Leque Grand Tour – Destaque em Abril 2021

PEÇA EM DESTAQUE CMMA – Abril 2021

Leque do Grand Tour

Itália / China

1795 (?)

Folha – papel / Armação – marfim

Dim: A. 30cm x L. 56,3cm

N.º de varetas: 20 + 2 guardas

Leque plissado de dupla folha de papel pintado a guache, decorado por vistas, montado em armação de marfim de 20 varetas e 2 guardas com rebite metálico e anilha de madrepérola.

 

Possui o Museu Medeiros e Almeida no seu acervo um núcleo de 210 leques europeus e orientais, abrangendo origens, épocas, materiais e tipologias diversificadas, que António Medeiros e Almeida começou a coleccionar na década de 1960.

Analisamos este mês uma dessas peças: um leque com vistas italianas em ambas as faces, que se integra nos souvenirs de viagem designados por leques do Grand Tour.

 

Grand Tour

No século XVIII o Grand Tour atinge o seu auge, viagem iniciática de jovens aristocratas britânicos, que rumavam à Europa continental, com destino a Itália, através de França para conhecerem in loco a cultura clássica, para completarem a aprendizagem, que fazia parte da sua formação. Acompanhados dos livros de Virgílio, Séneca, Ovídio….percorriam os locais mencionados, numa tentativa de experienciarem as vivências descritas. A viagem permitia também o contacto com outras gentes, línguas, arte e cultura, aspectos desejáveis na educação das elites.

É ainda no século XVI que o interesse pela cultura clássica surge, com o renascer do passado clássico tentando imitá-lo, dando destaque à arte e arquitectura, exaltando os seus edifícios ou o que deles restava, procurando reproduzi-los, na busca da perfeição e equilíbrio. Os artistas italianos tornam-se o modelo a seguir, despertando o interesse dos seus pares do norte da Europa que se deslocam a Itália para conhecerem o seu trabalho, mas também as obras do passado, desencadeando o gosto pela viagem.  Aqui, estes artistas começam a produzir trabalhos que retratam monumentos e paisagens italianas e que irão difundir-se por toda a Europa, suscitando o interesse das elites, que querem ver por si próprias os locais retratados, em particular as ruínas clássicas.

 

A ideia de que a viagem deveria fazer parte da educação surge no século XVII, com Francis Bacon que em 1615, no ensaio On Travel, defende que era necessário conhecer outras culturas, regiões, línguas, sistemas políticos, etc. em especial para os jovens que pretendiam assumir cargos de direcção política ou diplomáticos, devendo ter uma formação em literatura clássica e arte.

Se Itália era o destino para a cultura, esta só era alcançável após uma paragem em Paris, onde a educação, boas maneiras e bom gosto deveriam ser aprendidos e empregues, fazendo da capital francesa o destino social. Depois, seguiam-se os Alpes, Veneza, Florença e finalmente Roma o destino por excelência.

 

É a partir de meados do século XVIII, que o Grand Tour impulsionado por longos períodos de paz entre França e Inglaterra, sofre um grande incremento com a descoberta das cidades de Pompeia e Herculano, gerando um interesse acrescido, que coincide com um outro factor: agora, também jovens da burguesia se interessam e acedem a estas viagens, popularizando-as.

Este movimento de viajantes originou inúmeros relatos escritos sob a forma de livro, artigo de jornal, ensaio, tendo levado também ao aparecimento de guias de viagem específicos e nos quais se podiam encontrar as informações à época indispensáveis para um Grand Tour de sucesso.

Os viajantes em geral iam acompanhados de um tutor responsável pela sua aprendizagem, mas também pelo comportamento, pois era fácil e comum “desviarem-se do bom caminho”. As estadias a sul, tinham duração incerta, podendo ir de alguns meses a vários anos, o que implicava custos elevados. Assim, muitos destes jovens descobriram formas de custearem os seus gastos por exemplo, através da execução de gravuras, pinturas ou desenhos que vendiam a outros touristas menos dotados, ou tornando-se cicerones nas cidades em que viviam.

