Retrete de Viagem – Destaque Março 2020

Retrete de viagem – Destaque Março 2020

Inglaterra, séc. XIX

Faiança, madeira, folha pintada e osso

Alt. 46cm / Larg.(com asas) 54cm / Diâm. 33cm

 

 

Retrete de viagem composta por caixa cilíndrica com tampa que guarda no interior um bacio cerâmico. A caixa, em folha pintada, tem duas pegas laterais em forma de S e uma tampa de encaixe com pega de madeira torneada com botão de osso ao centro. No interior, um anel de madeira serve de assento dando lugar a um bacio cónico, em faiança, com decoração a azul e branco de casario e arvoredos num padrão que se repete cinco vezes circundando uma pequena tampa existente no fundo, ao centro. Um sistema de peso e dobradiça permite a descarga do bacio por meio da abertura desta tampa na base fazendo com que os dejetos caiam para a parte inferior da caixa de folha.

 

Latrinas, bacios e retretes

O mais antigo sistema sanitário de que existe vestígio data de c.2500 a.C. em Mohenjo-Daro (província de Sinde, atual Paquistão), um dos primeiros grandes povoados urbanos do mundo. Consistia numa complexa rede de esgotos que levava os resíduos de cada casa para um esgoto principal. Existem também evidências de retretes no Egito faraónico, na forma de assentos que estavam situados por cima de um cubo com areia, nos modelos mais simples, ou de uma conduta com água nos mais sofisticados. Já na Europa, no assentamento neolítico de Skara Brae (nas ilhas Órcades, Escócia), algumas casas tinham cubículos ligados a um esgoto exterior que provavelmente seriam o equivalente às atuais casas-de-banho. Na Antiga Roma, onde a satisfação das necessidades fisiológicas não era um assunto privado, existiam casas de banho públicas nas quais se podia conviver e que eram periodicamente despejadas por meio de água corrente.

A Idade Média foi, em contraposição, um período escuro no que respeita a hábitos higiénicos, sendo que durante séculos o mais comum era o uso de latrinas muito rudimentares no exterior das casas ou de bacios metálicos e cerâmicos que eram posteriormente despejados em fossas ou diretamente pelas janelas das casas. Só os castelos, as casas senhoriais e alguns mosteiros tinham instalações sanitárias próprias, chamadas garderobes ou privadas, que consistiam em cubículos que sobressaíam das paredes das edificações e nos quais existia um banco de madeira ou pedra com um buraco que dava diretamente para um fosso exterior.

 

Com o passar do tempo vulgariza-se entre as classes mais elevadas o uso de retretes que consistiam numa caixa ou cadeira mais ou menos decorada que continha um bacio de porcelana ou metal escondido por uma tampa. O seguinte passo seria dado pelo poeta inglês Sir John Harrington (1560-16129) que terá desenvolvido o precursor da sanita moderna, um engenho que contava com uma válvula que permitia sair a água de um tanque de armazenamento e um sistema de lavagem para esvaziar o bacio. Segundo consta, Harrington terá instalado um exemplar deste inovador sistema – a que chamou Ajax – na sua casa e outro para uso da rainha Isabel I. Porém, esta criação não seria retomada até 1775, momento no qual o escocês Alexander Cummings (1733-1814) patenteou o sistema water closet – o famoso WC -, que vem melhorar o sistema de descarga e incluir um sifão em S que continua a existir na grande maioria das atuais sanitas. Será só no século XIX que finalmente se populariza o uso de retretes com descarga de água nas casas; isto será devido em parte a nomes como Thomas Crapper, que juntou a criação de Cummings com a moderna tecnologia de fabricação, e em parte motivado pela preocupação pela higiene pública que a migração massificada do campo para as cidades e a sobrelotação de alguns centros urbanos tinha despoletado, resultando na construção de redes subterrâneas de esgotos como forma de evitar a acumulação de dejetos nas ruas.

 

A retrete de viagem da Casa-Museu

Esta retrete, da qual não se conhece a proveniência, encaixa na tipologia das retretes de viagem usados na Inglaterra vitoriana e conhecidos como Thunderbox (caixa dos trovões).

À época – e ainda em tempos anteriores – existiam em algumas carruagens retretes similares a esta que se encaixavam num buraco com tampa por baixo dos assentos e eram escondidos por almofadas; porém, dada a pega protuberante deste exemplar e o aro do assento aqui presentes não parece que esta retrete fosse utilizada desta forma. Também existiam peças similares – com bacia cerâmica, sistema inferior de descarga e caixa cilíndrica em folha – que eram inseridos em caixas de madeira com tampa, sendo que as mais modernas podiam contar com um depósito de água e um cano que despejava a água dentro do bacio para limpeza, os chamados water closets (https://www.bonhams.com/auctions/19852/lot/568/); o exemplar da Casa-Museu, embora muito similar a alguns destes modelos, não têm o buraco na cerâmica para permitir a entrada da água, pelo que também não pertenceria a esta tipologia, sendo que o mais provável é que se trate de uma peça autónoma.

 

 

A pobreza do material que configura esta retrete – faiança numa época em que as classes mais abastadas teriam preferência pela porcelana e pela caixa em folha -, assim como a sua decoração seriada, leva-nos a pensar que este bacio não seria destinado à nobreza. Poderá tratar-se de um exemplar de campanha para uso militar; neste caso terá pertencido a um oficial, já que seriam os únicos que se poderiam permitir este tipo de peças, na altura todavia consideradas objetos de luxo.

Em relação à ornamentação da bacia, encontramos modelos muito similares assinados pela casa R. Wiss (38 Charing Cross, London), onde o mesmo padrão de casarios e árvores a azul sobre fundo branco se repetem (https://www.yesteryearessentials.com/products/antique-19th-c-british-victorian-water-closet-toilet?variant=21544101052501).

 

 

 

Proveniência

Não existe nos arquivos da Fundação Medeiros e Almeida qualquer documento relativo à aquisição desta retrete por parte de António Medeiros e Almeida, desconhecendo-se assim não só a proveniência ou o historial da mesma, como também a data de incorporação desta peça na coleção.

 

 

Samantha Coleman Aller

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

NOTA: A investigação é um trabalho permanentemente em curso. Caso tenha alguma informação ou queira colocar alguma questão a propósito deste texto, por favor contacte-nos através do correio eletrónico: info@casa-museumedeirosealmeida.pt

 

 

Bibliografia / Webgrafia

Goddard, J., A Brief History of The Flush Toilet in: The British Association of Urological Surgeon Virtual Museum https://www.baus.org.uk/museum/164/a_brief_history_of_the_flush_toilet

Grigg, T., Health & Hygiene in Nineteenth Century England in: Museums Victoria Collections, 2008 https://collections.museumvictoria.com.au/articles/1615

Schladweiler, J.,Toilets, earth closets and house plumbing in: The History of Sanitary Sewers http://www.sewerhistory.org/sewerarticles/toilets-earth-closets-and-house-plumbing/

Schladweiler, J., Public baths and latrines in: The History of Sanitary Sewers http://www.sewerhistory.org/sewerarticles/public-baths-and-latrines/

Smith, M., A brief History of Toilets, 2010 https://hubpages.com/education/A-Brief-History-of-Toilets

Slab International Museum of Toilets https://www.sulabhtoiletmuseum.org

Museum of Historical Chamber pots and Toilets https://museumnocniku.cz

Autor

Desconhecido

Ano

Séc. XIX

País

Inglaterra

Materiais

Faiança, madeira, folha pintada e osso

Dimensões

Alt. 46cm. / Larg.(com asas) 54cm. / Ø 33

Category
Destaque