Terrina e travessa “Javali” – Destaque em Junho 2021

PEÇA EM DESTAQUE CMMA – Junho 2021

 

Terrina e travessa “Javali”

Fornos de Jingdezhen, Província de Jiangxi, China

Dinastia Qing, reinado Qianlong, c.1760-1770

Porcelana (porcelana da China de exportação)

A.27cm x L.38cm / L.43,5cm X P. 49,5cm

 

Este curioso conjunto em porcelana da China de exportação da chamada “família rosa”, formado por terrina em forma de cabeça de javali e travessa com a mesma decoração, faz parte da extensa coleção de cerâmica chinesa do acervo do Museu, que inclui terracotas funerárias da dinastia Han (206 a.C. – 220), exemplares dos primeiros vidrados da dinastia Tang (618-907), um importante núcleo das “primeiras encomendas” – primeiras peças de porcelana encomendadas aos chineses após a chegada dos portugueses em 1513 -, e porcelanas para o mercado interno e externo das dinastias Ming e Qing, numa ampla perspetiva  da produção cerâmica da China Imperial.

 

Porcelana China de Exportação

A produção de porcelana na China especificamente para exportação começou na dinastia Han (206 a.C. – 220) direcionando-se ao longo dos tempos para diferentes mercados, dos mais próximos (sudeste asiático, oriente próximo) aos mais longínquos, dando lugar a peças também muito diferentes, tanto na forma como na decoração, de acordo com o uso e os gostos do local a que se destinavam.

Apesar de toda a porcelana feita especificamente para o mercado exterior ser porcelana de exportação, este termo é mais habitualmente usado para se referir à porcelana destinada à Europa e, mais tarde, à América do Norte.

Embora os europeus já tivessem contacto com a porcelana da China, nomeadamente através da Rota da Seda, foi a partir de 1498, com a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama, que se estabeleceu um comércio regular, primeiro através da Carreira da Índia portuguesa e posteriormente com o comércio estabelecido com o Oriente por outros países europeus, particularmente Holandeses, Ingleses e Franceses. As organizações que exploraram estas rotas comerciais com a Ásia Oriental são tradicionalmente conhecidas como Companhias das Índias sendo muitas vezes, de forma generalista e inadequada, a porcelana de exportação denominada “porcelana Companhia das Índias”. Como sempre, os chineses adaptaram a sua produção ao gosto deste novo e florescente mercado, produzindo formas inspiradas na faiança, ourivesaria e outros modelos europeus em madeira ou metal, e decorações também adaptadas ao gosto e às necessidades da nova clientela, baseada na cópia de gravuras de temática tipicamente europeia – iconografia cristã, mitologia greco-romana, cenas do quotidiano – bem como heráldica incluindo brasões, divisas e legendas.

 

Formas animais à mesa

As terrinas em porcelana da China em forma de animal derivam das faianças europeias que, por sua vez, remetem para a tradição medieval de adornar as mesas cerimoniais com os restos mortais dos animais caçados durante a época da caça e servir a carne dentro das cabeças. Em Inglaterra, por exemplo, era um hábito de Natal apresentar à mesa uma cabeça de javali que era servida numa travessa de prata ou ouro enquanto se cantava uma música natalícia (“Boar’s Head Carol”). Outra origem possível para este tipo de peças pode ser as figuras de cera ou açúcar que decoravam as mesas renascentistas, ou ainda, as empadas servidas à mesa na forma do animal que continham – nomeadamente aves e peixes – e que posteriormente deram lugar a excêntricas terrinas em prata.

A partir de meados do século XVII surgem as terrinas em faiança europeia modeladas e esmaltadas naturalisticamente, algumas inclusive em tamanho natural, bem como em forma de vegetais e frutas.

As primeiras são provavelmente as produzidas na Alsácia, em Estrasburgo, entre 1748 e 1754, pela mão de Paul Hannong (ativo c.1732-c.1760), a que logo se seguiram as manufaturas de Höchst e Meissen na Alemanha, Chelsea, Longton Hall Bow ou Worcester em Inglaterra e, em Portugal, a Real Fábrica de Louça (ao Rato). Este tipo de peças criava uma colorida e atrativa cenografia; as formas representadas nem sempre correspondiam ao conteúdo, o que juntava a surpresa gustativa ao deleite visual, numa celebração dos sentidos muito ao gosto do Rococó.