 

Todo este movimento gerou a criação de “uma indústria” de recordações que se levavam para casa e onde mais tarde, eram orgulhosamente exibidas. Alguns, poucos, conseguiam comprar antiguidades, enquanto a grande maioria se contentava com pinturas, desenhos ou gravuras. Estas estavam entre os souvenirs predilectos uma vez que, enrolados eram facilmente transportáveis, mas havia quem preferisse reproduções de peças antigas em escala reduzida, joias em micro-mosaico, leques. Frequentemente os pequenos objectos reproduziam também vistas (retiradas destes desenhos e pinturas) de todos os géneros, mas principalmente monumentos, permitindo rememorar um período tido como feliz.

 

Representação de vistas

A representação de vistas desenvolve-se no século XVI com a descoberta e importância dada às ruínas. Representações dos edifícios destruídos constituem então um importante documento visual, sendo nessa época essencialmente descritivos, de forma a dar a conhecer as civilizações antigas, a quem não tinha meios para o fazer. Inúmeros artistas norte europeus, em particular flamengos e holandeses, deslocam-se a Itália (em particular a Roma) para conhecerem o trabalho dos grandes mestres in situ. Fascinados não só pelo seu trabalho, mas também, pela novidade paisagística, não se limitam à representação descritiva dos monumentos, passando a enquadrá-los no seu ambiente, marcando desta forma a diferença entre passado e presente. Progressivamente, mostram a paisagem que rodeia o monumento, executando cada vez mais, através da perspectiva planos longínquos onde se podem cruzar terra, mar, céu, monumentos, pessoas, animais, edifícios em construção, jardins, hortas, quotidianos, numa visão realista e vivida do espaço, mas não necessariamente fiel, abrindo caminho para um novo género pictórico, que se popularizou a partir do início do século XVIII: a vista.

 

Género pictórico que se desenvolve ao longo do século XVIII, muito impulsionado. pelo Grand Tour, caracteriza-se pela representação de uma vista, vedutta ou vista topográfica: representação de um monumento, de um local particular ou até mesmo, de um panorama urbano, de forma identificável, fiel, constituindo um testemunho histórico, pressupondo conhecimento das leis da perspectiva e da quadratura, aplicadas à representação dos monumentos, mas também do enquadramento cenográfico.

É do encontro da tradição de representação realista flamenga com a perspectiva italiana que nasce a verdadeira vedutta do século XVIII, sobretudo em Roma, Nápoles e Veneza, centros imperdíveis no Grand Tour. No epicentro desta revolução na representação da paisagem, estão artistas holandeses e flamengos que se instalam em Itália em final do século XVII e de cujo contacto com os artistas locais resulta este novo género pictórico.

 

Atinge grande sucesso em particular durante a segunda metade do século, por entre os viajantes ingleses. Neste país as vistas topográficas já eram um género de pintura popular, por isso, foi natural o seu sucesso por entre a clientela inglesa em Itália que assim, muito contribuiu para o seu desenvolvimento, na expectativa de rememorar o tempo e o espaço.

Este tipo de pintura torna-se então, um dos souvenirs (juntamente com os leques) mais populares, uma vez que, ambos eram facilmente transportáveis.

 

Leque

O leque plissado de folha dupla, em papel pintado a guache, da colecção do Museu integra-se nos designados leques do Grand Tour ou souvenirs, que surgiram como consequência do desejo de levar recordações dos lugares visitados.

Representa no anverso, uma vista nocturna da baía de Nápoles durante a erupção do vulcão Vesúvio de 1794, uma das mais fortes e destruidoras do século XVIII.

