onde se fazem cousas de agulha muy maravilhosas”.

A excecionalidade desta peça é também dada pelo curto período em que este tipo de colcha foi produzido, cerca de 30 anos, tendo desaparecido este fabrico miscigenado após a expulsão dos portugueses de Hughli, em 1632.

 

Proveniência

De acordo com a documentação de compra dos arquivos da Casa-Museu, a colcha pertenceu à coleção do Comandante Ernesto Vilhena, Lisboa, tendo sido adquirida em leilão da casa Antiquália Ld.ª (Praça Luis de Camões, 37-39), de Lisboa. A peça era o lote número 9, custou 400.000$00 (quatrocentos contos), no início da década de 1970, num dos leilões realizados após a morte do colecionador.

 

Aquando da compra, a colcha (FMA 1363) tinha indicação de ser uma peça arrolada como um Bem Móvel Classificado, pela Direcção-Geral do Ensino Superior e Belas Artes, com o nº 81-21. “… Esta peça não poderá ser alienada ou enviada para fora do país sem prévia autorização do Ministério da Educação Nacional, nem ser objecto de quaisquer trabalhos de conservação, reparação ou modificação sem que o Ministério da Educação Nacional o autorize”…

O Comandante Ernesto de Vilhena (1876-1967) exerceu o cargo de administrador delegado da Companhia de Diamantes de Angola, a Diamang.

Os seus herdeiros doaram grande parte da coleção de arte ao Museu Nacional de Arte Antiga, especialmente escultura. Parte da coleção foi vendida em leilões como este, tendo Medeiros e Almeida adquirido diversas peças têxteis, nomeadamente paramentos religiosos, alguns deles, como a colcha de Bengala, estavam já arrolados pelo Estado denunciando a sua importância artística.

 

Nota: A peça encontra-se em reservas

 

Casa-Museu Medeiros e Almeida

Cristina Carvalho

 

NOTA: A investigação é um trabalho permanentemente em curso. Caso tenha alguma informação ou queira colocar alguma questão a propósito deste texto, por favor contacte-nos através do correio eletrónico: info@casa-museumedeirosealmeida.pt

 

 

Bibliografia

PINTO, Maria Helena Mendes – A Arte na Rota do Oriente. XVIIª Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura, Os Descobrimentos Portugueses e a Europa do Renascimento, Jerónimos II, Lisboa,1983, cat. 100

PINTO, Maria Helena Mendes – Via Orientalis. Festival Europália 1991, cat. 108

LEITE, Maria Fernanda Passos – EXOTICA – Os Descobrimentos Portugueses e as Câmaras de Maravilhas do Renascimento. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2002, cat.73

FLORES, Jorge – Goa e o Grão-Mogol. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2004, cat.35

KARL, Barbara – O encanto da policromia. Uma colcha indo-portuguesa do início do século XVII da Fundação Medeiros e Almeida, Revista Oriente, Agosto 2003, Lisboa, Fundação Oriente (pp.57-66)

CURVELO, Alexandra – A Carreira da India.  Encomendas Namban Os Portugueses no Japão da Idade Moderna. Museu do Oriente, 2014, cat. 46.

Autor

Desconhecido

Data

Inícios do século XVII

Local, País

Bengala, Índia

Materiais

Algodão, seda selvagem (tasah)

Dimensões

Alt. 326cm x Larg. 280cm

Category
Destaque