As grandes terrinas em forma de coelho ou cabeça de javali serviam como vistosos centros de mesa e eram acompanhados por serviços de jantar completos cujas peças seguiam o mesmo tipo de decoração e que eram especialmente usadas em determinadas ocasiões, como os banquetes que marcavam o início e o fim da temporada de caça. Estas sim, eram usadas para servir a carne que representavam, normalmente em forma de guisados. As cabeças de javali ou de boi eram especialmente chamativas já que as narinas funcionavam como chaminés por onde saía o vapor dos cozinhados, criando a ilusão de que o animal estava ainda vivo e respirando, aumentando a teatralidade do momento.

 

Alguns exemplos de terrinas em forma de animais produzidos na Europa:

 

Na segunda metade do século, este tipo de peças era também produzido na China para ser exportado para a Europa. Embora espetaculares, as peças chinesas nunca procuraram o realismo das peças ocidentais. Produzidas entre 1760 e 1780, encontramos terrinas em forma de todo o tipo de animais (gansos, galos, codornizes, patos, peixes, tartarugas, caranguejos, cabeças de javali, cabeças de búfalo, cabeças de veados); em forma de frutas (pêssegos, melões, romãs) e vegetais (couves de vários tipos, alcachofras, abóboras).

É curioso que, embora na Europa as primeiras terrinas em forma de peixe reproduzissem solhas (https://www.christies.com/en/lot/lot-6134645), a maioria das terrinas chinesas, embora seguissem modelos europeus, eram em formato de carpa (http://explore-art.pem.org/object/asian-export-art/AE86557_2AB/detail). Este peixe, que não era comum na Europa, é tradicionalmente um animal auspicioso com rica simbologia associada, o que não era, porém, inteligível para o cliente europeu a quem se destinava.

Algumas destas terrinas apresentavam brasões e formavam parte de grandes serviços. De facto, estas terrinas zoomórficas alcançaram tal popularidade que em 1763 a Companhia Holandesa das Índias Orientais (V.O.C.), de acordo com a documentação, fez uma encomenda de 25 terrinas em forma de cabeça de javali e 25 em forma de ganso.

As terrinas eram frequentemente acompanhadas de travessas, chamadas présentoirs pois não eram destinadas a servir à mesa, mas sim para expor a terrina. Nestas travessas a decoração está relacionada com a forma da respetiva terrina que continha essas iguarias, muitas vezes com a imagem do próprio animal representado no fundo, como é o caso da terrina e travessa em estudo.

 

Alguns exemplos de terrinas zoomórficas produzidas na China:

 

A terrina e travessa da Coleção Medeiros e Almeida

Esta terrina e travessa pertencentes à coleção Medeiros e Almeida, executadas em porcelana branca com esmaltes fortes e opacos da “família rosa” sobre o vidrado, fazem parte do conjunto de porcelanas da China de exportação baseadas em modelos de faianças zoomórficas produzidas em diversas fábricas europeias.

A terrina, em forma de cabeça de javali, é constituída por corpo com tampa de encaixar, com corte ao nível da boca do animal. O corpo compreende a parte inferior da cabeça: a queixada inferior com os dentes em branco e os caninos – presas – em vermelho ferro e decorados com arabescos a ouro; a língua saliente em cor beringela; as orelhas com o pavilhão auricular sulcado por marcadas veias e o pescoço ornado com formas irregulares em relevo a vermelho ferro com motivos vegetalistas a ouro e outras – delimitadas a ouro – a roxo, azul e dois tipos de verde. A parte inferior é delimitada por cercadura de pontas de lança a ouro delineadas a vermelho ferro sobre fundo branco.

 

A tampa é constituída pelo focinho do javali – maxilar superior com dentes a branco e zona do nariz a rosa -, os olhos, representados de forma naturalista e a testa, com rara reserva de fundo branco, apresenta uma cena galante, um elegante casal de ocidentais vestidos à francesa.

A tampa foi restaurada pela Oficina da Porcelana em início de 2020 para participar (com outras seis peças da coleção Medeiros e Almeida) na exposição temporária “The Porcelain Room.  Chinese export porcelain”, comissariada por Jorge Welsh e Luísa Vinhais, e que teve lugar na Fondazione Prada, em Milão. A tampa tinha antigos restauros e, nesta nova intervenção foram retiradas as colas e massas antigas e disfarçadas as juntas de modo a melhorar a leitura e coesão da peça e beneficiar a estética da mesma.