 

Desde 1792 que as populações assistiam a erupções estrombolianas no vulcão. A 12 de Junho um abalo precedeu a erupção de dia 15, esta ejectou a cobertura da cratera e destruiu o cone abrindo duas fendas em posições opostas, por onde escorreu a lava. Uma dessas fendas apontava na direção da localidade de Torre del Greco, que em cerca de 6 horas foi atingida e em grande parte submergida. A lava escorreu até ao mar onde entrou cerca de 100 metros, numa frente de 3500 metros. Até 5 de Julho a actividade do Vesúvio, que perdeu 121 metros de altura, foi constante com explosões e nuvens de fumo, tendo emitido gases que mataram várias pessoas.

Curiosamente, o autor do leque retratou a erupção em dois momentos: o início e algumas horas mais tarde. Estes dois momentos foram imortalizados em imagens que fazem parte da colecção da British Library.

No primeiro guache pertença da biblioteca britânica, a lava, gases e piroclastos estão a ser projectados para o ar, sendo perceptível a luz emanada tanto do vulcão como da lua que, antes de desaparecer por trás de uma cortina de fumo, se reflecte nas águas da baía, iluminando-a.  O princípio da erupção foi legendado: Molo di Napoli con principio della terribile eruzione accaduta la sera del 15 jugº. 1794 [Molhe de Nápoles no início da terrível erupção ocorrida na noite de 15 de junho de 1794].

 

Horas depois, o cenário muda de cor, passando a ser em tons alaranjados também reflectidos nas águas, sendo já visível a lava incandescente que desce as encostas até ao mar. O segundo guache retrata a baía de Nápoles com o seu molhe e farol, junto do qual se encontram algumas pessoas que observam a erupção, enquanto outros espectadores assistem do lado oposto. A lava incandescente escorre em direcção a Torre del Greco. Na água várias embarcações também foram surpreendidas pelo “espectáculo”.  O seu autor (desconhecido), também legendou este segundo momento: Molo di Napoli, con terribile eruzione del Vesuvio mandata fuori la sera de 15 del mese di Giugno, 1794, ad ore due di notte [Molhe de Nápoles, com terrível erupção do Vesúvio, ocorrida na noite de 15 do mês de junho, 1794, às duas horas da noite].

 

O leque da colecção retrata exactamente este segundo momento, a transposição, apesar de muito fiel, omitiu alguns detalhes patentes nos guaches como por exemplo, o final da muralha onde são visíveis algumas redes de pesca, junto a populares, que no leque foram transpostos para o lado oposto, fruto da forma semicircular da sua folha. As embarcações também foram reproduzidas de forma mais livre não correspondendo exactamente às da pintura. Este fenómeno de adaptação era perfeitamente normal, dependendo do artista ou artistas e do espaço para o qual o original era adaptado.

 

Apesar de desconhecido, é possível especular sobre um possível autor / círculo para a pintura que deu origem ao leque: Camillo de Vito, pintor napolitano activo entre 1790 e 1835, que amiudadas vezes representou as erupções do Vesúvio, tendo algumas delas muitas semelhanças com este guache / leque.

 

Leques semelhantes:

I Miei Ventagli, Napoli-eruzione 1792-Faro la lanterna – https://www.imieiventagli.it/napoli-eruzione_1792-faro_la_lanterna

Smithsonian American Art Museum –  https://collections.si.edu/search/detail/edanmdm:saam_1956.6.18?q=fan&gfq=CSILP_1&fq=data_source%3A%22Smithsonian+American+Art+Museum%22&record=141&hlterm=fan&inline=true

 

A contra folha também se insere no Grand Tour, ao representar uma paisagem igualmente popular na época, ponto de referência e deslocação dos grand turistas. O cenário bucólico representa uma ilha em mares calmos cujas íngremes encostas são pontilhadas por algumas árvores e casas. No alto da vertente é visível uma excrescência rochosa em forma de arco, que permite identificar o local: trata-se do Arco Naturale em Capri. Facilmente acessível a partir de Nápoles, a ilha era também, dada a sua beleza natural, atração para inúmeros viajantes que fascinados o representaram topograficamente. Não foi possível até ao momento, identificar a fonte iconográfica ou o seu autor.

 

Arco Naturale, Capri – Thilo Hilberer

A folha é rematada com fita de papel dourado.

