Placa-Livro nefrite – Destaque Setembro 2021

DESTAQUE SETEMBRO 2021

 

Placa – Capa de Livro

Cidade Proibida, Pequim (China), dinastia Qing,

Período Qianlong, depois 1789

Nefrite, ouro

C.14,9 x L.8,7 x P.5

 

A coleção de objetos em pedras duras do Museu possui alguns objetos em nefrite muito interessantes, entre estes encontra-se uma placa com inscrições em chinês em ambas as faces, que foi recentemente estudada revelando uma peça que data de finais do século XVIII, de produção imperial.

 

Placa oblonga de nefrite verde translúcido, com decoração incisa preenchida a ouro, ostentando no anverso cartela central onde se inscrevem nove carateres e no reverso texto composto por cinquenta carateres caligrafados em escrita kaishu (estilo de escrita regular).

 

Seguindo uma tradição chinesa, o imperador Qianlong (1736-1795), grande promotor da arte do jade, tinha o hábito de compor poemas que mandava inscrever em jade (placas, livros ou biombos de mesa), sendo ainda conhecidos livros com textos religiosos, comemorativos, anúncios de promoções ou destinados a ofertas diplomáticas.

A placa tem que ser entendida enquanto pertencente a um todo, agora descontextualizado, trata-se da capa de um dos celebrados livros em jade do imperador Qianlong, ao qual faltam as restantes páginas (de número desconhecido). Não se conhece a localização dos restantes “fólios” do livro, que terá sido separado no âmbito do mercado de antiguidades ocidental em que a falta de conhecimento, levou ao desmembramento e resultante descontextualização de muitas obras de arte orientais.

 

O título, inscrito na cartela central da face “capa”, revela o conteúdo da obra: “Relato feito pelo imperador dos acontecimentos em Annan desde o seu início até ao seu fim” (Yu zhi zhu Annam shimo shi). Nesta frase toma protagonismo o radical Yu, que atesta o texto ser de autoria do próprio imperador.

Trata-se da descrição da batalha de Ngoc Hoi-Dong Da, ocorrida no Vietname, nos anos de 1788-1789 entre o exército chinês e as forças locais. Esta ocasião é considerada a maior vitória da história militar do Vietname, porém, apesar da derrota, Qianlong celebra o facto de ter garantido o estabelecimento de uma relação tributária com a nova dinastia no poder.

 

No reverso, num raro introito, e antes da descrição propriamente dita que fica por conhecer, o imperador demonstra a sua erudição revelando como se inspirou para a redação do texto. Na Primavera, estando no seu estúdio, o imperador reviu um “Sutra do Coração” (texto budista representativo dos ensinamentos básicos contidos nos mais longos e complexos Sutras da Perfeição e da Sabedoria), caligrafado pelo seu avô o imperador Kangxi e copiou um édito imperial intitulado: “Prevenindo a Cobiça” (Livro XVI, Capítulo VII), transcrito dos Analectos de Confúcio (551-479 a.C.) – Quando estava num estúdio na Primavera, respeitosamente revendo a peça caligráfica do Sutra do Coração pelo imperador Kangxi com colofões de Chang Chao (a) e outros, e copiando o seu édito imperial “Prevenindo a Cobiça” (b) acordei com a noção da minha posição. Relembrando os completos acontecimentos de Annam, escrevi o registo para dizer…”. (tradução livre do inglês). Nas notas a) e b) explica-se quem é Chang Chao e transcreve-se o texto do Sutra do Coração.

 

 

Este processo de inspiração, com recurso a obras do seu avô que o imperador tanto venerava, é demonstrativo da erudição de Qianlong que era dotado nas artes da escrita e da caligrafia.

Aquando da compra em Inglaterra foi fornecido um documento com a tradução das inscrições que, não obstante, necessitaram de doutas explicações por parte do Professor Doutor Rui Magone, para total compreensão do seu significado.

 

 

Transpondo a excelência do material, o precioso jade, o objeto tornado livro, alia à dimensão estética, formal e funcional ainda uma carga simbólica auspiciosa, que o associa diretamente ao entorno imperial. Este cariz é transmitido pela decoração da peça que ostenta dois dragões de cinco garras – símbolo do imperador -, representados entre as caraterísticas nuvens em forma de cabeças de ruyi (cetro imperial), a evoluir sobre uma montanha escarpada que se ergue do oceano – morada lendária dos deuses – envolta em ondas e salpicos, num epítome da sofisticação caraterística dos jades da corte do imperador Qianlong.

 

Proveniência:

A placa foi exposta na “Antique Dealer’s Fair”, feira de antiguidades que ocorria em Grosvenor House em Londres, onde foi adquirida, por Peter Sparks, do antiquário especialista em arte chinesa, John Sparks Ltd., em junho de 1948, por 15£.

 

Nota: O Museu agradece a colaboração do Doutor Rui Magone, Professor na Universidade Freie de Berlim.

 

Maria Mayer

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

NOTA: A investigação é um trabalho permanentemente em curso. Caso tenha alguma informação ou queira colocar alguma questão a propósito deste texto, por favor contacte-nos através do correio eletrónico: info@casa-museumedeirosealmeida.pt

 

 

Bibliografia:

Eberhard, Wolfram. 2006. A Dictionary of Chinese Symbols Hidden Symbols in Chinese Life and Thought. London and New York: Routledge Taylor & Francis Group.

GRAY Basil. (1973-1974/1974-1975). Chinese Jades through the ages. Transactions of the Oriental Ceramic Society.

Lion-Goldschmidt, Daisy; Moreau-Gobard, Jean Claude. 1960. Arts de la Chine : bronze, jade, sculpture, céramique, Vol. I, 2ème ed., Fribourg : Office du livre.

Nott, Stanley Charles. 1962. Chinese jade throughout the ages: a review of its characteristics, decoration, folklore, and symbolism, 2nd ed, Rutland: Charles E. Tuttle.

Rienaecker, Victor. (January/February 1947). Chinese Jade Carving – Part I-Part II. Apollo Magazine of the Arts for Connoisseurs and Collectors.

Watson, William. 1963. Chinese Jade Books in the Chester Beatty Library. Dublin: Hodges Figgis & Company Limited.

Wilson, Ming. 2004. Chinese Jades. London: V&A Publications.

Autor

Imperador Qianlong (1736-1795)

Data

Após 1789

Local, País

Pequim, China

Materiais

Nefrite, ouro

Dimensões

Comp.14,9 x Larg.8,7 x Prof.5

Category
Destaque