A travessa, de formato oval, apresenta aba recortada formada por quatro lóbulos em forma de chavetas separados por secções lisas sendo decorada por uma grinalda contínua de flores e folhas a ouro. Ao centro, emoldurada por duplo filete oval com pérolas a dourado e vermelho fogo, repete-se a cena galante que aparece na reserva da terrina e uma cabeça de javali representada vista de cima.

Podemos encontrar o mesmo casal que aparece a decorar a reserva da terrina e o fundo da travessa noutras peças de porcelana da China da época, nomeadamente travessas e pratos, do que se depreende que existiam serviços de mesa com esta decoração e que a fonte era provavelmente uma gravura – não identificada – das múltiplas gravuras europeias de cenas galantes que à época circulavam na China.

Existe pelo menos uma terrina em forma de cabeça de búfalo de água que apresenta também uma reserva na testa com a mesma decoração. As cabeças de búfalo são um tipo particular dentro deste grupo de terrinas zoomórficas já que este animal (segundo animal do zodíaco chinês) não era representado na cerâmica europeia, pelo que é um curioso exemplo de transferência de modelos europeus para um material e linguagem chinesa mas com um toque que procurava acentuar o exotismo da peça mediante o uso de um animal asiático [ver, por exemplo, o catálogo do Leilão de Antiguidades, Arte Moderna e Contemporânea – leilão 341 de abril de 2016 – do Palácio do Correio Velho, onde aparecem dois pratos e uma travessa com a mesma cena galante mas distinta decoração da aba, e a imagem da terrina em forma de búfalo patente no livro “Porcelaine de la Compagnie des Indes”, de Beurdeley, na altura pertencente à coleção Espírito Santo:  https://issuu.com/palaciodocorreiovelho/docs/l341_catalogo_pcv/36].

Não podemos ter a certeza que estas duas peças da coleção sejam um conjunto ou tenham pertencido ao mesmo serviço de mesa, de facto existem algumas divergências como a diferente decoração da cercadura da aba da terrina e do friso da base da terrina, que deveriam ser iguais num conjunto coevo. Contudo, ter uma travessa que possa formar um par relativamente consistente com a terrina (partilhando uma mesma temática e com uma decoração muitíssimo próxima) não é de tudo depreciável, já que a maioria das terrinas foram ao longo dos tempos separadas das suas travessas.

 

Proveniência

Este conjunto de terrina e travessa foi adquirido a 3 de julho de 1973 pelo antiquário Henrique Soares, de Lisboa (muito provavelmente já para António Medeiros e Almeida), em leilão da Sotheby’s em Londres.

No inventário da coleção figuram como possíveis proveniências anteriores a coleção da Condessa de Farrobo e a coleção Rothschild de Londres, mas, até à data, não se encontrou documentação que comprove esta procedência.

 

NOTA: A investigação é um trabalho permanentemente em curso. Caso tenha alguma informação ou queira colocar alguma questão a propósito deste texto, por favor contacte-nos através do correio eletrónico: info@casa-museumedeirosealmeida.pt

 

Samantha Coleman-Aller

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Bibliografia

BEURDELEY, M., Porcelaine de la Compagnie des Indes Fribourg: Office du Livre, 1962

BEURDELEY, M. e REINDRE, G., La porcelaine des Qing : Famille vert et Famille Rose. 1644-1912. Fribourg : Office du Livre, 1986

HERVOUET, F. e HERVOUET, N., La porcelaine des compagnies des Indes à décor occidental. Flammarion, 1986

LE CORBEILLER, C., China Trade Porcelain : Patterns of Exchange, Nova Iorque : The Metropolitan Museum of Art, 1974

SARGENT, W., On a Plate in Bonhams Magazine, Issue 52, Autumn 2017, p.27

VINHAIS, L. e WELSH, J., Chinese Export Porcelain in The Porcelain Room – Exhibition Guide. Milano: Fondazione Prada, 2020

VV.AA., Do Tejo aos Mares da China – uma epopeia portuguesa, Catálogo Paris: Ed. de La Réunion des Musées Nationaux, 1992

WELSH, J. (ed.), Out of the Ordinary. Living with Chinese Export porcelain. London: Jorge Welsh Books, 2014

Catálogo do leilão da Sotheby & Co de 3 de julho de 1973: Fine Chinese Export Porcelain Works of Art and Jade and Hardstone Carvings

Autor

Atb. John Gregory Crace (1809-1889)

Data

c.1863

Local, País

Inglaterra

Materiais

Mogno, nogueira, ébano, pau-cetim, latão, couro

Dimensões

Comp. 256cm x Prof.147cm x Alt.78,5cm

Category
Destaque