 

A armação em marfim esculpido e vazado, é chinesa identificando-se, entre a decoração de flores e folhas, ao centro reserva oval com paisagem incipiente, duas reservas laterais com o símbolo da longevidade – shou – e uma cercadura de grega. As guardas são esculpidas em padrão de favos, decorados com pequenas magnólias e crisântemos e uma reserva com paisagem.

Tanto a pintura como o papel de suporte deste exemplar sofreram diversas intervenções de restauro que, porém, não perturbam a sua leitura decorativa.

 

A delicadeza e qualidade inigualável da produção de objetos de marfim oriental, originou leques ou armações especificamente destinadas à exportação para a Europa, às quais eram adaptadas folhas de gosto europeu, não sendo por isso, a mistura de peças com origens diferentes invulgar.

Por outro lado, os leques podiam ser comprados em momentos ou sítios distintos e posteriormente montados, ou então reaproveitavam-se as armações de folhas (mais frágeis) que se tinham degradado, como parece ter sido o caso aqui. Por outro lado, também era comum os turistas regressarem aos seus países só com as folhas, por uma questão prática de acondicionamento e transporte, sendo então montadas numa armação nova ou numa reaproveitada.

 

Proveniência

Guardado nos arquivos do Museu, um recorte do “Diário de Notícias” de 16 de novembro de 1967, dá notícia que este exemplar integrava uma coleção de leques: “A maior do País e no valor de Centos de Contos”, pertencente, por sua vez a um vasto espólio de obras de arte propriedade de Esmeralda Alves, de acordo com a referida notícia: “cantora, harpista e pianista da Orquestra Ligeira”, herdeira de considerável património artístico por parte de um parente: “o conselheiro de el-rei Valadas Mascarenhas ou de seu pai, o restaurador de arte Raul Alves”.

 

A coleção foi a leilão na Soares & Mendonça, Limitada (Rua Luz Soriano, 53, 1º), em Lisboa, em 18 de novembro de 1967, tendo o lote de 142 leques, sido adquirido na totalidade por António Medeiros e Almeida.

Entre março e junho de 1999, o leque integrou a exposição temporária: “Da Folha de Palmeira à Peça de Museu O Leque Chinês”, realizada no Palácio Nacional de Queluz.

 

 

 

Nota – Para informação genérica sobre leques, pf. consulte o texto da peça do mês de abril 2019 em: https://www.casa-museumedeirosealmeida.pt/pecas/leque-o-rapto-das-sabinas-destaque-em-abril-2019/

 

NOTA: A investigação é um trabalho permanentemente em curso. Caso tenha alguma informação ou queira colocar alguma questão a propósito deste texto, por favor contacte-nos através do correio eletrónico: info@casa-museumedeirosealmeida.pt

 

 

Cristina Carvalho

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

 

Bibliografia

Baratta, Mario –  Il Vesuvio e le sue eruzioni. Società Editrice Dante Alighieri, Roma, 1897

Briganti, Giuliano – Gaspar Van Wittel e l’origine della veduta settecentesca. Bozzi, Roma,1966

Burk, Kathleen – The Grand Tour of Europe. Gresham College, Londres, 2005

https://www.gresham.ac.uk/lectures-and-events/the-grand-tour-of-europe

Émilie Beck-Saiello, « La vue topographique en France au XVIIIe siècle : éclat et mésestime d’un genre »,

Itinéraires [En ligne], 2015-2 | 2016, mis en ligne le 15 février 2016, consultado em 10 Março 2021. URL :

http://journals.openedition.org/itineraires/2819 ; DOI : 10.4000/itineraires.2819

Ce document a été généré automatiquement le 20 avril 2019

https://www.gettyimages.ie/detail/news-photo/arco-naturale-near-the-matermania-cave-island-of-capri-news-photo/900886376?adppopup=true

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Autor

Desconhecido

Data

C. 1795 (?)

Local, País

Itália / China

Materiais

Folha – papel / armação – marfim

Category
Destaque